Sinal dos tempos: Prince, pioneiro da indústria moderna da música

Ícone musical, inovador e gênio artístico, Prince morreu subitamente na quinta-feira, dia 21 de abril, aos 57 anos. Ele foi pioneiro na indústria musical por seu tino para os negócios, dispensando seu nome de batismo e adotando um símbolo impronunciável durante uma disputa com o estúdio que o contratara, a Warner Bros, nos anos 90. Posteriormente, ele recuperou seu nome e assumiu novamente o controle das matrizes de suas gravações clássicas.

O impacto incomum da carreira de Prince estende-se de sua música à evolução de sua marca pessoal e do seu modelo de negócios ― ele foi um dos primeiros artistas a lançar discos exclusivamente na Internet, a recorrer ao financiamento coletivo (crowdfunding), serviços de assinatura e outros métodos criativos de distribuição anos antes de serem incorporados à indústria em geral.

“No início da década de 2000, Prince esteve distante de quaisquer contratos importantes com os estúdios de gravação, cuidando ele mesmo da sua carreira”, relembra Scott LeGere, chefe do departamento de negócios musicais do McNally Smith College of Music em St. Paul, Minnesota, tendo trabalhado anteriormente no estúdio de gravações de Prince, o Paisley Park. “Agora que paramos para pensar, esse modelo reflete realmente o que os artistas independentes, e até mesmo os grandes artistas, estão procurando hoje em dia.”

LeGere, que, brincando, referiu-se a si mesmo como “o sujeito de hierarquia mais baixa” em Paisley Park, esteve na sexta-feira passada no programa da Knowledge@Wharton transmitido pela Wharton Business Radio, na SiriusXM, para falar sobre a vida e o legado de Prince. Estiveram presentes também Tom Moon, crítico musical da NPR, e Larry Miller, diretor do programa de negócios musicais da Steinhardt School da Universidade de Nova York.

Crowdsourcing anterior ao Kickstarter

Prince foi um artista raro que escreveu, produziu e interpretou sua obra, mas ele também cultivava e promovia futuros talentos. Além disso, escreveu músicas para outros que, embora tivessem a marca “Prince” nelas impressa, podiam ser interpretadas de inúmeras maneiras. “Ele criou um tipo de incubadora antes mesmo que este fosse um termo do setor de negócios”, observou Moon.

A batalha que travou com a Warner Bros. foi longa. Isso fez com que, nos anos 90, ele adotasse o símbolo representado por um hieróglifo e fizesse aparições com o termo “escravo” escrito no rosto. Desse modo, Prince preparava o cenário para as batalhas pelo controle artístico e a remuneração digna que definem a indústria musical de hoje, na medida em que artistas e selos lutam para definir suas relações em face dos novos modelos de distribuição, como iTunes e serviços de streaming. 

“Prince lançava discos diretamente ao consumidor em sistema de crowdsourcing décadas antes do aparecimento da Kickstarter”, disse Miller. “No tocante às suas relações com os negócios e com sua produção criativa, ficou célebre sua frase: ‘Se você não for o dono dos seus mestres, seus mestres serão seus donos’, o que, naturalmente, serviu de base para o argumento que lhe permitiu ganhar o controle do seu catálogo da Warner Bros.”

Quando Prince lançou seu álbum Musicology, em 2004, foi o primeiro em cinco anos a ser lançado por um selo importante, tendo sido o mais bem-sucedido em anos. As vendas do álbum foram impulsionadas, em parte, por um plano inovador e polêmico que incluía uma cópia no preço do ingresso da turnê em andamento.

“Era assim que se vendiam discos em 2005 ― toda noite, vendiam-se 25.000 discos e o artista ficava nas paradas da Billboard”, disse LeGere. “Lembro-me de uma ligação que recebi com a notícia de que a Billboard não ia mais contar as vendas feitas desse modo. Tivemos então uma conversa no corredor e Prince disse simplesmente: ‘Não me interessa nem um pouco se alguém sabe quantos discos eu vendo.’ Para mim ficou claro que esse era o tipo de coisa que não o interessava de modo algum […] Para ele, não eram as premiações que contavam, não eram os elogios. O que ele queria era compartilhar sua música.”

Por fim, Prince assumiu o controle dos direitos autorais de suas composições e gravações e, em 2014, renovou seu contrato com a Warner Bros. ― desta vez, porém, ele tinha controle total sobre elas. À medida que a indústria da música incorporava os modelos inaugurados por Prince, ele disse uma frase em 2010 que ficou célebre: “A Internet acabou.” Isso porque os serviços de distribuição online não pagavam os artistas como deveriam. “Prince não foi apenas um pioneiro”, disse Miller. “Mesmo quando ele ainda não tinha condições de fazê-lo, ele foi um artista que seguiu o coração e operou de acordo com o que achava justo para sua carreira e sua música, independentemente de quem estivesse em sua equipe criativa ou empresarial na época ― e ele o fez décadas antes de todos.”

Ele fiscalizava os clips não autorizados no YouTube e tirava sua música do Spotify e de outros serviços de streaming enquanto estrelas como Taylor Swift protestavam contra as taxas de royalties pagas aos artistas. A música de Prince toca atualmente no Tidal, serviço de assinatura lançado no ano passado por Jay-Z.

“Ele sabia da importância da sua presença como artista e também como ícone cultural”, disse LeGere. “Creio que todo profissional, sobretudo os músicos, vivencia o crescimento dos seus negócios. O sujeito se interessa pela coisa e vê quem tem poder […] Ao vivenciar as décadas de 80, 90 e a de hoje, Prince viu intimamente essas mudanças e soube compreendê-las. Com o tempo, ele começou, de fato, a exercer seu poder em busca de acordos mais justos e de transparência. Todos nos beneficiamos disso.”

Um artista prolífico em vida, sob inúmeros aspectos, Prince deixa literalmente para trás um baú de gravações inéditas. Esse baú estava “cheio” da última vez que LeGere esteve em Paisley Park há oito ou nove anos. Um espaço adjacente fechado que a equipe chamava de “pré-baú” ocupava um “andar inteiro com fitas analógicas de duas polegadas com descrição do conteúdo na lombada da caixa.”

Embora houvesse ali música experimental, LeGere se lembra perfeitamente da equipe ouvindo às escondidas Prince trabalhando em uma música “muito boa e moderna”.

“Ele saía e dizia: ‘Ponham no baú’ e eu punha, e ninguém nunca mais ouviu aquelas músicas”, disse LeGere. “Vamos torcer para que haja um plano bem elaborado para tornar conhecida essas músicas inéditas, porque há coisas muito especiais ali. Tenho certeza.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Sinal dos tempos: Prince, pioneiro da indústria moderna da música." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [03 May, 2016]. Web. [24 March, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/sinal-dos-tempos-prince-pioneiro-da-industria-moderna-da-musica/>

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Sinal dos tempos: Prince, pioneiro da indústria moderna da música. Universia Knowledge@Wharton (2016, May 03). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/sinal-dos-tempos-prince-pioneiro-da-industria-moderna-da-musica/

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"Sinal dos tempos: Prince, pioneiro da indústria moderna da música" Universia Knowledge@Wharton, [May 03, 2016].
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