Preocupação no Ocidente: economias da Europa central e do leste correm o risco de se desmoronar

Muitos países do centro e do leste europeu, cujas economias anteriormente eram consideradas periféricas, floresceram em anos recentes. Hoje exibem uma carteira próspera de exportações e importam avidamente, em troca, produtos e serviços do Ocidente. Agora, esses ganhos estão desaparecendo pondo a nu outra vítima da crise financeira mundial.

Com o fim do isolamento da região, um possível colapso econômico local teria consequências no Ocidente. Isto porque, há alguns anos, os bancos ocidentais colocaram à disposição dos tomadores da região um volume enorme de crédito, que pode não ser pago. Não poucos economistas alertam para uma reação traiçoeira em que os problemas de uma região podem agravar os existentes em outras. Existe também o receio de que a Europa Ocidental possa ser inundada por refugiados vindos de países de economias em dificuldades. É o caso da Ucrânia, por exemplo, e de outros países do leste europeu, tal como aconteceu na época da fragmentação da Iugoslávia nos anos 90.

“O mundo inteiro está interligado atualmente, portanto temos de dar atenção ao leste europeu”, observa Franklin Allen, professor de finanças da Wharton.

Essa interligação financeira pode ter efeitos muito mais profundos sobre as economias emergentes do que sobre as economias desenvolvidas, dotadas de maior capacidade de adaptação, informa Philip M. Nichols, professor de ética nos negócios e de estudos jurídicos da Wharton. “Em caso de instituições extremamente vulneráveis às influências externas, como o são as economias emergentes, qualquer coisa ruim que aconteça seja onde for repercute nelas.”

Embora as condições possam variar, os países do centro e do leste da Europa possuem, em geral, economias de alcance modesto baseadas na manufatura e na agricultura, diz Nichols, acrescentando que muitas delas se caracterizam por terem moedas instáveis e “problemas com a dívida”. Não bastasse isso, muitos dos ex-países do antigo bloco soviético não têm muita experiência com economia de mercado. “Isso é coisa nova para eles, o que, naturalmente, os deixa expostos e vulneráveis.”

“Os países do leste europeu dependem em grande medida das exportações e têm déficits imensos em conta corrente. Além disso, são muito mais alavancados do que outros mercados emergentes”, assinala Heather Berry, professora de administração da Wharton, ao se referir às economias que importam mais do que exportam, o que faz com o dinheiro migre para fora do país.

“O rápido crescimento desses países é consequência dos investimentos ocidentais e da demanda por seus produtos”, acrescenta. “Ambas as coisas estão em xeque agora. Como os países da Europa ocidental estão em dificuldades atualmente, caiu a demanda pelas exportações dos países do leste.  Também não há planos para investimentos diretos na região. Além disso, muitas empresas ocidentais podem ser pressionadas para que mantenham em seu país de origem o socorro financeiro dado pelo governo americano.”

Os países mais atingidos da região são os da região do Báltico — Estônia, Letônia e Lituânia. De acordo com um prognóstico feito pela Economist Intelligence Unit, o produto interno bruto desses países terá uma queda de 8,3%. Um declínio de 0,4% do PIB está previsto para a Europa central e do leste estendendo-se a países como a República Tcheca, Hungria, Polônia, Eslováquia e Eslovênia. O PIB das nações balcânicas, Bulgária, Croácia, Romênia e Sérvia, deverá encolher 0,2%. Os antigos Estados soviéticos, Rússia, Azerbaijão, Cazaquistão e Ucrânia deverão experimentar uma retração de 2,2% em seu PIB.

A dívida dos países é um componente importante do problema. Nos últimos anos, empresas e consumidores dos países do centro e do leste da Europa foram atraídos por empréstimos denominados em dólares e euros oferecidos pelos bancos ocidentais,  cujas taxas de juros eram mais baixas do que as taxas dos empréstimos em moeda local. “Um dono de imóvel residencial na Polônia, por exemplo, podia contratar em um banco austríaco um empréstimo hipotecário em euros a uma taxa extremamente baixa, sobretudo se comparada com seu custo em zlotys”, observa Mark Zandi, economista chefe e um dos fundadores da Economy.com, da Moody’s.

Credores austríacos e de outros países ocidentais tinham grande interesse em atender a essa demanda. Contudo, a crise econômica internacional fez com que muitas moedas de países do centro e do leste europeu se desvalorizassem em relação ao dólar e ao euro. Com isso, os pagamentos que eram módicos dispararam no momento em que os ganhos dos tomadores, em moeda local, eram convertidos em euros ou dólares para o pagamento dos empréstimos. Recentemente, por exemplo, um euro estava sendo vendido por cerca de 11 hryvnia ucranianos, ao passo que há um ano a mesma operação era feita com sete hryvnia apenas.

