Utilização bem-sucedida do baixo custo no transporte e na logística

Primeiro foram as companhias aéreas; depois delas, várias outras empresas de setores diversos decidiram fazer do modelo de baixo custo a base de sua política empresarial. O objetivo era o de conseguir melhores preços para a empresa e para o cliente com forte ênfase na contenção de gastos, redução ao mínimo de qualquer acréscimo que pudesse se traduzir em aumento de preço do valor final de mercado.

Partindo dessa premissa, qualquer negócio e qualquer setor podem, ao que tudo indica, adaptar-se a essa fórmula. Com base nessa máxima, empresas de logística e de transporte decidiram implantar o modelo de baixo custo em suas operações. Para isso, duas ferramentas mostraram ser fundamentais: inovação e senso comum.

A fórmula do baixo custo deve seu sucesso e a publicidade internacional que ganhou às companhias aéreas que despontaram na primeira década do século 21, quando se buscava tornar acessível as viagens aéreas a todas as classes sociais. Empresas como a Easyjet ou Ryanair revolucionaram o mercado com preços irrisórios e uma política de contenção de custos que conquistaram clientes e, por conseguinte, geraram lucros. Muitas das políticas desse modelo, como o pagamento adicional pelo despacho de uma mala (uma prática até então sem precedentes no transporte aéreo espanhol), fizeram tanto sucesso que companhias aéreas tradicionais, como a espanhola Spanair e Ibéria, se renderam a essa fórmula de negócio: elas a puseram em prática com o objetivo de economizar custos e obter competitividade nos preços.

Pouco a pouco, o modelo de baixo custo começou a se tornar popular conquistando hotéis e até salões de imóveis. Com isso, atraem compradores em potencial cada vez mais preocupados com a relação qualidade-preço, já que foram afetados pela crise econômica e financeira que se espalhou pelo mundo.

O baixo custo se aplica a todos os mercados?

Seguindo a fórmula dada, a indústria de transporte e de logística procura recorrer ao baixo custo sem, entretanto, abrir mão daquilo que é essencial no seu segmento. “Agora, toda empresa precisa ser competitiva no mundo todo”, observa Luís E. Doménech, vice-presidente do Comitê Executivo da Fundação Icil (Instituto Catalão de Logística), órgão de caráter privado que opera em nível nacional nas áreas de pesquisa, formação, divulgação e aplicações empresariais em logística, dedicando-se exclusivamente a esta atividade desde 1980. “Isso significa baixar custos empregando uma estratégia de baixo custo, mas que não acarrete a diminuição da qualidade e que, além disso, permita subsistir no tempo. O baixo custo não é algo que se faça a curto prazo. Trata-se de implantar a busca contínua de eficiências na empresa e, ao fazê-lo, comparar cada uma das características do produto ou serviço oferecido com seu custo”, acrescenta.

O Instituto Catalão de Logística organizou, por meio de sua fundação, uma mesa redonda em Barcelona com o tema A nova logística do baixo custo, em que foram expostos casos de sucesso no uso desse tipo de ferramenta em empresas vinculadas ao setor de logística e de transporte.

Para Pere Roca, diretor geral da operadora Districenter e presidente do Comitê Executivo da Fundação Icil, “o baixo custo não se propõe apenas a reduzir custos, mas também a mudar a gestão para ganhar eficiência. Trata-se de adequar o produto à necessidade de cada cliente reduzindo o custo, é claro, mas agregando valor à empresa. Um bom exemplo desse modo de funcionamento pode-se ver nos serviços de empacotamento, em que são estabelecidos diferentes níveis de urgência e de serviço a custos distintos”, explicou Pere Roca durante o encontro. O executivo apelou para o uso da fórmula de baixo custo no transporte de mercadorias como fórmula de diferenciação entre os vários serviços prestados pela empresa. Contudo, “tudo aquilo que se transporta é da máxima urgência?”, indagou Roca.

Para ele, é preciso diferenciar as tarifas de despachos que, inevitavelmente, requerem pouco tempo daqueles que se distinguem pela necessidade de economia de custos, mas que podem ser entregues num prazo maior de tempo. “É preciso oferecer ao cliente um serviço premium que se caracterize pela máxima urgência, mas também outro que lhe proporcione um custo menor pelo mesmo transporte, porém com prazo de entrega de 24 horas. Qualidade significa entregar no prazo prometido, e não necessariamente na manhã seguinte”, acrescentou.

Quando foi fundada, por ocasião da última edição do Salão Internacional de Logística (SIL), em 2009, a empresa elaborou um decálogo a que chamou de Recomendações Icil de Baixo Custo. Ali são propostas várias pautas para a sobrevivência no atual período de recessão. “A nova estratégia de baixo custo no setor de logística dá destaque ao valor agregado, evitando-se desperdícios. Trata-se de criar processos de baixo custo, aplicar diferenciais operacionais apenas quando necessário culminando com custos e tarifas distintos”, salienta a instituição.

Casos de sucesso

Inovação e senso comum: são esses os princípios com que José Segura, consultor e ex-responsável pela logística da subsidiária da gigante de tecnologia Sony, em Barcelona, define a estratégia que seguirá seu grupo de trabalho na hora de pôr em prática sua política de baixo custo. “Em uma operação que exigia o deslocamento de três milhões de televisores por toda a Europa, conseguimos uma economia de 30% no custo em transporte graças à eliminação do uso de pallets (estruturas para agrupamento de cargas, geralmente de madeira)”, explica Segura.

