Os imigrantes ilegais ajudam ou prejudicam a economia americana?

Um choque de opiniões discrepantes ocorrido na semana passada no senado americano   culminou com o colapso do primeiro grande projeto de lei em 20 anos sobre a reforma da imigração. De um lado estavam os senadores pragmáticos, apoiados pelo governo Bush, para quem o país precisa aceitar o fato de que os 12 milhões de residentes ilegais ali estão para ficar, portanto cabe oferecer-lhes um meio de adquirir a cidadania local. Do outro lado estão os idealistas, para quem os infratores da lei não deveriam ser recompensados, e que fazê-lo seria tão-somente encorajar um maior volume de imigração ilegal. Embora o líder da maioria democrata, Harry Reid, tenha retirado o projeto da pauta, deixou em aberto a possibilidade de o senado tornar a apreciá-lo em outro momento ainda este ano. O presidente Bush, que acaba de regressar do encontro de cúpula do G8, na Europa, fez uma rara aparição esta semana em Capitol Hill, sede do Congresso, para incentivar os republicanos a apoiar a proposta.

 

Ficou soterrado no debate que se trava atualmente sobre o assunto o possível impacto econômico de uma medida que poderia mudar a composição da força de trabalho americana de forma significativa: ao reprimir a imigração ilegal, a lei pode acabar reduzindo a futura oferta de trabalhadores para indústrias do segmento agrícola, construção, restaurantes e hotéis, sobretudo em áreas em rápido desenvolvimento, como na região conhecida como Sun Belt (ou cinturão do sol, que compreende os estados do sul e do sudeste dos EUA). Contudo, ao tomar como base de avaliação a concessão de visto aos profissionais capacitados em detrimento dos laços de família existentes, haveria um fluxo maior de trabalhadores para setores em crescimento, como os segmentos de alta tecnologia e de biotecnologia. Apesar disso, algumas empresas de alta tecnologia criticaram o projeto de lei por não proporcionar vistos anuais em volume suficiente para a demanda de profissionais capacitados: o projeto teria fixado um teto de 200.000 trabalhadores ao ano.

 

“O que me preocupa nessa lei é que ela está sendo anunciada como se não comportasse troca alguma, como se a mudança para um critério baseado no emprego fosse bom para a economia e para o país”, observa Peter Cappelli, professor de Administração da Wharton. “Na verdade, ela criará ganhadores e perdedores. A lei será boa ou ruim dependendo de como nos sentimos em relação a esses ganhadores e perdedores.”

 

Cappelli, que é chefe do Centro de Recursos Humanos da Wharton (Center for Human Resources), coloca entre os possíveis perdedores os trabalhadores americanos pouco qualificados, sobretudo os afrodescendentes. Uma pesquisa feita por George Borjas, economista da Universidade de Harvard, constatou que, de uma ponta à outra do país, o influxo de trabalhadores imigrantes de baixa qualificação de 1960 a 2000 achatou os salários e elevou o nível de desemprego entre os trabalhadores afro-americanos de qualificação profissional semelhante.

 

Cappelli argumenta igualmente que os partidários do projeto apresentaram de forma equivocada a situação da força de trabalho do país em seus esforços para garantir sua aprovação. Alguns dos seus defensores disseram, por exemplo, que a permissão para que os 12 milhões de trabalhadores ilegais permaneçam no país seria uma forma de preservar a magnitude da força de trabalho atual dos EUA. Como muitos baby boomers (geração de americanos nascidos por volta de 1945) começarão a se aposentar, a aprovação do projeto de lei seria de extrema importância, já que os trabalhadores da ativa teriam de suportar custos extremamente pesados com assistência médica.

 

“Tanto o governo quando os partidários da lei afirmam que há uma escassez de trabalhadores na economia porque a força de trabalho está encolhendo”, observa Cappelli. “Isto é obviamente falso. O fato de que os salários não estejam subindo em termos reais — na verdade, boa parte da geração passada experimentou um decréscimo salarial em todas as áreas, com exceção daquelas mais bem remuneradas — não nos permite acreditar que tenhamos mercados de trabalho com escassez de mão-de-obra.” Situar o debate  no âmbito da escassez de mão-de-obra apenas desvia a atenção da questão salarial, diz Cappelli. “Se expandirmos a oferta de mão-de-obra através da imigração, os empregadores não terão de elevar os salários para encontrar a mão-de-obra de que necessitam, tampouco terão de proporcionar os demais termos e condições que tornam os empregos atraentes.”

