Por que o Pixel, do Google, tem mais a ver com estratégia do que com smartphones

No início de outubro, o Google anunciou dois aparelhos que haviam sido objeto de rumores nos blogs de tecnologia durante meses: o smartphone Pixel e seu irmão maior, o Pixel XL. Os celulares de telas sensíveis ao toque se pareciam muito com os sofisticados iPhone e alguns aparelhos da Samsung. O preço também era semelhante e as análises foram de modo geral positivas. Walt Mossberg, jornalista veterano da área de tecnologia disse que o Pixel era “sem favor algum o melhor celular Android que já havia testado”. É o primeiro smartphone totalmente criado e projetado pelo Google, com acabamentos e recursos requintados cujo objetivo é proporcionar uma experiência pura no domínio do Android.

O Pixel vem com tela Gorilla Glass de 5 ou de 5,5 polegadas com câmera traseira de 12,3 megapixel. Promete um carregamento rápido de 15 minutos e sete horas de uso. O smartphone pode gravar vídeo em 4k ultra HD e vem com entrada para fone de ouvido. Não é, porém, resistente à água. O Google fornece serviço de 24 horas, sete dias por semana, para o Pixel e armazenagem ilimitada na nuvem de fotos e vídeos em resolução máxima. O ajudante virtual do aparelho, o Google Assistant, vem pré-instalado juntamente com o aplicativo para bate papo em vídeo Google Duo. É compatível com o headset de realidade virtual Google Daydream. Os preços iniciais estão na faixa de US$ 649.

“Parece ser um aparelho de qualidade superior muito agradável”, diz Michael Sinkinson, professor de economia empresarial e políticas públicas da Wharton. “É isso o que o Google pensa que deva ser um aparelho sofisticado.” O Pixel representa uma mudança na antiga estratégia de telefones da empresa, cujos aparelhos Nexus tinham preços menores e eram vendidos de forma menos incisiva. Com o Pixel, o Google está trabalhando com um preço e com um marketing ombro a ombro com a Apple e com a Samsung. Também é a primeira vez que a empresa põe seu nome em um smartphone.

No entanto, ver o Pixel apenas como mais um produto da linha de smartphones do Google é não entender o que se passa. No evento de lançamento do smartphone, Sundar Pichai, CEO do Google, analisou as grandes mudanças na computação que acontecem a cada dez anos aproximadamente. Os computadores pessoais surgiram nos anos 80, a rede mundial de computadores [world wide web] apareceu nos anos 90 e os smartphones transformaram o segmento móvel nos anos 2000. Há outra mudança a caminho: “Quando olho para frente, para onde a computação está caminhando, fica claro para mim que estamos nos dirigindo, evoluindo, de um mundo sobretudo móvel para outro regido principalmente pela inteligência artificial (IA)”, disse ele.

A IA, ou inteligência artificial, é a ciência por trás da inteligência dos computadores. Uma faceta dela é a aprendizagem automática, em que os computadores se adaptam e crescem à medida que são abastecidos com mais dados. A IA é o futuro e “foi no âmago desses esforços que nos propusemos a desenvolver o Google Assistant”, disse Pichai. O Assistant, a IA do Pixel, vai além do Siri, da Apple, e do Cortana, da Microsoft, já que extrai dados das profundezas das contas e aplicativos do Google e permite o diálogo em mão dupla.

Por exemplo, quando você pede ao Google Assistant para chamar o aplicativo do Uber, ele interage com o aplicativo do Uber, que conversa com você sobre aonde você deseja ir e qual o tipo de serviço de carros do Uber você prefere. Quanto mais o Assistant aprende a seu respeito, mais inteligente ele fica. “Nosso objetivo é tornar o Google pessoal para cada um dos seus usuários”, de modo que possa pesquisar suas fotos, e-mails, calendário, viagens etc., disse Pichai. O Assistant o ajudará a filtrar o emaranhado de dados do seu mundo.

Rick Osterloh, chefe da unidade de hardware recém-criada do Google, disse no evento de lançamento do Pixel que o novo impulso no setor de hardware havia sido motivado pela ascensão do volume e da complexidade das informações. As pessoas estão tirando mais fotos, enviando mais mensagens e ouvindo muito mais música do que nunca antes. “Criar o hardware e o software juntos nos permite tirar plena vantagem de recursos como o Google Assistant”, disse. “Permite-nos aproveitar anos de know-how reunido em aprendizagem automática e IA e gerar experiências simples, inteligentes e rápidas que nossos usuários esperam de nós.”

