Pablo Carrera Narváez, do Tecnológico de Monterrey: “Faltam à América Latina otimismo e sinergias para seguir em frente”

Para que possa contar com boas fontes de recursos humanos e melhorar o nível da educação ministrada na região em âmbito internacional, a América Latina precisa unir esforços em vez de recorrer ao individualismo. Além disso, precisa ser mais otimista e adotar uma perspectiva que busque maior integração para conquistar os mercados. É o que pensa Pablo Carrera Narváez, diretor do Tecnológico de Monterrey, que acaba de abrir um escritório em Buenos Aires em conformidade com o plano de internacionalização da instituição. A prestigiosa universidade mexicana conta com 33 campus em seu país de origem e já possui filiais no Peru, Equador, Colômbia e República Domincana. Em entrevista concedida ao Universia-Knowledge@Wharton, Narváez explica quais são as últimas tendências em educação executiva na América Latina no marco de um mundo complexo em mudança.

Universia-Knowledge@Wharton: Como o Sr. vê a região em relação à crise econômica e social do ano passado?

Pablo Carrera Narváez: Creio que a América Latina deveria desempenhar um papel de maior destaque no plano internacional. Acho que a região precisa de mais sinergias na atual fase difícil que atravessa, mas é como se cada um quisesse fazer as coisas a seu modo. Nesse sentido, a Comunidade Econômica Europeia (CEE) tem muito a nos ensinar. Embora se trate de países diferentes com línguas e culturas distintas, esse clube de países foi capaz de fortalecer o euro e suas relações comerciais. Como o espanhol é a língua comum da América Latina, creio que as áreas de oportunidades são muitas.

UK@W.: Que áreas seriam essas?

P.C.N.: No meu entender, as pessoas são responsáveis pela visão do negócio, isto é, são elas que decidem até onde querem chegar. É nisso que trabalhamos no TEC: não fixamos limites e nos pautamos por valores. O desafio está em nós mesmos e em compreender que o mundo oferece muitas oportunidades. Sabemos que a região tem um índice elevado de pobreza, por isso procuramos oferecer bolsas de estudo e de capacitação, por exemplo, para a criação de microempresas. (Dos 91.672 alunos no continente, 40,7% tem algum tipo de bolsa),

Damos muita importância à família na sociedade, ao cuidado com os filhos e às formas de inserção no convívio em sociedade, aos meios que permitam melhorar as condições de higiene e saúde, que são básicas e indispensáveis para que se tenha acesso à educação. Através de nossos Centros Comunitários de Aprendizagem (cujo objetivo é levar educação de alta qualidade a regiões de baixa renda e a locais geograficamente isolados), atingimos um público que não teria como conseguir, facilmente, o acesso à educação privada ou pública. Com tecnologia e conteúdos acadêmicos de valor social proporcionados pelo TEC de Monterrey, ocorrem transformações de grande impacto sobre os setores da sociedade que necessitam de educação para progredir. Nossa instituição contribui, portanto, com o desenvolvimento econômico, político, social, cultural das comunidades onde atua.

UK@W.: Em tempos de crise como os de hoje, que conselhos o Sr. daria aos executivos da região?

P.C.N.: São muitos os conselhos possíveis neste momento de crise. Um deles consiste em ter em mente, de forma bastante objetiva e clara, que não há por que entrar em pânico. Sabemos que não é fácil, mas é preciso também ter um pouco de paciência. O importante é agir depressa, estar atento, responder a todos os e-mails, recorrer a todos os contatos que se tenham à mão. Às vezes, não conhecemos o potencial que temos. Muitas vezes a família, pessoas queridas e amigos são nossos melhores aliados na hora de elaborar novos projetos em momentos difíceis como os que vivemos hoje.

Agora é o momento de ser criativo, porque é isso que o mercado exige. Além de ensinar finanças e administração, procuramos dar uma injeção rápida de motivação. Há muitos recursos humanos na região que precisam vir à tona para se tornarem conhecidos. Essa motivação se consegue trabalhando-se com a pessoa, porque a mudança deve partir dela para depois transformar a liderança da empresa e, por fim, a visão da empresa.

