Por que a eleição na França é decisiva para a Europa e para o mundo

Os olhos do mundo estavam voltados para a França no domingo, 7 de maio, à espera do segundo turno da eleição presidencial. Embora os dois candidatos fossem estranhos aos principais partidos políticos da França, o vencedor final, Emmanuel Macron, é visto como homem de centro, favorável às empresas, cosmopolita e liberal em questões sociais, ao passo que sua oponente, Marine Le Pen, seria uma política de extrema direita, populista e contrária aos imigrantes e aos EUA. As apostas nessa eleição foram altas por muitas razões, tanto dentro quanto fora do país, em parte porque Le Pen havia dito que queria cortar ou reduzir drasticamente o envolvimento da França na UE e na zona do euro.

“Esta é uma eleição decisiva não apenas para a França, mas também para a Europa e o mundo”, disse Geoffrey Garrett, reitor da Wharton, ao apresentar Gérard Araud, embaixador da França nos EUA. Em recente conversa com a Wharton pouco antes da eleição, Araud fez alguns prognósticos sobre o seu resultado e disse o que achava sobre a ascensão do populismo e do nacionalismo na Europa ─ tendências que se refletiram na candidatura de Le Pen, no Brexit e na eleição de Donald Trump.

Ao comparar o atual momento político francês com o dos EUA, ele disse: “A polarização dos partidos políticos é de tal ordem que será certamente muito difícil, extremamente difícil, para muita gente da esquerda ─ e também para muitos da direita ─ votar em Macron.” Ele disse que o principal candidato da extrema esquerda, que havia perdido a eleição no primeiro turno, havia se recusado a endossar Macron. Isso mostrou como o país estava polarizado.

Araud acrescentou ainda que se pressionado a prever um resultado, diria que há “70% de chance de Macron ganhar” ─ e Macron acabou vencendo por um percentual de 66% dos votos, um desfecho melhor do que o esperado. A vitória de Le Pen, disse Araud, teria colocado em risco a estabilidade financeira da Europa.

“Se Marine Le Pen tivesse sido eleita, ela […] tiraria a França da União Europeia (esse era seu desejo), ou tiraria a França da zona do euro […] No dia seguinte ao da sua eleição, todos tiraria praticamente todo o seu dinheiro da França”, disse. Ele comparou a situação com a da Grécia por volta de 2010, quando as pessoas acreditavam que o país talvez abandonasse o euro, e o que se viu em seguida foi uma crise financeira.

(Para obter mais informações sobre o resultado da eleição na França, a K@W conversou com João Gomes, da Wharton, e Oliver Chatain, da Escola de Negócios HEC, depois que o resultado foi anunciado).

Uma crise real

“Nunca a situação política nos EUA e na França foi tão parecida”, disse Araud ao observar que “estamos diante da mesma rebelião por parte de nossos cidadãos”. Ele acrescentou que esse epifenômeno podia ser observado em outras democracias também. As ideologias populistas estão em alta.

Alguns eleitores estão expressando simplesmente sua desilusão com a esquerda e com a direita política, e estão prontos para lançar os dados, ressaltou. Há uma divisão profunda entre esse grupo e o grupo a que ele chama de “elites”: gente mais instruída e com padrão de vida superior ─ uma categoria em que ele mesmo se inclui.

Araud observou que durante a eleição do ano passado, “94% de Washington, D.C., votou em Hillary [Clinton] […] e até mesmo republicanos votaram nela”. Os que votaram em Trump estavam simplesmente insatisfeitos, disse, e os que não votaram nele não prestaram atenção à crise real que as pessoas estavam vivendo.

Araud acrescentou que por causa da automação e da globalização, não tardará para que inúmeros postos de trabalho sejam fechados. Muitos americanos, por exemplo ─ 3,5 milhões ─ são motoristas de caminhão. Muitas rotas de caminhões são rotineiras e não mudam muito no dia a dia, e com isso cresce a ameaça de numerosos caminhões para os quais não haverá motoristas.

“O que faremos com esses motoristas?”, indagou Araud. “Imediatamente, as pessoas dirão que eles terão de se ‘reciclar’. Bem, boa sorte. O que vamos fazer com o motorista de 45 anos? Como faremos para reciclá-lo ─ para fazer o quê? Essa é a pergunta que não quer calar.”

O livre comércio é outra fonte de tormento para a classe trabalhadora, disse Araud. Sempre se soube que haveria perda de emprego em alguns lugares e aumento de postos de trabalho em outros, mas a crença generalizada era que o resultado líquido seria positivo. “Infelizmente, as pessoas que estão sofrendo já sofriam, por isso agora estão dizendo basta.”

Garrett concorda: “Os manuais de economia estão certos quando dizem que há amplos benefícios econômicos com a globalização, mas há também perdedores, e nós não temos nos debruçado tanto quanto deveríamos sobre […] as raízes da questão.”

Araud acrescentou que não deveríamos tratar o livre comércio como se fosse um negócio qualquer ─ nos concentrando unicamente na economia ─, mas temos de levar em conta também os interesses sociais e ambientais. “A rebelião não cederá da noite para o dia. Ela só cederá se a enfrentarmos.” Será preciso gente com imaginação, ousadia e altruísmo para lidar com o problema, disse, recomendando a americanos e europeus que trabalhem juntos para chegar a soluções comuns.

