Perspectivas para o private equity na América Latina, Índia e China

A América Latina, Índia e África continuam a ser lugares interessantes para as empresas de PE devido a tendências de superaquecimento de longo prazo, mas o setor avalia com cautela a possibilidade de investir nessas regiões devido a ocorrência de tumultos em certas áreas. No Brasil, a moeda local fortemente desvalorizada torna os negócios mais atraentes, mas existe a percepção de que o mínimo ainda não foi alcançado, por isso o PE prefere manter-se à distância. Atualmente, a Colômbia, Peru e Chile desfrutam de economias mais fortes, porém não são fáceis de achar negócios grandes o suficiente para o setor de PE.  

O PE está bombando no México e na Índia, mas este último país corre riscos por não fazer parte do Tratado Transpacífico. A África apresenta grandes oportunidades para as empresas de PE que queiram introduzir seus serviços financeiros na região, uma vez que boa parte da população não tem conta em banco. Para discutir essas tendências em detalhes, conversaram com a Knowledge@Wharton Michael Rogers, diretor global interino de PE da EY, e Stephen M. Sammut, pesquisador sênior e professor da Wharton.  

Segue abaixo a transcrição da Parte 2 dessa entrevista.

Knowledge@Wharton: Vamos falar da América Latina. Mike, sei que você acompanha a região bem de perto. Contudo, ao examinar alguns dos seus relatórios sobre a América Latina, excluindo-se o México, vemos que a atividade de PE caiu 30% chegando a seu ponto mais baixo desde 2009. Isso se deveu novamente à economia chinesa, à diminuição da compra de commodities e à elevação das taxas de juros. Os problemas políticos que afetam o Brasil obviamente são enormes devido ao que se passou ali. A Argentina também enfrenta dificuldades, assim como a Venezuela. Você poderia nos dar uma visão geral da América Latina?

Michael Rogers: Para isso temos de falar de vários mercados distintos. Havia o pressuposto de que os países da América Latina mantinham, todos eles, um comércio entre si, e o que se vê agora é o esfacelamento dessa atividade. Vimos como o Brasil, a maior economia desse mercado, liderou os demais durante muito tempo. O número de transações realizadas no Brasil tornava praticamente insignificante as realizadas em outros mercados.

Assistimos ao surgimento da Aliança do Pacífico, que ajudou nas reformas dos países envolvidos no processo, tanto da perspectiva do governo quanto da economia. Isso foi benéfico para países como o México, Peru, Chile e Colômbia, que tiveram um melhor desempenho.

O Brasil, o maior dos países da região, passa hoje por uma crise de confiança. O processo de corrupção política que o país vem atravessando transbordou para a economia empresarial. A recessão perdura já há algum tempo. Muita gente está preocupada com suas operações locais, com o que pode acontecer no país. Você mencionou a moeda e o que impulsiona a atividade em um mercado. Se houver nisso alguma verdade, o Brasil seria um caso de grande oportunidade, uma vez que o real se desvalorizou entre 40% e 50% em relação ao dólar. Se você investe em dólar, a hora parece ser oportuna.

Contudo, mesmo com o desconto aplicado a algumas das empresas, ainda há investidores experientes que dizem: “Sabe de uma coisa? A situação ainda pode piorar muito.” Não há muita certeza de que estejam trabalhando com o ponto mais baixo do ciclo de investimento em relação às moedas, por isso temos observado que as pessoas continuam a se manter distantes em alguns casos, embora o PE, muitas vezes, divirja. Quando entra, ele tende a encontrar os pontos certos e a descobrir oportunidades. Muita gente acha que essa talvez seja a situação do Brasil hoje. No entanto, as avaliações não confirmaram o que as pessoas esperavam, o que deverá tolher o fluxo de negócios durante algum tempo. Contudo, achamos que há um grande mercado para o PE a mais longo prazo devido ao volume das transações.

É possível que em algum dos outros países a situação econômica seja um pouco mais robusta. Na Colômbia, Peru e Chile, por exemplo. Contudo, não há muitas empresas de grande escala disponíveis para aquisição. Muitas instituições familiares de menor porte provavelmente precisam passar por um ciclo de comprador inicial, por assim dizer, antes de se profissionalizarem e de se tornarem empresas de grande escala que sejam atraentes para PEs de maior porte. A única economia que teve bom desempenho em um ambiente adverso foi a mexicana. Quando viajamos pelo mundo, as pessoas nos perguntam com frequência quais seriam dois ou três lugares bem vistos pelo PE. Um deles é a Índia, que parece estar no topo das preferências no momento. Outro é o México; o terceiro talvez seja a Colômbia.

