Um vislumbre do futuro: Os “Oscars da inovação do ensino superior”

Em se tratando de ensino superior moderno, há coisas que estão claras para todo o mundo. Em primeiro lugar, não há uma resposta certa que atenda a todos os alunos. Em segundo lugar, todos os envolvidos ainda estão aprendendo quais os métodos que funcionarão melhor no século 21. Contudo, alguns vencedores se destacam graças às suas estratégias incomuns, tendo sido alguns deles homenageados recentemente na edição inaugural do Congresso Reimaginando o Ensino.

Entre as inovações comemoradas destaca-se a sala de aula “invertida”, um modelo insistentemente promovido por Ben Nelson, fundador, presidente e CEO do Projeto Minerva, que dá um novo enfoque ao ensino superior.

“A sala de aula invertida é realmente muito importante”, disse Geoffrey Garrett, reitor da Escola Wharton, na apresentação que fez de Nelson. “Costumamos pensar em termos de oposição, online x campus, o que não é verdade. Eles estão claramente integrados.”

A sala de aula invertida é um novo modelo de ensino superior em que os alunos passam o tempo em classe discutindo questões e resolvendo problemas em grupos. O professor funciona mais como facilitador do que como professor tradicional. Fora da sala de aula — o tempo que todos conhecíamos e amávamos, o tempo do “dever de casa” — é quando os alunos absorvem o material básico da sala de aula através de vídeos e outros meios online. Como consequência, espera-se que cheguem à sala de aula já familiarizados com os princípios fundamentais, prontos para aplicar o que aprenderam.

“Na verdade, o que se quer dizer quando se inverte a sala de aula é que não é o ensino universitário que é uma espécie em perigo — é a aula”, disse Garrett. Até mesmo o layout dos espaços de ensino está mudando para refletir essa nova estratégia. Em uma instituição, a mesa do professor está sendo substituída por peças de mobília como “bancos de bar e pufes” no intuito de “tirar o professor do centro” e facilitar o trabalho de colaboração.

Um tipo melhor de educação?

Garrett observou que Nelson não estava apenas invertendo a sala de aula, mas a universidade toda. “Perder tempo com transmissão de informação em sala não ajuda ninguém”, disse Nelson. Ele acrescentou que no Minerva todos os seminários são, conforme ele mesmo disse, “cem por cento ativos”. Em outras palavras, todos os alunos devem se envolver de forma participativa durante, no mínimo, 75% do tempo. Os professores não podem falar mais de cinco minutos ininterruptamente, e o números de alunos em classe é pequeno: menos de 20. O objetivo do Minerva, segundo Nelson, é “pegar o ensino tradicional de liberal arts [equivalente aos bacharelados interdisciplinares no Brasil] e ministrá-lo de uma maneira mais substanciosa e mais eficaz aos estudantes mais aplicados e motivados do mundo todo”.

Contudo, desde sua fundação, em 2011, discute-se muito se o modelo do Minerva representa, ou não, o futuro rumo do ensino superior. Se já dispomos de universidades de ponta para atender a alunos brilhantes, indagou Nelson, por que então essa nova estratégia é necessária? Ele apresentou um quadro dos líderes de hoje tomando como exemplo os CEOs da Fortune 500, políticos e outros em posição de poder que tomam “decisões empresariais terríveis”. Essas decisões têm efeitos negativos profundos, disse Nelson. Milhares de pessoas perdem o emprego, quando não acontece coisa pior. Contudo, quando tiramos de cena o mau líder, ele “passa a dar consultoria, vai fazer parte de diretorias, trabalha menos e ganha muito mais”. Quanto ao político afastado, ele “acaba ganhando mais fazendo lobby”.

Não é que esses indivíduos “sejam maus ou queiram fazer coisas ruins”, disse Nelson. Pelo contrário, ele disse que as universidades que os formaram talvez os tenham preparado para um emprego ou campo de estudo, mas não lhes deram “os meios para processar um mundo complexo e pensar sobre ele”.

Nelson acredita que a solução seja “pensar a instituição a partir dos objetivos e daí para trás”. O Minerva, disse ele, gira em torno de 129 hábitos da mente e conceitos fundacionais que ensinam os estudantes a analisar o mundo. Ele deu como exemplo o conceito de consequências não previstas: no Minerva, os estudantes possivelmente estudarão esse conceito na medida em que depararem com ele nos sistemas biológico, econômico e jurídico. “A mente pode internalizar essa ideia e aplicá-la em outros contextos.”

