Peru e Chile: uma história de sucesso nos negócios ofuscada pela política

As relações políticas entre Chile e Peru avançam por caminhos tortuosos marcadas por desacordos de fronteiras e pelas feridas de um antigo conflito armado — a Guerra do Pacífico (1879-1884). Nessa conflagração, o Chile lutou contra o Peru e a Bolívia e, como consequência da vitória do primeiro, as províncias peruanas de Arica e Tarapacá — regiões ricas em salitre e cobre — passaram a ser território chileno. Já os negócios entre ambos os países parecem ir de vento em popa.

Foi o que se viu, no último mês de agosto, quando o maior conglomerado empresarial do Peru, o Grupo Brescia, cujas vendas totalizaram US$ 3,250 bilhões no final de 2008 como consequência de negócios realizados por instituições bancárias, de mineração, hotelaria, saúde, indústria química e agrícola. O grupo aportou no Chile para a execução de uma operação importante: a aquisição de 80% da Lafarge Chile — ex-cimentos Melón —, a maior companhia de cimento do país.

De acordo com Mario Brescia, presidente do grupo, em declaração dada ao jornal chileno El Mercúrio, “nunca tínhamos nos defrontado com uma possibilidade tão concreta quanto essa. Há muitos anos buscamos oportunidades no Chile”. O executivo explicou também que os planos do conglomerado no país envolvem, além de cimento, a prospecção de uma jazida de ouro, construção de usinas petroquímicas e projetos de menor porte, quase todos em parceria com sócios chilenos.

Para Juan Garrido, professor da Faculdade de Economia e de Negócios Internacionais da Universidade Peruana de Ciências Aplicadas (UPC), “o maior volume de negócios entre Chile e Peru, a princípio, expõe as empresas peruanas a métodos de produção e de práticas empresariais mais avançadas. Isto porque as empresas chilenas puderam desfrutar de período mais extenso de estabilidade macroeconômica, e com isso puderam aperfeiçoar seus processos empresariais de uma forma tal que as companhias peruanas não puderam imitar. Trata-se, portanto, de uma oportunidade, de um ambiente mais competitivo para as empresas peruanas”.

Possível solução para problemas históricos

Garrido salienta que “quanto mais intensa for a relação comercial entre Peru e Chile, maior será o alinhamento de interesses entre ambas as nações, o que permitirá resolver problemas históricos que hoje restringem o aproveitamento de oportunidades de cooperação, inclusive em esferas não-econômicas”.

Já Leonardo Liberman, professor da Escola de Negócios da Universidade Adolfo Ibañez (UAI), do Chile, vai ainda mais longe e classifica a fusão entre o Grupo Brescia e a chilena Lafarge como sinal de integração econômica regional. “A incursão do conglomerado peruano no Chile é sinal de que essa região da América Latina se prepara para entrar em uma fase de integração econômica e comercial sem precedentes acompanhada de uma série de investimentos estrangeiros diretos na região e por empresas da própria região. Quase toda a informação disponível no mercado sinaliza que essa integração começará na próxima década e se caracterizará por uma franca expansão das companhias latinoamericanas no continente por meio de aquisições, fusões, alianças e joint ventures”, explica o professor.

Já para Beatrice Avolio, professora do Centro de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Peru, a operação do Grupo Brescia é “uma exceção à regra. Não vejo, no futuro imediato, empresários peruanos entrando no Chile em negócios de grande porte e com margens maiores do que poderiam obter no Peru. Em outras palavras, se os grupos chilenos estão crescendo no Peru, por que os empresários peruanos apostariam em um mercado já maduro como o chileno?”

José Noguera, professor do Departamento de Economia da Universidade de Santiago do Chile (USACH), fala sobre o impacto positivo da aquisição do Brescia para a indústria do cimento, tanto no Chile quanto no Peru. “Espera-se uma maior integração vertical entre os dois países, especialmente no mercado de cimento e em setores que utilizam o cimento como insumo em seus processos produtivos. Serviços como consultoria, contabilidade, publicidade e marketing serão também favorecidos, sobretudo no Peru. De igual modo, é provável que aumentem as exportações chilenas de cimento para o Peru.”