O interesse ainda é muito grande por essa área da Aliança do Pacífico, e eu acho que o México soube diversificar sua economia afastando-a do setor de energia, o que a tornou atraente a longo prazo.

Knowledge@Wharton: Vamos falar da Índia agora. Steve, sei que você passou um tempo lá e está mais próximo desse mercado do que de outros. Você poderia nos dar um panorama da forma que as coisas estão tomando na região?

Stephen M. Sammut: A Índia é sempre uma história fascinante porque há tantos países e culturas que convergem para essa coisa única a que chamamos Índia. Persistem no país diferenças estaduais e regionais, mas a tendência geral é positiva. Para ali acorrem o capital de risco e o private equity em função do montante substancial de atividade tecnológica, de tecnologia da informação e de biotecnologia.

O movimento Modi introduziu várias reformas importantes em todos os setores. Acredito que elas consolidarão significativamente a confiança, especialmente nos setores de saúde e de biotecnologia, que é o setor do qual estou mais próximo. O fluxo de capital continuará forte, porém sóbrio, no sentido de que não vejo grandes aumentos no montante de capital que entra no setor. Contudo, creio que permanecerá constante. Pelo menos por enquanto, as avaliações são um pouco mais racionais e lógicas do que costumavam ser. Os empresários e patrocinadores indianos poderão reverter isso com a mudança da rupia, mas isso é positivo. Em todos os setores ─ bens de consumo, educação, saúde, entre outros ─ veremos uma grande quantidade de terreno fértil para investimento.

A única área que continua praticamente aberta, mas talvez seja a mais complexa, é a área de infraestrutura. Se há uma oportunidade em algum lugar para um investimento significativo em infraestrutura, esse lugar é a Índia. Contudo, devido às complexidades do governo, e a maneira bastante descentralizada em que o Estado opera em relação ao governo nacional, esse setor específico continuará a ser um desafio. De modo geral, porém, tenho o pressentimento de que a Índia será um local robusto.

Knowledge@Wharton: Parece que a regulação por parte do governo é um risco ou, pelo menos, uma barreira. Que outras coisas boas estão acontecendo na Índia atualmente? Os preços mais em conta do petróleo ajudaram, uma vez que é um grande importador líquido, mas que riscos persistem em relação ao futuro?

Sammut: Bem, há um em particular: o Tratado Transpacífico. Se posto em prática, poderá ter efeito negativo na Índia, uma vez que ela não é membro do acordo. Com isso, um número maior de atividades econômicas será desviada para outros países da região, possivelmente à custa da Índia, o que poderá levar o país a se realinhar.

Knowledge@Wharton: Mike, qual a sua opinião sobre a Índia?

Rogers: Observamos sem dúvida ali um próspero consumo e baixa inflação. Esse é um mercado emergente que sem dúvida alguma se beneficia dos baixos preços do petróleo. Observamos uma certa ênfase em torno do programa “Make in India”, bem como em torno do “Start-up India” e “Stand Up India”, programas do governo que estão tentando impulsionar as atividades empresariais. Consideramos que sejam positivos de modo geral, e creio que isso está ajudando muitas dessas empresas a seguir em frente e a melhorar a economia do país.

Temos observado uma tendência atual de investimento em PE em setores liderados pelo consumo e pela tecnologia, como o comércio eletrônico e os serviços financeiros. Steve mencionou a saúde, algo que tem repercussão no mundo todo. As empresas de PE com quem temos conversado estão em busca de negócios de grande porte. As melhorias foram feitas pelo governo, mas mesmo nesse âmbito há riscos.

[…] Penso em alguns dos riscos fiscais discutidos, dificuldades que parecem estar reguladas e melhoradas e que, ao mesmo tempo, podem se tornar pontos de gargalo para as transações. O governo indiano mostrou que está disposto a mudar rapidamente suas políticas e isso, às vezes, pode confundir o PE na sua sondagem de pressupostos e tentativas de descobrir onde investir.

Creio também que a concorrência para acordos de PE continuará a acelerar. Mais uma vez, a exemplo de outros mercados dos quais já falamos, não há muitas empresas de grande porte, uma vez que várias delas na Índia cresceram como negócios de família, e esse não costuma ser o modelo adequado ao PE, mas está evoluindo. Vemos grande empresas sendo criadas e crescendo, o que é um bom sinal. Contudo, conforme mencionei, recebemos muitas perguntas do mundo todo, e a Índia realmente aparece no topo dos gráficos de muitos de nossos clientes de PE do mundo todo.