 

As pessoas atingidas por essa mudança costumam ser justamente aquelas cuja voz quase não  é ouvida no processo político — os pobres e os que não têm estudo. Cappelli acha que o debate tomaria um rumo diferente se seus partidários estivessem discutindo um aumento substancial no número de imigrantes “doutores, técnicos e administradores”.

 

Empregos em comunidades residenciais distantes do centro

Bernard Anderson, professor de Prática de Administração na Wharton, não está preocupado com as implicações econômicas da reforma da imigração, principalmente porque não crê que ela tenha efeito de longo prazo.

 

Por um lado, muitos dos trabalhadores ilegais que já estão no país deverão permanecer onde estão, quer seja proposto ou não a eles um meio de legalizar sua situação. “É humanamente impossível reunir 12 milhões de pessoas e deportá-las”, diz Anderson, ex-secretário adjunto do Departamento de Trabalho dos EUA no governo Clinton. “Os conservadores se opõem à anistia, mas nunca ouvi uma proposta sequer para resolver a situação dos 12 milhões de pessoas que já estão aqui.”

 

Anderson acredita também que nem os atuais trabalhadores, nem os futuros imigrantes, tirarão o emprego dos americanos nativos. Também não pressionarão seus salários. Dois terços dos trabalhadores ilegais estão concentrados em quatro indústrias: agrícola, de serviços pessoais, preparação de alimentos/hotelaria/turismo e, por fim, construção. Nessas indústrias, diz ele, os imigrantes geralmente preenchem vagas que do contrário continuariam abertas, ou então integram de um segmento que os economistas chamam de “grupos não-

competitivos”.

 

Pode-se tomar como exemplo o setor da construção na Filadélfia. “Não há imigrantes ilegais trabalhando na construção de prédios em Center City”, diz Anderson. Pelo contrário, esse tipo de função costuma ser preenchida por metalúrgicos e comerciantes filiados aos sindicatos municipais. “Contudo, se você for aos bairros residenciais mais distantes e fizer uma visita às áreas em construção nesses locais, verá que boa parte do trabalho nesse setor é realizado por imigrantes ilegais. Eles teriam tomado o lugar de quem? De ninguém, porque simplesmente não havia outros trabalhadores disponíveis para a execução desse tipo de trabalho.”

 

Migração high-tech

Uma cláusula da reforma proposta preocupa muito Anderson: a alteração do critério de laços de família para capacitação profissional na hora de avaliar a concessão de visto. Esse tipo de critério tem causado problemas em outras partes, ressalta. Na África do Sul, por exemplo, os homens eram recrutados em outros países africanos para trabalhar em minas e entravam no país sem a família. “Há todo tipo de más condições sociais decorrentes dessa política”, observa, inclusive “uma tendência que favorece o surgimento de uma subclasse social e econômica”.

 

Justin Wolfers, professor de Negócios e de Políticas Públicas da Wharton, também acredita que haverá problemas se a reforma passar, embora por motivos diferentes. Ele indaga se a ênfase na vigilância da fronteira e a imposição de restrições mais severas para a concessão de vistos não seriam prejudiciais à competitividade dos EUA, já que isso tolheria o livre fluxo de trabalhadores para o país, independentemente do seu nível de qualificação.

 

“Os economistas, via de regra, acham que o livre comércio de bens é bom para ambos os lados”, ressalta. “Permitir que as pessoas cruzem a fronteira  livremente também pode ser algo benéfico. Se restringirmos essa movimentação, pode haver prejuízos econômicos.”

 

A pujança econômica, muitas vezes, é conseqüência de acidentes felizes da história, como no caso do Vale do Silício, que prosperou na região da baía de São Francisco, na Califórnia.  Inicialmente, o Vale floresceu porque a Universidade de Stanford incentivou a comercialização da tecnologia,  e a Califórnia era um lugar agradável de viver. Hoje, a região atrai profissionais qualificados do mundo todo porque o lugar é considerado um centro internacional de alta tecnologia — em outras palavras, porque os indivíduos da área de tecnologia gostam de estar próximos de seus pares, mesmo que isso os obrigue a enfrentar os célebres congestionamentos que hoje grassam na região.

 

Contudo, esse ajuntamento de trabalhadores capacitados pode ser algo efêmero. Se a lei impusesse uma limitação sobre o número de programadores de computador, as empresas de tecnologia poderiam facilmente migrar para Bangalore ou Tel-Aviv, que se tornariam os Vales do Silício de amanhã. “As melhores universidades americanas são, evidentemente, uma fonte muito rica de vantagem competitiva, e essa vantagem poderia migrar para o exterior rapidamente”, assinala Wolfers. “O sistema alemão era o melhor do mundo antes da Segunda Guerra Mundial, mas esse quadro mudou muito depressa.”

