Por que melhorar a qualidade da saúde no mundo é responsabilidade de todos

Num mundo em que os avanços da tecnologia e a facilidade de viajar colocam em xeque continuamente as fronteiras nacionais, os problemas de saúde podem aumentar rapidamente, ameaçando a vida e a prosperidade de numerosas populações.

Em todo o mundo em desenvolvimento, doenças infecciosas e enfermidades crônicas desafiam mais de um bilhão de pessoas que vivem na pobreza. Os países ricos enfrentam suas próprias dificuldades quando se veem obrigados a encontrar meios para financiar o atendimento médico sofisticado. Para que haja avanços significativos na saúde de todos, governos e organizações com e sem fins lucrativos precisam encontrar uma forma de estimular soluções inovadoras e revolucionárias não só para tratar das doenças existentes, mas também para melhorar a prestação de serviços de saúde.

Ganhadores do Nobel e especialistas em saúde se debruçarão sobre o assunto durante um painel no âmbito do Festival de Pensadores cujo tema será Bem-estar futuro: rumo a um mundo mais saudável. “Somos todos participantes da globalização e lucramos com ela. Viajamos pelo mundo todo. Temos de nos envolver de maneira mais ativa nas questões mundiais de saúde através de doações, consultorias e também compartilhando responsabilidades”, observa Richard Ernst, ganhador do Nobel de Química de 1991 e um dos participantes do painel. 

A magnitude do problema é enorme e chama a atenção devido a suas disparidades gritantes. A África subsaariana é responsável por 24% das doenças do mundo todo, embora abrigue apenas 11% da população mundial. O mais surpreendente, de acordo com números do Banco Mundial, é que a região recebe apenas 1% dos gastos com saúde global. A Organização Mundial da Saúde estima que os cuidados com a saúde básica custariam de US$ 35 a US$ 40 por pessoa na África subsaariana, contudo metade de todo o atendimento à saúde na região é pago em dinheiro por pacientes extremamente pobres. Para satisfazer inicialmente as demandas crescentes de saúde só nessa região, são necessários novos investimentos em hospitais, clínicas e estoques estimados em US$ 25 a US$ 30 bilhões.

J. Robin Warren, um dos ganhadores do Nobel de Medicina de 2005, e que também participará do painel, adverte que os problemas globais de saúde não estão limitados pela geografia. Ele ressalta que as doenças infecciosas — inclusive aquelas que hoje são resistentes aos antibióticos tradicionais — podem se espalhar por todos os países nesta era atual de viagens e migração pelo mundo todo. Se países ricos, como os EUA, não forem capazes de administrar melhor os problemas mundiais de saúde, daqui a 50 anos o mundo poderá ter níveis mais elevados de infecção do que há 100 anos, diz. “Acho que o governo americano deveria se prepara para comprar remédios e doá-los aos países pobres, uma vez que eles não têm como pagar pelos medicamentos. O governo americano — para o bem do país — poderia tratar mais eficazmente das doenças. Se os países ricos ajudarem os mais pobres, estarão ajudando a si mesmos.

Melhor utilização dos recursos

Neal Nathanson, reitor adjunto de saúde global da escola de medicina da Universidade da Pensilvânia, diz que os desafios à saúde mundial se enquadram em três categorias principais. Em primeiro lugar, há problemas de dimensões muito amplas — como é o caso da poluição, superpopulação e esgotamento dos recursos — que afetam todo o planeta. Quando falta o básico para as pessoas, inclusive alimento e água, é bem provável que venham a padecer de problemas de saúde, salienta Nathanson.

O segundo problema é econômico. Com 1,4 bilhão de pessoas vivendo com US$ 1,25 ao dia, conforme dados do Banco Mundial, a pobreza é fator de peso na saúde mundial. “Embora toda essa gente viva abaixo da linha da pobreza, o orçamento da saúde é minúsculo, e tudo o mais que diz respeito à saúde será menos do que ideal”, diz Nathanson.

O obstáculo final à melhoria da saúde global é o que Nathanson chama de “desenvolvimento social”. Preocupações de caráter não econômico, como a alfabetização e os direitos da mulher, podem ajudar a criar uma fundação para sistemas de saúde baseados na comunidade mesmo com recursos financeiros limitados. “Não conseguiremos tirar da pobreza esses bilhões de pessoas da noite para o dia, mas é possível fazer muita coisa com desenvolvimento social. Creio que esta é uma área em que se pode intervir e fazer algo que seja prático e não apenas hipotético.”

