Por que as companhias aéreas de baixo custo estão de olho nos mercados em expansão da América Latina

A Airbus é responsável por cerca de metade dos aviões de passageiros a jato do mundo, entre eles o maior de todos, o A380. Pode parecer surpreendente, portanto, saber que o maior pedido de aviões já feito à francesa Airbus na América Latina não vem de pesos pesados como o Grupo LATAM, do Brasil, ou da colombiana Avianca, e sim de uma companhia especializada em voos curtos entre a Cidade do México, Monterrey, e destinos domésticos próximos: a VivaAerobus.

No final de outubro, a VivaAerobus fez um pedido de 52 A320, principal aeronave de média distância da Airbus, com capacidade para até 220 passageiros. Foi uma aquisição elevada para uma empresa que faz apenas um destino internacional. Contudo, se analisarmos em retrospecto a empresa, teremos um quadro mais abrangente: a empresa é um empreendimento de risco de uma das companhias de baixo custo mais destacadas da Europa, a Ryanair, e da IAMSA, companhia mexicana de transporte de grande porte. "Essa decisão dará suporte à nossa estratégia de crescimento", disse Juan Carlos Zuazua, CEO da VivaAerobus, em um comunicado à imprensa, "já que nos permitirá reduzir ainda mais nossas passagens, que são líderes na indústria, e aumentará a vantagem de custo por assento que temos atualmente em relação à concorrência".

O custo por assento nos aviões da VivaAerobus é fundamental para a estratégia de crescimento da empresa, uma vez que sua estratégia de expansão procura tirar proveito da relativa escassez de companhias de baixo custo no México e na América Latina de modo geral.  Na verdade, há tão poucas companhias aéreas que operam com tarifas mais baratas no México que a VivaAerobus não tem tanta concorrência assim, já que é uma divisão de uma de suas empresas matrizes, a IAMSA. Esta é a maior operadora de ônibus no México. A viagem de ônibus há muito tempo é símbolo do transporte doméstico e regional na América Latina: imagine um ônibus velho percorrendo com dificuldade as montanhas da Colômbia ou o deserto do México, cheio de bagagens e coisas amarradas no teto. Contudo, o comprimento da viagem e seu custo relativamente alto criou uma oportunidade para as companhias de baixo custo, dizem os observadores.

Com uma população de cerca de 600 milhões. A América Latina e o Caribe são um dos mercados mais mal servidos pelas companhias aéreas de baixo custo, uma categoria definida por vários fatores, entre eles passagens mais baratas, poucas regalias, cabines sem divisão de classe e, em alguns casos, passagens vendidas exclusivamente pela Internet. Existem apenas seis companhias domésticas desse tipo na região. Isto fez da América Latina um dos mercados em crescimento mais promissores para as empresas do setor, segundo analistas. O desenvolvimento da indústria poderia alterar radicalmente o sistema de infraestrutura da região impulsionando ao mesmo tempo o crescimento econômico em áreas anteriormente isoladas. Contudo, os especialistas advertem para o fato de que construir um mercado desse tipo é mais difícil do que as empresas imaginam. Para toda história de sucesso fartamente alardeada, há dezenas de companhias falidas cujos restos estão enferrujando nos hangares dos aeroportos.

Um grande potencial

Para muitos, o exemplo por excelência da companhia aérea de baixo custo é a Southwest Airlines, empresa americana que dava lucro quando a maioria das empresas do setor tinha prejuízos, e que fez desse tipo de voo, se não uma experiência glamourosa, pelo menos uma tendência. Na esteira da desregulamentação de 1978, a Southwest, uma empresa do Texas, inaugurou esse mercado priorizando os voos diretos em aeroportos subutilizados por uma fração do preço da passagem cobrada pelas companhias maiores e mais bem estabelecidas. Ela não foi a primeira empresa desse tipo, porém o sucesso da empresa fez com que outras do mundo seguissem seu modelo.

