Por que não basta votar simplesmente pela mudança social

Para ajudar os menos favorecidos, basta votar contra as políticas públicas que pareçam injustas, ou será que as pessoas devem também dar do próprio bolso às instituições de caridade, mesmo que só possam ajudar a alguns poucos indivíduos por vez? Brian Berkey, professor de estudos jurídicos e ética dos negócios da Wharton, acredita que dar do que se tem para ajudar outros é uma obrigação moral ─ e as pessoas deveriam canalizar seu dinheiro para as obras de caridade mais eficazes.

Berkey diz que os críticos dessa estratégia preferem atacar uma instituição ou sistema injusto para solucionar a razão principal do mal social. No entanto, ele diz que essas pessoas estão enganadas, em parte porque é difícil que seus esforços sejam bem-sucedidos. O médico não deveria tratar um soldado ferido no campo de batalha em vez de apenas protestar contra a guerra? Berkey conversou com a Universia Knowledge@Wharton e discorreu sobre sua argumentação em “A crítica institucional do altruísmo eficaz” [The Institutional Critique of Effective Altruism].

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Você poderia nos dizer o que é o altruísmo eficaz e por que ele é importante?

Brian Berkey: O altruísmo eficaz é um movimento social relativamente recente estruturado em torno de alguns compromissos filosóficos fundamentais. O altruísta eficaz acredita, por exemplo, que devemos direcionar nossos recursos para caridade de tal modo que ela produza o bem maior, seja mais eficaz na realização de objetivos que ajudem os pobres do mundo ou reduzam o risco social, levando em conta a mudança climática e tudo o que consideramos que sejam os objetivos mais moralmente importantes nos quais devemos nos concentrar.

Knowledge@Wharton: No que isso difere, por exemplo, da forma como as pessoas geralmente fazem suas doações? Elas não são eficazes e úteis?

Berkey: Bem, nem todas as formas de doar são particularmente eficazes e úteis. Até mesmo entre as instituições de caridade que fazem um trabalho de valor, algumas produzem um bem maior do que outras. Os altruístas eficazes estão interessados em desenvolver o conhecimento sobre as organizações que realmente fazem o bem maior. Portanto, se você pretende direcionar recursos para a caridade, é melhor pensar bem e analisar as evidências empíricas disponíveis sobre o que é de fato realizado pelas diferentes instituições de caridade de modo que, se você for doar com o objetivo, por exemplo, de ajudar as pessoas mais necessitadas do mundo, é muito melhor dar a uma organização que, com cada US$ 5.000, salvará três vidas, do que para outra que, por exemplo, precisará de US$ 20.000 para salvar a vida de uma pessoa.

Knowledge@Wharton: Qual o objetivo da sua pesquisa? O que você se propôs a fazer?

Berkey: A ideia básica dos proponentes da crítica institucional é que o altruísmo eficaz se concentra exageradamente em esforços que proporcionam ajuda diretamente às pessoas necessitadas, e que isso resulta na negação dos esforços para lidar com o que eles chamam, às vezes, de “causas básicas” de problemas como a pobreza global. De modo especial, para eles, deveríamos nos concentrar mais nos esforços para mudar as estruturas institucionais do mundo que, em sua opinião, tendem a entrincheirar a pobreza, a desigualdade global e algumas das outras formas de injustiça mundial ─ questões com as quais tanto eles quanto os altruístas eficazes querem lidar. Compartilho até certo ponto da preocupação com a injustiça institucional no mundo. Mas é importante que, como indivíduos que estão decidindo o que fazer com seu tempo e recursos, pensemos no tipo de efeitos que nossos esforços podem realmente ter sobre o mundo.

Se houvesse milhões de pessoas no mundo todo decididas a trabalhar juntas para reformar as instituições econômicas globais injustas, é bem possível que um indivíduo qualquer produzisse maior bem contribuindo com esses esforços do que, por exemplo, direcionando seu tempo e dinheiro para esforços de menor escala para com isso melhorar a vida das pessoas que sofrem. Contudo, em um mundo em que a atividade política dá a entender que isso dificilmente acontecerá, acho que temos de pensar cuidadosamente sobre a possibilidade de que nossos esforços nessa direção produzam efetivamente resultados na realização de qualquer coisa que beneficie realmente as pessoas que estão sofrendo, uma vez que há organizações para as quais podemos direcionar nosso tempo e recurso, as quais têm registros comprovados de fazer muita coisa para ajudar as pessoas necessitadas.

Por exemplo, uma organização para a qual os altruístas eficazes tendem a recomendar que as pessoas façam doações é a Fundação Contra a Malária, que fornece mosquiteiros para camas para evitar que as pessoas contraiam malária transmitida por mosquitos. Trata-se de uma organização muito eficaz que reduz claramente a taxa de contaminação das pessoas por malária em partes do mundo em que a doença é comum. Não há dúvida de que essa é uma grande causa. Uma vez que temos a oportunidade de direcionar recursos para um esforço desse tipo, que tem um histórico comprovado de sucesso melhorando a vida das pessoas em situação de extrema pobreza, temos, no mínimo, de pesar a possibilidade de que outros esforços realizem algo de significativo em relação ao fato de que há formas que nos possibilitam fazer efetivamente o bem.