UK@W.: De que maneira é possível aproximar mais a universidade da empresa?

P.C.N.: As universidades têm o desafio de diminuir a brecha entre o mundo acadêmico e o empresarial. Quando um aluno estuda de forma independente, isto é, quando não há nenhum tipo de interação com o trabalho, é muito mais difícil a adaptação e são os maiores os custos para as empresas. Nós, por exemplo, contamos com laboratórios e áreas de estudos patrocinadas por diferentes empresas. Ali simulamos, por exemplo, a montagem de um automóvel. Desse modo, um engenheiro mecânico tem uma ideia de como é o trabalho em uma montadora.

Por outro lado, temos um projeto chamado “Os 100 melhores da América Latina”, através do qual se formaram com bolsa mais de 500 universitários latinoamericanos que participam de um programa de alto desempenho com o compromisso de voltar a seu país de origem para empregar lá o que foi aprendido. O programa não permite apenas o estudo de uma profissão. Vários alunos puderam também viajar para pôr em prática o que aprenderam em empresas. Desse modo, vamos nos preparando para que eles estejam mais próximos do mercado profissional e do mundo do trabalho.

UK@W.: Apesar dos problemas da região, o que fazer para que os alunos tenham uma visão mais global e também de liderança?

P.C.N.: Nesse caso, o processo de internacionalização tem grande importância. Ele permite que professores e alunos conheçam novos mercados, cidades, formas e estilos de fazer negócios. Quando se tem acesso a cursos ou mestrados com professores da região, tal possibilidade gera valor agregado, já que se compartilha uma visão global que aos alunos tornarem-se cidadãos do mundo. Quando compartilham de aulas com professores e colegas de países diferentes, eles passam a ver os mercados de maneira aberta, analisando a possibilidade de abrir uma filial ou franquia do seu próprio negócio ou empresa.

Estamos convencidos de que a internacionalização abre a mente das pessoas. Os alunos, para aproveitar essa visão do TEC nas aulas, devem aprender a desaprender. Atualmente o TEC está interessado em saber quais são suas tendências e a realidade educacional em outros locais interessantes, como a Índia ou a China.

UK@W.: Que vantagens tem o TEC em relação às universidades e escolas europeias e americanas concorrentes que estão abrindo filiais na América Latina?

P.C.N.: Em primeiro lugar, acho que temos uma visão global. Por outro lado, nosso conteúdo tem um enfoque internacional adaptado ao modo local de fazer negócios, de forma que tenha um valor agregado de perfil global. Além disso, utilizamos um mix de metodologias que faz da experiência de aula do TEC única, já que provocamos nossos alunos para que busquem cenários que permitam usar ao máximo seu potencial e auxiliem na aprendizagem. Por último, oferecemos a possibilidade de contar com um networking internacional (graças à cobertura mundial do TEC).

O maior desafio de uma universidade regional consiste em entender a cultura de cada país e suas necessidades específicas, para que possa elaborar conteúdos e metodologias que gerem valor e satisfaçam às empresas.

UK@W.: O Sr. acha que a tecnologia melhorou a forma como a educação executiva é ministrada?

P.C.N.: Usamos diferentes metodologias de estudo: elaboração de projetos, análises de casos, workshops, vídeos e metodologia construtivista na construção da experiência dos executivos. Contamos com uma plataforma tecnológica que permite às empresas ministrar aulas através de computadores corporativos, sejam elas supermercados ou bancos. Assim, os custos são reduzidos. Oferecemos projeto e conteúdo de acordo com as necessidades de cada empresa.

Em breve, colocaremos em funcionamento o Illuminate, que permite a 20 pessoas se conectarem ao mesmo tempo e compartilhar um arquivo de PowerPoint ou PDF. Isso reduz os custos e a distância. Também oferecemos educação virtual, mas fazemos sempre questão de destacar que é importante ter um tempo de contato presencial para humanizar a educação. Tecnologia só não basta.

