Sobrecarregados pelo excesso de dívidas, bancos europeus enfrentam acerto de contas

As ações dos bancos estão sendo afetadas no mundo inteiro, mas o cenário é um pouco mais sombrio na Europa. O Índice Stoxx Europe 600 Banks caiu 27% nas últimas 52 semanas, ante 1% das ações dos bancos americanos, conforme monitoramento feito pelo KBW Bank Index. A liquidação está corroendo a confiança do consumidor no segmento em razão de receios de uma fragilidade econômica mundial.

Tanto os bancos americanos quanto os europeus estão presos a uma recessão econômica e financeira. Contudo, o setor bancário dos EUA está em situação muito melhor. “O caminho para a recuperação depois da crise financeira mundial é muito diferente na Europa em comparação com os EUA. A resposta dos americanos foi muito proativa, por isso o setor bancário entrou nos eixos mais rapidamente”, explica Itay Goldstein, professor de finanças da Wharton.

Os bancos no mundo inteiro estão sendo bombardeados por uma série de fatores. A queda dos preços do petróleo bruto prejudica os negócios das empresas de energia, o que, por sua vez, afeta sua capacidade de pagar os empréstimos contratados. Contudo, os bancos americanos souberam proteger suas reservas de capitais melhor do que seus equivalentes europeus para compensar os prejuízos com empréstimos, conforme informou a CNBC. Enquanto isso, taxas de juros baixas ou negativas estão sufocando os lucros numa época em que os bancos europeus ainda têm dívidas substanciais.

A Europa também sofre de outros problemas. O crescimento econômico continua moroso prejudicando ainda mais os bancos. Embora suas posições de capitais tenham se fortalecido, o balanço patrimonial dos bancos continua sobrecarregado devido a créditos de liquidação duvidosa. De acordo com um relatório de 23 de fevereiro da Autoridade Bancária Europeia, a qualidade das carteiras de crédito dos bancos melhorou, mas “continuam a preocupar”, na medida em que os lucros “continuam baixos”. A curva de rendimento ― que representa a rentabilidade de um banco ― é a mais plana já observada em muitos anos, sinal de que as margens estão apertadas.

É evidente que o espectro de outra crise financeira bancária semelhante à crise de 2008 não parece muito distante. “É difícil dizer o estrago que produziria. Há alguns problemas básicos, mas não creio que a situação seja semelhante à de 2007 e de 2008. Não acredito que estejamos perto disso”, disse Goldstein.

Por trás da liquidação

Não faz muito tempo, a perspectiva era mais promissora para os bancos europeus devido ao prognóstico de rendimentos mais elevados para as obrigações, crescimento econômico positivo e injeção de liquidez [quantitative easing], coisas que finalmente começavam a produzir impacto. Contudo, os créditos de liquidação duvidosa, o crescimento moroso, pressões deflacionárias, queda dos preços do petróleo e retração econômica na China logo começaram a cobrar seu preço sobre o setor.

O Índice Stoxx Banks reflete essa realidade sombria: recentemente, o índice passou por seu período mais longo de quedas desde maio de 2008, de acordo com dados da FacSet. Desde o começo do ano, o índice caiu cerca de 18% ante um declínio de aproximadamente 7% do Stoxx Europe 600 Index, um índice de mercados totais de empresas de 18 países europeus.

“De modo geral, os problemas macroeconômicos e a recessão persistente dificultaram a rentabilidade dos bancos”, diz Goldstein. “Eles também sofrem de maior volume de regulação depois da crise, o que limita suas atividades e aumenta as exigências de capital, de liquidez etc.” Os EUA não têm o mesmo conjunto de dificuldades da Europa, acrescentou. A recente decisão do Banco Central Europeu de ampliar as taxas negativas, no intuito de fomentar a concessão de empréstimos, parece não ter surtido efeito. “Em vez de usar seu capital para conceder empréstimos, para ativar a economia, os bancos estão acumulando o dinheiro de que dispõem”, diz Mauro Guillén, professor de administração da Wharton. “Para a economia europeia que depende tanto de crédito bancário, tal atitude pode ser extremamente prejudicial.”