Portanto, um dos principais objetivos da pesquisa é postular um princípio que exija que levemos em conta a possibilidade de sucesso ao decidirmos como usaremos nossos recursos de caridade e de tempo etc. Isso está de acordo com os princípios que altruístas eficazes tendem a aceitar. Não está claro para mim se os defensores da crítica às instituições aceitarão esse princípio que parece bastante plausível e que requer que se leve em conta a possibilidade de sucesso.

Knowledge@Wharton: Você faz uma analogia em sua pesquisa em que um médico que está socorrendo um soldado ferido é criticado por não ter tratado da causa básica da guerra em primeiro lugar. Mas todo mundo sabe que essa ideia é ridícula. O médico está ali para salvar vidas. E mesmo que ele salve somente umas poucas vidas no campo de batalha, é sua obrigação moral fazê-lo. No entanto, você está dizendo que a crítica às instituições se voltaria contra esse médico por ele não estar lidando com as causas da guerra. Essa é a base do seu estudo.

Berkey: Correto. Não sou o autor dessa analogia. Ela pertence ao filósofo Jeff McMahan, que tem um argumento no mínimo semelhante ao meu, e foi publicada na revista The Philosophers’ Magazine. Ele diz que a afirmação de que todos os nossos esforços deveriam estar sempre voltados para as causas básicas de algum problema ─ o que parecem dizer muitos dos proponentes da crítica institucional ─ o que indicaria a existência de algo errado em um médico que cuida de soldados feridos, em vez de trabalhar para eliminar as causas básicas da guerra, o que me parece algo profundamente contrário à intuição.

Portanto, na medida em que os casos são realmente análogos, isso dá uma sustentação razoável ao altruísmo eficaz em relação à crítica institucional. Uma coisa que venho tentando fazer em minha pesquisa é ampliar esse ponto que McMahan levanta. Pretendo fazê-lo explorando, de uma maneira mais direta, os argumentos que os proponentes da crítica institucional oferecem.

Knowledge@Wharton: O que levou você a essa análise da crítica às instituições ao altruísmo eficaz? Isso era parte de um projeto maior ou você estava apenas interessado no assunto?

Berkey: Isso está relacionado ao trabalho anterior que fiz. Escrevi sobre a “exigência moral” de forma mais ampla. Em outras palavras: quanto, por exemplo, da nossa renda disponível, estamos obrigados a direcionar a esforços dedicados a aliviar o sofrimento no mundo? Eu disse que nos cabe postular uma perspectiva que seja pelo menos exigente ─ uma perspectiva que seja muito mais exigente do que a maior parte das pessoas tende a aceitar, e certamente muito mais exigente do que o comportamento das pessoas tende a refletir.

Fiz também alguma coisa na área de filosofia política com o propósito de defender a perspectiva de que princípios de justiça não se aplicam apenas a questões de política institucional e atividades estritamente políticas do indivíduo, como o ato de votar e coisas semelhantes, mas também ao seu comportamento nos contextos diários. Creio que os esforços individuais no sentido de melhorar objetivamente a vida de pessoas muito pobres podem ser objeto da exigência de princípios de justiça e podem melhorar a sociedade no que diz respeito à justiça. Eles podem tornar a sociedade menos injusta se as pessoas voluntariamente, por exemplo, abrirem mão de sua renda disponível para ajudar os mais pobres da sociedade.

Isso é verdade ainda que nada mude no nível de política praticado pelo governo. Essa é uma visão relativamente impopular na filosofia política contemporânea. Para mim, a crítica institucional ao altruísmo eficaz é, no mínimo, parte das perspectivas endossadas por pessoas para as quais a justiça, de algum modo, diz respeito fundamentalmente a instituições, e não à forma como as pessoas se comportam nas estruturas institucionais. Portanto, o estudo que responde à “Crítica institucional do altruísmo eficaz” é, de certo modo, parte de um projeto meu de maior fôlego que consiste em argumentar que o comportamento do indivíduo dentro das estruturas institucionais é importante para a justiça.

Knowledge@Wharton: Em seu estudo, você também menciona uma inconsistência nas crenças da crítica institucional ao altruísmo eficaz. Você poderia discorrer um pouco mais a esse respeito?

Berkey: Perto do fim do estudo, digo que há uma incoerência no modo como a crítica institucional planeja combinar uma explicação exigente de como o mundo precisa mudar para ser justo, e o tipo de explicação moderada das obrigações do indivíduo que, assim creio, muitos deles também endossam. Portanto, o pensamento básico é mais ou menos o seguinte: se o mundo precisa de mudanças radicais para que seja justo, não me parece claro de que maneira essas mudanças poderão se realizar, a menos que os indivíduos façam mudanças radicais na forma como vivem a vida, nos valores que impulsionam seu comportamento etc.