Nathanson diz que embora instituições multilaterais, como a Organização Mundial de Saúde e as Nações Unidas, juntamente com instituições de caridade e fundações, estejam tentando aliviar os problemas de saúde do mundo todo, sempre topam com dificuldades na hora de alocar eficazmente os recursos que já possuem. Em alguns países, organizações bem intencionadas estão trabalhando sem licenças e sem coordenação. “É tudo mais ou menos caótico”, diz ele. “Não se trata apenas de levantar capital, mas também de usar melhor os recursos que estão sendo aplicados.”

Em muitos casos, a vontade e os recursos para tratar das doenças se acham disponíveis no mundo em desenvolvimento, mas faltam a esses países infraestrutura básica. Sem estradas, energia, água limpa e fornecedores de serviços básicos de saúde — inclusive profissionais de enfermagem — é simplesmente impossível levar remédios e tratamentos que podem salvar vidas até os pacientes que precisam deles, observa Nathanson.

Marjorie Muecke, reitora adjunta de relações globais de saúde da escola de enfermagem da Universidade da Pensilvânia, diz que os projetos de saúde de escala mundial no mundo em desenvolvimento estão sempre em busca de novos meios que permitam a melhor utilização possível da tecnologia e dos provedores de saúde de que dispõem. Em alguns casos, diz ela, os países estão criando redes comunitárias de saúde constituída por voluntários, sendo a maior parte deles mulheres. Muitas dessas voluntárias são esposas de líderes influentes da comunidade em posição de tornar a saúde questão prioritária. Na Índia, profissionais de enfermagem estão sendo empregados em áreas rurais para ajudar na triagem de populações e para identificar pacientes que podem precisar de se deslocar para receber tratamentos mais avançados no consultório médico ou no hospital.

Organizações de filantropia bem intencionadas acabaram criando dificuldades para o fornecimento de serviços de saúde em escala global, observa Muecke. Organizações não-governamentais se instalaram em muitas áreas rurais pobres e ali identificaram pessoas brilhantes e promissoras. Em seguida, contrataram-nas para gerir programas específicos. Embora isso seja bom para o esforço individual, Muecke ressalta que, com o tempo, essa prática leva ao esvaziamento de cérebros nos sistemas públicos locais e nos ministérios de saúde dos governos. “A longo prazo, isso cria um problema, porque frustra a capacidade do governo de se responsabilizar pela promoção da saúde.”

Ao mesmo tempo, porém, os profissionais de saúde que trabalham em países em desenvolvimento estão descobrindo formas inovadoras de usar a tecnologia e aumentar a eficiência do pessoal disponível, diz Muecke. Em algumas áreas, por exemplo, os trabalhadores do campo estão usando câmeras de celular para fotografar pacientes com determinadas doenças enviando em seguida as fotos para médicos mais bem treinados em busca de aconselhamento para o tratamento de saúde mais adequado. “Os pobres talvez não tenham TV ou computador, mas celular eles certamente têm. Precisamos usar a tecnologia de novas formas, para que possamos difundir o conhecimento daqueles profissionais cujo preparo foi dispendioso para que pudessem servir a populações em áreas remotas.”

Enquanto isso, de acordo com Myrna Weissman, professora de epidemiologia e psiquiatria da Universidade de Colúmbia, e membro do painel Festival dos Pensadores, a doença pode ter um forte impacto sobre o desenvolvimento econômico de países onde há pouca ou nenhuma condição de fornecimento de saúde pública. A depressão é um fator importante de atraso no mundo desenvolvido, diz Weissman. Embora seja um pouco mais difícil de filtrar os custos da depressão e da doença mental em comparação com outros problemas de saúde como, por exemplo, uma doença infecciosa ou desnutrição, o efeito pode ser igualmente incapacitante.

Weissman fez pesquisas de campo na África explorando tratamentos para a depressão entre pessoas pegas em meio a guerras civis ou crises de HIV. Ela diz que os programas eficazes de saúde mental levam em conta as sensibilidades culturais. Os africanos responderam bem à terapia de grupo e a outros enfoques usados no combate à depressão nos países desenvolvidos. “É surpreendente constatar como as pessoas são parecidas. Há diferenças culturais de estilo, mas não muitas no plano das emoções.” Weissman prepara atualmente um projeto no Congo que testará a ideia do fornecimento de pequenas doações para o tratamento de problemas de saúde mental juntamente com outras formas de estímulo ao desenvolvimento econômico.