A tendência, porém, não chegou à América Latina. As companhias de baixo custo operam apenas no Brasil, México e Colômbia, de acordo com uma análise publicada pela Airline Leader de setembro. As empresas americanas e europeias que comercializam passagens mais baratas também servem a América Latina e o Caribe, mas são vários os países, entre eles o Chile, Peru e Panamá onde a penetração do setor é praticamente nula.

O Centro de Aviação, com sede na Austrália, informou que a América Latina "oferece oportunidades significativas para as operadoras de baixo custo, dado o crescimento da classe média na região e a penetração minúscula das empresas de baixo custo fora de seus dois maiores mercados", Brasil e México.

De acordo com o centro, a viagem aérea com desconto na região tem o potencial de crescimento muito parecido com o da Southwest Asia. A região conta com 22 companhias aéreas de baixo custo, de acordo com o centro. "A demanda está crescendo impulsionada por economias fortes e pelo incentivo ao fortalecimento do comércio regional e menor dependência dos laços econômicos tradicionais com os EUA e a Europa", informou o centro em um relatório sobre viagens aéreas na região no início do ano.

O crescimento das viagens aéreas de baixo custo na América Latina já está repercutindo positivamente nos lucros das fabricantes de aeronaves. A compra do Airbus pela VivaAerobus é exemplo da demanda acentuada de novos aviões na América Latina. A Airbus prevê que as linhas aéreas latino-americanas encomendarão 2.307 novos aviões até 2031 para atender o crescimento do tráfego. A fabricante estima que o tráfego aéreo na região deverá crescer a uma taxa anual de 5,2% no decorrer dos próximos 20 anos, isto é, mais rapidamente do que a média mundial de 4,7%. A empresa atribui esse crescimento à ascensão da classe média e à maior renda disponível da população, sobretudo nas grandes economias, como a do Brasil e a do México.

Ar x Ônibus

A classe média cresceu em torno de 50% na América Latina na década passada, de acordo com números do Banco Mundial. Uma classe média maior — que representa atualmente 30% da população total da região — significa mudanças no mercado de transporte.

Como consequência, as empresas de baixo custo não estão apenas competindo com as companhias aéreas existentes, mas também com as empresas de ônibus. O Wall Street Journal comparou recentemente o custo de uma viagem entre cidades muito procuradas no Brasil, Colômbia e México, os três países onde há companhias aéreas de baixo custo em operação. O jornal constatou que essas empresas tinham passagens bem mais baratas do que as de grande porte (o valor chegava à metade), e, talvez, o que é surpreendente, mais baratas até que a passagem de ônibus. Por exemplo, uma viagem da Cidade do México a Reynosa custa US$ 78,50 de ônibus e apenas US$ 45 em uma companhia aérea de baixo custo, informou o Journal. O tempo de viagem também era drasticamente mais rápido — 12 horas de ônibus e 1,5 hora de avião.

A concorrência com essas linhas de ônibus de longa distância ajudou a Volaris do México a crescer rapidamente desde que começou a operar em 2006. Em sete anos, a empresa que inicialmente operava cinco rotas, passou a operar 95 e ampliou sua frota de 4 para 44 aviões. A empresa serve atualmente 33 cidades do México e 13 destinos nos EUA. Em outubro, a companhia informou que havia transportado 608.000 passageiros, o que representa um crescimento de 27,5% em relação ao ano anterior.

"Os mexicanos queriam viajar, mas não podiam por causa do alto custo das passagens. Foi então que percebemos a oportunidade de criar uma linha aérea de baixo custo", diz Andres Pliego, diretor de relações de investimentos da Volaris e aluno do programa EMBA da Wharton em São Francisco. "Quando analisamos o número de viagens per capita, vemos que o México está bem abaixo da média mundial. Isto se deve ao enorme mercado local de passageiros de ônibus. Portanto, criamos um modelo de negócio que atenderia a esse mercado."

