Os desafios de Satya Nadella, novo CEO da Microsoft

A ascensão de Satya Nadella à direção executiva da Microsoft no dia 4 de fevereiro foi uma das trocas de liderança mais visadas de uma empresa nos últimos tempos. Juntamente com a nomeação de Nadella, a empresa anunciou que seu fundador, Bill Gates, assumiria o cargo de conselheiro de tecnologia transferindo ao mesmo tempo a função de presidente da diretoria independente para John Thompson. Nadella, de 47 anos, nascido em Hyderabad, na Índia, trabalha há 22 anos na empresa e era até há pouco tempo vice-presidente executivo do grupo de armazenamento virtual de dados (cloud services) na Internet e de empresas. Uma comissão encarregada de encontrar o novo CEO da empresa o escolheu depois de analisar vários outros líderes influentes de diversas empresas durante cinco meses. Nadella substitui Steve Ballmer, CEO da empresa desde 2000, mas que anunciou em agosto sua intenção de deixar o cargo.

Michael Useem, professor de administração da Wharton e diretor do Centro de Gestão de Liderança e de Mudança da instituição (Center for Leadership and Change Management), ressalta o que considera ser o principal insight da liderança que norteou a escolha de Nadella: "Sem dúvida alguma, o enorme interesse em saber quem assumiria a direção da Microsoft é sinal do impacto que um grande CEO ou, pelo contrário, um CEO sem expressão, pode ter sobre o destino da companhia. A liderança, e a diferença que ela faz, é a questão crucial aqui."

De acordo com Useem, a atenção que a escolha de Nadella tem recebido mostra que há uma percepção de que "se a Microsoft puser a pessoa certa na direção, a empresa seguirá avançando e terá condições de competir com o Google, Oracle e Apple, entre outras, sobrevivendo a essas empresas. Com a pessoa errada na direção, a empresa poderia acabar onde acabaram a BlackBerry e algumas outras".

Useem diz que o CEO de uma empresa como a Microsoft deve ser alguém capaz de se ajustar às suas estratégias, alguém que seja pouco mais do que "um grande atleta". Em primeiro lugar, a pessoa deve ser articulada, observadora  e capaz de pôr em prática a estratégia da empresa, diz. Em segundo lugar, deve ser também uma pessoa que agregue habilidades  para o que a companhia considera ser seus principais desafios nos próximos anos. Ao nomear Nadella para CEO da empresa e Gates para a consultoria de tecnologia, a Microsoft deixou claras quais são suas oportunidades e desafios.

"Infere-se dessas escolhas que a empresa chegou à conclusão de que a tecnologia é seu principal desafio, e que Nadella parece ser a pessoa que se ajusta à estratégia da Microsoft em face de questões dessa complexidade", diz Useem. O problema consiste em saber "como obter a tecnologia certa para derrotar competidores tão fortes".

À frente da Microsoft, Nadella comandará uma empresa com receitas que giram em torno de US$ 83 bilhões ao ano, um valor em caixa de outros US$ 83 bilhões, uma capitalização de mercado de US$ 300 bilhões e cerca de 100.000 empregados. Contudo, ele herdará também um problema crucial: embora a Microsoft esteja presente em 90% de todos os PCs no mundo, os analistas acreditam que as compras de desktops estejam caindo rapidamente  devido à utilização crescente de smartphones e tablets. A consultoria Gartner informou em janeiro que as vendas de PCs no mundo todo "tiveram a maior queda da história" em 2013, com 316 milhões de unidades vendidas, um total de 10% a menos do que em 2012. Embora a Microsoft tenha sido uma das pioneiras em inovação no segmento de smartphones, tablets, serviços de computação em nuvem, hoje ela está muito atrás da Apple, Google e outras nesses segmentos.

De acordo com a Gartner, no terceiro trimestre de 2013 o Android do Google tinha uma fatia de 82% no mercado de sistemas operacionais de smartphones, seguido do iOS da Apple, com 12,1%, e do Microsoft Windows, com 3.6%. A BlackBerry, Bada e Symbian respondiam pelo restante. Contudo, a Microsoft teve motivos para comemorar: os smartphones com sistema operacional da empresa totalizaram 8,9 milhões de unidades vendidas no trimestre — 4,9 milhões de unidades a mais do que há um ano. "O vencedor do trimestre foi a Microsoft, que cresceu 123%", observou Anshul Gupta, analista chefe de pesquisas da Gartner.

Formando equipe de conselheiros

O principal desafio de Nadella consistirá em lidar com Ballmer, ex-CEO da empresa, que continuará na diretoria da Microsoft, observou Sydney Finkelstein, professor de administração do Dartmouth College em um post de blog do Wall Street Journal. Useem concorda que se trata de uma situação que pode constituir um desafio a Nadella, mas acrescenta que há exemplos em que a situação pode funcionar — sobretudo quando cabe ao novo CEO decidir se o ex-CEO continuará no conselho. Quando Meg Whitman foi para a direção do eBay em 1988, ela pediu que o fundador, Pierre Omidyar, permanecesse no conselho, lembra Useem. "Whitman sempre disse que Omidyar era de grande ajuda na preservação da alma da companhia, isto é, daquilo a que ela se propunha."

Useem elogia Gates por renunciar ao cargo de presidente assumindo a função de conselheiro de tecnologia, uma decisão que fortalecerá a posição de Nadella. "Será ótimo se Steve Ballmer fizer o mesmo" e sair do conselho, diz. "Isso daria a Nadella uma dupla de conselheiros — duas pessoas que conhecem profundamente o setor e que podem trabalhar com ele, mas às quais ele não estaria submisso e que não bloqueariam suas ideias". Useem acrescenta que Nadella poderá se beneficiar da reorganização que Ballmer iniciou em julho passado no intuito de aproveitar melhor os recursos tecnológicos da empresa e melhorar a colaboração interna.

