Paulo Henrique de Oliveira Santos, da VNN: “O mercado voltará a ser o que era”

Embora possa não ser fácil encontrar boas saídas, não haverá escassez de oportunidade para os fundos de private equity nos próximos anos, observa Paulo Henrique de Oliveira Santos, CEO da Votorantim Novos Negócios (VNN), divisão de capital de risco e de private equity da Votorantim, conglomerado industrial brasileiro. Em recente entrevista concedida a Knowledge@Wharton, Santos explicou de que maneira o déficit de liquidez, a estagnação do crescimento e outros desdobramentos da atual crise de crédito — bem como novas áreas de investimentos para o capital de risco, como energia verde — contribuem para o “novo negócio” de empresas como a VNN.

Segue abaixo uma versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Nosso convidado de hoje é Paulo Henrique de Oliveira Santos, CEO da Votorantim Novos Negócios (VNN), divisão de capital de risco e de private equity da Votorantim, conglomerado industrial brasileiro. Obrigado por nos atender.

Santos: De nada.

Knowledge@Wharton: Gostaria de começar fazendo-lhe uma pergunta que está provavelmente na cabeça de todo mundo hoje em dia: o que o Sr. acha da crise financeira e qual o impacto dela sobre a economia brasileira?

Santos: Acho que ninguém sabe o que vai acontecer. Há um temor generalizado. Não sabemos se as medidas tomadas pelos governos dos EUA e da Europa vão resolver o problema. Vai levar um tempo até que tudo esteja resolvido.

Não creio que a situação seja diferente no Brasil. Temos atualmente um problema de liquidez que repercute sobre os bancos estrangeiros e brasileiros, prejudicando a economia real […] O Brasil, creio eu, também será afetado. É difícil dizer qual será a magnitude do problema que teremos de enfrentar, mas certamente o ano que vem não será nada fácil para nós.

Knowledge@Wharton: De que maneira, especificamente, o Sr. acha que o setor de private equity será afetado?

Santos: No caso das empresas de private equity será um pouco diferente […] No ano passado, e no ano anterior, os preços dos ativos estavam muito altos. Hoje, com o mercado do jeito que está, os preços estão passando por uma adequação. Acho que a indústria de private equity e de capital de risco — sobretudo a de private equity — terá muitas oportunidades a preços justos — preços melhores do que há dois anos.

Knowledge@Wharton: Onde estariam essas oportunidades interessantes?

Santos: Por toda parte, em todas as indústrias. É difícil dar um exemplo específico, mas em todas as indústrias encontraremos oportunidades em virtude da falta de liquidez. Mais cedo ou mais tarde, o mercado voltará a ser o que era. Acho que o ano que vem será o momento oportuno para posicionarmos nossos investimentos.

Knowledge@Wharton: O Sr. se referiu ao impacto sobre a economia real. Quanto tempo o Sr. acha que vai levar para a situação reverter? O Sr. teria algum palpite?

Santos: É como num jogo de adivinhação, porque ninguém sabe o que vai acontecer. Meu palpite é que vamos ter de esperar pelo menos um ano e meio.

Algumas pessoas dizem que o mercado voltará a ser o que era dentro de sete a oito meses. Acho que vai demorar mais do que isso. Minha aposta é de que demore, no mínimo, 18 meses.

Knowledge@Wharton: Qual será, na sua opinião, o impacto sobre as IPOs?

Santos: Haverá poucas IPOs no Brasil nos próximos dois anos, principalmente porque haverá oportunidades fora do Brasil em mercados mais maduros para IPOs.

Knowledge@Wharton: O Sr. acha que esse é um problema que afeta só o Brasil ou afeta também os demais países? Haverá alguma estratégia de êxito possível para as empresas financiadas pelo capital de risco?

Santos: Depende do estágio em que a empresa se encontra. No nosso caso, por exemplo, não vemos problema algum. Não importa se estamos trabalhando com um prazo de 24 ou de 36 meses, para nós é indiferente porque nosso fundo é aberto. Portanto, somos pacientes.

Nossas empresas estão gerando caixa e têm uma situação relativamente confortável. Contudo, há fundos, por exemplo, que serão liquidados ou terão de ser liquidados no ano que vem. Eles terão de adiar a liquidação porque não há mercados para eles, a menos que vendam a empresa para outro fundo de private equity ou para outro comprador estratégico. Dificilmente teremos IPOs no ano que vem.

Knowledge@Wharton: Outro problema de certa forma relacionado a este é que, durante muito tempo, o real se valorizou em relação ao dólar e, de repente, a situação se inverteu. Já ouvi dizer que há empresas que apostaram em derivativos na crença de que isso não aconteceria, e agora estão em apuros. Existe alguma possibilidade de a Votorantim ser afetada?

