Você é feliz e sabe disso, mas talvez seja melhor não transparecer

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A busca da felicidade é tão intrínseca à psique americana que a expressão ficou registrada na Declaração de Independência de 1776. Contudo, uma nova pesquisa mostra que assim como sorvete e bolo de chocolate, felicidade demais pode ser prejudicial ao nosso bem-estar. Maurice Schweitzer, professor de operações, informações e decisões da Wharton, descobriu que pessoas felizes demais passam uma imagem de inocência e de falta de sofisticação, o que as torna mais vulneráveis a abusos. Schweitzer discorreu recentemente sobre sua pesquisa e explicou por que pessoas extremamente felizes talvez devessem sintonizar o programa da Knowledge@Wharton na SiriusXM, canal 111.

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: O que levou você a examinar esse tópico?

Maurice Schweitzer: Temos a tendência de pensar que a felicidade é uma coisa boa. Há um campo da psicologia positiva segundo o qual devemos ser pessoas positivas, otimistas e nos empenhar para encontrarmos da felicidade. A busca da felicidade está profundamente enraizada em nosso pensamento nacional. Contudo, às vezes, pessoas que são muito felizes são exatamente o tipo que se presta a ser explorado por outros. Foi isso o que documentamos em nossa pesquisa: analisamos pessoas extremamente felizes. Se elas parecerem mais felizes do que a felicidade básica ─ felizes demais, sempre animadas, sempre otimistas ─ temos a impressão de que são ingênuas. Deparamos com essa conexão de forma consistente. Uma das descobertas mais concretas que fizemos em nossa pesquisa é que as pessoas consideram ingênuos os indivíduos felizes demais, e em nossos estudos mais recentes observamos que pessoas assim são mais fáceis de ser exploradas.

Knowledge@Wharton: Infelizmente, há pessoas no mundo que vão se aproveitar da situação. Quando veem outros com essas características de felicidade, eles pensam que são pessoas de quem podem tirar vantagem?

Schweitzer: É como se operássemos por meio de um raciocínio inverso. Conhecemos a expressão “a ignorância é uma bênção”. Para nós, quem está se protegendo de toda essa informação negativa que há no mundo são pessoas que devem ser verdadeira e profundamente felizes. Contudo, parece que invertemos o raciocínio da expressão: quando vemos pessoas muito felizes, supomos que devam ser ignorantes. Supomos que não estão analisando como deveriam as manchetes nacionais; elas não estão observando profundamente o mundo à sua volta. Imaginamos que se elas são felizes, é porque não estão raciocinando com deveriam ou não estão examinando as coisas à sua volta.

Knowledge@Wharton: Ser feliz boa parte do tempo não deveria ser uma coisa negativa, mas as pessoas felizes devem ter um nível mínimo de cinismo ou de angústia na vida para equilibrar as coisas?

Schweitzer: Sim. Quando procuramos gente feliz, o padrão esperado é de um pouco de felicidade, mas quando deparamos com pessoas acima desse nível, e quando elas o expressam no rosto, a reação que obtêm é totalmente distinta do tipo de felicidade comum ou da experiência de altos e baixos que temos durante o dia. As pessoas consistentemente muito felizes parecem aos demais ingênuas, como se não estivessem prestando atenção às coisas.

Knowledge@Wharton: Já deparei com esse tipo de situação algumas vezes. Não que eu seja um sujeito feliz o tempo todo, mas tanta felicidade é quase que insuportável para as demais pessoas.

Schweitzer: Analisamos até que ponto os outros se sentem incomodados, e esperávamos descobrir que as pessoas se sentissem mais incomodadas do que de fato sentem. Deparamos com um misto de evidências, mas o fato é que as pessoas não odeiam de forma automática ou explícita o indivíduo realmente feliz, embora se trate de alguém que incomoda. O que descobrimos de forma consistente é que, pela nossa ótica, uma pessoa tão feliz assim não deve estar prestando atenção às coisas. E se você pretende enganar alguém, ou quer um parceiro com quem seja fácil negociar, ou alguém que possa explorar, o indivíduo superfeliz será seu alvo. Aquela é a pessoa que você vai explorar; alguém cujo consumo de informação seja precário.

Knowledge@Wharton: É uma situação que lembra o esquema do policial bom e do mau policial usado nos interrogatórios?

Schweitzer: O efeito de contraste tem um aspecto interessante que é o seguinte: o mau policial faz com que até mesmo a pessoa mais moderadamente feliz pareça extremamente feliz e bastante racional. Esse contraste pode ser uma ferramenta muito útil. A verdade é que fizemos nossos estudos principalmente na América do Norte com pequenas amostras vindas do exterior. Por isso é importante ser cauteloso na hora de ampliar a aplicação da nossa pesquisa, porque as pessoas são muito felizes nos EUA. Acho que se fôssemos para a Alemanha ou para os países do norte da Europa, talvez encontrássemos resultados mais extremos porque as pessoas muito felizes podem parecer ingênuas demais nesses contextos. É possível que o nível de felicidade dos EUA pareça ingênuo demais para os demais.

