Tsunami: hora de agir com a cabeça

“Um avião de carga realizou um pouso de emergência no aeroporto de Banda Aceh, no dia 4 de janeiro, depois de atropelar um búfalo. O trem de pouso do Boeing 737 ficou danificado na pista, fechando temporariamente o aeroporto e prejudicando o fluxo de remessas humanitárias enviadas às vítimas do maremoto na província de Aceh. Os helicópteros militares dos Estados Unidos, porém, continuaram em ação. O aeroporto permaneceu fechado o dia todo. O acidente forçou o adiamento de uma missão conjunta de diferentes agências da qual fazia parte o PAM (Programa de Alimentação Mundial das Nações Unidas) de Jakarta, e cujo objetivo era o de avaliar possíveis corredores logísticos e as necessidades, no longo prazo, das populações da costa ocidental de Aceh. Antes do fechamento do aeroporto, seu espaço aéreo já estava próximo do limite da capacidade em razão do fluxo cada vez maior de aeronaves com remessas humanitárias destinadas às mais de 10.000 vítimas do terremoto e do tsunami de 26 de dezembro do ano passado.”

 

O texto reproduzido acima foi retirado de um press release expedido pelo Programa de Alimentação Mundial das Nações Unidas em que o órgão relata as dificuldades encontradas pelos contingentes enviados à região para distribuição da ajuda humanitária recebida. No mesmo documento, com data de 6 de janeiro, o PAM solicitava US$ 256 milhões para alimentar os mais de dois milhões de vítimas do tsunami.

 

O elevado grau de destruição e de mortes causado pelo terremoto conferiu-lhe o triste título de maior catástrofe humana desde a Segunda Guerra Mundial, em que 160.000 pessoas (talvez mais) perderam a vida. Para impedir que a tragédia se alastre, vários grupos internacionais trabalham na reconstrução das áreas afetadas. Não será, porém, tarefa fácil. A onda assassina destruiu toda a infra-estrutura existente, arrasou hospitais, casas e escolas e interrompeu as comunicações, disso resultando um cenário complicado para a ajuda humanitária.

 

“O maior desafio, aquele que exige a resposta mais difícil, é exatamente o da velocidade de resposta. De modo geral, o que realmente causa sérios transtornos é o fato de que grande parte da infra-estrutura dos lugares atingidos ficou arruinada, o que impede a tomada rápida de decisões e obriga as equipes de socorro a improvisar locais, por exemplo, que reúnam todos os recursos. Isto porque nem todos os recursos enviados chegam necessariamente às regiões mais carentes ou ao seu destino final”, explica Luís Solís, professor de Gestão de Operações da Escola de Negócios Instituto de Empresa.

 

 

Solidariedade bem administrada

“A tragédia não afeta apenas os países atingidos diretamente por ela; suas conseqüências são de proporções mundiais”, disse James Morris, diretor executivo do PAM, depois de verificar a situação na capital da Indonésia. “Há muitas vítimas tanto de países pobres como ricos. Milhões de pessoas do mundo todo são testemunhas da tragédia humana que se abateu sobre dez países da Ásia e da África. Felizmente, a ajuda humanitária enviada a essas nações foi a mais generosa e a mais rápida de toda a história.”

 

A solidariedade internacional manifestou-se no mesmo instante em que a tragédia era anunciada ao mundo, e foi crescendo conforme aumentava o número de vítimas e de pessoas atingidas. Além da ajuda econômica dos governos, organizações e cidadãos anônimos, muitas empresas também ofereceram seus serviços. A alemã Siemens, por exemplo, enviará tecnologia médica e especialistas em reconstrução para reparar os danos causados à rede elétrica e às linhas telefônicas; a TPG/TNT, empresa de correios e de logística, trabalha em estreita relação com o PAM; a consultoria Boston Consulting Group colocou-se igualmente à disposição do organismo internacional, enquanto a multinacional Unilever fornece apoio logístico.