É verdade. Uma pesquisa publicada em outubro pela Needham & Co. diz que a vantagem do Pixel vem do seu “cérebro” ─ o recurso de IA do Google,  seu know-how em pesquisa e mapas e sua imensa suíte de aplicativos, entre eles o YouTube e o Google Cloud. “Ao reunir na empresa o design do hardware e do software, acreditávamos que o produto deveria proporcionar uma experiência mais rápida, mais pura e mais coesa do Android do que os telefones anteriores.”

David Hsu, professor de administração da Wharton, diz que a decisão de desenvolver o Pixel foi “motivada, talvez, pelo que a empresa entende como forma de capacitar seu negócio de IA, que é o expediente pelo qual ela obteria bons dados”. Hsu observa que o grande desafio que hoje se coloca para a IA consiste em saber como fazer buscas em conteúdos que não apresentam textos, como fotos, sem que para isso tenham de ser rotulados por humanos. Um motor de busca que seja capaz de pesquisar conteúdos sem texto contribui para o fortalecimento do negócio de publicidade do Google. “O negócio principal da empresa é a capacitação do seu modelo de receita publicitária. O hardware sempre empalidecerá diante disso”, diz Hsu. “A empresa já deu inúmeras provas de que está disposta a se submeter ao seu modelo principal de receita.”

É claro que o Google pode integrar o Assistant ao sistema operacional Android ─ que, segundo a IDC, é usado em 87,6% dos smartphones no mundo todo ─ sem ter de desenvolver um hardware próprio. O Pixel, porém, proporciona uma referência para a indústria de uma experiência pura de Android, diz Sinkinson. Até hoje, é notório o fato de que experiência do Android para o usuário sempre foi fragmentada; a qualidade flutua dependendo do fabricante do smartphone. A Apple, por sua vez, ao controlar tanto o hardware quanto o software, sempre ofereceu uma experiência de alta qualidade. O Pixel é a oportunidade do Google de fazer o mesmo com o Android.

Uma guinada para os smartphones do Google?

O Google estaria dando uma guinada em sua estratégia de hardware? É bom lembrar que a empresa vendeu, em 2014, seu fabricante de hardware, a Motorola Mobility, para a Lenovo por US$ 2,9 bilhões depois de adquiri-lo dois anos antes por US$ 12,5 bilhões. Sinkinson diz que o Google estava interessado na Motorola principalmente por causa de suas patentes, tendo se livrado rapidamente de sua divisão de hardware porque não queria fabricar telefones e competir muito diretamente com seus parceiros do segmento. O Pixel, na verdade, é feito pela empresa taiwanesa HTC, enquanto os aparelhos Nexus eram fabricados pela LG ou pela Huawei. “O Google gosta de trabalhar com parceiros na parte de hardware porque não é uma empresa voltada para hardware, mas isso está mudando”, disse Hsu.

Além do Pixel, o Google apresentou recentemente o assistente virtual Google Home, que fará concorrência ao Echo, da Amazon ─ os dois ajudam o usuário em suas tarefas domésticas como, por exemplo, apagar as luzes, tocar sua música favorita ou imprimir uma receita da Internet. O Google lançou recentemente também o headset de realidade virtual Daydream, que vem acompanhado de um controle remoto que permite ao usuário desenhar e fazer gestos em um ambiente de RV [realidade virtual] ─ você pode, por exemplo, ser um feiticeiro dotado de uma varinha mágica no filme de J. K. Rowling “Animais fantásticos e onde encontrá-los”. O Google já é dono da fabricante de aparelhos inteligentes Nest.

Na verdade, o Pixel é apenas uma peça na estratégia geral de hardware do Google para o consumidor, que compreende todos esses aparelhos com recursos de IA. Trata-se, entretanto, de uma peça importante. “O smartphone é quem coordena todas essas coisas”, diz Hsu. Ele pode ser o controlador principal de todos os demais aparelhos do Google.

Com o Pixel, o Google tem agora um celular Android de alta qualidade controlado totalmente pela empresa. Até aqui o Google dependeu de fabricantes de smartphones como a Samsung, LG e HTC para alcançar a maior parte dos usuários de Android e fazer rodar seu sistema operacional da melhor forma possível, mas “agora com o Pixel, o nível de dependência diminuiu”, observa Arkadiy Sakhartov, professor de administração da Wharton. Além disso, ao fazer essa integração vertical, o Google desfrutará das mesmas “economias de objetivos” que a Apple ao controlar internamente seu hardware e seu software, disse.