Nelson disse ainda que a graduação no Minerva está fundamentada em quatro sistemas de pensamento: sistemas formais, empíricos, complexos e retóricos. Outro aspecto específico da instituição é que embora os alunos morem todos juntos em alojamentos e participem presencialmente das aulas, eles usam um programa online personalizado e participativo para se comunicar durante as aulas.

Uma pessoa do auditório citou a descrição que Nelson fez do Minerva como projeto de “elite” e lhe perguntou por que essa estratégia de ensino estava voltada exclusivamente aos alunos de melhor desempenho. Nelson disse que para transformar de fato o ensino de pouco adianta inventar simplesmente uma nova instituição ou reformar uma que não esteja bem. Contudo, “se Harvard, o MIT e Stanford fizerem alguma coisa, outros copiarão imediatamente”. E acrescentou: “Se você quiser realmente instituir uma reforma sistêmica no ensino superior, terá de convencer as instituições de ponta a mudar […] superando efetivamente, desse modo, a elite.”

Primeiro Prêmio Anual Reimaginando o Ensino

Algumas das estratégias mais inovadoras no segmento atual de ensino superior — sejam elas tecnologias eletrônicas revolucionárias, aprendizagem participativa, projetos práticos, gamificação ou foco global — foram reconhecidas e festejadas na cerimônia de premiação da noite. O primeiro Congresso Reimaginando o Ensino foi patrocinado pela QS Quacquarelli Symonds, provedor global de informações e soluções para o ensino superior especializado e carreiras em parceria com o Centro SEI de Estudos Avançados em Administração da Escola Wharton.

Os anfitriões do evento — Jerry Wind, diretor do Centro SEI, e Nunzio Quacquarelli, diretor gerente da QS Quacquarelli Symonds — descreveram os prêmios como “Oscars da inovação no ensino superior”. Os prêmios foram concedidos a 21 projetos escolhidos entre 427 inscritos por universidades e empresas de 43 países. O painel de 25 jurados internacionais foi escolhido entre representantes da indústria e do mundo acadêmico, gente da Amazon, IBM, Google, IE Universidade da Espanha, Universidade da Pensilvânia, Universidade da Nova Gales do Sul, da Austrália, Universidade Nacional de Cingapura, Universidade de Hong Kong e Universidade de Waterloo, do Canadá.

De monstros virtuais a ciência animada

O prêmio Vencedor Especial, categoria que levou o grande prêmio de US$ 50.000, foi dividido entre duas equipes: PaGamO, da Universidade Nacional de Taiwan, e PhET Interactive Simulations, da Universidade do Colorado em Boulder. (Veja aqui a lista completa dos ganhadores nas diferentes categorias).

“Creio que os jogos aplicados ao ensino não serão apenas uma coisa interessante de trabalhar. Eles serão uma necessidade“, disse Benson Yeh, inventor do PaGamO. Yeh, professor de engenharia elétrica da Universidade Nacional de Taiwan, descreve o PaGamO como o primeiro jogo social dirigido a um grande número de alunos. Os estudantes disputam a conquista de terras virtuais e de riquezas respondendo perguntas e resolvendo problemas. Desse modo podem comprar defesas para guardar suas propriedades contra monstros virtuais e outros concorrentes.

Yeh diz que foi inspirado a criar o PaGamO quando percebeu que “as crianças passavam o dia jogando em seus smartphones e tablets. Como inovadores, professores e pais, isso é uma coisa que sempre nos preocupa. O que fazer para que o jovem invista o tempo gasto em jogos em aprendizagem?”, indagou.

Yeh criou um sistema de jogos para usar em suas aulas há alguns anos. O sucesso da empreitada fez com que ele criasse um programa mais abrangente que pudesse ser aplicado a qualquer disciplina. “Você pode usar facilmente o PaGamO para transformar seu curso”, disse. Por enquanto, o jogo está sendo usado para ensinar probabilidade na China, matemática para alunos do ensino fundamental e médio nos EUA, odontologia para universitários de universidades de ponta, administração e liderança para funcionários de uma empresa da Fortune 500.

Kathy Perkins, diretora do projeto PhET, recebeu a premiação em nome da PhET Interactive Simulations. Falando sobre a necessidade de melhorar a educação científica em todos os níveis de ensino nos EUA, ela explicou que as animações interativas da PhET têm como objetivo ajudar os alunos a compreender princípios científicos fundamentais. De acordo com o material apresentado no congresso, atualmente mais de 130 simulações em física, biologia, química, ciências da terra e matemática — traduzidas em 78 idiomas — já foram usadas mais de 75 milhões de vezes ao ano por estudantes do mundo todo.