Mais de uma década de negócios entre Peru e Chile

Gonzalo Jiménez, professor da Escola de Negócios da Universidade Adolfo Ibañez, explica que os negócios entre Peru e Chile não são um fenômeno novo. De fato, eles já ocorrem com certa intensidade há dez anos. “Faz muito tempo que o Chile exporta seu modelo de varejo para o Peru, enquanto este último compartilha suas experiências na área de mineração. O Peru exporta sua célebre gastronomia para o Chile, enquanto este exporta produtos industriais de tecnologia mais sofisticada para o Peru. São várias as empresas chilenas que decidiram explorar novas oportunidades no Peru.”

“O que se disse anteriormente se deve, principalmente, ao fato de que hoje o mercado peruano tem um potencial maior de crescimento em relação ao chileno”, observa Avolio, “o que torna o Peru um destino mais atraente para os investimentos das empresas chilenas e de outros países do mundo”.

Garrido diz que “o Chile é um mercado menor, cuja localização geográfica o deixa relativamente distante dos grandes fluxos econômicos mundiais. É por esse motivo que há um limite para a expansão do mercado interno. Somente a internacionalização possibilitará às empresas chilenas alcançarem níveis mais elevados de crescimento”.

“Hoje é possível observar no Peru várias lojas chilenas de departamentos, como Falabella e Ripley, Farmácias Ahumada, Casa & Ideas, Homecenter Sodimac e Easy — artigos para o lar e construção —, entre outras”, exemplifica Jiménez. Já o investimento peruano no Chile é bem menor, observa Noguera.

Não obstante tudo isso, Jiménez diz que “os capitais peruanos no Chile provêm dos conglomerados empresariais dominados pela família dos Romero, que investiram nos bancos chilenos, e pelos Wiese, que têm participação importante na indústria chilena do varejo. Não devemos nos esquecer tampouco dos empresários da área de gastronomia, Gastón Acurio e Emilio Pescheira, cuja incursão no Chile foi bem-sucedida”.

Fracassos comerciais dos dois países

Apesar desses dez anos de relação empresarial de sucesso entre Peru e Chile, “houve episódios bastante lamentáveis na relação comercial dos dois”, observa Garrido. “Foi o caso, por exemplo, da Aero Continente — companhia comercial aérea peruana que operou no Chile entre 1999 e 2001. A empresa enfrentou acusações judiciais de lavagem de dinheiro para o narcotráfico, tanto no Peru quanto no Chile e EUA. Não podemos nos esquecer também da companhia chilena de alimentos Luchetti, acusada de corrupção no Peru”.

Em 2002, a Luchetti foi acusada de tráfico de influência. A empresa teria solicitado “favores” a representantes do poder judiciário peruano para construir uma fábrica em uma área do país considerada protegida por razões ecológicas.

Contudo, Jiménez ressalta que “a novidade no caso do Grupo Brescia é que ele rompe com a tendência que vinha se firmando nos últimos tempos na dinâmica comercial entre ambos os países, em que a maior parte dos investidores eram chilenos que investiam no Peru”.

É o que pensa também Jorge Torres, professor do Centro de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Peru, para quem “até há pouco tempo os negócios entre Chile e Peru se resumiam à incursão de capitais chilenos no mercado peruano. Um dos exemplos mais emblemáticos disso foi a compra dos supermercados Wong, do Peru, pela chilena Cencosud — uma transação avaliada em US$ 500 milhões e que foi concretizada em dezembro de 2007. Somente agora começaram os investimentos peruanos no Chile com os Brescia”.

As temidas barreiras políticas

Jiménez adverte para o fato de que as temidas barreiras políticas poderiam constituir um freio à maior integração comercial entre ambos os países. “O único receio dos empresários chilenos é de caráter político. Embora com o presidente Alan García à frente do governo o Peru trilhe hoje o caminho da estabilidade e do crescimento econômico, há um certo receio de que com uma nova e futura administração do país, mais populista e mais próxima da órbita de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, o espaço para os empresários chilenos fique menor. Contudo, conforme mostram as pesquisas no Peru, a possibilidade real de que isso aconteça é muito pequena.”