 

“Levando-se em conta a dimensão e a complexidade (da tragédia), a logística está sendo muito bem administrada ou, no mínimo, tem proporcionado o bem maior que se pode esperar em uma situação dessas. A logística humanitária realizou grandes avanços nos últimos cinco anos”, explica Luk van Wassenhove, professor de Manufacturing da cátedra Henry Ford da escola de negócios Insead. Em sua opinião, o papel da logística é fundamental, sobretudo diante do grau de destruição provocado pelo maremoto. “Não compreendemos a complexidade da logística até o momento em que ocorre um episódio dessa magnitude. Para os políticos e para os meios de comunicação, é fácil falar que a ajuda não chega a tempo. Os políticos fazem declarações e promessas e se esquecem delas com muita rapidez depois que as câmeras desaparecem. Passadas poucas semanas, os meios de comunicação logo se interessam por outro assunto. Isto, porém, não porá fim ao sofrimento das vítimas”, critica duramente Wassenhove.

 

O professor da Insead critica a comoção que a mídia muitas vezes cria em torno de tragédias desse tipo. Em sua opinião, as pessoas deveriam se perguntar se o tsunami teria despertado tanto interesse se não houvesse centenas de turistas entre as vítimas. “Creio que a atenção dada teria sido muito menor. É o que ocorre, por exemplo, com Darfour. Não há mais notícias de lá. Será que há menos gente morrendo ali só porque as câmeras agora estão na Ásia?”, indaga ironicamente.

 

As declarações do professor Wassenhove ressaltam a necessidade de não se deixar levar pela euforia momentânea. O que realmente importa, garante, é coordenar os esforços, não deixar nada ao sabor da improvisação, e implementar planos de emergência realmente eficazes, porém, sem apelo midiático. Também é o que pensa o professor Solís. “Nessa hora, não basta ser eficiente, é preciso ser eficaz. O importante é que a ajuda chegue ao seu destino. É a velocidade da resposta que conta. Nesse sentido, e dadas as circunstâncias, os esforços feitos são de excelente qualidade.” Solís compara o processo de atuação com o setor de distribuição, aonde chegam “numerosas mercadorias diferentes a serem empacotadas ou acomodadas para o envio a seu destino final…” com o agravante de que “no local da tragédia, inexiste esse tipo de infra-estrutura”.

 

“Um dos maiores desafios logísticos talvez não seja o envio de ajuda aos países atingidos, mas, sim, a transposição da última milha. Em outras palavras: como fazer chegar a ajuda ao povoado mais distante, ou a um lugar sem infra-estrutura e sem transporte — prossegue Solís. Na América Central, por exemplo, o volume da ajuda oferecida sempre foi muito grande nos casos de terremotos, mas não há como fazê-la chegar aos lugares atingidos. A distribuição final talvez seja um dos desafios logísticos mais cruciais, já que grande parte da infra-estrutura acha-se destruída ou danificada.” Uma receita para superar de certa forma esse problema consiste em “recorrer à ajuda dos meios de comunicação e às informações, de modo que os itens prioritários cheguem aos lugares onde há maior necessidade deles”.

 

Coordenação e eficácia

A dificuldade de gerir a ajuda recebida e a necessidade de adequação dos esforços às carências específicas das vítimas levou a ONG Médicos sem Fronteiras a pedir que não fosse mais enviada ajuda de espécie alguma. O mais importante não é a explosão de solidariedade nas primeiras semanas; o que importa de fato é que essa solidariedade prossiga ao longo dos meses e dos anos durante os quais se estenderá a recuperação das localidades atingidas. É indispensável que a ajuda internacional continue a chegar paulatinamente, e que a tragédia não caia no esquecimento.

 

O artigo How to deliver the promises (Como cumprir as promessas), publicado pelo Financial Times em 7 de janeiro deste ano, denunciava o fato de que, por vezes, os alimentos e remédios enviados pela ajuda humanitária tornavam-se impróprios para o consumo por falta de coordenação. Por esse motivo, “as organizações humanitárias insistem em que se envie dinheiro, e não produtos”. Contudo, o auxílio monetário também requer uma administração bastante cuidadosa. “O importante não é doar o dinheiro no momento em que as câmeras de televisão mostram a tragédia. Um desastre de grande repercussão como esse, se comparado com outro de menor apelo, como o de Darfour (essa terminologia não é minha, mas, sim, de muitas ONGs), certamente recebe muito mais dinheiro, ao passo que as tragédias de pouca repercussão sofrem com a falta de ajuda financeira”, critica novamente Wassenhove, para quem o pedido feito pela ONG Médicos sem Fronteiras é a maior prova de que o dinheiro não é a solução verdadeira; o importante é estar preparado; é ter planos para esses eventos emergenciais. “Depois de ocorrida a catástrofe, não dá mais para reagir do modo certo. Só quando estamos bem preparados seremos capazes de dar uma resposta adequada.”

