Progresso, mas também insegurança: a vida hoje na Rússia contada por um especialista local

A Rússia passou por um dos maiores empreendimentos de privatização já realizados, observa Philip M. Nichols, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton. "Praticamente tudo era controlado pelo Estado. Isso mudou. Quase todos os ativos russos foram privatizados. Contudo, alguns dos maiores ativos, os mais valiosos, foram novamente nacionalizados, ou foram privatizados de um modo que permite ao Estado manter o controle sobre eles."

Um bom exemplo disso é o do conglomerado de energia Gazprom, maior empresa russa cujo controle majoritário pertence atualmente ao governo. Outro exemplo muito comentado é o da apropriação pelo governo da companhia petroleira Yukos, cujo ex-chefe, Mikhail Khodorkovsky, foi condenado e preso por adquirir ilegalmente a empresa.

Esse foi o tom da recente entrevista de Nichols com Vitali Naishul, presidente do Instituto de Estudos da Economia Russa e do Centro de Estudos de Linguagem Sociopolítica da Rússia, muito conhecido por ser um dos criadores da economia de mercado russa. Durante a era soviética, Naishul trabalhou nos círculos internos da Gosplan, agência de planejamento central da União Soviética. Além disso, foi um dos membros fundadores do Grupo Snake Hill, agremiação de economistas que se reunia regularmente para estudar e criar estratégias para a gestão do futuro da União Soviética. Um estudo que Naishul produziu para o grupo, lançado posteriormente em livro, Outra vida (Another life), tornou-se a matriz das reformas econômicas da era Yeltsin. "Basicamente, ele é o arquiteto do Estado russo moderno", diz Nichols.

Em entrevista concedida a Nichols, Naishul discorreu sobre privatização na Rússia e sobre a vida na Rússia contemporânea — houve melhoras no plano do bem-estar material, mas houve também uma renovação de ideias no que diz respeito à insegurança que permeia os direitos individuais e de propriedade. Conforme diz Nichols, "nada impede que o Estado tome de volta o que lhe deu; a propriedade também não é inviolável. Enquanto as pessoas virem no Estado um agente forte capaz de se apropriar das propriedades, a inquietação persistirá. Sua casa ainda será sua amanhã? Seu carro será seu amanhã? Esse é o tipo de incerteza de que Vitali fala". Na Rússia de hoje, acrescenta Nichols, "as pessoas não se preocupam diariamente com a possibilidade de que algum dano físico lhes sobrevenha. Elas temem que tal dano possa sobrevir de fato".

Naishul continua a ser uma figura muito conhecida atualmente na Rússia, acrescenta Nichols, que trabalha em parceria com Naishul em projetos sobre ética nos negócios e valores russos. Nichols diz que já presenciou desconhecidos se aproximarem de Naishul nas ruas de Moscou pedindo-lhe licença para cumprimentá-lo. "Depois, sorriem", diz Nichols, "porque na Rússia, um intelectual é como um astro do rock. É assim que Vitali ainda é visto na Rússia atualmente".

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Philip Nichols: Obrigado, Vitale, por essa oportunidade que você concede a Wharton, principalmente, porém, a Knowledge@Wharton.

Vitali Naishul: É um prazer estar aqui.

Nichols: Gostaria que você falasse sobre o sucesso dos programas econômicos da Rússia, como as pessoas se sentem em relação à vida e ao país.

Naishul: Elas não gostam da vida que levam no país, mas a economia está muito bem. O que aconteceu desde 1991 foi uma grande transformação, o que fez com que as pessoas vivessem muito melhor agora do que antes. Ao mesmo tempo, porém, no momento em que as pessoas sentem que a situação melhorou, surgem outros problemas mais importantes. As pessoas não estão protegidas. Sua propriedade não está segura. Além disso, elas gostariam que o país estivesse mais bem organizado. Esse é o desejo das pessoas que fizeram carreira nas novas empresas, que alcançaram o sucesso por conta própria e que sabem organizar sua vida e a de outras pessoas. Portanto, não se trata do tipo tradicional de intelligentsiarussa discursando sobre uma vida melhor e formas mais aprimoradas de organizá-la. Trata-se de gente que [já] sabe como fazê-lo.

Nichols: Você está dizendo que, no plano material, as pessoas estão em melhores condições do que nunca na história da Rússia.

Naishul: Sim.

Nichols: Isso se traduz num mercado vibrante de bens materiais? Existe um apetite de compras na Rússia?

Naishul: Sim, é claro. Há muitos bens disponíveis. Se você for a Moscou, poderá comprar de tudo o que há no mundo. Muita gente — não só a oligarquia, muita gente mesmo — tem um alto padrão de vida. Os jovens, por exemplo, são muito bem-sucedidos profissionalmente. Disso resulta que muitos deles sustentam os pais, porque têm salários mais altos e carreiras de grande sucesso.

Nichols: Ao mesmo tempo, porém, não estão felizes com a situação da Rússia, isto é, com a situação atual do país?