“Existe uma corrida em busca de qualidade. Isto significa que todo o mundo está atrás do dólar e do euro, distanciando-se das moedas das economias emergentes […] em processo de desvalorização”, diz Zandi. “Como boa parte das famílias e instituições do leste europeu contraiu dívidas em euros, sua situação agora é sufocante. Para quem achava que as hipotecas subprime eram um grande problema, verá agora que há coisa muito pior.”

Isso poderá aprofundar os prejuízos dos bancos europeus e, indiretamente, dos americanos, diz Zandi. “O principal problema para os EUA é que se esses empréstimos colocarem de joelhos a Europa Ocidental, tal situação se tornará um problema para nós. Vendemos muito para a Europa e para o Reino Unido.” De acordo com Nichols, “é como se perguntássemos: ‘Por que uma depressão profunda na Califórnia afetaria o Oregon?’ Bem, o fato é que afeta sim.”

Moedas em decomposição

Muitos economistas compararam os problemas encontrados na Europa central e do leste com a crise financeira asiática de 1997 e 1998. A crise começou com o colapso do baht tailandês, levando efetivamente à falência o país no momento em que não pôde mais ser utilizada para pagar os credores externos. A crise se alastrou pela Ásia. “Trata-se de uma situação muito parecida”, observa N. Bulent Gultekin, professor de finanças da Wharton.

Na Ucrânia, por exemplo, mais de 90% da dívida do Estado está denominada em moeda estrangeira, conforme relatório do Citigroup Global Markets. De acordo com uma estimativa, mais da metade de toda a dívida da Romênia, Hungria e Bulgária está contratada em moeda estrangeira. Na Índia, que vem suportando relativamente bem a crise financeira, essa cifra é de cerca de 5%.

“Assim como no leste asiático em 1997 e 1998, um volume muito grande de dívida estrangeira pode levar a uma debandada da moeda local”, observa Richard Marston, professor de finanças da Wharton. “É muito perigoso.”

Embora os países asiáticos tenham conseguido vencer a crise por meio de exportações, Gultekin teme que os países da Europa central e do leste não encontrem demanda significativa para suas exportações, uma vez que seus parceiros de comércio da Europa Ocidental dispõem de pouco dinheiro para gastar.

Os países da Europa Ocidental, preocupados com seus próprios problemas, oferecem apoio mínimo para seus vizinhos do leste. Em 1º. de março, líderes da União Europeia repeliram um pedido de socorro financeiro da Hungria no valor de US$ 241 bilhões para o leste europeu. A Hungria pertencia a um bloco de países que incluía a Polônia, Eslováquia, República Tcheca, Bulgária, Romênia e países bálticos que insistiam na necessidade de ajuda imediata. A chanceler alemã, Ângela Merkel, representante da economia mais poderosa da Europa, disse que qualquer ajuda seria conferida individualmente, caso a caso, uma vez que os países têm problemas distintos. Ferenc Gyurcsány, primeiro-ministro húngaro, reagiu dizendo que se o Ocidente recusar a atender seu pedido, uma “nova cortina de ferro” passaria a dividir as duas regiões, atrasando o desenvolvimento econômico dos dois lados.

“Acho que eles estão preocupados com problemas de risco moral — isto é, receiam que se assinarem um cheque em branco terão de pagar muito mais do que deviam”, diz Allen em referência à posição do Ocidente. Em última análise, acrescenta, os países do leste europeu terão de encarar os fatos: consentir com o colapso da Europa do leste desencadeará prejuízos sucessivos aos bancos ocidentais que emprestaram para as nações da região, e também para as empresas com operações no leste.

Para que os bancos voltem a emprestar, os governos da União Europeia injetaram cerca de US$ 400 bilhões na indústria bancária e garantiram mais de US$ 3 trilhões em empréstimos. Isso deverá dar alguma proteção contra os prejuízos do leste. Em 27 de fevereiro, o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, o Banco de Investimento Europeu e o Banco Mundial anunciaram um aporte de US$ 31 bilhões para socorrer os países do leste europeu, embora muitos especialistas acreditem que seja necessário muito mais do que isso. “Essas instituições costumam demorar para reagir às crises, em parte porque não se trata de um país apenas. São vários países diferentes”, diz Allen a Zandi.  

Alguns economistas temem que a onda de protecionismo possa interferir com os esforços conjuntos. A UE, por exemplo, aprovou empréstimos de socorro para as montadoras francesas com a condição de que mantenham as fábricas francesas em funcionamento, o que provocou protestos da República Tcheca, que tem indústria automobilística própria.

Dos 27 países da União Europeia, 16 utilizam o euro. Entre os países emergentes do centro e do leste da Europa, o euro é a moeda somente da Eslováquia e da Eslovênia. O declínio econômico impede que muitos outros países atendam às qualificações de uso do euro como, por exemplo, manter a dívida do governo e os déficits orçamentários abaixo de determinados tetos. A União Europeia tem demonstrado pouco interesse na flexibilização das exigências feitas, apesar de pedidos nesse sentido feitos pela Hungria, Polônia e Estados bálticos.

