Onde está a escassez de mão-de-obra? O desmascaramento de um mito popular

A escassez de mão-de-obra se aproxima.

Essa é uma previsão feita freqüentemente por institutos de pesquisa, firmas de consultoria e executivos da área de recursos humanos empresariais que gastam muito tempo e energia se preocupando com a solução que as empresas e a economia americana darão para a carência de funcionários nos próximos anos. O problema, entretanto, é que esse lugar-comum, com inúmeras implicações para os setores público e privado, é falso.

 

Essa é a conclusão a que chegou um estudo de Peter Cappelli, professor de administração e diretor do Centro de Recursos Humanos da Wharton. O estudo, intitulado “Will There Really Be a Labor Shortage” (“Será que realmente haverá escassez de mão-de-obra?”) e publicado na edição de agosto da Organizational Dynamics, observa que os empregadores poderão enfrentar difíceis desafios no recrutamento e contratação de pessoas no futuro. Mas esses desafios serão causados por mudanças fundamentais na natureza da relação empregador-empregado que contribuem para a dificuldade de manter os funcionários e não por uma diminuição no número de funcionários causada por mudanças demográficas. Cappelli sugere que os empregadores trabalhem para melhorar suas deficiências de recursos humanos, em vez de se preocuparem com uma escassez inexistente de funcionários.

 

Em uma entrevista, Cappelli afirmou que a idéia para esse trabalho surgiu do que considerou a necessidade de pôr um ponto final em um pressuposto que havia ganho tanta importância a ponto de nem mesmo ser questionado.

 

“Quando esse alvoroço sobre uma futura escassez de mão-de-obra começou há alguns anos, foi automaticamente considerado como componente de qualquer discussão de tópicos relacionados a recursos humanos”, disse. “Era comum eu ir a um workshop em uma empresa e o [palestrante] começar uma apresentação de slides com uma frase sobre a escassez de mão-de-obra que se aproximava. É uma idéia que agora faz parte do inconsciente das empresas. É como um boato que ouvimos na Internet: as pessoas ouvem tanto que acabam acreditando.”

 

Um grão de verdade

Assim como muitas crenças falsas, a previsão de uma escassez de mão-de-obra generalizada – a incapacidade de encontrar pessoas para preencher os postos de serviço pagando-se o salário corrente no mercado – tem um fundo de verdade. As pessoas que argumentam que as empresas americanas enfrentarão escassez de mão-de-obra põem a culpa disso em uma mudança demográfica bastante real – o tamanho reduzido da geração chamada de baby bust, o grupo de pessoas que se seguiu à geração do baby boom no mercado de trabalho. O número de pessoas no grupo do baby bust, que este ano têm entre 23 e 37 anos, é cerca de 16% menor que a numerosa geração do baby boom, cujos membros nasceram entre 1946 e 1962.

 

O estudo de Cappelli explica detalhadamente por que é errôneo partir do princípio de que o fato de o grupo do baby bust ser menor somado ao envelhecimento da geração do baby boom – que logo começará a se aposentar – levará à escassez de mão-de-obra. Para começar, o fato de o grupo do baby bust no geral ser menor do que o do baby boom não significa que todos os subgrupos dentro do primeiro grupo tenham que ser 16% menores. As faculdades, por exemplo, não realizaram cortes no tamanho de suas classes de graduação quando a geração do baby bust passou por elas. Na verdade, aumentou o número geral de graduandos na faculdade desde que a geração do baby bust terminou o ensino médio, pois mais alunos que talvez não tivessem ido para a faculdade estão sendo assimilados por um sistema de educação mais abrangente. E são os recém-formados os mais requisitados pelos empregadores.

 

Com relação ao medo de que a aposentadoria da geração do baby boom contribua para a escassez de mão-de-obra, Cappelli afirma que essa previsão se baseia na expectativa não realista de que os integrantes dessa geração se aposentarão aos 65 anos. Diferentemente dos seus pais e avós, muitos deles continuarão a trabalhar depois dos 65 anos, embora talvez mudem de ramo de atividade.

 

Além disso, de acordo com o estudo, não só a população geral continuará a crescer, mas também a força de trabalho. O Instituto de Estatísticas do Trabalho (Bureau of Labor Statistics) estima que a força de trabalho aumentará de 153 milhões em 2000 para 159 milhões em 2010. A afirmação de que a força de trabalho será menor nos próximos anos é, segundo Cappelli, simplesmente errada. Além disso, o grupo do baby bust será seguido por uma geração ainda mais numerosa, cujos membros estão hoje na adolescência ou por volta dos 20 anos.

