Setor de saúde cubano quer ampliar sua área de atuação 

Este artigo foi elaborado pela Knowledge@Wharton em parceria com a TTR – Transactional Track Record.

Aclamada inúmeras vezes como a maior realização da Revolução Cubana, juntamente com o ensino universal, o sistema de saúde cubano ultrapassou os limites das praias da ilha e é hoje um dos maiores produtos de exportação do país. Os serviços profissionais realizados pelos médicos e enfermeiros cubanos — cerca de 37.000 em atividade em 77 países — geram uma renda da ordem de US$ 8 bilhões, segundo informam as autoridades locais.

Os médicos e enfermeiros cubanos são enviados em “brigadas médicas” para países distantes assolados pela guerra e por doenças e que se encontram mal equipados para enfrentar crises humanitárias sem apoio externo — como o Haiti, sacudido por um terremoto, e a Libéria, devastada pelo ebola.

Os trabalhadores cubanos da área da saúde são enviados também a países da África, América Latina e do Caribe que não dispõem de profissionais médicos em número suficiente para atender às suas necessidades. Esses países retribuem com petróleo (no caso da Venezuela), boa vontade e dinheiro. O falecido presidente da Venezuela, Hugo Chávez, assinou um acordo com Fidel Castro em 2000 para financiar 43 centros médicos em Cuba para atender gratuitamente pacientes venezuelanos. Cuba, por sua vez, tem 31.000 profissionais médicos na Venezuela e recebe petróleo em troca por esse trabalho.

A ilha tem uma longa tradição de treinamento de estudantes do mundo todo em 16 faculdades de medicina espalhadas por seu território. Esses estudantes, de modo geral, são patrocinados por programas da Organização das Nações Unidas ou por seus governos nacionais, ou ainda, recebem bolsas de estudos concedidas diretamente pelo governo cubano. Até mesmo cidadãos americanos de comunidades de baixa renda foram convidados a estudar nas faculdades de medicina de Cuba em troca do compromisso de trabalhar posteriormente em comunidades onde o atendimento é precário.

As instalações médicas em cuba são, em grande medida, mais bem equipadas do que as dos hospitais dos países vizinhos do Caribe. Com um pouco de investimento, dizem os observadores, o país poderia atrair mais estudantes e trainees de hospitais e provedores de assistência médica dos EUA.

 

As possíveis dúvidas acerca do nível de treinamento proporcionado pelas instituições médicas de Cuba não é algo que preocupe as autoridades estrangeiras. Muitas requisitam com frequência o serviço dos médicos cubanos — alguns deles são inclusive professores nas faculdades de medicina desses países — para a realização de procedimentos especializados.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com Rodrigo Álvarez Cambras, diretor do Complexo Internacional Ortopédico Frank Pais, nas imediações de Havana. Ele atendeu a uma solicitação para que operasse a coluna de Saddam Hussein e tratou o falecido líder iraquiano durante cerca de duas décadas. Álvarez assinala que a política norte-americana incentiva hoje a mesma fuga de cérebros de médicos cubanos que incentivava depois da revolução de 1959, quando cerca de 50% dos 6.000 médicos do país abandonaram a ilha. Embora o número de médicos cubanos tenha crescido mais de dez vezes desde a revolução, Álvarez duvida que Cuba esteja disposta a fornecer profissionais médicos para o mercado americano, já que eles são incentivados a não voltar mais para o país quando aderem ao Cuban Medical Professional Parole Program (CMPP).

O CMPP foi criado em 2009 pelo Departamento de Estado dos EUA e pelo Departamento de Segurança Nacional. Ele permite a médicos, enfermeiras, paramédicos, fisioterapeutas, técnicos de laboratório e treinadores esportivos que trabalham no terceiro mundo candidataram-se a uma permissão de entrada nos EUA comprovando simplesmente  sua cidadania cubana e apresentando suas credenciais médicas em qualquer embaixada ou consulado dos EUA.