Francês ou americano

Há um sentimento de nacionalismo entrelaçado às raízes econômicas do populismo, disse Araud: o que significa ser francês, ser americano. “A expressão da crise econômica se manifesta, com muita frequência, sob o manto da identidade nacional.” Isso, não raro, leva a questões sobre imigração e, nesse caso, sobre imigração muçulmana, que foi o ponto crítico da eleição americana, do Brexit e agora da eleição francesa.

Araud, cuja experiência considerável no Oriente Médio o levou a ser o negociador francês na questão nuclear iraniana de 2006 a 2009, discorreu sobre alguns dos desafios que a França terá de enfrentar em relação à sua comunidade muçulmana. Ele observou que a França tem uma população muçulmana maior do que a dos EUA (8% na França e 1,5% nos EUA), com perfil demográfico diferente. Garrett explicou que os muçulmanos dos EUA são, via de regra, mais instruídos e geograficamente dispersos, ao passo que na França o que se passa é o oposto disso. A população muçulmana é jovem, bem menos instruída e está concentrada nas periferias das cidades, o que constitui “um enorme desafio para todos os partidos políticos”.

Araud disse que o desemprego nesse grupo é um problema constante. A taxa de desemprego na França ficou em torno de 8% nas últimas duas décadas, mas hoje está em 10%. E como é de praxe em qualquer país, disse ele, os imigrantes, ou aqueles em situação mais desvantajosa social e economicamente, são as primeiras vítimas do desemprego.

Ele apontou vários outros desafios à assimilação dos seguidores do islã na democracia secular e liberal da França de hoje. (De modo geral, a prática religiosa na França é pouco significativa, 4,5%, disse, e o país está longe de ser cristão). Em primeiro lugar, uma onda de fervor religioso vindo de países muçulmanos é o que diferencia a segunda e a terceira gerações da primeira geração de muçulmanos.

Araud comentou uma visita que fez ao Egito na década de 70: “Ninguém, mulher alguma, usava véu […] Podia ser facilmente o sul da Espanha, o sul da Itália […] não havia diferença. Vá hoje ao Cairo e você verá a mudança.”

Embora a tendência da prática religiosa islâmica tenha se acentuado, faltam à França instalações para acomodá-la. Enquanto cristãos e judeus franceses herdaram milhares de igrejas e sinagogas, disse ele, não há praticamente mesquita alguma. Como o Estado francês é secular atualmente, ele não pode financiar nenhuma mesquita. Não pode também usar fundos para o treinamento de ímãs “para que possam lidar com os muçulmanos em uma democracia liberal”.

De acordo com Araud, há esforços em andamento na França em busca de soluções, ao mesmo tempo que a sociedade luta para lidar com as demandas de algumas facções muçulmanas. “Há pessoas que vêm até nós e dizem: ‘Queremos um dia de piscina para mulheres.’ Ou: ‘Não queremos que as mulheres sejam examinadas por médicos do sexo masculino’, ou: ‘Não quero que minha filha faça ginástica.'” O problema, ele disse, “é que é preciso fixar um limite em algum momento”.

Araud acrescentou: “Como você pode imaginar, em época de polarização política, num momento em que centenas de franceses foram mortos pelo terrorismo islâmico, a maneira como a sociedade francesa está reagindo a esse desafio nem sempre é a melhor.”

A imigração muçulmana e a prática religiosa foi um tópico que rendeu um debate acalorado na eleição francesa, quando Le Pen se pronunciou favorável ao banimento do véu (e do solidéu, no caso dos judeus) em lugares públicos. Ela também é favorável ao banimento do burquíni, um tipo de traje de banho islâmico bastante conservador.

Campanha pela mudança

A insatisfação da classe trabalhadora com o status quo tornou muito atraente a mensagem da campanha de mudança tanto nos EUA quanto na França, disse Araud. Ele observou que na eleição de 2016, nos EUA, mais de 200 distritos eleitorais passaram de Obama para Trump. Foi uma surpresa para muitos, mas “no momento em que você conversa com essas pessoas, elas dizem simplesmente que Obama era mudança, Trump era mudança. Portanto, há realmente uma aspiração de mudança […] em relação às elites, ao modo tradicional de fazer política”.

Araud disse que na eleição na França este ano, pela primeira vez o candidato que era tido como representante da mudança era de centro, Emmanuel Macron, em oposição à extrema esquerda.  Diferentemente de Le Pen, Macron nunca teve cargo eletivo e é novo no cenário político. Araud caracterizou sua campanha como uma “plataforma liberal, aberta à sociedade e pró-europeia”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Por que a eleição na França é decisiva para a Europa e para o mundo." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [23 May, 2017]. Web. [18 November, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/por-que-eleicao-na-franca-e-decisiva-para-europa-e-para-o-mundo/>

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"Por que a eleição na França é decisiva para a Europa e para o mundo" Universia Knowledge@Wharton, [May 23, 2017].
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