 

Muito embora a força de trabalho vá aumentar, alguns que acreditam na hipótese da escassez de mão-de-obra levantam algumas vezes uma questão diferente na tentativa de sustentar o seu ponto de vista. Argumentam que o fato de o grupo do baby bust ser menor, em si e para si, tem implicações para os empregadores porque o padrão da distribuição demográfica geral nos Estados Unidos será espelhado nas empresas destes mesmos empregadores.

 

Esta afirmação, no entanto, também não tem razão de ser, segundo Cappelli. Uma razão é que o perfil demográfico dos Estados Unidos como um todo não se reflete em cada empresa individualmente. Algumas empresas, como as metalúrgicas, contam com uma força de trabalho mais velha, ao passo que outras empresas, como as fabricantes de software, têm funcionários muito mais jovens. “As diferenças são responsáveis pelos padrões de crescimento das empresas”, de acordo com o estudo. “A maioria das empresas contrata um número desproporcional de funcionários quando seu negócio [está] em franca ascensão, e por isso seus funcionários tendem a ser basicamente da mesma idade.”

 

Uma segunda razão pela qual o padrão demográfico nacional tem pouca influência sobre os empregadores individualmente é o fato de poucas empresas precisarem contratar pessoas de uma determinada faixa etária em particular, principalmente se houver outros funcionários disponíveis. Já se foi o tempo em que as empresas contratavam recém-formados em massa para trabalhar como estagiários e então os promoviam em um plano de carreira. Atualmente, é comum a contratação de funcionários experientes de qualquer idade de fora da empresa.

 

Argumentos mais sofisticados

Há outros argumentos mais sofisticados apresentados pelos defensores do ponto de vista de que haverá escassez de mão-de-obra. Mas mesmo estes argumentos não são convincentes, afirma Cappelli.

 

Por exemplo, afirma-se muitas vezes que a taxa de crescimento da economia como um todo está de certa forma ligada à taxa de crescimento da força de trabalho – ou seja, crescimento mais lento da força de trabalho significa crescimento econômico mais lento. Mas Cappelli ressalta o fato de que a economia americana sempre cresceu mais rapidamente que sua força de trabalho – aliás, esse é o único meio pelo qual o padrão de vida pôde subir nos Estados Unidos.

 

O fato de a economia crescer mais rápido que a força de trabalho se deve ao crescimento da produtividade, fator chave na prosperidade americana que os defensores da hipótese de escassez de mão-de-obra parecem não levar em consideração. Quando a produtividade do funcionário aumenta, a economia como um todo cresce mais com o mesmo número de funcionários. A economia americana hoje é oito vezes maior do que era ao final da Segunda Guerra Mundial, mas a força de trabalho atualmente é duas vezes maior. Visto de um outro ângulo, os funcionários são cerca de quatro vezes mais produtivos hoje do que eram no final dos anos 40. Se não tivesse havido melhoria na produtividade, seria preciso quatro vezes mais funcionários do que há hoje para sustentar o nível atual do produto interno bruto.

 

Numa tentativa de defender a hipótese de escassez de mão-de-obra, os observadores às vezes apresentam um outro argumento. Afirmam que a taxa de crescimento da economia depende do aumento do número de funcionários: a produção por funcionário multiplicada pelo número de funcionários é igual à produção econômica total. Portanto, argumenta-se, se a taxa de crescimento da força de trabalho está diminuindo, a taxa de crescimento econômico também deverá cair. Essa linha de pensamento não se encaixa no modelo, porque, de acordo com Cappelli, confunde o número de empregos na economia com o número de pessoas na força de trabalho. A força de trabalho inclui tanto os empregados quanto os desempregados. A menos que a economia funcione a pleno emprego, e isso quase nunca ocorre, o suprimento de mão-de-obra excede o número de empregos. Além disso, a mão-de-obra excedente, medida pela taxa de desemprego, freqüentemente chega aos milhões. Portanto, um aumento lento na força de trabalho só pode reter o crescimento econômico se a economia estiver a pleno emprego, o que raramente ocorre.