A história do hardware no Google

O Google, porém, tem uma história de altos e baixos em seus projetos de hardware: o Google Glass foi congelado, enquanto que o tablete Pixel C e os Chromebooks não tiveram grande destaque. Além disso, o Google Fiber, serviço de TV paga da empresa, conteve sua expansão. Sakhartov acrescenta que a empresa está vendendo uma firma de robótica que comprou faz alguns anos. “O Google faz experiências, sempre fez. Desta vez é muito sério. A ideia é ver se funciona; se não funcionar, ela abandonará a empreitada”, diz Gerald Faulhaber, professor emérito de economia empresarial e políticas públicas.

A capacidade de resistência do Pixel dependerá de uma ampla aceitação do aparelho e da consecução dos objetivos que a empresa tem para ele. Contudo, o aparelho enfrenta uma batalha difícil para ganhar terreno dada a saturação de mercado de smartphones. De acordo com um relatório de fevereiro de 2016 da comScore, cerca de 200 milhões de americanos já têm smartphone. Desse total, 44% são donos de iPhones e 28% têm aparelhos da Samsung. Além disso, disse Hsu, as pessoas precisam de um bom motivo para trocar de plataforma em vista dos transtornos que isso causa. (O Google introduziu um conector no Pixel para ajudar as pessoas a fazer a transferência de conteúdo).

Infelizmente, o Pixel não causou a mesma impressão profunda do iPhone quando este foi lançado em 2007. “Você está competindo com o melhor ─ mas não o está derrotando; está de igual para igual. “Qual é a grande vantagem aí? Não vejo nenhuma. Se o Google conseguir fazer o que a Apple fez dez anos atrás com o iPhone, aí então daria o que pensar.”

Um novo competidor nesse segmento precisa dar ao usuário um motivo convincente para mudar de aparelho. No passado, o preço foi o fator de atração dos aparelhos Nexus. Não é o caso do Pixel. “Fiquei desapontado ao constatar que o aparelho não tinha um preço competitivo”, diz Sinkinson. Hsu acrescenta que não compreende a estratégia do Google. Se queria que o Pixel fosse bem aceito rapidamente, deveria ter oferecido um preço mais atraente.

Outra questão é a pressão dos sócios do seu negócio de smartphone, que agora têm de concorrer com o Pixel. O Google fornece de graça o Android aos fabricantes de smartphones, embora muitos o personalizem para seus usuários. A empresa recebe algo em troca: “Ela não cobra pelo Android, mas há termos e condições de uso”, diz Sinkinson. “Tenho de usar a Google Play Store e o Google como motor de busca padrão. É um pouco enganador dizer que o Android é grátis se há condições a obedecer para usá-lo.”

Com o Pixel concorrendo agora com o Samsung Galaxy S7 e similares, e prometendo atualizações de software mais rápidas em um ambiente de Android puro, “de que maneira isso afetará a disposição da concorrência de investir no sistema?”, indaga Minyuan Zhao, professora de administração da Wharton. “É possível, inclusive, que a Samsung e a Huawei aumentem seus investimentos em seu sistema operacional próprio, o que já está acontecendo.” Contudo, a experiência dos sistemas operacionais do Windows Phone e do BlackBerry mostra que sem uma série de aplicativos em seu ecossistema, é difícil ser bem-sucedido.

Não se sabe se o Pixel veio mesmo para ficar, apesar das garantias do Google. “As coisas vão acontecer neste caso conforme costumam acontecer com as coisas que o Google faz”, previu Faulhaber. “Eles lançaram o Pixel e vão apostar muito nele. Em um ano, lançarão uma nova versão na tentativa de ganhar algum dinheiro com ela […] O que a história ensina a respeito do Google, na minha opinião, é que as coisas acontecem durante alguns anos, depois passam.”

 

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Por que o Pixel, do Google, tem mais a ver com estratégia do que com smartphones." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [29 November, 2016]. Web. [18 November, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/por-que-o-pixel-google-tem-mais-ver-com-estrategia-que-com-smartphones/>

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Por que o Pixel, do Google, tem mais a ver com estratégia do que com smartphones. Universia Knowledge@Wharton (2016, November 29). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/por-que-o-pixel-google-tem-mais-ver-com-estrategia-que-com-smartphones/

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"Por que o Pixel, do Google, tem mais a ver com estratégia do que com smartphones" Universia Knowledge@Wharton, [November 29, 2016].
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