As empresas europeias recorrem ao financiamento bancário muito mais do que suas congêneres do outro lado do Atlântico: as empresas americanas dependem menos dos bancos, uma vez que preferem emitir ações e obrigações. “Os instrumentos de mercado e, principalmente, as ações listadas, têm papel primordial no financiamento externo das empresas americanas”, de acordo com o relatório de Previsão Econômica para a Europa de novembro de 2015 da Comissão Europeia. “Isso ajudou a deflagrar uma recuperação econômica muito mais rápida nos EUA do que na UE.”

Enquanto isso, as taxas negativas continuam a triturar as margens dos bancos europeus dificultando a recuperação. “O efeito da política monetária está afetando os bancos europeus”, diz Goldstein. E os cortes podem não estar no fim. Na próxima reunião de diretrizes do BCE, existe a possibilidade de que a entidade baixe novamente as taxas, observa Franklin Allen, professor de finanças da Wharton e diretor do Centro Brevan Howard do Imperial College de Londres. “Não sei se isso ajudará na presente situação.”

Lidando com a dívida

Os créditos de liquidação duvidosa dos bancos europeus, estimados em um trilhão de euros, constituem outro desafio. Cerca de 6% da carteira de empréstimos dos bancos europeus estão arruinadas, sendo que os empréstimos de amortização duvidosa responderam por 7,3% do PIB da UE, de acordo com um relatório de 2015 da Autoridade Bancária Europeia. Allen observa que esses empréstimos dependem dos preços dos ativos, os quais, por sua vez, podem depender dos preços do petróleo. Se houver uma volatilidade de 10% a 15% nos preços dos ativos, isso poderá ser nocivo para o balanço patrimonial de todos os bancos.

Allen observa que os bancos europeus não lidaram com seu problema de alavancagem como deveriam, ou tanto quanto os EUA o fizeram ― o que aumenta sua vulnerabilidade. Goldstein acrescenta: “Quando os bancos estão altamente alavancados, ficam mais expostos a flutuações. É evidente que, na Europa, há necessidade de que os bancos se estabilizem e que suas exigências de capital sejam mais rigorosas.” No terceiro trimestre de 2015, os coeficientes de capital dos bancos passaram de 13%, ante 11,5% em 2013, de acordo com a autoridade bancária.

Enquanto isso, a união bancária da UE ― criada depois da crise financeira de 2008 para transferir a política bancária da UE da esfera nacional para a esfera da entidade ― é um sinal de progresso, apesar de inúmeros desafios, diz Goldstein. Anteriormente, quando as operações bancárias eram feitas nos países, os bancos tendiam a favorecer as nações com menos regulações, o que suscitava comportamentos tolerantes e descumprimento das medidas regulatórias, diz Goldstein. Contudo, não se sabe ainda de que modo os bancos operariam em relação à autoridade dos supervisores do BCE versus os supervisores nacionais.

Para piorar ainda mais as coisas, as contingent convertible bonds de primeiro nível, ou “CoCos” ― cujo propósito é ajudar um banco a ampliar seu coeficiente de capital, já que contam como capital adicional de primeiro nível ―, poderiam inaugurar um novo nível de risco. Os “CoCos” são bônus de risco que permitem aos bancos emissores deixar de pagar juros quando estiverem em situação difícil, podendo convertê-los em ações ou reduzir seu valor contábil. Os “CoCos” foram bem aceitos na Europa. Os bancos americanos não estão expostos a eles. Este ano, os preços dos “CoCos’ emitidos por bancos europeus de grande porte caíram dois dígitos, de acordo com a Bloomberg News. O valor dos “CoCos” bonds melhorarão “se houver crescimento na economia real”, diz Allen.