Bem, o que os críticos às instituições parecem querer são mudanças no comportamento individual no que diz respeito à conduta política explícita. Eles querem indivíduos que comecem a votar de forma diferente, que saiam e protestem mais, que trabalhem juntos em campanhas para tentar mudar a polícia institucional. Contudo, pelo menos muitos deles não acham que os indivíduos sejam obrigados a fazer coisas como abrir mão de parte substancial da sua renda, sem se importar que as estruturas institucionais mudem ou não.

No estudo, não entro em muitos detalhes a esse respeito. Contudo, existe uma preocupação com a estrutura motivacional que seria necessária para que as pessoas fossem incentivadas a trabalhar em prol de mudanças políticas que os críticos institucionais gostariam de ver sem que se sintam, ao mesmo tempo, motivadas a fazer sacrifícios para ajudar diretamente às pessoas necessitadas. Talvez haja algo de intrigante na pessoa disposta a votar para que os impostos aumentem drasticamente, mas que simplesmente não está disposta a abrir mão do dinheiro que, na sua opinião, o governo deveria tomar quando, na verdade, abrir mão dele voluntariamente seria igualmente positivo para ajudar as pessoas que, todos nós concordamos, estão injustamente em desvantagem.

Knowledge@Wharton: Na verdade, muita gente faz um pouco das duas coisas. As pessoas doam diretamente e também votam de acordo com aquilo em que acreditam. Portanto, quais seriam algumas conclusões práticas que você passaria a nossos ouvintes que lhes permita usar o argumento exposto em sua pesquisa e se tornarem pessoas melhores, ou um melhor doador para, digamos, os pobres do mundo, os que vivem em situação desvantajosa.

Berkey: É bom que muita gente se envolva no tipo de atividade política que os críticos às instituições apoiam. Deveria ficar claro que o objetivo do meu estudo certamente não é desencorajar as pessoas de se envolverem com política e a trabalharem com as mudanças institucionais que tornariam o mundo mais justo. É importante que as pessoas façam isso. Só que acho igualmente importante que elas levem a sério o bem que pode ser feito direcionando parte de sua renda disponível para empresas que ajudam mais diretamente as pessoas necessitadas.

Uma das conclusões do estudo é que ambas as coisas estão disponíveis e podem ser exigidas moralmente. Incentivo as pessoas a consultar sites de organizações efetivamente altruístas, como GiveWell e Giving What We Can para recomendações de lugares para onde direcionar os donativos que, segundo evidências, são especialmente eficazes para ajudar as pessoas necessitadas.

Knowledge@Wharton: Que tipo de continuidade terá essa pesquisa?

Berkey: Tenho outro estudo no qual venho trabalhando e que defende o seguinte: como movimento social, o altruísmo eficaz pode ser, pelo menos, relativamente ecumênico no que diz respeito aos compromissos filosóficos, de modo especial, compromissos relativos à filosofia moral e política. Uma das críticas feitas ao altruísmo eficaz é que se trata de um projeto de pessoas comprometidas com uma teoria muito específica de filosofia moral, isto é, o utilitarismo, a visão segundo a qual devemos ter com objetivo maximizar a felicidade total no mundo. É verdade que muita gente envolvida de forma destacada no movimento de altruísmo eficaz é utilitária.

Contudo, o altruísmo eficaz diz respeito, sobretudo, à beneficência, com as razões que temos para ajudar as pessoas que passam necessidade. Você não precisa ser utilitário para pensar que temos razões fortes para ajudar as pessoas que sofrem ou são vítimas da injustiça, são muito pobres, de um modo ou de outro. Na verdade, creio que achar que temos exigências fortes em relação à beneficência está de acordo com uma vasta série de compromissos da teoria ética.

Desse modo, nesse segundo estudo sobre altruísmo, defendo que os altruístas eficazes deveriam chamar a atenção para o fato de que fizeram um esforço no seguinte sentido: seus compromissos filosóficos básicos estão de acordo com uma ampla série de perspectivas e críticas, e o básico é, de fato, uma certa perspectiva sobre a força das nossas razões para ajudar as pessoas necessitadas e a perspectiva de que nossas tomadas de decisão devem ser guiadas pela melhor evidência disponível acerca do que pode ajudar mais eficazmente as pessoas.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Por que não basta votar simplesmente pela mudança social." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [20 December, 2017]. Web. [18 December, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/por-que-nao-basta-votar-simplesmente-pela-mudanca-social-brian-berkey-diz-que-nao-basta-simplesmente-se-posicionar-em-favor-da-mudanca-social-%e2%94%80-e-um-imperativo-moral-dar-generosamente-aos-men/>

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"Por que não basta votar simplesmente pela mudança social" Universia Knowledge@Wharton, [December 20, 2017].
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