Sopram ventos de mudança no setor bancário da América Latina?

O setor bancário latino-americano foi pego de surpresa quando o BBVA anunciou, em setembro, que venderia seu negócio no Chile. A empresa espanhola, com forte presença na região, está disposta a deixar de lado uma das economias mais prósperas e avançadas da América do Sul. As reações não tardaram a aparecer e, logo em seguida, surgiram dúvidas sobre a possibilidade de que as grandes corporações financeiras internacionais pudessem mudar de estratégia na América Latina.

Diana Mondino, economista e professora da Universidade do CEMA, de Buenos Aires, na Argentina, interpreta a decisão do BBVA como um movimento individual atrelado às prioridades e aos planos da própria empresa. “Todo banco tem sua estratégia, e em um mercado com alto grau de concorrência como o chileno, uma instituição de grande prestígio como o BBVA tem diante de si duas oportunidades: crescer ali ou obter ganhos de capital vendendo e canalizando esses recursos para outros mercados menos maduros que ofereçam um maior potencial de rentabilidade”, explica.

No início do mês de setembro, o BBVA anunciou oficialmente que se achava em negociações com o Scotiabank para venda de sua filial no Chile, da qual controla 68%, já que a outra parte das ações se acha em mãos da família chilena Said. É importante destacar que se a operação se concretizar, a instituição espanhola continuará a controlar a empresa Forum, subsidiária credora para a compra de automóveis.

A exposição do BBVA no Chile é muito pequena se comparada a que mantém outras companhias da região. A cota específica de mercado que tem no país é de pouco mais de 7%, ao passo que sua contribuição para o lucro do grupo é de apenas 4% do total.

Manuel Romera, diretor do setor financeiro da Escola de Negócios IE, salienta que o BBVS não sairá totalmente do país, e diz que a instituição manterá um negócio de empréstimos para a aquisição de carros. Seja como for, ele diz que é “complicado” saber neste momento as razões que levaram o banco a tomar essa decisão. “É preciso lembrar que o BBVA é o sétimo banco do Chile, e seu objetivo é ficar entre as três primeiras instituições dos mercados onde está presente. Em outras palavras, ou ele cresce e alcança o objetivo pretendido, ou sai de onde está. O problema é que estamos falando de um mercado muito maduro no qual não seria fácil alcançar a posição desejada”, diz ele em relação a uma das possíveis causas que levariam o banco a sair do país. “Ao mesmo tempo, pode ser que o banco obtenha ganhos de capital com a venda, aproveitando o bom momento econômico que está vivendo o país”, acrescentou. Por último, Romera também acha que o anúncio do BBVA é “uma maneira de valorizar a unidade do banco no Chile”, além de ser um movimento interessante para saber quanto o mercado está disposto a pagar pela empresa, isto é, qual o seu verdadeiro valor.

Os analistas da Citi, em recente relatório, veem com bons olhos a possível operação, que poderia chegar a 1,2 bilhão de euros (ou US$ 1,410 bilhão). A perspectiva é que o preço poderia oscilar entre 1,3 e 1,6 vezes o valor registrado contabilmente, mas acreditam que a cifra poderá ficar entre 1,5 e duas vezes em razão do valor a mais que se pagaria pelo chamado controle premium.

Romera lembra ainda qual a filosofia que mantém, não apenas o BBVA, mas também a maior parte dos bancos espanhóis com interesses globais, especialmente na América Latina: “Para os bancos espanhóis, nada é eterno e menos ainda nos mercados internacionais”, diz. “Eles são muito conscientes e sabem que, apesar dos laços culturais e linguísticos que unem a Espanha à região, existem no mundo muitos mercados e lugares em que é possível atuar, e não apenas na América Latina”, disse.

Uma perspectiva global

A reflexão de Romera traz à tona uma das indagações que muitos se fazem desde que foi anunciada a decisão do BBVA. Os bancos espanhóis estariam reformulando sua estratégia para a região? Se for esse o caso, dado o protagonismo que têm na América Latina, estaríamos no início de uma redefinição da posição dos bancos nesses mercados?

Mondino não se atreve a se arriscar se o exemplo se espalhará e, portanto, se outras instituições poderão abandonar o Chile, ou até mesmo outros países latino-americanos. Contudo, de modo geral, ela crê que se trata de uma opção pouco provável no que diz respeito às prioridades concretas das empresas. “Dependerá de cada banco e do panorama competitivo de cada país”, disse. Ele lembra que o importante para a região “não é tanto o número de instituições, e sim o potencial de crescimento do mercado”. Para Mondino, “há enormes possibilidades na América Latina, tanto de crescimento no setor financeiro, bem pouco desenvolvido, quanto de crescimento das economias em geral”. Contudo, ela salienta que para explorar essas oportunidades, é fundamental que as instituições desenvolvam um mix de produtos que seja atraente para o consumidor local.