UK@W.: Em sua opinião, qual deveria ser o perfil de um gerente panamericano ou global no cenário atual?

P.C.N.: Ele deve ser visionário, cidadão do mundo, alguém que se ocupe com o que é importante, e não com o que é urgente, e que saiba se cercar de bons profissionais e que se empenhe em gerar valor para o cliente. Tudo isso num ambiente ético e de valores universais. Para que os professores possam transmitir esses valores, é preciso que sejam íntegros naquilo que ensinam e no que fazem.

UK@W.: De acordo com a experiência de outras filiais em funcionamento, qual a diferença entre fazer negócios em um país e outro? Como são os alunos/executivos de países diferentes?

P.C.N.:  Vejo muitas semelhanças entre os alunos que estudam em nossas filiais, entre elas a habilidade de colocar imediatamente em prática o que foi aprendido, e de reagir rapidamente às demandas cada vez mais exigentes do mercado.

Com relação às diferenças, há países com maior abertura comercial do que outros, por isso se inscrevem em programas de Negócios Internacionais, Logística Internacional, Negociações Internacionais etc. É o caso do México, Colômbia, Peru e Chile. Contudo, ocorre também de outros executivos trabalharem com temas mais pontuais devido às particularidades de seus países, como a indústria do petróleo ou da mineração no Equador e no Peru.

Aprendemos todos os dias com nossa expansão pela América Latina, agora estamos aprendendo com o mercado argentino, de modo que possamos capitalizar tudo o que vivenciamos na região em benefício dos professores e das empresas argentinas.

UK@W.: Quais os desafios educacionais da região?

P.C.N.: Os países da região precisam criar sinergias regionais que lhes permitam, ser mais competitivos juntos, voltando-se para um mercado atraente para os investidores e que permita gerar riqueza num ambiente social harmônico.

O desafio consiste em promover uma cultura empresarial centrada em valores pouco estimados em uma época de crise em que a sobrevivência pode nos levar a cometer muitos erros simplesmente para não sair do mercado.

UK@W.: O Sr. acha que a América Latina conseguirá sair da crise atual?

P.C.N.: Queremos transmitir uma mensagem de otimismo para que os empresários acreditem neles mesmos, em suas empresas e em seus países, para que a educação seja um aliado nesse processo de saída da crise atual.

Nossa região está habituada a passar por crises diversas e passará por esta também. Embora não estejamos alheios ao que está acontecendo, tampouco devemos nos recolher e chorar. Temos de abrir os olhos, ser otimistas, mas principalmente rápidos em nosso modo de agir.

A região precisa de uma visão de futuro mais otimista, que meça os riscos e reinvente modelos de negócios diferentes dos atuais, de forma que as empresas se diferenciem das demais, e com isso obtenham melhores resultados.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Pablo Carrera Narváez, do Tecnológico de Monterrey: “Faltam à América Latina otimismo e sinergias para seguir em frente”." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [09 September, 2009]. Web. [20 January, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/pablo-carrera-narvaez-do-tecnologico-de-monterrey-faltam-a-america-latina-otimismo-e-sinergias-para-seguir-em-frente/>

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Pablo Carrera Narváez, do Tecnológico de Monterrey: “Faltam à América Latina otimismo e sinergias para seguir em frente”. Universia Knowledge@Wharton (2009, September 09). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/pablo-carrera-narvaez-do-tecnologico-de-monterrey-faltam-a-america-latina-otimismo-e-sinergias-para-seguir-em-frente/

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"Pablo Carrera Narváez, do Tecnológico de Monterrey: “Faltam à América Latina otimismo e sinergias para seguir em frente”" Universia Knowledge@Wharton, [September 09, 2009].
Accessed [January 20, 2019]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/pablo-carrera-narvaez-do-tecnologico-de-monterrey-faltam-a-america-latina-otimismo-e-sinergias-para-seguir-em-frente/]


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