Quando lhe perguntaram se antevia uma época em que Cuba enviaria de bom grado pessoal da área médica para os EUA, Álvarez disse que a cooperação no segmento de serviços médicos não era impossível. “Não temos nada contra os americanos”, disse, “mas Cuba não tem médicos em número suficiente para atender a todas as solicitações de assistência médica que recebe do exterior”. Apesar do ambiente caloroso nas relações políticas, Álvarez cita o discurso de Raul Castro em 28 de janeiro na reunião de Cúpula dos Estados Caribenhos e Latino-Americanos em que ele destacou  várias condições para a normalização das relações bilaterais entre os EUA e Cuba, entre elas a suspensão do embargo comercial e a devolução de Guantanamo.

A vantagem da proximidade

Atualmente, diversos hospitais nos EUA enviam profissionais da área médica para treinamento em países distantes como as Filipinas, segundo informa Steven Ullmann, professor da Faculdade de Administração de Empresas da Universidade de Miami e diretor do Centro de Gestão e de Política de Saúde.

Em razão da proximidade com os EUA, onde há escassez de médicos e enfermeiros que falem espanhol para o atendimento básico, faz sentido que se pense em Cuba como base de treinamento e reserva de profissionais médicos, observa Ullmann, que é também coautor do livro “Saúde em Cuba: sonhos utópicos e futuro frágil” (Cuban Health Care: Utopian Dreams, Fragile Future). Ele chama a atenção para a preocupação do governo cubano com o cuidado preventivo e com seu sistema descentralizado de médicos (58,2 para cada 1.000 pessoas), em que os profissionais se fixam em bairros distintos e são responsáveis por suas comunidades imediatas. Esta é para ele a receita para a baixa taxa de mortalidade infantil do país (4,2 mortes por 1.000 nascidos vivos) e para a expectativa de vida relativamente alta de 78,6 anos. Ao mesmo tempo, Ullmann destaca que Cuba recebe ajuda humanitária sob a forma de remédios e equipamentos médicos básicos de doadores europeus e grupos sediados nos EUA.

Cuba tem um sistema de saúde estruturado em dois níveis em que a população de modo geral é atendida gratuitamente em instalações públicas, e hospitais para turistas administrados pela estatal Servimed, em que o visitante paga pelo serviço recebido — a maior parte é originária de países com padrões de atendimento médico baixos e instalações precárias, ou simplesmente caros demais. A Clínica Central Cira Garcia, em Miramar, é um dos principais centros de atendimento de pessoas que vão a Cuba para tratamento médico. Os serviços oferecidos aos visitantes vão desde o tratamento de retinite pigmentosa, uma doença degenerativa que ataca os olhos, a tratamentos ortopédicos, odontológicos, diagnósticos e cirurgias cosméticas [ou desnecessárias]. O país já recebeu diversos pacientes importantes, como o jogador de futebol argentino Diego Maradona, que foi em busca de tratamento para o vício em drogas em 2000; o presidente equatoriano Rafael Correa e Hugo Chávez, que passou seus últimos meses de vida combatendo um câncer sob os cuidados de oncologistas cubanos em 2012-2013.

O país tem condições de se apropriar de uma fatia significativa do bolo global de turismo médico, principalmente na medida em que forem flexibilizadas as restrições às viagens nos EUA, diz Ullmann. Ele acrescenta que o sistema de dupla estrutura do país é coerente com o que muitos mercados desenvolvidos, como o Reino Unido, oferecem a seus cidadãos mediante esquemas de seguros públicos privados paralelos. Com a cobertura mandatória para viajantes desde 2010 garantida pela seguradora estatal Seguros Generales de Cuba, o país conta com uma estrutura para serviços de upselling [em que o cliente contrata serviços mais caros] cobertos por políticas eletivas de seguros.

Preparando-se para o melhor

Mais de um milhão de americanos viajam para o exterior todos os anos em busca de cuidados médicos. Eles vão para países como a Costa Rica, Colômbia, Índia, Israel, Malásia, México, Cingapura, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Turquia, Brasil e Argentina. Cada vez mais, as seguradoras globais oferecem cobertura para diversos mercados internacionais. Uma tendência para descontos cada vez maiores nos EUA estimula as viagens para procedimentos e diagnósticos de rotina, assinala Ullmann.

