Quer controlar sua diabete? Há um aparelho para isso

Durante o primeiro Simpósio de Saúde Conectada anual da Universidade da Pensilvânia, em abril, professores da instituição e empresários passaram o dia demonstrando novas ferramentas móveis que os pacientes poderão usar para se comunicar com seu médico, monitorar seu progresso em relação às metas de saúde pretendidas e interagir com outras pessoas que passam por dificuldades médicas semelhantes. Essa é a essência do movimento de saúde conectada — a nova onda que utiliza aparelhos móveis, aparelhos sem fio e sites para estabelecer uma ponte entre pacientes e pessoas que desejam mantê-los sadios. O simpósio terminou com uma questão provocativa colocada por Ralph Muller, CEO do sistema de Saúde da Universidade da Pensilvânia: "Será que os consumidores querem ficar tão conectados assim?"

Os empresários apostam que a resposta a essa pergunta é um sonoro "mas é claro que sim!" Contudo, não são poucos os desafios: O FDA [Food & Drug Administration, agência que aprova a comercialização e o uso de alimentos e remédios nos EUA] está preparando o lançamento de diretrizes para a regulação dos aparelhos médicos móveis que poderão exigir de algumas empresas que requeiram primeiramente a aprovação dos seus produtos antes de lançá-los no mercado. Mesmo que as empresas consigam passar pelos nós regulatórios, criar aparelhos que sejam atraentes para quem é avesso à tecnologia, como é o caso dos idosos, não será nada simples. "Creio que o grande desafio, tão logo a tecnologia para isso tenha sido criada e aprovada, consistirá em acompanhar de perto a mudança de comportamento nas populações de alto risco", observa Kevin Volpp, professor de administração de sistemas médicos, que também falou no simpósio. Com relação aos pacientes, isto é, se eles querem, ou não, ficar conectados, diz Volpp, "há quem queira e quem não queira, mas isso faz parte do desafio".

Embora os primeiros esforços no segmento de saúde conectada tenham se preocupado em preservar o bem-estar geral — e em que empresas como a Fitbit ofereceram uma variedade de gadgets e aparelhos sem fio por meio dos quais as pessoas podiam monitorar os exercícios que tinham de fazer etc. — as inovações mais recentes têm como alvo grupos específicos de pacientes. De modo especial, eles são direcionados a pessoas com doenças crônicas que requerem vigilância diária, como insuficiência cardíaca, diabete e obesidade.

A Wellframe, por exemplo, uma empresa de Boston, usou uma tecnologia desenvolvida em Harvard e no MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusetts, para criar o que o fundador e CEO da empresa, Jacob Sattelmair, chama de "porteiro digital para pacientes com enfermidades crônicas — que dá a eles orientação para que saibam sempre o que fazer". Sattelmair, que falou no simpósio da Universidade da Pensilvânia, diz que a empresa, fundada em 2012, está fazendo os testes iniciais do seu primeiro aparelho em pacientes que estão se recuperando de ataques cardíacos.

De modo geral, os pacientes cardíacos devem passar por sessões de reabilitação várias vezes durante a semana. Ali aprendem a fazer exercícios para o fortalecimento do músculo cardíaco. Contudo, eles costumam faltar frequentemente às sessões porque o horário das sessões entra em conflito com o trabalho ou por outras razões quaisquer, observa Sattelmair. "Tivemos então a ideia de usar a tecnologia para ampliar o alcance do programa, para torná-lo mais acessível a um número maior de pacientes, e assim reduzir o custo unitário decorrente da sua aplicação", diz Sattelmair.

Os pacientes recebem um aparelho que dá a eles tarefas diárias a serem realizadas durante o período de convalescença e cujo objetivo é diminuir o risco de terem outro ataque do coração. O aparelho lembra aos pacientes o horário de tomar os remédios, usa o acelerômetro do telefone para monitorar e informar o volume de atividade física que os pacientes estão fazendo. "Não pensamos na tecnologia como substituto do cuidado humano; na verdade, ela o amplia", diz Sattelmair.

O teste de viabilidade inicial da empresa foi feito com pacientes de 40 a 80 anos que usaram o aparelho durante vários meses. "Tivemos taxas altíssimas de participação e um feedback excelente tanto dos pacientes quanto dos médicos", diz. Durante o teste, mais de 80% dos participantes participaram "ativamente" do programa de recuperação, o que significa que fizeram mais da metade de suas tarefas diárias. A empresa espera apresentar cem por cento dos resultados do teste durante uma conferência sobre convalescença cardíaca programada para breve.

De acordo com Sattelmair, ainda não foram desenvolvidos sistemas de pagamentos para aparelhos como o da Wellframe, mas ele acredita que as seguradoras acabarão se unindo às fileiras dos que apoiam a saúde conectada. "São inúmeras as mudanças nas apólices que têm levado os fornecedores de assistência médica a repensar a maneira como oferecem seus serviços", inclusive com penalidades para os hospitais com taxas elevadas de readmissão, além do aumento do número de ACOs [Accountable Care Organizations, isto é, associações de médicos e hospitais] constituídas de redes de provedores que recebem pagamentos "agregados" de seguradoras com base na qualidade da assistência prestada, explica Sattelmair. "Não esperamos que as mudanças aconteçam da noite para o dia, mas cremos que há mudanças bastante substanciais em andamento."