Naishul: Bem, basta imaginar o seguinte: suponha que você esteja diante de uma mesa farta, mas em que não há bebidas [...] Essa é a situação da Rússia atualmente. Nenhuma gota de respeito próprio, respeito mútuo, proteção aos direitos, uma sociedade bem estabelecida etc. Quando havia fome, as pessoas se preocupavam com outras coisas [...] Mas agora que a situação material é de fartura [...] quanto mais rico você é, mas insuportável se torna a situação. 

Nichols: Sei que antes de visitar os EUA, você esteve na Itália e no Reino Unido. Como você compara a Rússia a esses países no que se refere às atitudes e expectativas das pessoas comuns? Ou mesmo em relação aos EUA?

Naishul: Eu diria que na Itália, as pessoas se sentem menos deprimidas do que em outros lugares. Isso em relação aos níveis de consumo — um assunto de que os economistas tratam muito bem, portanto não tenho nada a acrescentar. Contudo, acho que em Londres, as pessoas se sentem menos felizes. Diria ainda que em certas regiões dos EUA há também uma certa depressão. Na Rússia, obviamente, a depressão é muito maior.

Nichols: Você disse que parte da depressão, parte da atitude diz respeito a direitos de propriedade ou a expectativas relativas à propriedade [...] As pessoas ainda se sentem tão inseguras quanto se sentiam nos dias que se seguiram a Perestroika?

Naishul: A insegurança agora é de outra espécie. Naquele tempo, a insegurança se devia ao fato de que havia pessoas de diferentes tipos na barafunda que eram aqueles dias de economia lúgubre e de transformação social. Agora, a insegurança se deve a instituições que não funcionam adequadamente. Portanto, se você for atacado por alguém, e se essa pessoa for mais forte do que você, as chances de que haja justiça são menores. Não é que a vida tenha se tornado mais perigosa — não é isso; é possível viver com alegria —; entretanto, existe um sentimento de que alguns direitos podem ser tirados. É o sentimento de que se pode adoecer [...] Você está bem, mas, ao mesmo tempo, compreende que pode ficar doente. Por isso mesmo, considera o dia a dia excelente. Não há perigo algum para os russos ou para quem viaja à Rússia.

É preciso compreender também que a Rússia tem alguns setores de cultura elevada, como a literatura ou a música. Sob alguns aspectos, as pessoas comparam nossas maiores realizações às realidades mais pobres que se veem em segmentos como o sistema jurídico ou o sistema de governo. Portanto, aspiramos a sistemas muito melhores.

Nichols: A Rússia tem, sem dúvida alguma, uma história cultural fascinante. Você sabe perfeitamente que Dostoievski é meu autor predileto. Todavia, hoje, neste momento, quais seriam os pontos fortes da Rússia, isto é, no que país é excelente?

Naishul: Eu diria que nosso ponto forte são nossos intelectuais, a intelligentsia russa — alguns deles mudaram-se para outros países e outros organizaram-se em pequenos grupos —, que está encontrando meios de sobreviver. Não creio que tenhamos definhado completamente, mas acredito que tenhamos problemas nessa área também. Trata-se de algo que diz respeito não só à falta de entendimento generalizado do que a Rússia fará, qual será seu papel.

Nichols: Quando você fala em ideologia generalizada, ressalto que há um abismo muito interessante nos EUA entre pessoas que passaram pela Guerra Fria e outras que não passaram; entre gente que cultiva estereótipos em relação à ideologia russa e gente que não cultiva. Demograficamente, os EUA se acham praticamente divididos ao meio entre esses dois grupos. Como as pessoas na Rússia encaram a relação do país com os EUA?

Naishul: Em relação às gerações mais antigas, fiquei muito surpreso quando estive em áreas do interior rural no tempo da União Soviética e muitas pessoas me perguntavam: "O que você acha dos EUA?" Elas diziam então que haviam se alimentado de comida americana durante a Segunda Guerra Mundial.

Nichols: Você está se referindo à ajuda que os EUA deram à União Soviética?

Naishul: Sim.

Nichols: Eles comiam carne enlatada vinda dos EUA.

Naishul: Sim. Isso para eles era extremamente importante, porque garantia sua sobrevivência. Não se tratava de uma refeição a mais. Era o tipo de refeição que, na época, era escassa. É preciso entender que a Segunda Guerra Mundial foi uma época muito dura, de enormes dificuldades. Na geração do meu pai, por exemplo, só 5% dos homens sobreviviam.

Nichols: Esse é um número difícil de entender nos EUA e, provavelmente, em muitos outros países do mundo.

