Rivais da Microsoft de olho no Office: será que eles conseguirão derrubar o gigante?

Está aberta a temporada de caça ao Office da Microsoft. O Google está distribuindo o StarOffice, da Sun Microsystems, um suíte de produtividade rival, e conta também com um suíte próprio de produtividade online batizado de Google Docs e Spreadsheets. O Numbers, planilha da Apple integrada ao suíte iWork da empresa, pretende fazer concorrência ao Excel da Microsoft. Há também o StarOffice, um suíte de código aberto estruturado sobre a mesma base de código do StarOffice da Sun, além de vários outros produtos disponíveis online — tais com o ThinkFree e o Zoho — de olho nesse segmento da Microsoft.

 

Todos esses rivais surgiram numa época em que o domínio da Microsoft no setor de software de produtividade — Word, PowerPoint e Excel — continua forte, com participação de mercado baseada em receita de, pelo menos, 95%, de acordo com a firma de pesquisas International Data Corp. No ano fiscal encerrado em 30 de junho, a Microsoft informou uma renda líquida de 14 bilhões de dólares sobre receitas de 51,1 bilhões. A divisão de negócios da empresa, que inclui o Office, informou receitas anuais de 16,4 bilhões de dólares. Enquanto isso, a empresa se beneficia de um novo ciclo de produtos à medida que sua clientela migra para o Office 2007.

 

Portanto, por que a concorrência decidiu se fixar nesse rolo compressor fantástico que é o Office?

 

Os professores da Wharton apontam várias razões: se essas empresas conseguirem tirar da Microsoft ao menos um ponto de participação de mercado, dizem, já terão lucrado alguma coisa. Outros assinalam que, estrategicamente, as rivais querem enfraquecer o domínio da Microsoft de todas as formas possíveis. Outros ainda chamam a atenção para o fato de que a velha e boa concorrência continua viva e ativa na indústria de tecnologia, e que a Microsoft é uma adversária digna em muitos frontes diferentes.

 

“O Office, mais do que o Windows, é a grande fonte de renda da Microsoft”, observa Kevin Werbach, professor de Estudos Jurídicos e de Ética da Wharton. “Como o ritmo das versões de novos Windows vêm diminuindo, as atualizações do Office deverão se tornar um gerador ainda mais significativo de receitas para a Microsoft nos próximos anos. O Office é a plataforma que introduz, de fato, a Microsoft na vida de quase todos os usuários de computador. Você já tentou participar de uma conferência com uma apresentação que não fosse em PowerPoint, ou já tentou alguma vez enviar um documento a um colega em um formato diferente do Word?”

 

Contudo, apesar de o Office se achar entrincheirado por outros produtos, Kendall Whitehouse, diretor sênior de Tecnologia da Informação (TI) da Wharton, diz que o suíte de produtividade da Microsoft é um alvo mais fácil de atingir do que o Windows, o sistema operacional da empresa que monopoliza o setor. “O Microsoft Office talvez não seja tão inexpugnável quanto pareça”, observa Whitehouse, acrescentando que um produto de interface melhor, de opções menos complicadas e que leia e permita modificar documentos Word poderia abocanhar parte do mercado do Office.

 

Lawrence Hrebiniak, professor de Administração da Wharton, diz que há também práticas um tanto dúbias entre a Microsoft e seus rivais. “Outro aspecto do fascínio que o Office exerce é a possibilidade de desafiar um gigante”, diz Hrebiniak. “As pessoas querem algum tipo de competição.” O Google talvez tenha outros motivos para desafiar a Microsoft, diz ele. Hrebiniak descreve, por exemplo, o esforço mais recente do Google para distribuir o StarOffice como uma espécie de “distração”. “A Microsoft está tentando diversificar e investir contra o Google. Já o Google distribui gratuitamente o suíte de um concorrente como distração e também como uma forma de morder parte do mercado da Microsoft. A estratégia de ambos nem sempre é muito racional, mas faz parte do jogo.”

 

Os rivais da Microsoft sem dúvida esperam que seus produtos lhes proporcionem um ponto de contato maior e lhes permita fisgar o consumidor, de acordo com Werbach. Para o Google, trata-se de vender mais publicidade. Para o iWork, da Apple, trata-se de dar às pessoas outra razão para comprar um iMac. Para outros, trata-se de vender softwares disponíveis online.