Santos: De certa forma, a Votorantim foi afetada. Na semana passada, emitimos declarações de que esse tipo de transação […] fez com que mudássemos de estratégia para evitar uma exposição mais acentuada. Algumas outras empresas deverão emitir declaração semelhante, já que muitas delas estavam na mesma situação até recentemente.

No nosso caso, somos uma empresa com muito dinheiro em caixa. Geramos muito caixa também. Isso não é nada demais, é parte do negócio. Todavia, algumas empresas serão mais duramente golpeadas do que outras. Resta esperar para ver o que vai acontecer.

É preciso deixar claro que essas empresas não estavam especulando com o dólar. A maior parte delas é constituída por exportadores […] Elas estavam protegendo seus custos com instrumentos financeiros.

Agora, com a valorização do dólar, as coisas vão ficar muito melhores do que antes. Acho que o lado positivo da crise foi o que aconteceu à taxa de câmbio. Pelo menos agora ela deve ficar num patamar justo para a nossa moeda.

Knowledge@Wharton: O Sr. se referiu à sua empresa e especialmente à parte da VNN na operação. Seria possível explicar um pouco melhor o pano de fundo e a filosofia que norteiam suas atividades no segmento de capital de risco e de private equity?

Santos: A operação começou oito anos atrás. A ideia na época era investir em capital de risco. Vivíamos o fim da era pontocom, num tempo em que uma porção de pequenos empreendedores estava ganhando muito dinheiro. Decidimos então montar uma empresa que investiria em outras que estavam surgindo na época.

Aí a bolha de Internet explodiu e decidimos transformar a Votorantim Venture Capital em Votorantim Novos Negócios, englobando as atividades de private equity e de capital de risco. Atuamos hoje em três áreas principais: IT/BPO [tecnologia da informação e terceirização de processo de serviços], biotecnologia e exploração de minérios. Investimos em biotecnologia desde o início da empresa, em 2000; o mesmo no caso da TI. Começamos a investir em exploração de minérios há cerca de dois anos.

Knowledge@Wharton: O Sr. poderia me dar alguns exemplos do tipo de investimento feito por sua empresa e a filosofia que orientou suas escolhas?

Santos: Trabalhamos principalmente com operações e estratégias. Não nos detemos muito no lado financeiro do negócio, privilegiando mais as duas áreas já citadas. Faz parte do DNA do grupo. Sempre foi assim. No segmento de biotecnologia, montamos duas empresas: a Alellyx e a CanaVialis.

As duas empresas se dedicam ao desenvolvimento de novas variedades de cana-de-açúcar: GMO [modificada geneticamente]e não-GMO. Somos a única empresa no Brasil trabalhando nesse segmento […] Temos 150 pesquisadores e cientistas. Começamos a empresa do zero.

Com relação ao setor de TI/BPO, temos atualmente no Brasil uma das maiores companhias de TI, que também começou do zero.

Já a exploração de minérios, uma área bastante nova, está em andamento em regiões bastante promissoras e onde detectamos um potencial muito grande.

Knowledge@Wharton: Falando agora de biotecnologia, o Sr. poderia explicar um pouco de que forma vê o potencial do setor e o posicionamento de sua empresa nesse negócio?

Santos: Como você provavelmente deve saber, a indústria da cana-de-açúcar no Brasil é muito forte. Ela está crescendo e tem muito potencial. Quando montamos as duas empresas a que me referi, essa tecnologia não existia. Como surgimos  praticamente sem concorrência no segmento, achamos que nossa empresa tem um grande potencial em razão do potencial do setor. Estamos ligados à indústria da cana brasileira.

Knowledge@Wharton: Além disso, existe hoje um forte ímpeto em direção à energia verde.

Santos: Sim.

Knowledge@Wharton: O Sr. poderia explicar sua estratégia nesse campo? Há mais investimentos em vista para o setor?

Santos: Anunciamos ainda ontem um investimento em parceria com outros investidores em uma empresa […] que desenvolveu […] uma tecnologia que permite transformar cana-de-açúcar em diesel. É nesse tipo de coisa que estamos procurando investir. Estamos sempre tentando fazer alguma coisa no segmento de energia verde e de negócios afins.

Knowledge@Wharton: O Sr. tem muitos investimentos interessantes. Como escolhe no que investir?

Santos: Conforme eu disse, trabalhamos especificamente com três áreas. Temos um especialista para cada uma delas, e é assim que são escolhidas.

Knowledge@Wharton: O Sr. poderia me dizer quais suas principais prioridades para os próximos três a cinco anos? Onde o Sr. planeja atuar ou no que pensa em investir?