Noguera também aponta o plano político como empecilho importante ao desenvolvimento comercial de ambos os países. “As relações diplomáticas entre Peru e Chile ficaram um pouco tensas nas últimas semanas, embora eu não espere maiores consequências no plano econômico. Isto porque os investidores já estão acostumados à inquietação decorrente de instabilidades políticas. Creio que o resultado das próximas eleições presidenciais no Chile — em dezembro de 2009 — poderá influenciar essa tendência.”

Garrido diz que há obstáculos políticos imensos no inconsciente coletivo peruano que impedem o aproveitamento total das oportunidades de desenvolvimento econômico entre Chile e Peru. “Há reações do tipo nacionalista diante da entrada de capitais chilenos em setores estratégicos do Peru como, por exemplo, portos e aeroportos, o que impede o aproveitamento total dos negócios entre ambos os países. Esse nacionalismo provém, em parte, de certos grupos políticos, que se aproveitam das feridas deixadas por uma guerra antiga”, observa Garrido em referência à guerra do Pacífico.

Obstáculos administrativos e culturais

Avolio cita outras barreiras de caráter administrativo para a concretização de negócios entre ambas as nações. “Os empresários chilenos que pretendem incursionar pelo mercado peruano poderão enfrentar também obstáculos do tipo administrativo em vista do excesso de formalidades existente na indústria peruana. Poderão encontrar também um cenário de instabilidade legislativa maior se comparado com o Chile.”

Liberman acrescenta a isso as diferenças culturais, que são também um desafio para as instituições peruanas que pretendam operar no Chile. “Há certas divergências culturais como, por exemplo, a percepção e o uso do tempo. A cultura chilena é mais rigorosa, com um sentido de urgência maior em relação à cultura peruana. Outro aspecto é o da diferenciação dos papéis associados aos sexos, que no Chile gozam de um equilíbrio maior em relação ao Peru.”

Apesar dos enormes empecilhos políticos, administrativos e culturais, Liberman ressalta que “este ano entrou em vigor o Acordo de Livre Comércio entre Peru e Chile em substituição ao Acordo de Complementação Econômica, de 1998, que regia as relações entre ambos os países desde aquela data”.

“Esse novo convênio confere respaldo jurídico aos investimentos oriundos de ambos os países e emprega mecanismos de solução rápida para controvérsias associadas aos investimentos e ao comércio. Esse marco comercial dará maior potencial ao intercâmbio bilateral, reforçando o fluxo recíproco de capitais e a concretização de investimentos estrangeiros diretos com benefícios importantes para o empresariado do Chile e do Peru.”

Sucessos e fracassos do Grupo Brescia

Tudo o que foi dito acima deveria, sem dúvida, servir de trampolim para a concretização dos objetivos comerciais traçados pelo Grupo Brescia no Chile, cujos êxitos, para Torres, superam em muito seus poucos fracassos. O Brescia planeja a construção de um grande hotel em pleno centro financeiro e comercial do distrito peruano de San Isidro. Além disso, o grupo supervisiona a fusão da Sipesa — empresa pesqueira do grupo — com a Tasa, companhia de alimentos também do Brescia.

“É preciso frisar que o conglomerado Brescia é dono de 40 empresas diferentes com atuação em vários setores da indústria peruana, consolidando-se como principal instituição empresarial do Peru”, acrescenta Liberman.

Avolio lembra que na década de 80, a empresa Scala — lojas de departamentos — do Brescia, não prosperou como planejado inicialmente pela empresa. “São conhecidos também seus fracassos com a Sociedade Anônima Mercantil de Lima — distribuidora de bens de consumo — e com a Têxtil Unión. Algumas das causas por trás desses fracassos foram a inflação elevada e a desvalorização que caracterizaram os anos 80”.

Liberman reafirma sua tese de que a fusão do Brescia com a chilena Lafarge é o pontapé inicial para a integração econômica da região. A isso, diz ele, soma-se “a integração das bolsas de comércio do Chile, Peru e Colômbia, prevista para o fim de 2010. Isso aumentará o fluxo de capital entre esses países e o investimento direto, sem fronteiras, em mais de 560 empresas”.

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"Peru e Chile: uma história de sucesso nos negócios ofuscada pela política." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [07 October, 2009]. Web. [31 October, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/peru-e-chile-uma-historia-de-sucesso-nos-negocios-ofuscada-pela-politica/>

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