 

Bons resultados de laboratório

De modo geral, os trabalhadores imigrantes costumam procurar as cidades em expansão, como Las Vegas, Phoenix e Charlotte, na Carolina do Norte, e não cidades como Detroit e Cleveland, que lutam contra o desemprego. Contudo, o impacto que esses trabalhadores exercem sobre as cidades são difíceis de mensurar: as mudanças ocorrem gradualmente, e como alguns dos trabalhadores são ilegais, os dados talvez não sejam confiáveis.

 

Contudo, David Card, economista especializado em mercados de mão-de-obra da Universidade de Berkeley, na Califórnia, observou que uma cidade do Sun Belt, Miami, é o laboratório ideal para o estudo dos efeitos da imigração. Há muito tempo que Miami é refúgio de imigrantes, tanto legais quanto ilegais. Muitos deles, sobretudo os que têm menos preparo profissional, vêm geralmente da América Latina. Fala-se espanhol por toda parte.

 

O que chamou a atenção de Card não foi a diversidade cultural de Miami, e sim o choque sem paralelo que sobreveio ao mercado de trabalho local com a chegada, na década de 1980, de cerca de 125.000 refugiados cubanos que, durante três meses, deixavam o porto de Mariel, em Cuba, e navegavam em barcos superlotados com destino aos EUA. Cerca de 50% dos “marielitos” permaneceram na cidade, engrossando em 7% a mão-de-obra local. Muitos desses imigrantes tinham um conhecimento limitado de inglês e pouca qualificação profissional, portanto o impacto que causaram no segmento menos especializado da região foi ainda maior.

 

Contudo, em um estudo publicado em 1990, Card constatou que não houve praticamente conseqüência alguma sobre os salários ou sobre a taxa de desemprego dos trabalhadores locais até 1985. O desemprego aumentou efetivamente em Miami nesses cinco anos, mas cresceu também em quatro áreas metropolitanas onde não houve influxo de novos trabalhadores — Atlanta, Los Angeles, Houston e Tampa-St. Petersburg. Em outras palavras, os marielitos não foram responsáveis pelo aumento do desemprego.

 

Como isso é possível? Card tem uma hipótese: graças a duas décadas de imigração latina, Miami já dispunha de uma ampla infra-estrutura que facilitou a transição dos empregos disponíveis para estrangeiros que não falavam inglês. Além disso, a pujante economia da cidade proporcionou numerosas oportunidades de trabalho.

 

Uma pesquisa subseqüente de Card confirmou as descobertas relacionadas aos marielitos. Por esse motivo, Card vê com ceticismo o desejo expresso dos políticos de reformar as leis de imigração para proteger os trabalhadores americanos. “Muita gente que se opõe à imigração tem perfil conservador e não apóia os programas que pretendem dar qualificação aos trabalhadores americanos pouco preparados”, ressalta. “Sua preocupação principal é com a subjugação da cultura americana por latinos de pouca qualificação profissional.”

 

Os políticos de estados da fronteira, como Texas e Arizona, apontam os custos sociais decorrentes da manutenção de imigrantes ilegais — atendimento em pronto-socorro de indivíduos sem seguro social e aumento do efetivo policial. No entanto, esses mesmos políticos têm um eleitorado que se beneficia de uma oferta imediata e barata de trabalhadores pouco qualificados, diz Card. “Contudo, ninguém se levantará propondo o aumento do número de pessoas com pouco preparo nos EUA, de modo que haja indivíduos com baixa remuneração dirigindo táxis, trabalhando na construção civil, em restaurantes e em creches.”

 

Anderson, da Wharton, vai além e diz que, em média, a contribuição dada pelos imigrantes ilegais para a economia americana supera as vantagens que tiram dela. “Seus empregadores pagam impostos de Seguridade Social para todos”, embora eles não recebam os benefícios devidos, ressalta.   “Quando compram produtos e serviços, pagam impostos sobre as vendas. Alguns compraram casas e pagam impostos sobre a propriedade. Não se trata de pessoas que vêm para cá para tirar proveito dos benefícios sociais disponíveis. Elas vêm para cá para trabalhar.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Os imigrantes ilegais ajudam ou prejudicam a economia americana?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [27 June, 2007]. Web. [20 January, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/os-imigrantes-ilegais-ajudam-ou-prejudicam-a-economia-americana/>

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"Os imigrantes ilegais ajudam ou prejudicam a economia americana?" Universia Knowledge@Wharton, [June 27, 2007].
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