“Cada simulação PhET cria um ambiente aberto em que os estudantes podem interagir com o conteúdo científico como se fossem cientistas: explorando, fazendo perguntas, usando a razão, descobrindo relações e testando ideias próprias”, disse Perkins. Ela acrescentou que o projeto foi concebido para ser extremamente flexível e acessível, de modo que pudesse ser usado em sala de aula, laboratório ou como dever de casa pelo professor ou aluno. As simulações estão disponíveis gratuitamente na Internet e podem ser usadas online ou offline, de modo que a conexão com a Web não seja imprescindível.

Entre as próximas novidades, disse Perkins, haverá recursos para a coleta de dados de back-end que registrarão o progresso dos estudantes, além de um projeto inclusivo que aperfeiçoará a acessibilidade de alunos com deficiência visual e outros tipos de deficiência.

Ampliando os horizontes

Outras premiações da Reimaginando o Ensino foram concedidas nas categorias de aprendizagem eletrônica, empreendimento, aprendizagem híbrida, cultivo de empregabilidade, aprendizagem presencial e desempenho de ensino. Anthony Wood recebeu o Prêmio de Desempenho de Ensino em nome da divisão Burkenroad Reports da Escola de Negócios A. B. Freeman da Universidade Tulane. O programa ensina os alunos a analisarem ações de maneira prática fazendo com que interajam com empresas de pequena capitalização de mercado de Gulf South, de acordo com a Universidade Tulane. Os estudantes se reúnem com a alta gerência e publicam relatórios de investimentos chamados de “Stocks under Rocks” [ações de pequenas empresas que passam despercebidas] em seis estados. “Nossos alunos estão muito bem preparados para ir às empresas e lidar com os desafios e situações com que deparam”, disse Wood.

Mads Bonde, fundador e CEO da Labster, na Dinamarca, recebeu um prêmio de Empreendedorismo pelo seu programa de laboratório virtual 3D de mesmo nome. Os estudantes usam o Labster para investigar “histórias de casos de ciências da vida”. Bonde disse: “Mostramos que os alunos ficam bastante motivados e que aprendem mais do que através de métodos tradicionais.” Ele disse que o Labster está agora fazendo parceria com o MIT e Stanford e está sendo usado por milhares de estudantes do mundo todo.

O Prêmio de Cultivo à Empregabilidade foi concedido a The HealthFusion Team Challenge, uma competição extracurricular reconhecida internacionalmente com sede na Austrália e voltada para estudantes do quarto ano do curso de ciências da saúde. A professora Pamela Rowntree, do departamento de Saúde da Universidade de Tecnologia Queensland, disse que, no desafio, equipes multidisciplinares de estudantes competem com base em cenários como o de um acidente rodoviário ou uma catástrofe em uma cidade. “Eles têm de se reunir e formular um plano para lidar com esse cenário específico […] organizar o trabalho de equipe e dar uma resposta.”

“A prioridade são os alunos. Participamos ativamente do projeto com eles”, disse o professor Chad Harvey, da Universidade McMaster, ao descrever seu programa “Aprendendo através da pesquisa científica interdisciplinar”, ganhador do Prêmio de Aprendizagem Presencial. Através do programa, professores, estudantes e administradores formam uma parceria para criar um novo programa cujo objetivo é a formação de alunos da área de ciências especializados em pesquisa e comunicação.

O Prêmio de Contribuição Destacada ao Ensino foi dado à Global Education & Leadership Foundation (tGELF). Ao conceder o prêmio a Gowri Ishwaran, CEO da tGELF, Jerry Wind observou: “Fiquei muito impressionado com o que a Fundação está fazendo […] É uma das iniciativas mais incríveis e de enorme impacto global a longo prazo. Seu objetivo é extremamente ambicioso: quer formar os próximos líderes, porém líderes éticos e altruístas.” De acordo com o site da fundação, a tGELF interage atualmente com um milhão de estudantes através de 7.000 treinadores mestres em 1.000 escolas e ONGs em 12 países. “Nosso sonho é que essa legião de jovens, com o amadurecimento, tornem-se uma espécie de movimento e produzam as mudanças de que tanto necessitamos”, disse Ishwaran.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Um vislumbre do futuro: Os “Oscars da inovação do ensino superior”." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [26 January, 2015]. Web. [24 March, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/um-vislumbre-futuro-os-oscars-da-inovacao-ensino-superior/>

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Um vislumbre do futuro: Os “Oscars da inovação do ensino superior”. Universia Knowledge@Wharton (2015, January 26). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/um-vislumbre-futuro-os-oscars-da-inovacao-ensino-superior/

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"Um vislumbre do futuro: Os “Oscars da inovação do ensino superior”" Universia Knowledge@Wharton, [January 26, 2015].
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