Turismo e indústria hoteleira no Brasil: Há como evoluir?

Setor que vinha registrando crescimento considerável até os anos 2000/2001, o segmento de turismo – principalmente o da indústria hoteleira – sofreu os baques dos atentados aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, da crise argentina e da transição política com a eleição presidencial brasileira de 2002. Além disso, as crises financeiras retiraram da população brasileira grande parte da renda que havia sido incorporada desde a implantação do plano real em 1994. Pouco dinheiro entre os consumidores e retração da economia – com PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas do país) em 2003 crescendo apenas 0,5% segundo dados revistos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – têm construído um cenário complicado para aqueles que apostaram e apostam que o mercado turístico brasileiro venha a deslanchar.

 

“O processo de redução de demanda prejudicou principalmente o segmento hoteleiro que explora o turismo de negócios nos grandes centros urbanos, como São Paulo”, afirma Ricardo Mader Rodrigues, sócio da empresa de consultoria HIA (Hotel Investiment Advisors).

 

Desta forma, após uma série de investimentos – inclusive de grupos internacionais, com a instalação nos últimos anos de grandes unidades hoteleiras no país, como Meliá, Renaissance, Inter-Continental, Fasano e Sofitel, em São Paulo; Ouro Minas, em Belo Horizonte; Sheraton, em Porto Alegre; Blue Tree Cabo de Santo Agostinho e SummerVille; em Pernambuco; e cinco empreendimentos de luxo na Costa do Sauípe, na Bahia -, a oferta de leitos vem sendo maior que a demanda, mantendo o índice de ocupação abaixo do desejável.

 

“Esse dado é verdadeiro. Houve essa explosão de oferta especificamente de hotéis. Mas essa parada (nos investimentos) acho que não tem a ver só com a crise. Esse boom de crescimento foi muito alto… Ficamos muito tempo sem ter inauguração de novos hotéis e, de repente, foi um boom enorme. Na verdade, essa tal crise é um pedaço da história, mas o outro é que estamos com um excesso de oferta”, avalia o professor Marcello Chiavone Pontes, coordenador da área de Marketing do FAAP-MBA (Fundação Armando Alvares Penteado – Master in Business Administration).

 

Assim, a expectativa é que investimentos representativos nesta área de hotéis urbanos destinados ao atendimento do turismo de negócios só devam surgir no médio ou longo prazo, segundo prevê o consultor, lembrando, como exceção, a cidade do Rio de Janeiro, centro diferenciado que une as duas pontas mais destacadas do turismo – o de lazer e o de negócios -, principalmente tendo em vista a realização dos Jogos Pan-americanos de 2007 na capital fluminense.

 

Primeiros sinais de reaquecimento

Além disso, a economia brasileira começa a mostrar sinais de retomada, com o crescimento do PIB nacional na casa dos 5,3% no primeiro trimestre de 2004, quando comparado ao resultado do mesmo período do ano passado. Mesmo assim, há aqueles menos otimistas, que não vêem uma mudança muito significativa nas perspectivas da indústria hoteleira: “Você ainda tem alguns locais aqui no Brasil que eventualmente ainda vão continuar recebendo investimentos, mas não no mesmo ritmo que vinha acontecendo. Aí, basicamente, são hotéis muito segmentados ou em locais que ainda não são tão explorados. Agora, no ritmo que estava antes (entre 2000/2001), claro que, como falei, acho que só no médio ou longo prazo”, diz Marcello Chiavone.

 

Mas a falta de otimismo não é artigo único no meio. Mesmo diante do arrefecimento das inversões no ramo hoteleiro, os investimentos não cessaram totalmente, como podemos notar em relatório da ABIH. “Em todo o país você observa investimentos. Nós temos um mapa de investimentos na hotelaria, de iniciativas já certas, em plena construção, para 2004, 2005, 2005 e 2007. Eles atingem o montante de 142 hotéis, ou R$ 6,124 bilhões em investimentos, construindo 44.751 apartamentos, gerando 59.602 empregos indiretos e 14.901 empregos diretos. Esses empreendimentos estão localizados na sua grande maioria na região Sudeste, porque o interior do estado de São Paulo está sendo muito cobiçado por todas as grandes empresas, tanto brasileiras quanto estrangeiras”, aponta Eraldo Alves da Cruz, presidente da ABIH (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis).

 

Alternativa possível

Para o professor do FAAP-MBA, uma reversão do atual quadro de investimentos em negócios que envolvem o setor de turismo depende de uma mudança profunda na estrutura do país voltada ao segmento. “A solução disso tudo acho que não vai ser nem no médio prazo, mas tem de ser no longo prazo, porque é necessário colocar o turismo como uma política de Estado, como prioridade. O Brasil nunca colocou isso como prioridade”, avalia. “O mais caro Deus fez para a gente, que foi o litoral, as praias, as matas, as diversas configurações e opções. Já a infra-estrutura, não tem como: o Estado tem de priorizar.”

 

Por outro lado, Eraldo da Cruz diz considerar que a situação relacionada ao comando do segmento do turismo no país está bem melhor atualmente. “O turismo, hoje, está descentralizado, o Ministério do Turismo está organizado. Nós não tínhamos especificamente um Ministério do Turismo, éramos atrelados ao Esporte. Hoje temos um ministério forte, representativo. Eu vejo com muito bons olhos o que está sendo feito e acho que temos chance de progredir muito”, avalia o dirigente da ABIH.

