Um truque para não esquecer as coisas

Se for verdade que a estrada para o inferno é feita de boas intenções, a estrada para o esquecimento provavelmente é feita de lembretes.

Você amarra um barbante no dedo para se lembrar de que tem de retornar um telefonema. Coloca um post-it no monitor para não se esquecer de comprar leite na volta para casa. Ou talvez mude um livro de lugar na estante para se lembrar de levá-lo para um amigo.

Na era do smartphone, muitas vezes dependemos do iOS, do Google ou do Outlook para não perdermos nossos compromissos ─ mas e se você tiver de se lembrar de alguma coisa e não tiver nenhum gadget à mão?

Para ajudá-lo a vencer esses desafios, Katherine Milkman, professora de informações e decisões da Wharton, propõe uma solução ligeiramente mais original. No estudo “Lembretes através de associações” [Reminders Through Association], Milkman e Todd Rogers, de Harvard, coautor da pesquisa, descobriram que a chave para nos lembrarmos das coisas pode estar em algo totalmente alheio à sua intenção ─ alguma coisa que se destaque da rotina do seu dia a dia.

“Há uma porção de coisas na vida que queremos fazer e que são realmente importantes para nós ─ e, no entanto, deixamos de fazê-las”, diz Milkman. “Pode ser qualquer coisa: uma injeção contra gripe que esquecemos de tomar, uma colonoscopia que tínhamos de fazer, ou mesmo mandar flores para nossa mãe no dia dela.”

Através de uma série de testes, Milkman e Rogers descobriram que é possível melhorar o monitoramento das coisas de que temos de nos lembrar usando o que chamam de estratégia de “lembretes através de associações”. Para isso, é preciso associar sua intenção (por exemplo, enviar uma carta) a algum tipo de dica que capte sua intenção. A dica terá de ser alguma coisa que se destaque do dia a dia ─ por exemplo, o vaso de flores sobre sua mesa que seu companheiro acaba de lhe enviar em comemoração ao Dia dos Namorados.

“A dica tem de ser alguma coisa que se distinga”, assinala Milkman. “Você vê alguma coisa todos os dias de manhã, por exemplo, sua escova de dente, mas isso não provoca estalo nenhum em você. É uma coisa comum, então você continua no piloto automático. Os lembretes através de associações têm de ser algo que chame de fato a atenção, algo que o leve a parar, a fazer uma pausa ─ é por isso que essa estratégia funciona de um jeito que os lembretes de papel não funcionam.”

Alienígenas e cupons

A pesquisa serviu a Milkman para lidar com os problemas que ela enfrenta em seu dia a dia ao tentar equilibrar o trabalho com o bebê recém-chegado. “Chamo a isso de ‘busca de mim’ ─ ou seja, é a tentativa de resolver meus problemas e também os problemas que meus amigos e minha família aparentemente têm”, diz ela. “Para mim, um iPhone chegou, um bebê chegou. Na vida, você está constantemente conectado e há sempre muita coisa para fazer. A capacidade da minha memória basicamente vai a zero nesse momento.”

Além das pessoas que aplicam a estratégia de lembretes através de associações na sua vida, Milkman diz que as empresas também podem usá-la para estimular funcionários ou consumidores. Por exemplo, os gerentes poderiam criar uma dica original para sinalizar aos funcionários que as avaliações de desempenho ou outros relatórios estão adequados.

“Imagine fixar uma charge diferente toda semana no hall de entrada com os dizeres: ‘Se você precisar se lembrar de alguma coisa esta semana, o Mickey vai ser a sua dica'”, diz Milkman.

A experiência de Milkman que mais a agradou entre todas do estudo foi quando ela e Rogers testaram de que maneira essas dicas originais poderiam ser usadas para incentivar os clientes a usar cupons de desconto. Os assistentes da pesquisa distribuíram cupons para cerca de 500 clientes que saíam de uma cafeteria em Cambridge, no estado de Massachussetts. Os cupons davam um desconto de US$ 1 nas compras feitas na quinta-feira seguinte. Eles estavam presos a um panfleto ─ metade desses panfletos dizia: “Quando vir o caixa, lembre-se de usar este cupom.” A outra metade trazia a mesma mensagem, mas incluía também a imagem de um alienígena de pelúcia que, de acordo com o panfleto, estaria atendendo no caixa na quinta-feira seguinte para lembrar os clientes de usar seu cupom. Na data marcada ─ com o alienígena bem à vista, 24% dos clientes que tinham o “panfleto com o alienígena”, conforme a estratégia do lembrete por associação, usaram seus cupons, ante 17% que haviam recebido o panfleto comum.

Procrastinação x esquecimento

A pesquisa mostrou também que as pessoas talvez precisem desses pequenos lembretes mais do que imaginamos. Em outro experimento, Milkman e Rogers ofereceram aos participantes a opção de pagar pelo lembrete. Eles descobriram que muita gente subestimou o custo potencial de sua memória limitada.

“As pessoas confiam demais em sua capacidade de se lembrar sem ferramentas”, diz Milkman. “Deparamos com um grande percentual de pessoas que deixavam o dinheiro em cima da mesa naquele experimento. Ficamos surpresos, mas a verdade é que fazemos isso o tempo todo na vida real.”

Ela observou que há muitos estudos sobre a compreensão dos pontos fracos das pessoas que se concentram na procrastinação ou na falta de autocontrole, mas poucos examinam o papel dos problemas de memória.

Outra inspiração para a pesquisa foi o trabalho que Rogers havia feito como analista de um instituto que tentava usar a ciência do comportamento para obtenção de votos. “Eles analisaram qual a melhor maneira de criar campanhas por meio de textos, do telefone ou cartões postais”, disse Milkman. Enquanto trabalhava nisso, Roger ficou muito frustrado ao constatar o papel significativo do esquecimento no comparecimento às urnas.

Rogers contou a Milkman sobre o experimento e disse que gostaria de ter mandado um malabarista a todos os dormitórios das universidades do país no dia das eleições para avisar as pessoas antecipadamente que a diversão por ele proporcionada tinha como objetivo fazê-las se lembrar de ir votar.

Poucos observaram, por exemplo, a proliferação de sinais que com frequência surgem nos campi em época de eleições: “Eles precisavam de alguma coisa mais atraente, alguma coisa que não passasse despercebido”, diz Milkman. “Percebi que isso é mais comum do que tentar resolver o problema dos universitários, isto é, de fazer com que se lembrem de votar. Essa solução do tipo ‘pare agora o que está fazendo e preste atenção’ pode ser usada em outros contextos e situações.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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