Riscos na Itália e na Alemanha

Um dos elos mais frágeis do setor bancário europeu ― além dos bancos gregos ― é a Itália. Allen adverte que os bancos italianos constituem um dos maiores riscos ao setor bancário. Atualmente, os maiores bancos italianos estão lidando com níveis gravíssimos de dívidas incobráveis, num total de US$ 218 bilhões, de acordo com a MarketWatch, instituição ligada ao Wall Street Journal.

“Se dois dos maiores bancos da Itália entrarem em colapso, isso seria uma crise das mesmas proporções do Lehman Brothers”, diz Allen. Uma falência colocaria o governo italiano, já sobrecarregado de graves problemas, sob enorme pressão, o que poderia ter reflexos mundiais. “Em suas condições financeira, isso os deixaria em situação de descontrole”, acrescentou.

Recentemente, a Autoridade Bancária Europeia instituiu novas regulações cujo propósito é proteger o contribuinte de ter de salvar os bancos. Esses chamados bail-ins [reestruturação de instituição financeira sem uso de dinheiro público] exigem que os credores tomem um prejuízo de, no mínimo, 8% do seu passivo antes que os bancos possam requisitar a ajuda do Estado. Contudo, tais socorros podem ainda “causar rapidamente problemas maiores na economia real”, disse Allen. Considerando o tamanho dos três maiores bancos italianos, Allen vê com ceticismo a possibilidade de que os socorros funcionem neste caso se todos os três bancos falirem.

Nem mesmo a Alemanha está imune aos problemas bancários. O Deutsche Bank, o maior banco do país, viu suas ações despencarem 40% este ano, numa queda ainda mais acentuada do que durante a baixa registrada na crise financeira de 2008. O banco registrou um prejuízo recorde de 6,7 bilhões de euros em 2015 e havia o receio de que não pagasse os juros “CoCo”. Contudo, John Cryan, um dos CEOs do banco, disse que a instituição é “sólida como uma rocha” ― e o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, também deu declarações públicas sobre a segurança do Deutsche.

Embora a empresa tenha atribuído o prejuízo aos custos de reestruturação decorrente de cortes na força de trabalho, às reduções do valor contábil dos ativos e despesas com litígios, mesmo assim os investidores liquidaram suas ações movidos pelo receio de que o banco tivesse de levantar capital novo. Guillén acrescenta que o Deutsche Bank, juntamente com o francês Société Générale, envolveu-se demais com investment banking e sofreu por causa disso prejuízos resultantes de apostas ruins.

Posteriormente, o Deutsche Bank anunciou que compraria de volta 5 bilhões de euros de sua dívida denominada em euros e dólares, porém os investidores ofereceram apenas 1,94 bilhões até o momento. “Essa participação relativamente baixa de ofertas de compras públicas […] é sinal de que há uma percepção melhor do mercado e uma preferência do consumidor pela não exposição ao Deutsche Bank”, disse a empresa em uma declaração. Goldstein e Allen acreditam que a Alemanha jamais permitiria a falência de um banco que leva seu nome.

Para Guillén, o Deutsche Bank estará novamente de pé em dois ou três anos, porém os bancos da Itália, Espanha e Grécia devem prosseguir sem perspectivas de melhoras durante algum tempo. E mesmo que os problemas dos bancos desses países sejam específicos de suas circunstâncias, isso poderia afetar a confiabilidade de suas ações.

Enquanto isso, a expectativa em torno da permanência, ou não, do Reino Unido na UE contribui para pressionar ainda mais a perspectiva econômica. “Comenta-se que o euro entrará em colapso e que alguns países deixariam a União Europeia. Isso desestabilizaria a moeda e desestabilizaria os bancos”, diz Goldstein.

“Se juntarmos todas as peças, veremos que os fundamentos são instáveis.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Sobrecarregados pelo excesso de dívidas, bancos europeus enfrentam acerto de contas." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [08 March, 2016]. Web. [23 August, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/sobrecarregados-pelo-excesso-de-dividas-bancos-europeus-enfrentam-acerto-de-contas/>

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