Sammut: Gostaria de dizer que esse é um bom exemplo do que está acontecendo na Índia; é algo em que estive envolvido. Dois anos atrás, divulgamos um relatório, do qual eu fui coautor, sobre os obstáculos na Índia para o crescimento de sua indústria farmacêutica e de biotecnologia. Todas as recomendações que o outro autor com quem trabalhei e eu fizemos sobre o que a Índia precisa fazer foi posto em prática. Vemos um governo que está tentando ser bastante receptivo e que está disposto a remover todos os obstáculos que puder. Acho isso muito estimulante.

Knowledge@Wharton: Vamos falar da África. Durante 2015, o private equity na região foi muito positivo e as saídas de investimentos atingiram uma alta inédita em nove anos, embora as empresas estivessem mantendo por mais tempo, em média, seus investimentos. A pesquisa da EY também mostra que o private equity na África continua a ter desempenho superior aos dos mercados privados. Os serviços financeiros foram novamente o setor mais comum para as saídas. Por favor, explique por que esse setor tem tanta procura.

Rogers: Claro. Obviamente, os serviços financeiros continuam a ser um setor importante para a empresas de PE na África. Na verdade, eles representavam 20% das empresas que tiveram saídas de investimentos de empresas de PE entre 2007 e 2013 ─ e 24% ao longo dos dois últimos anos. Os investimentos cresceram efetivamente. Com base em nossas conversas com os fundos da região, cremos que esse continuará a ser um setor significativo para o private equity.

A África, de modo geral, tem um índice de bancarização extremamente baixo, mas está mudando lentamente. Em 2011, cerca de 24% da população do continente tinha conta em banco. Em 2014, esse percentual já era de 34%. Portanto, as taxas de crescimento são extremamente elevadas e constituem uma oportunidade muito atraente para as empresas de PE. Contudo, creio que há também esse conceito de salto, em que um volume importante de atividades passará de uma situação de baixa bancarização para smartphones, aplicativos e pessoas que usarão os bancos de um modo diferente do modo tradicional com que os bancos físicos foram estabelecidos nesses países. É um modelo diferente, mas creio que é importante entender de que maneira essa tendência está evoluindo ali também.

Sammut: Creio que há uma observação muito crítica a se fazer sobre o modo pelo qual os setores de private equity diferem na África do resto do mundo. Isto é, a maior parte das empresas de private equity na África inclui, entre outros parceiros limitados, instituições financeiras de desenvolvimento (DFIs), como o IFC (International Finance Corporation), e fundos substanciais de democracias sociais do norte da Europa. Portanto, muitos dos fundos de private equity com investimentos na África têm um programa de desenvolvimento e de impacto social. Eles estão ali para ganhar dinheiro, e que ninguém duvide disso, porém as pessoas envolvidas têm uma orientação um tanto diferente. Isso, entre outras coisas, fez com que se desse atenção a dois pilares importantes do desenvolvimento econômico: serviços financeiros e telecomunicações.

Nos últimos dez anos, os investidores de private equity reconheceram que, se não lidarem com essas duas coisas primeiro, dando acesso às pessoas aos serviços dos bancos e permitindo também que elas entrem na era digital, o empreendimento de private equity será uma decepção. É isso precisamente o que vem ocorrendo. Os fundos de private equity têm sido complementares à atividade dos DFIs, os quais muito sabiamente estão usando os fundos de private equity como forma de induzir os fluxos de capitais privados para a região.

É uma história interessante. Estamos começando a perceber um interesse mais diversificado de modo geral, e não apenas na área da saúde, da educação, mas também no segmento de bens de consumo, varejo ─ todos os ingredientes de uma economia diversificada começam a dar as caras. Embora haja perturbações de ano para ano, a tendência geral para a África e para a região subsaariana é bastante positiva. Cada vez mais, empresários e patrocinadores nos países africanos se sentem mais à vontade para trabalhar com os fundos de private equity. O que ainda não vimos é o dinheiro para a conclusão do processo em desenvolvimento, particularmente do capital de risco, que é importante, já que há poucos bolsões de alta tecnologia ─ em Lagos, Nairóbi, principalmente na África do Sul ─ que podem acrescentar outro componente importante para o crescimento econômico da região. O capital ainda é escasso ali, mas acabará tomando o rumo da região.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Perspectivas para o private equity na América Latina, Índia e China." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [03 October, 2016]. Web. [19 June, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/perspectivas-para-o-private-equity-na-america-latina-india-e-china/>

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Perspectivas para o private equity na América Latina, Índia e China. Universia Knowledge@Wharton (2016, October 03). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/perspectivas-para-o-private-equity-na-america-latina-india-e-china/

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"Perspectivas para o private equity na América Latina, Índia e China" Universia Knowledge@Wharton, [October 03, 2016].
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