Criando um caminho para a riqueza

Em 2009, a Universidade da Pensilvânia recebeu financiamento do National Institute of Health para lançar o Way to Health, uma série de estudos que monitora a eficácia das ferramentas digitais de saúde, além de incentivos econômicos para a melhoria dos resultados na área da saúde. "Usamos aparelhos como pedômetros, glicosímetros, braçadeiras e escala para medição de pressão arterial", diz Volpp, que administra o programa em parceria com o professor de administração de assistência médica da Wharton David Asch. "Estamos realmente interessados em testar maneiras que nos permitam melhorar a participação dos pacientes de alto risco." O comportamento que os pesquisadores estão tentando incentivar consiste no abandono do fumo, perda de peso e consumo programado de remédios.

Embora somente alguns estudos tenham sido concluídos até o momento, os primeiros resultados mostram que a tecnologia e os incentivos tangíveis constituem uma excelente combinação. Em um estudo, por exemplo, realizado no Children's Hospital of Philadelphia (CHOP), os funcionários acima do peso foram chamados para participar em um dos três programas de perda de peso da instituição. Os participantes do primeiro grupo tinham de cumprir metas de perda de peso e receberam lembretes eletrônicos que os avisavam das pesagens semanais. No segundo grupo, as pessoas participavam de pesagens e recebiam um pagamento eletrônico de US$ 100 se atingissem os objetivos propostos. Os do terceiro grupo recebiam o mesmo incentivo financeiro, e mais: eram colocados em grupos de cinco empregados e informados de que se cada um dos membros do grupo (que permaneciam no anonimato) atingisse seu peso ideal, todos dividiriam uma recompensa de US$ 500.

"Constatamos que o incentivo dado ao grupo tinha um impacto muito maior sobre a perda de peso das pessoas", diz Volpp. O estudo, publicado em abril nos Annals of Internal Medicine, mostrou que o incentivo dado ao grupo gerava uma perda de peso 3,2 kg maior do que o grupo cujo incentivo era individual.

Os participantes do estudo se pesavam numa balança eletrônica que os fotografava durante a pesagem, não apenas para checar sua identidade, mas também para lhes dar um feedback visual imediato do seu progresso, diz Volpp. A tecnologia ajudou a acelerar a perda de peso, acrescenta, mas ele acha que foi a combinação da balança, dos incentivos financeiros e da pressão social que fez a diferença. "A tecnologia por si mesma tem um papel limitado", ressaltou. "De modo geral, observamos que as pessoas com doenças de alto risco, e que não são controladas devidamente, não recorrem muito à tecnologia. É preciso que haja uma estratégia de envolvimento para que elas a utilizem."

Em outro estudo da Way to Health, a ser publicado entre junho e setembro, Judd Kessler, professor de economia empresarial e políticas públicas da Wharton, planeja usar uma combinação de tecnologia e uma variedade de incentivos sociais e econômicos para tentar determinar a melhor maneira de fazer com que os pacientes não abandonem a rotina dos remédios. O estudo usa um frasco de pílulas com um transmissor de bluetooth embutido na tampa que transmite um sinal para a plataforma da Way to Health toda vez que o frasco é aberto (presume-se, então, que o paciente tenha tomado o remédio).

O objetivo do estudo, diz Kessler, não consiste apenas em determinar o que funciona melhor como incentivo para criar no paciente o hábito de tomar remédios, mas consiste também em determinar os métodos mais eficazes para que as pessoas criem novos hábitos e permaneçam fiéis a eles, inclusive depois do fim da intervenção. Os membros de um grupo — o braço de "controle" do teste — receberão apenas o frasco com o transmissor. Outro grupo receberá o frasco, um e-mail, uma ligação telefônica ou uma mensagem de texto lembrando-o de tomar as pílulas. Um terceiro grupo receberá tudo isso e mais um relatório semanal informando-o sobre seu progresso na rotina de tomar o remédio. Outro grupo de participantes receberá US$ 1 a cada dia que tomar seu remédio conforme as instruções. O último grupo — rotulado de "feedback amigo" — não receberá incentivo monetário. Em vez disso, indicará um amigo ou membro da família para que receba uma cópia do relatório semanal sobre seu progresso. "A ideia é que se o paciente for meu pai, ele possa me indicar, ou ao meu irmão, para que um ou outro dê feedback amigo sobre sua condição. Acompanharemos semanalmente seu desempenho. Podemos ligar para ele para incentivá-lo a melhorar, ou para lhe dar os parabéns", diz Kessler.

Kessler diz que está particularmente interessado em observar a dedicação com que a pessoa encarregada do feedback amigo desempenha sua função. "Minha pesquisa está preocupada com as forças sociais dos diferentes tipos de comportamento", diz. "Trata-se, portanto, da adesão à rotina de tomar remédios, mas o estudo vai além e se preocupa também com a prática de coisas que sejam benéficas para a sociedade." A pesquisa anterior mostrou que as forças sociais podem ter um grande impacto num cenário de cuidados médicos, disse.