A Patient Beyond Borders [Pacientes Sem Fronteiras], centro de recursos e de publicações de informações para o consumidor em viagem internacional para tratar da saúde, estima que o mercado do turismo médico global esteja orçado entre US$ 38.5 bilhões e US$ 55 bilhões, incluindo-se os serviços auxiliares. Trata-se de um mercado que cresce mais de 15% ao ano, diz Ullmann, e que Cuba poderia facilmente explorar mais.

Josef Woodman, autor e fundador da Pacientes Sem Fronteiras, diz que Cuba tem o potencial de se tornar um destino ideal de turismo médico para pacientes oriundos dos EUA, mas adverte que o país precisará de investimentos mais significativos em infraestrutura e tecnologia “antes de estar pronto para o melhor”.

Para competir com os mercados mais desenvolvidos de turismo médico internacional, como Cingapura, Cuba terá de ter equipamentos mais modernos e estar apta a cuidar de pacientes que falam inglês, se quiser atrair uma fatia maior do mercado americano. Os pacientes que queiram usufruir de instalações de nível mundial por uma fração do custo já contam com muitas opções, observa Woodman. Ele cita como exemplo Health City, uma ideia original do renomado cardiologista indiano Devi Prasad Shetty, e que Cuba poderia reproduzir como produto de turismo médico.

A Health City, nas Ilhas Cayman, está a uma hora e vinte minutos de avião ao sul de Miami. Trata-se de um hospital de tratamento terciário de alta tecnologia inaugurado em março de 2014 com serviços clínicos e diagnósticos multidisciplinares em cardiologia, pneumatologia e ortopedia. As instalações deverão ampliar seu número de leitos dos atuais 104 para 2.000 nos próximos 15 anos.

A Health City é uma joint venture de 30/70 entre a Naravana Health, que conta com 26 hospitais e um total de 8.000 leitos em toda a Índia, e a Ascension Health, com sede nos EUA, uma instituição católica com 18.000 leitos em 23 estados. Chandry Abraham, chefe de serviços médicos e diretor das instalações, diz que a Health City escolheu a Grande Cayman para instalação de sua primeira unidade fora da Índia devido à proximidade com o mercado americano e aos incentivos oferecidos pelas autoridades locais.

 

Entre as concessões garantidas pelo governo das ilhas houve o reconhecimento das qualificações médicas dos profissionais indianos no âmbito da Health City, que aceita cobertura de seguradoras locais e está em negociação com seguradoras americanas como a Blue Cross Blue Shield, observa Abraham. Um marco importante para a instituição será o credenciamento pela Comissão Conjunta Internacional, situada nos EUA, que Abraham espera seja concedida até maio e que deverá resultar no aumento significativo de pacientes vindos dos EUA.

“Seguindo esse modelo, no caso de um paciente próximo, oriundo dos EUA,  quer tenha ele seguro, quer não, os tratamentos facultativos ou experimentais ainda não foram aprovados pelo FDA — são todos meras possibilidades” que Cuba poderia explorar, diz Woodman. Cuba terá também de apresentar seus registros de credenciamento se quiser ter força no mercado americano, ressalta Abraham. Além disso, as qualificações dos seus profissionais médicos terão de ser reconhecidas, pelo menos dentro dos limites das instituições cooperadoras, para que possam clinicar nos EUA. Álvarez diz que como as qualificações desses profissionais não são reconhecidas nos EUA, muitos médicos cubanos que abandonam seu cargo no exterior via CMPP acabam descendo a hierarquia sujeitando-se a trabalhar como enfermeiros ou assistentes de médicos especialistas, em vez de atuarem como médicos também.

Expandindo a biotecnologia

Além da contribuição que os profissionais cubanos da área médica dão atualmente, e poderiam dar no futuro, à saúde global dentro e além das fronteiras do país, a ilha está disposta a fazer prosperar suas indústrias nascentes de biotecnologia e de farmácia. Embora os serviços de saúde não possam ser de propriedade de estrangeiros, o desenvolvimento de remédios não está sujeito a essas restrições, e Cuba busca ativamente capital estrangeiro e parceiros comerciais no exterior para levar adiante sua produção de agentes anticâncer e de produtos para combate a problemas cardiovasculares.