Naishul: Sim, muita gente morreu. Havia fome e, ao mesmo tempo, lutávamos contra o exército mais poderoso do mundo naquele tempo, e o destruímos. Portanto, foi uma época árdua, e as pessoas se lembram da comida americana. Para os mais jovens, é claro, os EUA servem de exemplo porque, bem, todo o mundo sabe que a América é a mãe da democracia moderna. Além disso, o mundo inteiro está aderindo a modelos surgidos nos EUA [...] Contudo, há também um sentimento de antiamericanismo que se encontra por toda parte [...] Deparei com isso em vários lugares diferentes, porque os EUA geram novos modelos e o mundo todo tem de se adaptar a eles [...] É um processo realmente complexo. Ao mesmo tempo, eu diria que apesar dos estereótipos, os EUA e a Rússia podem estar muito mais próximos do que estão atualmente. Exemplo disso é o nosso território e o território de vocês. Geograficamente, somos países enormes. Pensamos da mesma maneira em relação a esse espaço neutro.

Nichols: Sibéria e o oeste selvagem.

Naishul: Sim, a Sibéria, o oeste selvagem. Temos oito fusos horários.

Nichols: Se levarmos em conta o Alasca, temos também muitos fusos.

Naishul: Sem dúvida. Talvez fosse bom lembrar que a Rússia foi o primeiro país a reconhecer os EUA. Em todos os grandes conflitos, sempre estivemos do mesmo lado.

Nichols: Isso é bem interessante, porque costumamos nos lembrar apenas da Guerra Fria. Em todos os conflitos reais, sempre fomos aliados.

Naishul: Sim, e ao que parece, quando não temos nada para fazer, inventamos problemas, mas basta surgir um problema de verdade para que nos unamos.

Nichols: Você disse que a transição era muito complicada. Sua opinião vale muito, já que você participa do Grupo Snake Hill. Você poderia nos dizer como o grupo foi formado e por quê?

Naishul: Essa é uma pergunta difícil de responder. Para mim, é como se você tivesse me perguntado: "Como foi que aconteceu de você se casar?"

Nichols: No meu caso, não sei o que se passou na cabeça da minha esposa para se casar comigo. Por que você não tenta responder?

Naishul: Nos anos 80, um grupo de diferentes pessoas em diferentes partes da Rússia começou a refletir sobre a futura crise econômica. Eu mesmo compreendi, em 1979, que a União Soviética em breve estaria morta. Eu trabalhava na comissão de planejamento estatal e via que a situação econômica era muito desanimadora, cada vez mais, e sabia que não era por causa de alguma força maligna, e sim porque havia um consenso de que havíamos falhado. Comecei então a imaginar um jeito de passar do sistema que tínhamos para outro de economia de mercado. Mais tarde, encontrei outras pessoas que também estavam pensando no assunto e sobre a necessidade de uma transformação econômica profunda. Entendemos desde o início que havia muito o que fazer. Não se tratava apenas de mudança sistêmica, mas mudança do sistema todo. Portanto, comecei imediatamente a pensar em privatização e como pô-la em prática. Em princípio dos anos 80 me ocorreu a ideia de privatizar por meio de vouchers[espécie de recibo].

Nichols: Que modelo você usou? Como você se informou a respeito da privatização? De onde veio essa informação?

Naishul: Trabalhei na comissão de planejamento estatal. Quis saber então o que era um economista. Um economista é uma pessoa que sabe que os recursos são escassos. Trabalhando na comissão, entendi o que era possível e o que não era possível fazer com a economia. Depois disso, li livros sobre economia de mercado, mas devo confessar que não encontrei nenhuma grande novidade. Fiquei surpreso ao ler esse material ocidental: percebi que nossa ideias batiam. Creio que outros membros do grupo chegaram à mesma conclusão.

Nichols: Você está se referindo ao pessoal do Grupo Snake Hill.

Naishul: A propósito, o Snake Hill estava preparado para mudanças radicais em suas estratégias. Por exemplo, quando alguns membros do grupo estiveram no Chile, os reformadores chilenos ficaram surpresos com a primeira pergunta que os russos fizeram sobre a reforma da previdência chilena: "Mas por que vocês precisam de previdência?" Estávamos prontos para examinar o assunto. Estávamos em busca de decisões, inclusive de decisões radicais. Em 1991, quando a União Soviética entrou em colapso e a economia naufragou junto, parecia haver um único grupo de pessoas capazes de dar receitas consistentes sobre o que deveria ser feito. Na verdade, todas as reformas econômicas feitas na Rússia giraram em torno de dois decretos. Eles foram fundamentais para as reformas econômicas do país. O primeiro deles liberalizou os preços. O segundo permitiu que as pessoas comercializassem nas ruas. Abriu-se então a porta para que o povo participasse da economia de mercado. Em 1º. de janeiro de 1992, entramos na economia de mercado. Creio que as demais coisas — inclusive a privatização — tiveram importância secundária.

Nichols: Obrigado por nos explicar o presente, dar um vislumbre do futuro e por nos abrir a janela do passado que nem todos compreendíamos.

Naishul: Obrigado.

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"Progresso, mas também insegurança: a vida hoje na Rússia contada por um especialista local." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [14 dezembro, 2011]. Web. [03 September, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/progresso-mas-tambem-inseguranca-a-vida-hoje-na-russia-contada-por-um-especialista-local/>

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