Useem diz que Nadella terá de enfrentar desafios ainda maiores. Um deles será "pegar as rédeas e fazer com que todos trabalhem" para que os objetivos por ele propostos sejam alcançados. Em segundo lugar, ele terá de fazer com que a empresa se concentre naquilo que seu consumidor nos segmentos de varejo e atacado deseja. Em terceiro lugar, num sentido tático, ele terá de aprender a trabalhar com o conselho e com grandes investidores, inclusive com os de perfil ativista. "Nadella fez muito tudo isso, mas não na esfera da direção da companhia", observa Useem.  G. Mason Morfit, membro do conselho da Microsoft e investidor ativista da ValueAct Capital deu boas-vindasa Nadella referindo-se a ele como a "melhor escolha para a liderar a empresa".

Nadella tem muita experiência em lidar com clientes corporativos, que respondem por 2/3 dos lucros da Microsoft. Os críticos chamam a atenção para sua relativa inexperiência nos mercados consumidores de tablets e smartphones, nos quais a empresa terá de crescer. Contudo, "a maior parte das pessoas que se torna CEO nunca foi CEO antes", diz Useem. Os membros da comissão de busca do novo CEO devem ter passado muito tempo se perguntando se Nadella "seria do tipo que aprende depressa", diz.

Dentro x fora

Muitos observadores se perguntam se a Microsoft não deveria ter escolhido alguém de fora, em vez de promover uma pessoa de dentro. "A questão fundamental — mas que tão cedo não terá resposta — consiste em saber se Nadella traz consigo as habilidades certas de liderança não apenas para comandar o espetáculo, mas também para fazer a empresa crescer no centro de uma das disputas mais turbulentas e competitivas da face da terra", disseram Dennis Carey e Useem em um postna rede de blogs da Harvard Business Review. "Essa pergunta deverá ser respondida de modo afirmativo se os diretores conseguirem evitar o "Princípio de Peter" (referência a Laurence J. Peter, que escreveu um livro com esse título em 1969. Ele dizia que, às vezes, as empresas promovem os executivos bem-sucedidos em suas funções sem levar em conta se têm as habilidades exigidas para uma função mais elevada). De acordo com Ravi Venkatesan, ex-presidente da Microsoft India, "a Microsoft precisa mudar profundamente, e a melhor pessoa para levar essa mudança adiante talvez seja alguém de fora que possa olhar o negócio com novos olhos". Contudo, embora alguém de fora "tenha a tendência de respeitar exageradamente os profissionais mais antigos da empresa", esse indivíduo não raro acaba batendo de frente com outros executivos e com a cultura da companhia. "É por isso que uma pessoa de dentro, de perfil ideal, como Satya, que é também um reformador silencioso, seja provavelmente a melhor escolha." Ele descreve Nadella como alguém "incrivelmente ponderado, dado à reflexão, humilde e que trabalha bem em equipe […] Qualidades fundamentais para uma empresa que opera com feudos muito fortes, onde as divisões não colaboram muito umas com as outras".

D. Shivakumar, presidente e CEO da PepsiCo da Índia, diz que a Microsoft fez bem em pôr a empresa nas mãos de um engenheiro como Nadella. Ele assinala que Nadella é "considerado por muita gente nos círculos de tecnologia como o melhor engenheiro de computação em nuvem ".

A Microsoft tem sido bem-sucedida em países que fazem cumprir os direitos de propriedade intelectual, mas não tanto nos mercados emergentes devido à pirataria, acrescenta Shivakumar. Contudo, para vencer no segmento de negócios móveis, as empresas de tecnologia têm de ser bem-sucedidas na China e na Índia, mercados que respondem por 40% dos assinantes no mundo todo, diz Shivakumar.

Moorthy K. Uppaluri, CEO da empresa de consultoria em recursos humanos Randstad India, e que trabalhou com Nadella na Microsoft, acredita que o novo CEO da Microsoft está à altura do desafio. "Ele traz consigo a preocupação com o mercado, com o cliente e com a centralidade do produto. É do tipo que se adapta à cultura da empresa e sabe ser autocrítico. Essas coisas o ajudarão a levar a Microsoft para a próxima etapa."

Pensando na sucessão

Agora que Nadella assumiu sua nova função, Useem diz que a Microsoft deveria começar a planejar sua sucessão formando novos líderes. Isso faz sentido "do ponto de vista da boa governança" por dois motivos, diz ele. Em primeiro lugar, fatores de saúde ou pessoais podem levar o CEO a deixar vaga sua função. Em segundo lugar, a Microsoft tem vários executivos prontos a se tornarem CEO, diz. Ele aconselha a empresa a lançar uma campanha "de desenvolvimento de liderança no estilo clássico da GE", em que uns poucos executivos escolhidos a dedo fazem cursos breves, porém impactantes, sobre assuntos como o papel do CEO na empresa alternando várias vezes seu local de trabalho dentro da companhia.

Enquanto isso, Nadella será avaliado detalhadamente. "Costuma-se dizer que o novo CEO tem de 90 a 100 dias para dominar a empresa", observa Useem. "É um período de lua de mel, mas depois de três meses, os analistas de ações, grandes investidores, todos os membros do conselho e, certamente também os consumidores, vão querer saber o que você está fazendo nos mercados de empresas e nos grandes mercados de consumo de massa".

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"Os desafios de Satya Nadella, novo CEO da Microsoft." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [13 February, 2014]. Web. [25 February, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/os-desafios-de-satya-nadella-novo-ceo-da-microsoft/>

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