Hoje, a Volaris conquistou 25% do mercado mexicano, observa Pliego. "Um fator fundamental para nosso sucesso foi que, além da estratégia de preços baixos, fomos os primeiros a introduzir o modelo ponto a ponto no país, conectando os destinos diretamente sem a necessidade de passar por um aeroporto central ou de entroncamento de conexões." Pliego acrescenta que a empresa espera usar esse enfoque, semelhante ao empregado pela Southwest, para ampliar as ofertas domésticas e internacionais acrescentando, futuramente, voos para o Caribe, América Central e Canadá.

O sucesso da Volaris fez com que a IAMSA, operadora de linhas de ônibus, lançasse a VivaAerobus em 2006. Juntas, a Volaris e a VivaAerobus são tidas como a razão principal para que a Mexicana, uma das duas principais companhias aéreas do México ao lado da Aeromexico, fechasse as portas em 2010. O crescimento da Volaris, que fez uma bem-sucedida oferta inicial de ações na bolsa de valores da Cidade do México e de Nova York (NYSE), em setembro, é um exemplo da demanda de linhas aéreas de baixo custo na América Latina, diz Pliego.

"Tradicionalmente, havia apenas empresas antigas de grande porte que ofereciam passagens caras. Isso gerou uma dinâmica em que havia um fluxo constante de passageiros que não crescia", diz. "Agora, o que está mudando, na minha opinião, é o sucesso comprovado de modelos de negócios como o nosso. As empresas de baixo custo, como a Volaris, dão às pessoas a oportunidade de viajar para seu destino pelo mesmo preço da passagem de ônibus. Não há dúvida de que isso estimula o mercado de aviação e o fluxo de passageiros."

"Gol" do Brasil

O líder inconteste entre as seis companhias aéreas de baixo custo na América Latina é a brasileira Transportes Aéreos Gol, cujas operações comerciais remontam a uma década apenas. Hoje, a empresa tem capacidade para transportar pouco mais de um milhão de passageiros semanalmente. A companhia foi lançada pelo Grupo Áurea, que também administra uma das maiores empresas de ônibus intermunicipais do Brasil.

A empresa começou a funcionar num momento em que a indústria de aviação do país passava por grandes mudanças. Em 2002, os órgãos reguladores do setor desregulamentaram os preços das passagens, que antes eram fixados pelo governo. A Gol aproveitou essa mudança para competir com base no custo. O primeiro voo da empresa foi de Brasília a São Paulo. Desde então, a Gol conquistou uma parcela significativa do mercado interno oferecendo passagens mais baratas entre as grandes cidades brasileiras.

Hoje, a empresa é a segunda maior companhia aérea do país depois da TAM, uma das empresas que compõe a LATAM Linhas Aéreas, líder de mercado na América Latina. A Gol representa 47% de toda a capacidade das operadoras de baixo custo no Brasil, de acordo com dados de um estudo da Airline Leader.

O efeito do crescimento da Gol foi o de aumentar o mercado total reduzindo, ao mesmo tempo, o preço das passagens, criando assim um setor mais competitivo no país e pondo- no caminho do crescimento. Desde 2002, o custo médio da passagem nas principais rotas do país caiu pela metade, de acordo com Eduardo Sanovicz, presidente da Associação Brasileira de Companhias Aéreas.

"À medida que o preço médio da passagem foi caindo — e desde 2003 vivemos um período de inclusão social e de aumento na renda média da população brasileira — houve uma diferença enorme nos limites da aviação brasileira", diz Sanovicz. "Passamos de 30 milhões de passagens aéreas vendidas no país em 2002 para algo em torno de 100 milhões em 2012, incluindo-se aí voos domésticos e internacionais. Isto fez do Brasil o terceiro maior mercado doméstico" do mundo depois dos EUA e da China.