 

Solís cita o caso do Japão como exemplo de que contar com bons planos emergenciais permite reduzir o alcance das catástrofes. “No Japão, onde os terremotos e maremotos ocorrem com maior freqüência, há um estado permanente de vigilância e de análise constante dos planos de emergência, porque existe a consciência de que essas coisas podem acontecer a qualquer momento, já que são episódios recorrentes.” E acrescenta: “Na gestão de risco, sabe-se que quando não há um plano de emergência preparado, muitas das decisões tomadas não são necessariamente as melhores. Não há tempo para analisar se a solução adotada é a melhor ou não. O plano de emergência tende a minimizar os efeitos negativos de eventos dessa natureza.”

 

Instalada a catástrofe, se não havia planos de emergência, ou se eles falharam, Solís ressalta que o grande desafio agora consiste em coordenar todas as informações das demandas concretas, principalmente porque “elas não estão disponíveis em todos os lugares atingidos pela tragédia. Por outro lado, grande parte da informação não se acha disponível para a tomada das decisões mais apropriadas, as quais definem o que será enviado e para onde. Além disso, há também a questão da coordenação do envio de ajuda de cada país. Os países enviam recursos, mercadorias ou dão apoio ao trabalho nos locais atingidos, conforme sua disponibilidade. Coordenar tudo isso requer muita sintonia entre as diferentes entidades”.

 

Fatos concretos

Apesar dos erros cometidos — sobretudo no que diz respeito à previsão — no episódio do maremoto que sacudiu o Sudeste Asiático, Wassenhove acredita que, de modo geral, “a resposta logística foi boa”. Ele insiste na necessidade de apostar em um propósito comum, e não se deixar levar por sentimentalismos. “Dar dinheiro agora não é uma boa solução, nem é tampouco uma boa idéia.” Também não é o momento ideal para o trabalho voluntário. “Para cada pessoa sem experiência é preciso outra experiente ao seu lado, o que acarreta em perda de tempo. Enviar mercadorias também não é uma boa solução, principalmente se não estiverem embaladas corretamente. Há pacotes que misturam chocolate com peças de roupa, pasta dental […] Isso acontece com muita freqüência! Não há nada pior do que um carregamento de mercadorias bloqueando a pista de pouso simplesmente porque não se sabe o que fazer com elas.” Por fim, Wassenhove critica as celebridades que vão às áreas afetadas sem antes se perguntar se sua presença não seria um entrave ao trabalho das equipes de ajuda. “Muitas vezes, recursos limitados e extremamente necessários, como furgões e carros, são requisitados em 25% dos casos para o transporte de políticos, astros do rock e outras celebridades.”

 

Os eventos promovidos pela mídia, além de dificultarem os trabalhos de ajuda, constituem também, na opinião de Wassenhove, um grave câncer que infecta o processo de reconstrução. Por esse motivo, a melhor estratégia para amenizar os efeitos de catástrofes semelhantes à que ocorreu na Ásia, consiste em ter planos de emergência previamente preparados; permitir que os organismos internacionais atuem sem querer sair na foto, e não se esquecer do desastre no momento em que sumir dos telejornais. Solís resume a questão do seguinte modo: “Em casos de desastres naturais, a vida das pessoas é sempre o bem maior a preservar. Nesse sentido, portanto, há uma lição a aprender: é imprescindível que haja certos processos previamente preparados capazes de minimizar a improvisação e maximizar a eficiência da ajuda prestada e o tempo de resposta às necessidades das pessoas que sofrem.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Tsunami: hora de agir com a cabeça." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [28 January, 2005]. Web. [20 January, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/tsunami-hora-de-agir-com-a-cabeca/>

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