O Centro de Imunologia Molecular (CIM), localizado a 20 minutos a oeste do centro de Havana em um complexo moderno de laboratórios e depósitos, é fruto do Instituto Nacional de Oncologia e Radiologia de Cuba, e conta com uma linha sólida de produtos que pretende comercializar. Seu remédio mais importante, o Nimotuzumab, um anticorpo monoclonal humanizado antirreceptor do Fator de Crescimento Epidérmico (EGFR), está sendo comercializado internacionalmente através de joint ventures em Cingapura e na China e por subsidiárias estrangeiras com participação integral depois de feitos testes clínicos bem-sucedidos de tumores no cérebro, na cabeça e no pescoço no Canadá, China, Cuba, Alemanha e Índia.

Normando Iznaga-Escobar, gerente comercial da CIMAB, unidade de marketing da CIM, diz que Cuba voltou sua atenção para o exterior assim que o país aprovou uma lei que sancionava a joint venture com instituições estrangeiras em 1994. Cuba tem agora programas de desenvolvimento no exterior em que realiza 40 testes clínicos  em 24 países tendo registrado mais de 1.400 patentes no exterior.

A CIM e a CIMAB fizeram uma parceria com a YM BioSciences, do Canadá, que investiu mais de US$ 80 milhões para levar o Nimotuzumab para a fase III de testes clínicos. A droga foi licenciada pelo FDA para estudos clínicos em 2006, um marco para um produto que, segundo Iznaga-Escobar, hoje é vendido em 18 países e gera receitas de US$ 1 bilhão ao ano em exportações farmacêuticas para Cuba.

A YM BioSciences foi adquirida pela Giliad Sciences em 2013, e a Innokeys, de Cingapura, adquiriu sua parte na joint venture com a CIMAB. Iznaga-Escobar é hoje diretor científico da empresa de Cingapura detentora da licença de comercialização do Nimotuzumab no Canadá, UE, Japão, Austrália, Nova Zelândia e vários outros mercados asiáticos.

A CIMAB quer atrair companhias farmacêuticas multinacionais para que invistam em três joint ventures de fabricação com terrenos alocados na Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, a 60 km a oeste de Havana.

A brasileira Odebrecht Infraestrutura da América Latina concluiu a construção do Porto Internacional de Contêineres de Mariel no início de 2014. O porto de águas profundas pode acomodar navios oriundos do Canal do Panamá e sua Zona Econômica Especial planeja competir com os polos de logística mais importantes da região promovendo, com isso, uma variedade de indústrias com o objetivo comum de substituir as importações por alimentos, embalagens, produtos farmacêuticos e de construção, entre outras coisas, produzidos localmente.

Embora Iznaga-Escobar esteja otimista em relação às perspectivas para a indústria de biotecnologia médica de Cuba, ele observa que a principal patente do Nimotuzumab expira em 2017, e o CIM precisa continuar a desenvolver sua linha de produtos para submeter novos produtos a testes clínicos e pô-los no mercado. Além do Nimotuzumab, as drogas mais promissoras que o CIM planeja desenvolver em parceria com empresas internacionais de biotecnologia são as vacinas anticâncer EGF para o tratamento de câncer de pulmão de não pequenas células Vaxira e CIMAVax, observa Iznaga-Escobar.

Há negociações em andamento com várias multinacionais farmacêuticas, diz Iznaga-Escobar. Inúmeras outras instituições também sob o amparo da BioCuba Farma disputam o capital estrangeiro no intuito de estabelecer ou de acelerar a produção de drogas genéricas, contraceptivos e agentes injetáveis, tanto para substituir as importações quanto para aumentar as exportações em moeda forte. Em empreendimentos desse tipo e em todas as atividades relacionadas à biotecnologia médica, o governo cubano insiste em reter a parte majoritária do negócio, observa Iznaga-Escobar.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Setor de saúde cubano quer ampliar sua área de atuação ." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [23 February, 2015]. Web. [21 January, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/setor-de-saude-cubano-quer-ampliar-sua-area-de-atuacao/>

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"Setor de saúde cubano quer ampliar sua área de atuação " Universia Knowledge@Wharton, [February 23, 2015].
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