 

A safra atual de concorrentes ao Microsoft Office apresenta diferenças quando comparada a outros desafiantes anteriores, como a Novell e a Netscape. Isto é o que os torna perigosos, acrescenta Werbach. “Grandes empresas como o Google, Apple e Sun não têm necessidade de levantar capital diretamente com aplicativos, uma vez que possuem outras fontes de receitas.” Portanto, esses concorrentes podem sabotar com facilidade o Office no quesito preço, oferecendo softwares para testes e tentando com isso ganhar participação de mercado. “Os concorrentes da Microsoft esperam mudar a economia do mercado de aplicativos de produtividade distribuindo gratuitamente esses suítes”, assinala Werbach.

 

“Espaço para um estratagema melhor”

Por enquanto, o plano de jogo dos adversários da Microsoft parece ser o de “morder” parte do mercado do Office.

 

Em 15 de agosto, a Sun anunciou que o suíte do StarOffice seria distribuído gratuitamente como parte do serviço de download do Google Pack.  O Google Pack consiste em softwares selecionados pelo Google para seus clientes e que são oferecidos a eles para download. O Google oferece, entre outros, o navegador Firefox, da Mozilla, o StarOffice, Skype etc. A Sun oferece também um campo de pesquisa do Google para download no StarOffice. A Sun apresenta o StarOffice como “um suíte de produtividade para escritório totalmente equipado e compatível com o Microsoft Office e por um preço bem menor”.

 

A Sun cobra 69,95 dólares pelo StarOffice sozinho. A versão mais recente e mais barata do Microsoft Office para uso doméstico e para atividades escolares sai por 149,99 dólares, e chega a 679 dólares no caso do Microsoft Office Ultimate. São preços estimados no varejo, segundo a Microsoft.

 

Além disso, a Apple anunciou em 7 de agosto o lançamento do novo suíte  iMac, iLife 08 e iWork 08. O suíte de produtividade para o escritório iWork, da Apple, inclui o Pages, processador de texto, o Keynote, um software para apresentações, e o Numbers, uma nova planilha. Steve Jobs, CEO da Apple, disse que o Pages e o Keynote são “incrivelmente fáceis” de usar e acrescentou que o Numbers “é muito mais intuitivo e fácil de usar do que qualquer outro aplicativo disponível”. O Numbers permite trabalhar com gráficos mais complexos, classifica mais facilmente os dados e dispõe de tabelas que podem ser reorganizadas rapidamente. Walter Mossberg, colunista de tecnologia do Wall Street Journal observa que a resposta da Apple ao Office é elegante, mas menos rica do que a versão da Microsoft. O iWork sai por 79 dólares por usuário.

 

De acordo Michael Silver, analista da Gartner,  os suítes de produtividade da Apple e do Google não foram criados necessariamente para derrotar o Office. O objetivo é conquistar uma pequena fatia do mercado. “Se analisarmos o retorno que o Office proporciona a Microsoft, veremos que se trata de um montante bastante polpudo. Sua preocupação é crescer. Se você conseguir capturar 1% do mercado, ou mesmo meio por cento, será um bom negócio”, diz Silver.

 

Ele ressalta que “o Office não mudou nos últimos dez anos”, um fato que abre as portas para que outros tentem inovar ao entrarem no mercado. Há espaço para um estratagema melhor em algum ponto. Trata-se de fazer com que o usuário trabalhe de forma diferente ou melhor.” Whitehouse concorda. “Poucos consumidores precisam de todos os recursos que o Word oferece. Para muita gente, a facilidade de uso conta mais.” Além disso, prossegue Whitehouse, isso abre as portas para uma empresa como a Apple, com um histórico comprovado de aplicativos de interface amigável.

 

O segredo: compatibilidade de formatos?

A característica mais crítica dos concorrentes do Office talvez seja a capacidade de compartilhar documentos com o produto concorrente. “Você comprou o Word porque as pessoas mandam arquivos em Word para você e é preciso editá-los”, diz Whitehouse. “O elemento crítico de um produto concorrente consiste em poder ler e modificar esses arquivos. Se você tem um Mac [com iWork] capaz de ler arquivos de Word e de PowerPoint e de editá-los, a possibilidade de abandonar o Office é muito maior. O diferencial é a interface do usuário, a velocidade de que ele dispõe e a estabilidade do programa.”

 

Boa parte das alternativas ao Microsoft Office, entre elas o iWork da Apple e o StarOffice da Sun, abrem e salvam documentos compatíveis  com o Office. Além disso,  a capacidade de trocar documentos  entre produtos concorrentes  pode se tornar mais fácil  em razão da tendência da indústria de fixar padrões públicos para os formatos dos documentos. O estado de Massachusetts, por exemplo, estabeleceu que todos os formatos dos documentos teriam de se conformar a um padrão de código aberto denominado OpenDocument Format (ODF). A Microsoft divulgou o seu padrão, o Office Open XML. As autoridades de Massachussets decidiram aceitar ambos os padrões.