Sanovicz prevê que o país deverá crescer ainda mais. Até 2020, acrescenta, o mercado brasileiro terá mais de 200 milhões de passageiros ativos, e a indústria do setor aéreo contribuirá com um acréscimo futuro de 2% no produto interno bruto do país.

Felipe Monteiro, pesquisador bolsista do Wharton’s Mack Institute for Innovation Management e professor de estratégia do INSEAD, na França, diz que o crescimento das viagens aéreas está diretamente relacionado com os avanços econômicos feitos pelo Brasil. "O papel da classe média emergente no Brasil — e estamos falando de aproximadamente  40 milhões de pessoas em dez anos — foi essencial para a elevação da demanda das viagens regionais", observa Monteiro, ex-analista sênior do Banco do Brasil. "Nos voos regionais no Brasil, é comum depararmos com pessoas que estão viajando pela primeira vez."

Contudo, apesar de todas as oportunidades que parece haver no Brasil, o mercado interno é dominado por um pequeno grupo de empresas. Em 2012, apenas quatro companhias aéreas, entre elas a Gol, respondiam por 99% de todas as vendas de passagens no país.

O sucesso da Gol não fez com que as companhias de baixo custo acudissem rapidamente para o Brasil. A única empresa que surgiu desde então, a Azul, tem crescido constantemente. Com o início de suas atividades comerciais em 2008, a Azul vem crescendo rapidamente, tendo conquistado 17% do mercado interno nos primeiros sete meses de 2013, de acordo com a Associação Brasileira de Companhias Aéreas. A Azul decidiu em maio ampliar sua frota e o número de destinos através de uma oferta pública inicial de ações para levantar capital. Contudo, a empresa retirou a oferta em agosto devido ao crescimento moroso da economia brasileira e informou que faria novamente a IPO quando a economia se recuperasse, provavelmente em 2014.

Prováveis nós

Levantar capital e disputar mercado com empresas de grande porte são possíveis obstáculos sérios para as companhias de baixo custo que chegam à América Latina, observa W. Bruce Allen,  professor emérito de economia e políticas públicas da Wharton.

"Quando analisamos essas histórias de sucesso, o que observamos é a existência de um número pequeno de empresas bem-sucedidas, como a Southwest, Spirit e outras. Por outro lado, centenas fecharam as portas porque não puderam proporcionar o serviço a que se propuseram, gastaram o que tinham e, basicamente, não puderam competir com as grandes", diz.

Allen acrescenta que as barreiras à entrada do mercado de baixo custo são menores do que nunca. "É possível locar aviões, espaço nos aeroportos, os passageiros pagam as taxas do controle aéreo e os custos podem ser bem baixos", diz.

Allen cita o caso do mercado asiático, particularmente a Índia, como exemplo de região em que as empresas de baixo custo inundaram um mercado que parecia promissor. "É verdade que nos países latino-americanos, a classe média está crescendo, e foi o que aconteceu na Índia, cuja população é 1,2 bilhão, sendo que muitas dessas pessoas entraram para a classe média bem depressa", diz. "Vieram então todas aquelas novas empresas e, de repente, podia-se ir para qualquer parte do país por um preço bem reduzido."

Contudo, não muito tempo depois de iniciar suas operações, várias daquelas empresas que chegaram com tanto alarde ao mercado de baixo custo na Índia fecharam as portas, inclusive a Kingfisher Airlines, que tinha o respaldo de um dos maiores conglomerados do país. A experiência indiana deve servir de lição para a América Latina, diz Allen. "Depois de iniciadas as operações, a realidade é que difícil fazer com que deem certo."

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Por que as companhias aéreas de baixo custo estão de olho nos mercados em expansão da América Latina." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [18 December, 2013]. Web. [16 November, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/por-que-as-companhias-aereas-de-baixo-custo-estao-de-olho-nos-mercados-em-expansao-da-america-latina/>

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"Por que as companhias aéreas de baixo custo estão de olho nos mercados em expansão da América Latina" Universia Knowledge@Wharton, [December 18, 2013].
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