 

Vale lembrar que a restrição à expansão do mercado hoteleiro nos grandes centros urbanos é bastante negativa para as economias locais. São Paulo, por exemplo, recebe cerca de 34% do total de turistas vindos do exterior ao Brasil, principalmente da Europa e Estados Unidos. Hoje, a capital paulista é o segundo destino turístico mais visitado do país, perdendo apenas para o Rio de Janeiro, por razões óbvias. São Paulo recebe também cerca de 76% de todas as feiras e exposições de produtos industriais, comerciais e de serviços, congressos científicos, convenções empresariais, entre outros eventos. Mesmo tendo em vista tais números, as restrições ao desenvolvimento do setor acabam afetando o bom andamento desse mercado de potencial enorme.

“Para reverter essa situação, só mesmo o crescimento acelerado da economia e uma redistribuição de renda mais justa”, analisa Ricardo Mader.

 

Dois lados da mesma moeda

Outro problema que acaba restringindo o ímpeto dos investidores nos segmentos dependentes do turismo no país é a má impressão que o Brasil vem adquirindo no exterior depois da divulgação pela imprensa do avanço da violência contra o turista ou mesmo o que atinge as populações locais, principalmente no Rio de Janeiro, portal de entrada da maior parte dos turistas estrangeiros que chegam aqui. É claro que as estatísticas ainda não apontam um retrocesso significativo no número de visitantes estrangeiros em razão do problema da violência, mas a persistência dessa realidade pode afetar consideravelmente os resultados do setor hoteleiro e do turismo como um todo, opinam os analistas.

 

Mesmo diante das más notícias, dados do Banco Central brasileiro mostram que os turistas estrangeiros deixaram no Brasil, de janeiro a outubro de 2004, US$ 2,59 bilhões, resultado 32,02% melhor do que o obtido em igual período de 2003.

 

“Acho que estamos lidando com muitas perspectivas. Os números são bastante animadores. O turismo externo e o interno vêm crescendo. Os indicadores de desembarque do estrangeiro no Brasil da Infraero (Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária) mostram um crescimento de 15% de 2003 para 2004. Nos vôos charter não-regulares, houve um aumento de 110% nos desembarques. Entre os desembarques domésticos no país, houve um aumento da ordem de 18%. Então, a acreditar – e eu acredito que a economia do Brasil está em plena ascensão – nós chegamos à conclusão que a continuidade desse processo vai existir e que o turismo vai melhorar”, avalia Eraldo Alves da Cruz.

 

Turismo de lazer

Já o segmento de hotelaria voltado ao turismo de massa tem demonstrado um fôlego um pouco mais animador, segundo avalia Ricardo Mader. Neste setor, investidores europeus de médios grupos hoteleiros, em sua maioria portugueses e espanhóis, vêm apostando no crescimento do turismo brasileiro, comprando hotéis já existentes ou, então, implementando novas unidades, principalmente na região Nordeste. 

 

“Apesar do tombo que o turismo mundial sofreu – e, conseqüentemente, o brasileiro – após os atentados de 11 de Setembro e as crises econômicas argentina e de transição política no Brasil em 2002, parece que o turismo volta a recobrar forças em nosso país, o que é um alento”, diz a turismóloga Maria Aparecida Andrade de Oliveira.

 

Mesmo indicando certo ceticismo, Ricardo Mader também demonstra otimismo frente aos desafios do mercado do turismo: “Vejo boas perspectivas adiante, desde que esse crescimento da economia que percebemos hoje seja sustentado pelos próximos anos”. Ele dá como exemplo, inclusive, os investimentos que vêm ocorrendo na implantação de hotéis mais populares voltados ao turismo de negócios, classificados como de “três estrelas”. “Nesse setor, ainda há bons investimentos e lançamentos.”

 

Essa expectativa é corroborada pelos resultados de um levantamento divulgado no Boletim de Desempenho Econômico do Turismo do Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo), de outubro de 2004. Segundo a apuração, entre os empresários do setor hoteleiro consultados, 55% dizem que aumentarão os investimentos nos próximos 12 meses; 30% manterão os aportes; e apenas 15% desejam reduzir seus desembolsos.

 

Filões

Um dos segmentos que ainda tem muito a ser explorado, segundo Marcello Chiavone, é o de resorts. “Temos todo o litoral do Nordeste – que já tem várias unidade -, mas temos outras regiões, como outras áreas do Nordeste, Norte, Amazônia, Pantanal, Lençóis Maranhenses, Chapadas…”, indica o professor.

 

Já Eraldo da Cruz lembra outro ramo da indústria hoteleira que tem demonstrado bom fôlego na atualidade: “Eu diria que a grande coqueluche do momento é o hotel econômico, que é o hotel que tem a cara da população brasileira, aquele que não te luxo, mensageiro, etc., mas que permite a hospedagem de uma pessoa de classe média baixa sem machucar muito o bolso. Você sabe que o Brasil tem 40 milhões de pessoas que viajam e apenas 16% ficam em hotéis. Se só 16% ficam em hotéis, você tem 84% desse número para trabalhar. Nesses 84%, você há de convir – pelo poder aquisitivo – que o único jeito é colocá-los em hotéis mais econômicos”.

 

Resta aos agentes dos setores vinculados ao turismo torcerem para que o crescimento da economia brasileira seja realmente sustentado e sustentável e que haja uma conjugação de esforços para valorizar as condições disponíveis ao turismo em nosso país, pois devemos sempre lembrar de números expressivos como os apontados pela ABIH, segundo os quais este segmento econômico garante cerca de 1 milhão de empregos diretos e indiretos, movimenta uma receita bruta em torno de US$ 2 bilhões ao ano e conta com um patrimônio imobilizado de por volta de US$ 10 bilhões.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Turismo e indústria hoteleira no Brasil: Há como evoluir?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [12 January, 2005]. Web. [23 August, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/turismo-e-industria-hoteleira-no-brasil-ha-como-evoluir/>

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