 

A adoção de um padrão como o ODF facilitaria a vitória de produtos rivais sobre o Office, observa Silver. Embora Whitehouse não creia no advento de um padrão único, o fato de que as empresas estejam adotando formatos públicos para seus arquivos constitui um passo significativo. “Os formatos de documentos publicados facilitam a troca confiável de documentos e a criação de arquivos que permanecem estáveis ao longo do tempo.” Talvez facilitem também a criação de softwares que possam competir com o produto dominante no mercado.

 

A defesa da Microsoft

Embora os esforços para a criação de alternativas ao Office sejam dignos de nota, a Microsoft ainda tem muita coisa trabalhando a seu favor. De acordo com Hrebiniak, o maior ativo da empresa nessa guerra de softwares de produtividade é a inércia. “Por que abandonar a Microsoft e substituir seu produto por outro?”, pergunta. “O cliente prefere aquilo que já conhece, mesmo que as alternativas sejam simples de usar. É uma questão de hábito.” Seria preciso que a concorrência apresentasse um software radicalmente melhor para que o cliente mudasse. “Ainda vai demorar para que alguém consiga derrubar a Microsoft.”

 

Contudo, Werbach assinala que as condições podem mudar rapidamente para a Microsoft, que tem investido significativamente em novas ferramentas online, como o Live, usando o Office para a venda de softwares corporativos. “Não creio que esteja próximo o dia em que veremos a franquia Office da Microsoft derrotada, mas no momento em que o mercado decidir acolher as alternativas disponíveis, esse dia pode ficar mais próximo. A Microsoft sabe disso. A empresa tem investido pesadamente no projeto Live além de outros programas com o objetivo de reduzir sua dependência do software de desktop.”

 

A Microsoft também está empenhada em tornar o Office mais rico, diz Silver, integrando-o a softwares corporativos como o SharePoint Server, um produto que permite aos clientes colaborarem uns com os outros, administrar o conteúdo e se comunicarem online. “A Microsoft percebeu faz alguns anos que o Office estava se tornando um produto de prateleira, por isso criou peças suplementares para ele. As empresas com as quais lidamos estão muito interessadas no Office 2007 por causa do SharePoint.”

 

Essa estratégia deve estar valendo a pena. Chris Liddell, diretor financeiro da Microsoft, disse em 19 de julho que a divisão de negócios da empresa, que inclui o Office, terá um crescimento de 11% a 12% em receitas anuais. “O primeiro trimestre continuará a se beneficiar da aceitação calorosa do Microsoft Office”, disse Liddell durante a conference call do quarto trimestre da empresa.

 

Todavia, possíveis falhas do Office, caso surjam, se tornarão evidentes. “Saberemos se o Office é vulnerável no momento em que grandes empresas começarem a utilizar um dos suítes de escritório alternativos em vez do Office”, diz Werbach. “As empresas que compram milhares de licenças do Office sabem que poucos dos seus usuários necessitam da maior parte dos recursos oferecidos, e que poderiam economizar muito dinheiro se recorressem a uma alternativa mais leve.”

 

Hrebiniak sabe que a concorrência talvez consiga avançar sobre parte do mercado do Office. A Microsoft, porém, tem os recursos e a garra necessária para lutar, acrescenta. Com 23,4 bilhões de dólares em caixa e em investimentos de curto prazo desde 30 de junho, “a Microsoft é um adversário forte e blindado”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Rivais da Microsoft de olho no Office: será que eles conseguirão derrubar o gigante?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [05 September, 2007]. Web. [21 September, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/rivais-da-microsoft-de-olho-no-office-sera-que-eles-conseguirao-derrubar-o-gigante/>

APA

Rivais da Microsoft de olho no Office: será que eles conseguirão derrubar o gigante?. Universia Knowledge@Wharton (2007, September 05). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/rivais-da-microsoft-de-olho-no-office-sera-que-eles-conseguirao-derrubar-o-gigante/

Chicago

"Rivais da Microsoft de olho no Office: será que eles conseguirão derrubar o gigante?" Universia Knowledge@Wharton, [September 05, 2007].
Accessed [September 21, 2019]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/rivais-da-microsoft-de-olho-no-office-sera-que-eles-conseguirao-derrubar-o-gigante/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far