Ted Leonsis: “É um ótimo momento para ser empreendedor”

A nova era da mídia apresenta seu novo cliente. Ele quer tudo de melhor qualidade, mais depressa e, o que é mais importante, de graça.

 

“Esse novo consumidor é muito diferente daquele com que lidávamos antes”, disse Ted Leonsis, vice-presidente emérito da AOL, considerado um pioneiro da Internet e cujo portfólio de negócios ao longo dos anos reúne uma série impressionante de empresas online. Não importa qual o seu negócio — gastronomia, bens imóveis ou serviços financeiros, acrescentou. “Vivemos em um mundo em que o consumidor tomou conta de tudo.”

 

Leonsis, conferencista cuja palestra definiu o tom da Conferência sobre Empreendedorismo 2007 da Wharton [Wharton Entrepreneurship Conference 2007], falou de sua própria vida ao explicar como o consumidor e o mercado mudaram por causa da Internet. “As expectativas dos nossos consumidores são inéditas”, disse ele. “Eles querem tudo do melhor, e querem tudo muito depressa. E tem de ser de graça. É um desafio e tanto estruturar um negócio em torno de um modelo desses.”

 

Recorrendo à ilustração de um mapa rodoviário com sinais e datas marcadas ao longo da rota principal, Leonsis conduziu a platéia pelas interrupções que foi obrigado a fazer no curso de sua trajetória como empreendedor — a começar pela abertura de sua primeira empresa, em 1981, o início de sua relação com a AOL em 1993, a aquisição do time de hóquei Washington Capitals, em 1999 até um de seus últimos empreendimentos: a Revolution Money, uma plataforma de serviços de cartão de crédito.

 

A incursão de Leonsis pelo empreendedorismo começou quando estudava na Georgetown University. Corria o ano de 1976, o verão do bicentenário da independência americana, e Leonsis decidiu vender snow cones nas cores vermelha, branca e azul. Não é o tipo de produto que costuma deixar as pessoas milionárias, mas Leonsis disse que a experiência lhe deu uma amostra do que significa começar um negócio e fazê-lo prosperar. “Acho que o espírito empreendedor é realmente o que impulsiona este país e também a economia mundial”, disse.

 

Leonsis, nascido no Brooklyn em 1957, percebeu imediatamente o potencial dos computadores e da Internet. Ele ganhou seu primeiro punhado de dólares quando, aos 24 anos, se demitiu do Wang Laboratories, levantou um milhão de dólares e abriu uma empresa chamada LIST (Leonsis Index To Software Technology). O empreendimento o levou a adquirir, pouco tempo depois, outra empresa e uma participação acionária no valor de 60 milhões de dólares. “Eu declarei vitória”, disse Leonsis, embora agora, olhando em retrospecto, ele se dê conta de que se tratava de uma “vitória tola, porque tinha a ver com a criação de um negócio, fazê-lo caminhar, prosperar e ganhar algum dinheiro […] Quando eu era jovem, achava sinceramente que não poderia haver coisa melhor do que acumular riqueza.”

 

Foi preciso uma experiência que quase o levou à morte, em 1983, para que Leonsis ajustasse seu radar. “Embarquei no avião errado”, disse, referindo-se ao dia fatídico em que tomou um avião que perdeu os flaps e o trem de pouso e foi obrigado a fazer um pouso de emergência. “Enquanto o avião pousava, rezei com muito fervor e prometi, se sobrevivesse, retribuir a dádiva recebida.” Ele fez então uma lista de “101 coisas a fazer”, uma mistura de objetivos pessoais e profissionais, alguns simples, outros mais ambiciosos. Entre outras coisas, havia o compromisso de “se apaixonar e de se casar”, “pagar as dívidas da faculdade, “criar a maior empresa de mídia do mundo”, e “mudar a vida de alguém por meio da caridade”. Todos os anos, ele repassava os objetivos que havia conseguido cumprir.

 

Inspirado pela lista, fundou a Redgate Communications, em 1987. Segundo Leonsis, foi a primeira companhia de marketing da nova mídia. Leonsis foi trabalhar na America Online depois que a AOL adquiriu a Redgate seis anos mais tarde. Como presidente da AOL, supervisionou sua evolução desde o momento em que a empresa era provedora de Internet discada até quando se tornou fornecedora de negócios de Internet, lançando ou adquirindo nomes hoje conhecidos como Travelocity, WebMD, MapQuest, Netscape e iVillage.

 

Maior poder aquisitivo, menos tempo para o lazer

O consumidor atual, habituado à Internet, “quer controlar seus aplicativos, seu conteúdo. Ele quer tudo, quando e onde quiser”, disse Leonsis ao público. Contudo, acrescentou, o consumidor atual é quase sempre um poço de contradições. Por exemplo, ele tem um poder aquisitivo enorme, mas muito pouco tempo para o lazer. Tem renda dupla, mas poupa menos. Tem muitos imóveis à custa de menos dinheiro. Sua vida familiar é mais fragmentada, e as pessoas estão sempre sobrecarregadas e fazendo alguma coisa. O lado positivo disso tudo é que as pessoas hoje são mais saudáveis e vivem mais. Elas são mais sofisticadas, mas ao mesmo tempo precisam de ajuda. Querem se sentir satisfeitas consigo mesmas, mas não estão necessariamente felizes. Assistem menos à televisão e estão cada vez mais plugadas na Web. Suas opções de mídia parecem não ter fim — TV por satélite, mensagens instantâneas, download de filmes e de música, telefones móveis, só para citar algumas.

