Pedro Mariani, do Banco BBM: a crise brasileira sob a ótica de um banqueiro

Em meio à crise financeira que vem agitando as economias do mundo todo, o setor de serviços financeiros é o que mais se destaca, e a indústria bancária de modo especial. Embora ressalte a dificuldade de prever exatamente o que esperar em 2009, o CEO do Banco BBM, Pedro Mariani, em recente entrevista concedida a Knowledge@Wharton, disse o que pensa sobre a indústria bancária brasileira, o mercado imobiliário, revelou que estratégia deverá seguir daqui para frente e os desafios que, como líder, teve de enfrentar nos últimos 20 anos.

Segue abaixo uma versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Nosso convidado de hoje é Pedro Mariani, CEO do Banco BBM. Obrigado por sua presença.

Pedro Mariani: É um prazer.

Knowledge@Wharton: Todo mundo está preocupado atualmente com a crise financeira internacional. O Sr. poderia falar um pouco sobre o impacto da crise na economia brasileira?

Mariani: O preço da moeda estrangeira é muito importante no Brasil. Estamos saindo de um período muito longo de baixa volatilidade no mercado de câmbio internacional. Portanto, as empresas brasileiras deixaram de se preocupar exageradamente com o que se passa a longo prazo privilegiando a lucratividade diária. Basicamente vendemos dólares e esperamos pela revalorização do real. A crise fez uma grande diferença na forma como as pessoas interpretam a desvalorização do dólar. Tivemos uma desvalorização de cerca de 50%, o que levou um certo pânico às empresas e a algumas instituições financeiras também […] É provável que tenhamos um impacto inflacionário por causa disso.

Outra área importante é a do crédito. O problema monetário fez com que a demanda por crédito se intensificasse. Os bancos não sabiam se teriam condições de atender à demanda. É claro que o banco central ajudou […] Essa ajuda repercutiu sobre o volume de crédito que hoje temos na economia. Houve outros problemas bancários, como a falta de confiança nos pequenos bancos, mas isso não foi tão importante quanto o montante total de crédito disponível nos grandes bancos.

Portanto, essas são duas áreas de impacto a curto prazo: o preço da moeda estrangeira e o crédito.

Knowledge@Wharton: A indústria bancária brasileira estava preparada para esse tipo de impacto?

Mariani: O sistema é saudável, embora tenhamos tido problemas muito sérios no início da década de 90. O banco central está hoje em condições bem melhores do que naquela época. As pessoas que trabalham no BC estão muito mais treinadas […] e a qualidade do banco, de modo geral, melhorou muito. A regulação fez com que ele passasse a agir com mais cautela. Trata-se de um sistema bastante regulado, como você sabe.

Por último, mas nem por isso menos importante, não tivemos tempo para nenhuma grande alavancagem no sistema. Estávamos dando os primeiros passos no setor de financiamento imobiliário, que ainda é muito pequeno no Brasil, menor do que o do México. Temos um endividamento grande por parte dos consumidores que financiaram a compra do seu carro, mas esse é o único grande mercado de dívida do consumidor […] No fim das contas, estávamos muito mais bem preparados do que muitos outros países por aí.

Knowledge@Wharton: O Sr. se referiu às finanças imobiliárias. Qual a política dos bancos brasileiros para o setor de hipoteca subprime? Existe isso no Brasil?

Mariani: De forma alguma, porque o financiamento das hipotecas no Brasil é resultado de acordos celebrados entre o pessoal da construção civil e os bancos. O processo estava apenas no início e os bancos o acompanhavam de perto, fazendo análises estatísticas caso a caso. Talvez venhamos a ter problemas semelhantes no segmento de subprime do mercado geral de crédito ao consumidor — mas nada que se compare ao que houve nos EUA e na Europa.

Knowledge@Wharton: Gostaria que o Sr. discorresse sobre mais algumas questões econômicas. Conforme sabemos, boa parte do crescimento do Brasil foi impulsionado pelas exportações de commodities. Agora, com a desvalorização do real, quais as perspectivas para o crescimento do setor?