 

“A conclusão do meu estudo é que a força de trabalho não está diminuindo”, Cappelli afirma à Universia-Knowledge@Wharton. “O grupo do baby bust está sendo seguido por outro ainda mais numeroso, cujos componentes estão agora com cerca de 20 anos, e o número de aposentadorias dos funcionários do baby boom simplesmente não será tão alto quanto muitas pessoas esperam. Continua-se falando da ‘proximidade da escassez de mão-de-obra’. Bem, já falavam da ‘escassez de mão-de-obra’ há 10 anos, e ainda falam sobre isso hoje, mas não vimos isso acontecer. Os dados demográficos não direcionam os mercados de trabalho. As mudanças demográficas são graduais e previsíveis, e a economia e a força de trabalho dispõem de tempo suficiente para se ajustar a elas.”

 

A suposição de que a mão-de-obra logo ficará escassa é um erro sério, pois pode levar as empresas e os elaboradores das políticas públicas a tomar decisões importantes com base nesta suposição. “Quanto maior a empresa, mais eles acreditam no argumento da escassez de mão-de-obra”, conta Cappelli. “As empresas maiores são as que têm capacidade de pensar no longo prazo e se preocupar com o futuro.”

 

Uma implicação do trabalho de Cappelli é que ele invalida o argumento de que os Estados Unidos precisam incentivar a imigração para preencher todos os empregos. “Houve um grande esforço dos lobistas da comunidade empresarial para expandir a imigração há muitos anos”, recorda. “Mas não existe um bom argumento para sustentar a visão de que temos de ampliar a imigração, porque não existe embasamento para a idéia de que não há pessoas suficientes para darem conta dos postos de trabalho.”

 

Se não estamos à beira de uma escassez de mão-de-obra, por que os empregadores sentem que o mercado de trabalho reduzido de 1998 a 2001, quando as empresas se depararam com o desafio de encontrar funcionários e os salários subiram abruptamente, de alguma forma representou uma mudança importante em relação ao passado e o prenúncio de um futuro preocupante? Cappelli acredita que um dos motivos é que a pressão para contratar pessoas de fora para trazer novas qualificações, fato que se acelerou durante o final da década de 90, é um evento novo na história da administração de recursos humanos. A gama de empregos que hoje são preenchidos por pessoas de fora – da sala de correspondência ao escritório do diretor executivo – contrasta enormemente com os anos passados, quando o recrutamento se centrava quase totalmente nos empregos para iniciantes na carreira. Um aumento na contratação de pessoas de fora contribui para uma maior rotatividade, o que força os empregadores a ficarem em um estado de contratação contínua e aumenta o sentimento de que há escassez de funcionários.

 

“Muito embora talvez não tenha havido escassez de mão-de-obra [de 1998 a 2001], o fato de muitos destes funcionários terem mudado de um empregador para outro gerou várias vagas que não se conseguia preencher com o nível de contratação que a maioria das empresas era capaz de sustentar”, mostrou o estudo. “Os empregadores poderiam ser perdoados por pensarem que esta situação se parecia com escassez de mão-de-obra: a despeito das contratações em massa, não conseguiam encontrar funcionários suficientes para dar conta de suas necessidades. O gerenciamento para manutenção de funcionários deveria ter sido parte da solução, junto com o gerenciamento de desempenho para identificar quem eram as pessoas realmente importantes a serem conservadas.”

 

Realização de melhorias

Conforme a economia ganha força, os empregadores poderão mais uma vez se deparar com a perspectiva da existência de mercados de trabalho restritos. Mas, em vez de temerem uma escassez inexistente de mão-de-obra, as empresas deveriam investir em uma gama de respostas para resolver suas necessidades de mão-de-obra, argumenta Cappelli.

 

A maioria das empresas precisa melhorar seu recrutamento, mas isso requer mais do que apenas encontrar novos candidatos ou preencher as vagas mais rapidamente. O objetivo abrangente deveria ser melhorar a adequação entre os candidatos e os postos de serviço. Isso significa descobrir os candidatos certos que realmente se adaptem aos empregos que procuram. Segundo o estudo, pôr a pessoa certa no emprego certo não só implica melhor desempenho, como também reduz a rotatividade.

 

Cappelli afirma: “A implicação errada que se pode tirar do estudo seria afirmar que não há motivo para se preocupar com qualquer coisa relacionada ao emprego porque não haverá escassez de mão-de-obra. O mercado de trabalho poderá voltar a ficar restrito em questão de meses caso a economia se acelere. A questão real, então, será dispor de um sistema de práticas para encontrar pessoas adequadas, contratá-las quando a empresa precisar delas e manter os bons funcionários”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Onde está a escassez de mão-de-obra? O desmascaramento de um mito popular." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [24 September, 2003]. Web. [26 June, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/onde-esta-a-escassez-de-mao-de-obra-o-desmascaramento-de-um-mito-popular/>

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