Knowledge@Wharton: Explique por que essas pessoas também tendem a se proteger de informações negativas. Elas o fazem por que querem erguer um muro em torno do seu mundo de felicidade?

Schweitzer: Esse foi o mecanismo que encontramos. Isto é, quando você vê alguém muito feliz, você imagina que a pessoa não esteja prestando muita atenção às coisas. São indivíduos que não vão ao encontro do mundo e por isso não se dão conta das informações negativas à sua volta. Elas não ouvem seu programa; não leem o jornal. Supomos que estejam se ocultando das informações negativas. Como consequência, imaginamos que sejam ingênuas e sujeitas a abusos.

O interessante é que quando mostramos às pessoas gente realmente feliz e dissemos a elas que esses indivíduos vão efetivamente ao mundo e procuram se informar ─ isto é, que são consumidores de notícias e do mundo à sua volta ─ esse efeito de suposta ingenuidade desaparece. As pessoas acham que o indivíduo muito feliz simplesmente não está dando a devida atenção ao mundo à sua volta. Mas se você der a entender que ele é extremamente feliz, mas também está ciente de tudo o que acontece à sua volta, o efeito desaparece.

Knowledge@Wharton: Deve haver algo nesses dados que seja interessante da perspectiva da empresa e provavelmente terá um impacto econômico no seu sucesso.

Schweitzer: Em parte, noto que há pessoas que são muito animadas, muito felizes, para as quais a felicidade é algo que motiva, que inspira, é atraente. Há alguma verdade nisso, mas, como líderes, temos também de nos lembrar de que quando transpiramos felicidade demais, talvez tenhamos também de lidar com aspectos relativos ao grau de conhecimento que temos do mundo.

Knowledge@Wharton: Isso deve afetar os gerentes de uma empresa ou os que estão galgando postos de direção.

Schweitzer: Correto. Pense nos gerentes que são promovidos e avaliados, até que ponto eles têm um bom conhecimento das coisas ou são ingênuos, e pense também nos empregados. Recomendamos com frequência às pessoas que sejam felizes, que demonstrem essa felicidade. No entanto, ao fazê-lo, talvez estejamos dizendo algo sobre nossa empresa ou sobre nossos empregados, isto é, que eles não são assim tão inteligentes ou que não sabem muito das coisas se estão constantemente felizes.

Knowledge@Wharton: Isso diz alguma coisa também sobre nossa cultura em seu estágio atual? Se voltarmos dez anos no tempo nos EUA, veremos que não foi uma época feliz para muita gente por causa da recessão.

Schweitzer: Eu diria que há sempre coisas nas notícias, mesmo quando nossa economia está indo bem, que podem nos desanimar. Contudo, os americanos de modo geral são relativamente otimistas. Conforme eu disse anteriormente, a ideia da busca da felicidade está profundamente enraizada em nosso pensamento. Os americanos tendem a ser otimistas, animados e felizes. É a esse modelo básico que comparamos com nossos resultados ─ isto é, a felicidade normal é uma coisa boa e é o que se espera. Quando você vê alguém que não se encaixa nessa expectativa, sua aparência é de desânimo e depressão.

Knowledge@Wharton: Talvez  as pessoas felizes não se deem conta, mas com base na pesquisa que você fez, elas estariam em desvantagem atualmente?

Schweitzer: Sim. Constatamos que as pessoas que transpiram essa espécie de enorme felicidade podem estar altamente motivadas, talvez sejam muito felizes e sejam bem-sucedidas, entretanto é mais provável que sejam também alvos de abusos. Quem estiver avaliando um ambiente qualquer vai deparar com essas pessoas e, se tiverem um conflito de interesses, é bem provável que explorem o indivíduo extremamente feliz. Se estiverem em busca de um parceiro para uma renegociação a quem possam enganar, a pessoa escolhida será aquele indivíduo muito feliz. Ele é considerado mais ingênuo, e é dessa forma que o tratam, dando a ele informações de péssima qualidade.

Knowledge@Wharton: A pessoa feliz tende a se dar conta do engano no final, e há mais conflito por causa disso?

Schweitzer: Essa é uma boa pergunta. Em nossos estudos, só analisamos de fato a primeira etapa. Não analisamos de forma sistemática como essas pessoas operam e reagem […] Não analisamos as consequências mais adiante, isto é, se isso gera conflitos, se acabam amortecendo as pessoas muito felizes quando elas se dão conta de que ser muito feliz tem suas desvantagens, por isso elas precisam ser um pouco menos felizes.