Mariani: As principais commodities brasileiras são de origem agrícola. Ao mesmo tempo, o dólar está se desvalorizando. Se pegarmos as matérias-primas — fertilizantes, o combustível das máquinas etc, bem como as estruturas de custo da soja e do algodão — veremos que cerca de 60% do seu valor está associado ao dólar. Portanto, temos 40% de impacto sobre a moeda e 100% de impacto sobre o preço.

Creio que no caso das commodities, principalmente as do segmento alimentício, o preço não cairá tanto quanto o dos metais. É preciso deixar claro, porém, que 2009 não será um ano tão bom quanto 2008.

Acho que não há motivo para que o Brasil tenha uma desvalorização muito alta para compensar a queda nos preços. Contudo, haverá alguma desvalorização. Outro problema diz respeito aos minérios, principalmente minério de ferro. Veremos o que acontecerá na China. Os chineses são os principais compradores, portanto se chegarem a um acordo em relação ao preço, tudo bem. Se o preço cair muito depressa, haverá repercussão na balança.

Knowledge@Wharton: Agora que já conversamos bastante sobre a economia mundial e a economia brasileira, vamos falar do seu banco. Num ambiente como o atual, onde o Sr. encontra boas oportunidades de compras?

Mariani: Estamos perfeitamente a par da situação do crédito no Brasil. A carteira não vai crescer — é impossível fazê-la crescer —, mas as operações realizadas serão de melhor qualidade, muito mais lucrativas, porque sabemos o que os clientes querem de fato e que tipo de garantia temos de ter. No fim das contas, essa é nossa especialidade aqui.

Knowledge@Wharton: Quais são suas principais prioridades para os próximos dois ou três anos em relação à continuidade das operações do banco?

Mariani: Cultivamos um bom relacionamento com nossos clientes, portanto achamos que temos espaço para crescer quando a crise acabar.

Enquanto isso, não sei exatamente o que vai acontecer com o sistema financeiro mundial. No Brasil […] o governo garante oficialmente os grandes bancos de forma explícita. Veremos de que modo vamos lidar com isso, uma vez que tal garantia não se estende aos bancos de menor porte como o nosso.

Veremos como nosso passivo se comporta quando tivermos de lidar com clientes que terão de escolher entre um banco não-estatal, porém garantido pelo governo, e os outros. Isso mudará nossa política, uma vez que talvez não tenhamos um portfólio muito expressivo em nosso balanço de pagamentos — afinal de contas, não arriscamos nossa liquidez. Isto, para nós, é quase com que um princípio religioso.

Não sei bem ainda o que vai acontecer daqui a seis meses. No Brasil, creio que 30% do nosso mercado financeiro já está em mãos de bancos estatais.

Knowledge@Wharton: O BBM é bem conhecido no Brasil, mas para o público da Knowledge@Wharton que talvez não esteja familiarizado com o banco, o Sr. poderia nos falar um pouco sobre sua história e sobre a evolução da empresa?

Mariani: É uma história antiga que começou em meados do século 19. O banco era, inicialmente, um banco do Estado da Bahia que financiava os produtores agrícolas. Nos anos 40, tornou-se um banco de abrangência nacional que, atuando no segmento comercial, financiava o capital de giro em todo o país […] Nos anos 70, deixamos o varejo e passamos a trabalhar no atacado. Desde então, tornamo-nos especialistas em crédito nesse segmento e em proprietary trading. Houve também um outro momento importante: em 1995, o banco abriu-se à participação societária. Em 2001, inauguramos o negócio de asset management em razão da maior sinergia do segmento com a atividade de proprietary trading. Em 2008 interrompemos essa última atividade devido às condições do mercado. Essa é resumidamente a nossa história.

Knowledge@Wharton: Qual a situação do BBM na indústria bancária? Sei que há grandes bancos internacionais no Brasil, como o Santander, e há grandes bancos brasileiros também, como Bradesco e Unibanco. Qual a posição do BBM?