Enquanto economias emergentes como Índia e China continuarem a promover o crescimento de uma classe média ativa, a demanda por saúde crescerá rapidamente. Mark Pauly, professor de gestão de saúde da Wharton, diz que muita gente, nas nações em desenvolvimento, já compromete parte significativa de sua renda modesta com serviços de saúde. Com isso, será possível desenvolver mercados de seguro privado, o que reduziria o risco de ruína financeira caso um membro da família adoeça seriamente.

Alguns países, inclusive a China, têm formas limitadas de seguro geridas pelo governo, porém, Pauly diz que é possível que um mercado privado evolua nos países pobres onde as famílias, atualmente, economizam o máximo possível para se proteger de doenças ou acidentes que exijam tratamento dispendioso. Muitos economistas dizem que se a China fosse capaz de criar uma rede de segurança social que protegesse seus cidadãos do risco de doenças ou de uma sobrevida que exigisse o consumo total das economias feitas para a aposentadoria, o país teria condições de arcar com um mercado de consumo mais pujante. O crescimento do gasto do consumidor, por sua vez, poderia dinamizar a economia chinesa e torná-la menos dependente dos mercados de exportação. Ao mesmo tempo, propiciaria também novos canais de escape para os produtos ocidentais deflagrando o crescimento econômico pelo mundo todo.

De acordo com Pauly, uma pesquisa mostra que bastam cerca de 10.000 assinantes para que se tenha um conjunto viável de segurados, principalmente na área da saúde, uma vez que os recursos científicos que permitem prever o número de pessoas que adoecerá num determinado ano estão bem desenvolvidos. “O problema do seguro é que o prêmio de risco é modesto em comparação com o que” uma pessoa pagaria se ela, ou um membro da família, adoecesse gravemente, acrescenta Pauly.

Parcerias público-privadas

Apesar do enorme problema que é a melhoria dos serviços de saúde no mundo todo, algumas soluções promissoras começam a surgir, conforme explica Stephen Sammut, pesquisador e professor do departamento de gestão de saúde da Wharton. Companhias farmacêuticas multinacionais e empresas emergentes de biotecnologia, diz ele, ocupam a vanguarda do setor privado no que se refere à resposta aos problemas mundiais de saúde no mundo em desenvolvimento, ao passo que alguns novos modelos estão surgindo e poderão ajudar a encontrar soluções para os problemas relativos ao sistema de saúde global.

Muitas das ideias que procuram lidar com os problemas de saúde em escala global, diz Sammut, são frutos de parcerias público-privadas. O esforço para curar a tuberculose, malária e outras doenças infecciosas que matam milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento exigem um mecanismo que provoque, a um só tempo, um movimento de ação e reação que envolva o setor privado em soluções sustentáveis.

Governos e fundações podem contribuir financeiramente para impulsionar descobertas e projetos de remédios ou vacinas para o tratamento de doenças no mundo em desenvolvimento que as empresas farmacêuticas ou os centros acadêmicos tendem a ignorar. Contudo, as empresas precisam da garantia de que serão recompensadas caso descubram a cura ou o tratamento eficaz de uma determinada doença. “O dinheiro para isso é pouco para financiar integralmente o desenvolvimento de remédios ou vacinas”, diz Sammut. “É preciso que haja outros incentivos além desses.”

O estímulo, acrescenta, pode provir de várias parcerias público-privadas que buscam novas formas de criar mercados visíveis para produtos e serviços inovadores na área de saúde. Um exemplo disso são as Parcerias de Desenvolvimento do Produto (PDPs, na sigla em inglês) — organizações sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento virtual cujo objetivo é a acelerar a introdução de novos produtos por meio de uma carteira de parcerias que envolva a indústria e os centros acadêmicos. A Fundação Bill e Melinda Gates participa de parcerias dedicadas à pesquisa da HIV/AIDS, malária, infecções respiratórias e à descoberta de novas ferramentas diagnósticas.

Outra ideia gira em torno dos Compromissos Avançados de Mercado (AMCs, na sigla em inglês), que cria um mercado garantido para as companhias do setor privado que descobrirem novos remédios ou novos tratamentos para uma necessidade ainda não atendida. Os doadores, como a UNICEF ou os governos, fazem um contrato por meio do qual pagam antecipadamente por uma vacina ou por um tratamento. “O conceito geral consiste em atender à chamada falha de mercado com fundos que impulsionem o desenvolvimento”, diz Sammut. “A indústria farmacêutica continua a se responsabilizar pela descoberta e pelo desenvolvimento, mas sabe que, no fim das contas, haverá um mercado.”