 

Leonsis disse que o mundo de três telas no qual vivemos — PC, TV e aparelhos móveis — tende a crescer cada vez mais nos dando sempre mais opções. Ele apresentou dados estatísticos para mostrar como o negócio de mídia muda depressa, ressaltando que somente 25% das pessoas com 30 anos de idade lêem o jornal todos os dias. “A indústria impressa acabou e não há mais retorno”, disse, citando dados de queda na circulação do New York Times, USA Today, Washington Post e Wall Street Journal. “A mídia impressa oferece cada vez menos e cobra cada vez mais.”

 

Por outro lado, o consumidor agora vê a Internet como parte rotineira e indispensável do seu trabalho e da vida doméstica. Ele passa 23% do tempo conectado a ela, ante os sete minutos diários dos primeiros tempos da AOL, disse. Os grupos que mais crescem online são os latinos e os afro-americanos. E os EUA são apenas parte dessa história toda. Leonsis disse que a América do Norte responde agora por 16% apenas dos usuários de Internet em todo o mundo, ante 35% em 2000. “A China tem mais conexões à Internet do que os EUA, e a maior parte delas é feita por telefone […] Se alguém estiver produzindo produtos e serviços apenas para o mercado americano, estará abrindo mão de 80% do mercado”, disse ele à platéia. Embora o potencial de serviços online seja enorme, Leonsis disse que não planos de negócios em número suficiente com uma “visão internacional de globalização”.

 

Parte do apelo da Internet, segundo Leonsis, é que ela une as pessoas e pode criar comunidades. Basta ver a popularidade de sites de redes sociais como o Facebook e o MySpace, além da proliferação dos blogs, que refletem o desejo de auto-expressão das pessoas e também sua vontade de se comunicar com outros. “O conteúdo gerado pelo usuário não é fenômeno passageiro”, disse. Os blogs “dão poder a uma geração de acreditar que aquilo que tem a dizer, o que vê com seus próprios olhos e a interpretação que dá às coisas é extremamente importante”. Leonsis tem um blog próprio, o “Ted’s Take”.

 

Para ele, pelo menos, ter um negócio é necessariamente ter um “negócio que nos faça felizes”. Ele disse que os negócios online podem alimentar o desejo das pessoas de contribuírem voluntariamente com alguma coisa e de retribuírem o que receberam. “Significa sair de si mesmo e descobrir em que lugar desse mundo imenso nós nos encaixamos.” A Internet nos levou a um tipo totalmente novo de doação generosa — a filantropia online, em que as “microdoações” de inúmeros internautas resultam em uma contribuição de porte considerável.

 

Ser bem-sucedido online em um negócio virtual requer conhecimentos de matemática e de algoritmos, observou Leonsis. “Quem quer vender hoje em dia, não deve pensar só no consumidor. Tem de pensar também no algoritmo utilizado.” Além disso, “a unidade básica da vida neste mundo é o pixel, e cada pixel da página conta”. A possibilidade de fazer promoções cruzadas é um das grandes vantagens da Internet, acrescentou, citando o projeto de marketing da Amazon.com, dirigido por algoritmos, e que alerta o cliente que comprou um determinado livro para outros títulos semelhantes que possam interessá-lo.

 

Leonsis, que deixou de comandar este ano as operações diárias da AOL, disse que “embora nunca tenha sido fácil lançar um negócio de classe mundial”, os empreendedores precisam saber que o ritmo da aventura é alucinante. No passado, os investidores queriam taxas de retornos anuais de 40%, mas agora, “se você não consegue 25% no mês, ninguém acredita que você saiba o que está fazendo”. Se uma empresa nova não decola rapidamente, “ficará para trás rapidamente também”.

 

Embora Leonsis tenha tornado seu nome conhecido e tenha feito fortuna com empresas online, esporte e cinema são também paixões que ele abraçou com entusiasmo. Ele foi elogiado este ano por Nanking, um documentário sobre os horrores — e o heroísmo — ocorridos quando os japoneses invadiram Nanking, na China, em 1937. Leonsis é o principal acionista do Capitals e do WNBA’s Washington Mystics. É dono também de parte do Washington Wizards, time da NBA. “Acho que o esporte é uma coisa fabulosa neste mundo em que vivemos”, disse. Assim como a Internet, os times constroem comunidades.

 

Leonsis concluiu sua palestra sobre empreendedorismo com uma observação positiva: “Gostaria de ter 25 anos novamente”, disse. “Acho que é a idade atual para alguém se tornar empreendedor.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Ted Leonsis: “É um ótimo momento para ser empreendedor”." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [12 December, 2007]. Web. [24 November, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ted-leonsis-e-um-otimo-momento-para-ser-empreendedor/>

APA

Ted Leonsis: “É um ótimo momento para ser empreendedor”. Universia Knowledge@Wharton (2007, December 12). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ted-leonsis-e-um-otimo-momento-para-ser-empreendedor/

Chicago

"Ted Leonsis: “É um ótimo momento para ser empreendedor”" Universia Knowledge@Wharton, [December 12, 2007].
Accessed [November 24, 2020]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ted-leonsis-e-um-otimo-momento-para-ser-empreendedor/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far