Vencendo as dificuldades

Os empresários que estão tentando vender plataformas de saúde conectada enfrentam vários desafios. Em maio, o FDA advertiu uma empresa indiana, a Biosense Technologies, de que seu aparelho era considerado um aparelho médico, portanto tinha de ser submetido à autoridade regulatória. A empresa comercializa o uChek, que analisa tiras de teste de urina aprovadas pelo FDA — mas somente no caso de interpretação visual direta. Quando o celular passa a ser usado para analisar asa tiras, o aparelho requer permissão à parte para ser utilizado como aparelho médico, informou a agência em carta a Biosense.

Até o final do ano, o FDA espera divulgar as diretrizes que esclarecerão quais aparelhos móveis precisam de permissão do órgão. Uma primeira versão das diz que os aparelhos de diagnose, como é o caso do produto da Bionsense, terão de receber a aprovação dada a aparelhos médicos. O documento diz ainda que o FDA poderá supervisionar o produto quando ele for projetado para coletar informações sobre pacientes específicos e usá-las para auxiliar os médicos em tarefas como o cálculo da dosagem dos remédios.

Ryan Sysko, um dos fundadores e CEO da WellDoc, de Baltimore, e que também participou do simpósio da Universidade da Pensilvânia, disse à plateia que sua empresa passou mais de dois anos em busca de aprovação do FDA para seu primeiro produto, um aparelho de medição de diabete que os pacientes usam para interagir com seus médicos e para gerir seus remédios, testes de glicose e estilo de vida. Cabe aos médicos prescrever o aparelho assim como prescreveriam um remédio, por isso a empresa procurou a aprovação do FDA quando lançou o produto em 2005.

"O que interessa ao FDA é que sua empresa esteja em dia com os controles, e que ela tenha sistemas de qualidade e padrões de procedimentos operacionais que governem a maior parte das coisas que faz", diz Sysko. "Creio que esse é o maior investimento que as pequenas empresas podem fazer. Foi sem dúvida alguma o que aconteceu conosco. No nosso caso a demora foi tão grande porque, em parte, nossos processos não estavam amadurecidos, e havia deficiências no aparelho. Para o FDA também era tudo muito novo."

Tirando as dificuldades próprias da regulação, os inventores de aparelhos para o segmento de saúde conectada ainda estão aprendendo onde essa tecnologia pode ser mais bem aplicada. Usá-la para incentivar o comportamento sadio dos idosos pode ser um desafio, diz Jason Karlawish, professor de medicina da Universidade da Pensilvânia e pesquisador bolsista do Centro de Bioética e do Leonard Davis Institute of Health Economics. "Ainda há trabalho a ser feito nessa área. Creio que se você analisar os grupos pela idade, verá que os mais velhos tendem a responder melhor às ideias de prazer que enfatizam a tranquilidade e o desfrute, ao passo que os grupos mais jovens tendem a pensar mais no futuro e são receptíveis ao entusiasmo", diz Karlawish.

Karlawish concluiu recentemente um estudo sobre a diferença entre as recompensas econômica e emocional na motivação de idosos para o exercício. No estudo, alguns participantes receberam a descrição de um programa de caminhada que era "emocionalmente neutro" e não prometia nenhuma premiação financeira, diz. Outros participantes receberam uma mensagem mais positiva a respeito do programa, mas que também não prometia nenhuma recompensa financeira. O terceiro e o quarto grupos receberam uma das duas mensagens além de uma recompensa financeira se atingissem os objetivos propostos. "Parece que não houve nenhuma diferença significativa entre a promessa de dinheiro e a mensagem estritamente positiva e de caráter emocional", observa Karlawish.

Portanto, até que ponto os pacientes estão dispostos a ficar conectados com o sistema de assistência à saúde? Será que vão embarcar nessas novas tecnologias se o movimento da saúde conectada chegar ao ponto de permitir que estejam em contato constante com seu médico? De acordo com os especialistas da Universidade da Pensilvânia, ninguém sabe, por enquanto, as respostas a essas perguntas. 

Em um estudo já concluído e que agora está sendo revisado para publicação, diz Volpp, pacientes com controle precário do açúcar no sangue e da pressão arterial receberam feedback do seu progresso, além de terem a oportunidade de se comunicar eletronicamente com seu médico. "O programa teve excelentes resultados, mas é difícil saber quanto desses resultados se deve ao contato com o médico e quanto foi resultado do feedback diário", diz Volpp. No fim das contas, ele acrescenta, todos os inventores de aparelhos para a saúde conectada devem estar cientes das limitações da tecnologia. "A tecnologia é uma capacitadora. O principal desafio consiste em mudar o comportamento das pessoas."

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Quer controlar sua diabete? Há um aparelho para isso." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [24 September, 2013]. Web. [25 March, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/quer-controlar-sua-diabete-ha-um-aparelho-para-isso/>

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"Quer controlar sua diabete? Há um aparelho para isso" Universia Knowledge@Wharton, [September 24, 2013].
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