A função do pallet é transportar a carga de forma que sua manipulação se torne mais simples, mas ele requer uma embalagem especial que o proteja durante o transporte, bem como a utilização de empilhadeiras para seu deslocamento. “Convencemos dois fornecedores de transporte a formar uma UTE (união temporária de empresas) e a trabalhar com reboques capazes de trabalhar com volumes maiores. Passamos a utilizar garras carregar os reboques, e assim em  cada reboque havia uma fila a mais de televisores”, observa o idealizador do projeto. Consegue-se assim uma redução expressiva de custos operacionais num mercado da magnitude do de televisores em toda a Europa. “Foi uma mudança e tanto resultante do emprego do senso comum”, acrescenta.

Com relação aos pallets, a fundação Icil crê que uma revisão desse sistema de transporte permitiria torná-lo mais eficiente utilizando-se embalagens “inteligentes e pragmáticas”, ou, por exemplo, reutilizando as embalagens como material de preenchimento de outros envios.

Contudo, Segura reconhece que o sucesso de uma iniciativa de baixo custo, impulsionada pelo “senso comum”, se deve aos trabalhos prévios de exploração e de análise dos quais participaram todos os envolvidos no processo de transporte e cuja atuação foi fundamental para aquilo que empresa queria: economizar custos. “Conversar com o cliente e com os fornecedores; acompanhar as operações e passar duas horas observando o vão de carregamento sempre dá bons resultados”, garante Segura.  

A colaboração também é uma boa solução para reduzir custos no entender de Jaume Segrià, diretor de operações da Disalfarm. Sua empresa nasceu quando três dos grandes laboratórios farmacêuticos de renome internacional, Bayer, Boehringer Ingelheim e Novartis decidiram criar uma empresa de logística que concentrasse suas operações nacionais de Armazenagem e Distribuição de Especialidades Farmacêuticas.

A empresa, que opera desde 2000 em Barcelona, ambiciona se tornar líder no setor de logística e de distribuição de produtos farmacêuticos. “Não vendemos coisa alguma para o exterior, portanto sobrevivemos exclusivamente de eficiências e da inovação contínua. Hoje são necessárias mais do que nunca estratégias de baixo custo, mas não a qualquer preço. O resultado deve ser sempre a diminuição dos custos acompanhada de aumentos de qualidade. No nosso caso, a cultura do baixo custo nos leva a criticar todos os processos, embora funcionem e, para isso, nos reunimos todas as semanas”, observa Segrià.

Tal como no caso da Sony, para a Disalfarm é imprescindível o envolvimento de toda a cadeia de trabalho para que se saiba como melhorar a economia de custos. “Todos os meses conversamos meia hora com os operários, do que pode resultar a eliminação de 40% dos erros de picking (processo de preparação de despacho) simplesmente passando-se a pesar as caixas, em vez de contá-las”, informa a empresa.

Outro exemplo de prática de baixo custo consiste no agrupamento de vários modos de transporte que facilitem o elo entre dois pontos de uma forma mais econômica e que utiliza apenas um meio.

O diretor de fábrica e de logística operacional da montadora SEAT, Juan Ramón Rodríguez, explica o funcionamento de um método totalmente revolucionário em sua fórmula de trabalho empregado no transporte de veículos da fábrica, em Martorelli, até o porto de Barcelona (um trajeto de 30 Km). “A essência do baixo custo está na eficiência dos processos. Pode ser uma opção excelente oferecer um serviço ou produto de baixo custo, desde que se atenda exatamente à expectativa do cliente. Nem mais nem menos do que o serviço contratado ao custo contratado”, resume Rodríguez, que conseguiu unir a melhora de custos oferecida pelo transporte ferroviário à eficiência do transporte rodoviário para um percurso de 30 Km.

O responsável pela Nutrexpa, grupo alimentício que reúne empresas como a Cola-Cao, Nocilla e patês La Piara, advertiu que os processos de baixo custo não devem reverter em prejuízo para o serviço ou para a qualidade dos produtos oferecidos, o que é de fundamental importância no caso da indústria alimentícia. “Queremos oferecer serviços num ambiente de elevado nível competitivo, procurando sempre a máxima rentabilidade para a empresa”, observa José Maria Leal.

Envolver toda a cadeia

Para Leal, os benefícios das fórmulas de baixo custo vão além dos que são oferecidos apenas ao transportador e reúne todos os participantes da cadeia de distribuição para o emprego desse tipo de ferramenta. “Atualmente, o baixo custo se generalizou, isto é, a tendência de otimizar e pagar o preço justo por aquilo de que temos necessidade. O baixo custo pode se traduzir na otimização da operação e no fato de que pode ser aplicado em todas as áreas, não só em serviços como o transporte. Ele afeta também os estoques e a fabricação. Se queremos que o transporte de um produto saia barato, isso por si só já exige um grau de eficiência em seu projeto”, observa Leal, para quem tudo o que estiver relacionado à fabricação de um produto tem consequências para o custo do seu transporte. “É preciso levar em conta o design logístico da mercadoria”, diz.

Outra maneira de economizar consiste em receber os pedidos de modo padronizado. Cremos que se trata de um serviço excelente se atende com exatidão à expectativa do cliente. Isso é serviço de baixo custo”, resume Jaume Sergrià.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Utilização bem-sucedida do baixo custo no transporte e na logística." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [24 March, 2010]. Web. [26 March, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/utilizacao-bem-sucedida-do-baixo-custo-no-transporte-e-na-logistica/>

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Utilização bem-sucedida do baixo custo no transporte e na logística. Universia Knowledge@Wharton (2010, March 24). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/utilizacao-bem-sucedida-do-baixo-custo-no-transporte-e-na-logistica/

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"Utilização bem-sucedida do baixo custo no transporte e na logística" Universia Knowledge@Wharton, [March 24, 2010].
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