Uma solução viável é a dos Comprovantes de Revisão de Prioridade (PRVs), fruto de emendas, em 2007, da legislação que rege as atividades do FDA, órgão responsável pela administração de alimentos e remédios nos EUA e a quem cabe aprovar, ou não, novos remédios e tratamentos. O FDA pode agora oferecer a uma empresa a rápida aprovação de um remédio em troca do compromisso da empresa de desenvolver produtos menos rentáveis para utilização, basicamente, no mundo em desenvolvimento. Por esse sistema, a empresa ganharia um comprovante pelo fato de investir no tratamento de uma doença negligenciada. Em seguida, graças a esse comprovante, ela ganharia tempo no processo de aprovação de um remédio cujo sucesso no mundo desenvolvido é garantido. Sammut estima que o comprovante possa reduzir de quatro a 12 meses o tempo de aprovação do FDA com geração de valor na faixa de US$ 50 a US$ 600 milhões. O FDA emitiu seu primeiro PRV para a Novartis Pharmaceuticals que trabalhará no desenvolvimento de uma droga contra a malária.

Outra forma de envolver o setor privado no desenvolvimento de produtos para os países pobres são os Consórcios de Propriedade Intelectual (IPPs). Os consórcios representam o acordo entre duas empresas, no mínimo, para o licenciamento cruzado de patentes cujo propósito é a descoberta de novos tratamentos mais rapidamente. Em 2005, as empresas envolvidas em Identificação por Radiofrequência (RFID) formaram um consórcio de patentes. A parte mais difícil da gestão do consórcio é a filtragem do portfólio de tecnologias disponíveis, diz Sammut. Outro obstáculo, destaca, é a possibilidade de problemas relacionados ao antitruste. Em março, a GlaxoSmithKline (GSK) anunciou que criaria um consórcio de patentes que daria a outras empresas acesso à propriedade intelectual da GSK para o tratamento de 16 doenças negligenciadas identificadas pelo FDA.

Por fim, o licenciamento de produtos patenteados para produção de fabricantes de produtos genéricos de baixo custo também é outra forma pela qual as empresas podem ajudar a resolver os problemas de saúde no mundo todo, sem com isso deixar de ter lucros. Os governos de alguns países iniciaram o licenciamento compulsório de produtos para problemas graves de saúde, como é o caso do HIV/AIDS, que se sobrepõem às regras internacionais de comércio para proteção da propriedade intelectual. Sammut faz referência à ideia do licenciamento voluntário, que permitiria à empresa que assume o risco do desenvolvimento a fazer parceria com uma empresa de genéricos e reter parte do negócio. Mesmo que o genérico seja vendido por um preço inferior ao que a companhia farmacêutica cobraria por um produto de marca nos mercados maduros, o licenciamento voluntário deverá gerar mais vendas do que ocorreria se o produto não fosse vendido nos países em desenvolvimento. A Gilead Sciences, empresa de biotecnologia dos EUA, tem acordos de licenciamento com dez fabricantes indianos e com um sul-africano para a distribuição de remédios para HIV/AIDS em 95 países de baixa renda. A Gilead recebe pagamentos em royalties de 5% sobre os produtos terminados.

Sammut diz que esses novos modelos de parceria não são construídos necessariamente de modo evolucionário. Eles representam alternativas que podem ser adequadas a condições específicas em países ou dentro das empresas. Diferentes aspectos do desafio mundial à saúde pública, observa, poderão se beneficiar da “criatividade de cada uma dessa ideias”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Por que melhorar a qualidade da saúde no mundo é responsabilidade de todos." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [18 novembro, 2009]. Web. [25 October, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/por-que-melhorar-a-qualidade-da-saude-no-mundo-e-responsabilidade-de-todos/>

APA

Por que melhorar a qualidade da saúde no mundo é responsabilidade de todos. Universia Knowledge@Wharton (2009, novembro 18). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/por-que-melhorar-a-qualidade-da-saude-no-mundo-e-responsabilidade-de-todos/

Chicago

"Por que melhorar a qualidade da saúde no mundo é responsabilidade de todos" Universia Knowledge@Wharton, [novembro 18, 2009].
Accessed [October 25, 2014]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/por-que-melhorar-a-qualidade-da-saude-no-mundo-e-responsabilidade-de-todos/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far