Para que se produza um aumento no número de empresas que estão deixando o mercado, a exemplo do BBVA, e para que isso se torne uma tendência, duas coisas são necessárias: fortalecer as instituições locais ou que outras empresas internacionais queiram entrar no mercado. “Seja qual for a situação específica do BBVA no Chile, o que está ocorrendo não é prova de debilidade do mercado, pelo contrário: há interessados em participar. O banco espera poder utilizar melhor esses recursos em outros mercados, e seus possíveis compradores veem com interesse essa venda”, disse.

Romera pensa praticamente da mesma forma que sua colega. Ele não descarta a possibilidade de mudanças específicas, mas não acredita numa onda de decisões: “Poderá haver saídas pontuais de mercados na América Latina, mas não creio que isso se converta em uma tendência generalizada.”

Romera diz que a América Latina é um mercado muito atraente para as grandes empresas internacionais por diversos motivos. Ele destaca especialmente as “imensas” oportunidades de crescimento na região. “Podemos dizer, inclusive, que em alguns países tudo ainda está por se fazer e desenvolver do ponto de vista financeiro.” É algo que, pelo seu critério, também tem um lado mau: “A região é pouco ‘bancarizada’, e, desse ponto de vista, muito pouco desenvolvida.”

Ele diz que as empresas chinesas, entre outras, são as possíveis interessadas em lançar uma rede na região. “As empresas chinesas buscam oportunidades em todos os rincões do mundo e sua força financeira é muito grande, o que lhes permite uma grande capacidade de movimentação onde creem que haja um bom negócio”, disse.

E falando especificamente dos grandes bancos espanhóis, Romera reconhece que “eles precisam da América Latina para continuar a crescer, uma vez que seus principais mercados, como o espanhol ou o europeu, estão muito maduros e é difícil estabelecer negócio e participação de mercado neles”.

Ele diz que o principal mercado do BBVA na região continuará a ser o México, “um lugar onde o banco tem boa imagem e seguirá crescendo”. O Santander apresenta o mesmo posicionamento no Brasil, porém Romera salienta que ali “a situação é mais complicada econômica e competitivamente”. Seja como for, para ele a instituição presidida por Ana Botín poderá encontrar fontes de crescimento no próprio México e, inclusive, no Chile.

De acordo com Romera, o Peru merece uma menção especial quando se fala em boas ocasiões para fazer negócio. “Trata-se de um país com bancos muito grandes e sem muito desenvolvimento no setor de bancos de varejo”, diz. Em contrapartida, ele acredita que os problemas políticos e de estabilidade institucional e econômica por que passam alguns países podem se converter em um freio muito forte para que as instituições espanholas se animem a investir neles.

Mondino também se mostra otimista em relação ao mercado financeiro da região. Ela crê que haja uma maior possibilidade de que novas empresas entrem em cena do que a saída generalizada das grandes instituições que atualmente exploram as oportunidades da região.

Em relação ao que a América Latina poderá aportar aos grandes grupos financeiros globais, Mondino observa: “Os bancos internacionais têm de arcar com uma quantidade enorme de normas em seus países de origem e em cada país individualmente. Na medida em que essas normas não se oponham e nem se contradigam, a solidez patrimonial obtida será uma grande vantagem para eles”, diz. Por outro lado, Mondino crê que um ponto negativo em relação ao mercado latino-americano de forma concreta é que “eles não têm a agilidade que tem uma pequena empresa local”. Seja como for, ela está convencida de que “há mercado para todos, especialmente na América Latina, onde o crescimento econômico exigirá mais e melhores serviços financeiros”.

Do ponto de vista do consumidor, se houver realmente uma grande movimentação nas empresas, Mondino acredita que isso será positivo. Partindo-se do ponto de vista segundo o qual a saída de algumas empresas daria margem à entrada de outras, a professora sustenta que quem vier estará munido de planos arrojados de crescimento. “É preciso levar em conta que quem está fazendo um grande investimento para entrar no mercado o fará com a expectativa de crescer, o que obrigará essas empresas a oferecer um serviço melhor aos clientes”, diz.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Sopram ventos de mudança no setor bancário da América Latina?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [23 October, 2017]. Web. [15 December, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/sopram-ventos-de-mudanca-no-setor-bancario-da-america-latina/>

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"Sopram ventos de mudança no setor bancário da América Latina?" Universia Knowledge@Wharton, [October 23, 2017].
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