Mariani: No Brasil, há dois grandes bancos privados: Bradesco e Itaú, que agora uniu-se ao Unibanco. Há dois grandes bancos de porte médio, Safra e Votorantim. O Safra é um banco tradicional, já o Votorantim é novato e tem origem no grupo industrial de mesmo nome. Depois vem o BBM juntamente com outros que eram menores do que nós, mas que durante 2006 e 2007 tiveram IPOs e hoje seu valor contábil é um pouco superior ao nosso. Nós não fizemos nenhuma IPO, portanto nossa estrutura ainda é expressivamente de participação societária. Creio que estamos em melhores condições de tirar proveito do futuro imediato. Portanto, essa é basicamente a estrutura bancária brasileira, mas no caso dos bancos de porte médio, há outros tipos de estrutura. Há bancos corporativos como o nosso e bancos de financiamento ao consumidor como o Panamericano, BNG e outros.

Portanto, competimos com outros três ou quatro bancos no segmento de empréstimos corporativos. Nosso concorrente não trabalha com asset management, essa é a diferença. Em termos gerais, essa é a constituição da estrutura privada. Há também a estrutura estatal constituída pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica e por alguns outros bancos estatais de menor porte. Há ainda os bancos estrangeiros, como o Citibank, que obviamente está menos arrojado em suas operações atualmente. O Santander está no Brasil há 12 anos e é bastante dinâmico. Acho que ele sair da crise em excelentes condições.

O HSBC no Brasil atua sobretudo na área de serviços e também tem se saído muito bem. Não sei se estou esquecendo alguém. Estes são os principais bancos estrangeiros.

Knowledge@Wharton: Com relação ao crescimento do BBM e a liderança do banco, o Sr. pensa em expandir suas atividades para o exterior como forma de sair da presente situação?

Mariani: Não, pelo menos não a curto prazo. Creio que haverá muitas oportunidades por aqui. Compreendemos profundamente o país e achamos que dentro de um ano ou dois haverá muitas oportunidades para nós. Ir para o exterior significaria perder o foco nas oportunidades locais.

Knowledge@Wharton: Durante todo o tempo que o Sr. está à frente do banco, qual foi o maior desafio à sua liderança, como o venceu e que lição aprendeu?

Mariani: Creio que foi logo no início, quando tive de aprender a coordenar um banco familiar, sendo que meu objetivo era reunir os melhores profissionais dos mercados financeiros. Foi difícil achar o modelo certo e convencer em seguida os sócios-controladores, os acionistas-controladores, bem como os funcionários do banco. Eu era muito jovem na época, portanto não foi fácil. Hoje, talvez fosse muito mais simples, mas eu era novo e inexperiente na época. Era o início da década de 80, portanto há mais de 20 anos.

Knowledge@Wharton: O que Sr. diria que aprendeu do expediente que utilizou para vencer as dificuldades?

Mariani: É preciso ter disciplina de pensamento […] e não se deixar levar de um lado para o outro impulsionado o tempo todo por opiniões fortes […] Quando olho para os jovens, percebo que se trata de uma qualidade difícil de encontrar.

Knowledge@Wharton: Boa resposta. Uma última pergunta: como o Sr. define o sucesso?

Mariani: Nunca pensei nisso. Acho que o sucesso é diferente para cada pessoa. Para mim, é a capacidade de coordenar as pessoas de modo que elas se sintam mais realizadas tanto no plano material quanto intelectual. Acho que essa é a razão para o que faço. Minha esposa me disse outro dia que ganhar dinheiro é importante para mim, porém, mais importante do que isso é manter o negócio coeso e coordenar as equipes para que persigam o objetivo proposto. É isso o que gosto de fazer.

Knowledge@Wharton: Ótimo. Muito obrigado pela entrevista.

Mariani: Foi um prazer.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Pedro Mariani, do Banco BBM: a crise brasileira sob a ótica de um banqueiro." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [04 February, 2009]. Web. [05 July, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/pedro-mariani-do-banco-bbm-a-crise-brasileira-sob-a-otica-de-um-banqueiro/>

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"Pedro Mariani, do Banco BBM: a crise brasileira sob a ótica de um banqueiro" Universia Knowledge@Wharton, [February 04, 2009].
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