Knowledge@Wharton: Parece que as pessoas felizes não são capazes de perceber quando se deparam com esse problema.

Schweitzer: Não esperávamos que esse efeito fosse tão forte, e não temos evidências de que as pessoas esperavam isso, que elas compreendessem que há um preço a ser pago para ser tão feliz. A literatura em geral não aponta muitas desvantagens em ser muito feliz. Em geral, a felicidade é uma coisa boa. Na verdade, a felicidade é sempre o objetivo, mas a manifestação de níveis elevados de felicidade pode ter efeitos negativos. Creio que é muito importante perceber isso.

Knowledge@Wharton: Sua pesquisa analisou pessoas em ambientes corporativos mais amplos em comparação com cenários empresariais de menor porte onde há relacionamentos mais familiares no escritório?

Schweitzer: Você tocou num ponto muito importante: os pressupostos que temos a respeito de outras pessoas com base nas emoções que elas expressam são particularmente importantes no caso dos indivíduos não conhecemos muito bem. As primeiras impressões que temos, ou as pessoas com as quais interagimos apenas informalmente em uma empresa, são relacionamentos importantes. No entanto, são muito diferentes dos laços mais íntimos e mais profundos com pessoas com quem interagimos o tempo todo. Aí, as inferências que faremos não serão baseadas em pistas superficiais, e sim no tanto que conhecemos de fato alguém. Você vê seu irmão, pai ou mãe e observa que são extremamente felizes, mas você pode recorrer a um grande volume de experiência que irá informá-lo sobre o que você acha realmente que eles estão fazendo. Descobrimos que a partir do momento em que você conhece alguém, isso sobrepuja as rápidas inferências que você faz com base na aparência deles.

Knowledge@Wharton: Sua pesquisa poderia ter um impacto sobre as ideias e filosofias de formação de equipes que muitos diretores buscam atualmente?

Schweitzer: Sim, há vantagens enormes a partir do momento em que você tem equipes pequenas. Se você conseguir montá-las, provavelmente aprofundará o nível de confiança, haverá mais colaboração e você será inoculado contra algumas excentricidades ─ isto é, inferências rápidas que fazemos com base no modo como alguém expressa seus sentimentos. Será preciso um sistema muito mais robusto para que, quando houver percalços pelo caminho, em casos em que uma pessoa é promovida e a outra não, quando há distribuição desigual de trabalho, você verá que em equipes menores, em que há laços profundos e maior confiança, elas superam tempestades desse tipo melhor do que as pessoas cujos laços são mais frouxos e que não se conhecem muito.

Knowledge@Wharton: No caso das pessoas que são felizes e que sofrem abusos, elas acabam se tornando mais adaptáveis. Você acha que parte dessa felicidade acaba sendo tirada delas com o passar do tempo?

Schweitzer: Ser feliz nos deixa mais fortes. Isto é, somos capazes de enfrentar eventos adversos, más notícias e maus resultados. Ser feliz é muito funcional. Nosso grau de felicidade é importante. Uma certa felicidade é muito bom. A felicidade extrema tem algumas desvantagens para a forma como as pessoas nos veem. Outra ideia fundamental em nosso trabalho é que muitos estudiosos se mostraram relativamente insensíveis à dimensão das diferentes emoções. Sabemos intuitivamente que êxtase é diferente de enlevo, diferente de felicidade. Contudo, não analisamos esse aspecto como deveríamos. Em nossa pesquisa, pudemos medir cuidadosamente os diferentes níveis de felicidade e descobrimos que há uma relação curvilínea aí.

Há muitos casos em que queremos reduzir a felicidade. Por exemplo, na hora de dar más notícias, ou quando em uma negociação alguém lhe faz uma oferta, você não deve demonstrar alegria excessiva em sua reação. Há casos em que expressar menos felicidade pode ser benéfico, e eu acho que vale a pena entender que alguns de nós com inteligência emocional elevada será mais adaptável e enviará os sinais certos, enquanto outros talvez sejam mais francos em relação aos seus sentimentos. Os resultados que obtemos e a forma como somos tratados por outras pessoas podem não ser tão bons.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Você é feliz e sabe disso, mas talvez seja melhor não transparecer." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [26 February, 2017]. Web. [25 March, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/voce-e-feliz-e-sabe-disso-mas-talvez-seja-melhor-nao-transparecer/>

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Você é feliz e sabe disso, mas talvez seja melhor não transparecer. Universia Knowledge@Wharton (2017, February 26). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/voce-e-feliz-e-sabe-disso-mas-talvez-seja-melhor-nao-transparecer/

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"Você é feliz e sabe disso, mas talvez seja melhor não transparecer" Universia Knowledge@Wharton, [February 26, 2017].
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