Fortes, fracos e mais ou menos

Embora os países do centro e do leste europeu costumem ser nomeados em conjunto, há diferenças muito grandes entre eles.

A economia da Ucrânia, por exemplo, é dominada pelo aço e por exportações de químicos. Ambas as indústrias estão encolhendo e despedindo trabalhadores. Além disso, o país sofre atualmente de escassez de água e de energia para aquecimento. A moeda é instável e muitos especialistas temem que o governo possa dar calote na dívida. Em janeiro, uma disputa com a Rússia pelo pagamento do gás natural e pelo transporte em território ucraniano deixou os consumidores em alguns países europeus sem aquecimento, chamando a atenção para o risco que o leste pode representar para o Ocidente. O Fundo Monetário Internacional prognosticou uma queda de 6% para a economia ucraniana este ano, porém decidiu reter parte de um empréstimo emergencial para o país porque o governo não atendeu às exigências de cortes no orçamento.

“A Ucrânia é uma das economias mais estranhas que alguém possa imaginar”, diz Nichols ao fazer referência a um percentual incomum de descentralização e de dependência de países com os quais a Ucrânia mantém relações precárias, como a Rússia. “Uma economia como a da Ucrânia tem bases muito estreitas”, o que a torna especialmente vulnerável à crise econômica.

Na Europa central, a República Tcheca e a Polônia estão se saindo relativamente bem, embora a moeda polonesa esteja bastante volátil. Hungria, Romênia e os Estados bálticos estão em ritmo de queda. A Letônia está de tal forma enrascada que a Standard & Poor’s classificou como junk (lixo) seu risco de crédito, o que impede o país, fortemente endividado, de continuar contratando crédito.

De acordo com Nichols, a Eslovênia tem apresentado um desempenho relativamente bom, em grande parte por causa de suas relações com a vizinha Áustria. “Pelo que entendo, os dois países vêm avançando com muita dificuldade.” A Polônia também está comparativamente bem, porque tem uma democracia vibrante e acabou com a corrupção, diz Nichols. “Os poloneses fizeram um trabalho excelente de ampliação da economia do país.”

Do outro lado da escala, diz Nichols, está a Bielorrússia. “Ali o governo ainda é autoritário, antidemocrático e envia sinais confusos sempre que se discute a possibilidade de se unir à economia de mercado mundial.” No sul, alguns países se parecem com a Europa de 50 ou 60 anos atrás, diz. A Bulgária, que vem decaindo rapidamente, depende da agricultura — e ainda usa animais de carga e outras técnicas ultrapassadas. A Hungria se acha devassada por problemas étnicos.

“Cada um desses países tem características próprias”, diz Nichols.

A longo prazo, diz ele, os países em desenvolvimento da Europa central e do leste precisam de vínculos mais fortes com o Ocidente — unindo-se à União Europeia, adotando o euro e ampliando o comércio. A crise econômica, porém, tem dificultado tudo isso. As pessoas no Ocidente estão se entrincheirando, protegendo suas economias e perdendo a motivação para a criação de laços com os pobres do leste, ao passo que os países do leste têm poucos recursos necessários à introdução de mudanças que permitam a entrada na UE ou a adoção do euro. Além disso, a batalha contra a corrupção e a favor da expansão dos princípios democráticos se torna mais difícil em meio ao estresse econômico.

“A União Europeia é uma democracia de mercado, e seu objetivo é garantir que qualquer país que passe a fazer parte dela seja igualmente uma democracia de mercado”, diz Nichols. “Eles não querem alguém como a Bielorrússia, com direito à voz plena e à votação irrestrita, mas que chega dizendo: ‘Pois é, somos uma ditadura.’”

Para evitar que a crise se transforme em catástrofe, os países ocidentais deveriam, no mínimo, tentar impedir que os governos do centro e do leste europeu apliquem um calote em sua dívida soberana, o que seria algo semelhante ao governo americano dar calote nos títulos do Tesouro, de acordo com Zandi.

Por fim, acrescenta Gultekin, o Ocidente precisa admitir os fatos da vida. “Se permitir que esses países resvalem para a bancarrota, será o estopim de uma reação em cadeia. Se você é credor, não vai querer que o sujeito que fez o empréstimo morra.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Preocupação no Ocidente: economias da Europa central e do leste correm o risco de se desmoronar." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [11 March, 2009]. Web. [18 October, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/preocupacao-no-ocidente-economias-da-europa-central-e-do-leste-correm-o-risco-de-se-desmoronar/>

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"Preocupação no Ocidente: economias da Europa central e do leste correm o risco de se desmoronar" Universia Knowledge@Wharton, [March 11, 2009].
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