Santos: É preciso ressaltar que o dinheiro para os investimentos vem da empresa matriz: 100% do nosso capital vem de lá. Não temos investidores externos. Portanto, essa é uma discussão que estamos travando com os acionistas do grupo.

[…] Temos US$ 300 milhões para investir. É o capital destinado ao grupo. Não há limites. Enquanto o grupo tiver dinheiro, e enquanto houver bons projetos, apresentamos os projetos ao grupo e os responsáveis nos dão mais dinheiro, se necessário. Contudo, é difícil dizer quanto iremos investir no futuro porque, em primeiro lugar, é preciso que haja projetos. Em seguida, temos de verificar se há o desejo de investir por parte do grupo.

Knowledge@Wharton: Quais seriam alguns dos principais fatores de risco a curto prazo que o deixam acordado à noite?

Santos: Você se refere à situação atual do mercado, certo? De modo geral, a administração. Acho que a coisa mais importante quando investimos em uma empresa é sua equipe de gestão. Isso é o que mais me preocupa nos próximos três a cinco anos: pensar como vamos investir e onde vamos encontrar uma boa equipe de gestão.

Knowledge@Wharton: Por falar em gestão, o Sr. poderia detalhar um pouco sua jornada pessoal e como foi que chegou onde está hoje?

Santos: Ok. Sou engenheiro. Comecei com banqueiro há muitos anos, talvez há 20 anos. Trabalhei no Brasil e em Nova York. De volta ao Brasil, fui trabalhar no Banco Votorantim, quando o banco dava seus primeiros passos. Depois, fui para o setor industrial do grupo. Ajudei-os a comprar algumas empresas durante o processo de privatização no país.

Em seguida, fui incumbido do turnaround de três de nossas companhias de mineração. Depois, convidaram-me para montar a empresa onde trabalho. Passei o ano de 1988 em um fundo de private equity aqui no Brasil. Era um fundo brasileiro. Essa é minha experiência. Foi por isso que me tornei capitalista de risco/investidor em private equity.

Knowledge@Wharton: Em toda a sua carreira, qual foi o principal desafio que o Sr. teve de enfrentar? Como foi que o superou e o que aprendeu com ele?

Santos: Acho que foi o processo de turnaround dessas duas empresas da Votorantim. A situação era bastante delicada na época e tivemos de substituir uma porção de gente, além de tomar algumas decisões bastante difíceis. Creio que esse foi um grande desafio.

Knowledge@Wharton: Para quem talvez não tenha conhecimento do contexto e do background desse período, o Sr. poderia explicar o que se passou e por que foi uma experiência difícil?

Santos: As três empresas vinham tendo prejuízo de US$ 15 milhões ao ano, sendo que as receitas giravam em torno de US$ 200 milhões. Os acionistas temiam pelo futuro da empresa, por isso me convidaram para ajudá-los no processo de turnaround.

Depois de três anos, quando saímos da empresa — porque não fiz tudo sozinho, havia outra pessoa junto comigo e mais alguns colegas —, as três estavam novamente no azul com um EBITDA de US$ 100 milhões, o que é um tremendo turnaround. Todos estavam felizes com nosso trabalho. Substituir pessoas num ambiente desses — numa época em que atravessávamos uma espécie de recessão: o país não crescia — era difícil e havia funcionários na empresa que estavam ali há muitos anos. Portanto, foi muito difícil.

Mas é claro que aprendemos muito quando fazemos coisas desse tipo. Eu aprendi muito, e aprendi muito também quando montei a empresa onde trabalho, a Votorantim Novos Negócios, porque comecei do zero diante de uma folha de papel em branco e consegui realizar alguma coisa. No início, não tinha apoio nenhum, mas acho que a empresa deu certo e hoje vai muito bem. Foi uma ótima experiência.

Knowledge@Wharton: Uma última pergunta: como o Sr. define o sucesso?

Santos: Minha definição de sucesso? Ter sucesso para mim é saber que as pessoas que trabalham para mim estão felizes em seu ambiente de trabalho e com os resultados obtidos — não só você, insisto, mas também as pessoas que trabalham para você.

Knowledge@Wharton: Muito obrigado por sua presença aqui hoje.

Santos: Obrigado.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Paulo Henrique de Oliveira Santos, da VNN: “O mercado voltará a ser o que era”." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [04 February, 2009]. Web. [25 May, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/paulo-henrique-de-oliveira-santos-da-vnn-o-mercado-voltara-a-ser-o-que-era/>

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"Paulo Henrique de Oliveira Santos, da VNN: “O mercado voltará a ser o que era”" Universia Knowledge@Wharton, [February 04, 2009].
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