A biotecnologia diante de decisões cruciais na Espanha: o modelo do negócio é fundamental

A biotecnologia na Espanha despertou de seu sono profundo faz poucos anos e encontra-se hoje em pleno processo de decolagem. Contudo, para livrar-se definitivamente das “garras de Morfeu” e continuar sua fase de crescimento, as poucas empresas do setor terão de enfrentar uma série de desafios que questionam sua expansão definitiva, observam os professores Isidre March Chordà, da Universidade de Valência, e Ramón Seoane Trigo, da Fundação IDICHUS, Complexo Hospitalar de Santiago de Compostela, em uma pesquisa intitulada “Modelos de negócio em empresas espanholas de biotecnologia”.

 

Entre as principais necessidades desse setor incipiente na Espanha, os autores destacam o escasso zelo empreendedor da comunidade de pesquisas, a dispersão da oferta de conhecimento, o predomínio de empresas que oferecem serviços tecnológicos com base em um modelo de inovação incremental, os estágios demasiadamente embrionários dos resultados obtidos pela comunidade científico-tecnológica com aplicação na empresa e, por último, a insuficiência de recursos financeiros para o respaldo a novos projetos empresariais calcados em programas de Pesquisa + Desenvolvimento + inovação (P+D+i) a médio e longo prazos.

 

Contudo, March e Seoane revelam também a outra face da moeda e destacam que há alguns pontos fortes e oportunidades no setor. Em primeiro lugar, a Espanha ocupa a quarta posição na difusão de artigos científicos na área de biotecnologia. Em segundo lugar, alguns centros de pesquisas, como o CSIC (Conselho Superior de Pesquisas Científicas), atuam como motores de conhecimento e de atração do talento científico. Além disso, observam, existem instituições de pesquisa de saúde patrocinadas por alguns hospitais. Por outro lado, foram criadas redes de pesquisa cooperativas por centros e grupos da área de biomedicina; foi também constituída a Fundação Genoma Espanha (para o desenvolvimento da pesquisa científica em Genômica e Proteômica) com o objetivo de estimular a genética e a biotecnologia. Hoje também é maior o número de infra-estruturas gerais de suporte à pesquisa; e, por último, o ritmo de criação de empresas ganhou fôlego nos últimos três anos.

 

Em 2004, o investimento total do setor subiu para 542,7 milhões de euros, “um crescimento constante e significativo”, observam os autores. Contudo, assinalam, uma das maiores desvantagens é a inexistência de casos bem-sucedidos de empresas com novos produtos fármacos de impacto no mercado. De acordo com o estudo, a empresa com mais chances de se tornar referência no setor é a Pharmamar, filial do grupo Zeltia, que conta com fortes produtos em fase clínica.

 

Todavia, a principal desvantagem da indústria na Espanha, de acordo com os autores, é a ausência de capital de risco e de capital-semente para a criação de empresas desse tipo.

 

Entre 2000 e 2002, foram contabilizadas 13 operações de capital de risco no país, num total de 18,76 milhões de euros, um volume que representa apenas 0,533% do investimento total em capital de risco na Espanha durante o período. Entre 2003 e 2005, a situação melhorou, o número de operações cresceu ficando entre 15 e 20. Contudo, o estudo chama a atenção para o fato de que o tamanho do investimento de cada operação na área de biotecnologia é bastante reduzido, e que os montantes costumam oscilar entre 0,08 milhão de euros e 5,5 milhões. O montante médio é bastante inferior à média européia, situando-se entre 1,44 milhão de euros ante 13 milhões de euros de seus vizinhos europeus e os 17 milhões de euros dos EUA, de acordo com dados obtidos na Fundação Genoma Espanha.

 

Escolha do modelo de negócio

Depois de apresentar o contexto da indústria na Espanha, os autores observam que a fase de decolagem em que se encontra o setor nesse momento é crucial para a maior parte das empresas, uma vez que deverão optar por um modelo de negócios. O modelo, observam os pesquisadores, “é extremamente importante para a compreensão do funcionamento e das expectativas das empresas dos setores de ponta, entre eles o de biotecnologia”.

 

March e Seoane, conscientes da importância dessa decisão, analisaram os modelos de negócios aplicáveis ao setor na Espanha e no Canadá — país líder no segmento —, e elaboraram dois modelos aplicáveis à biotecnologia espanhola. Com base em ambos os modelos, os autores formularam duas proposições básicas cujo contraste constitui o objetivo básico do estudo.

 

De acordo com a primeira proposição, o setor de biotecnologia espanhol caracteriza-se pelo “predomínio nítido de um modelo voltado para a prestação de serviços ou para o desenvolvimento de instrumental de apoio dirigido a nichos de mercado e guiado por um planejamento de inovação incremental”. Pela segunda proposição, há, em contraposição a esse modelo, um outro baseado em uma pesquisa mais radical   que conta com uma presença testemunhal no país. Na Espanha, dizem, “poucas empresas apostaram no segmento de biofarmácia, ou de desenvolvimento de princípios ativos para futuros fármacos com grande impacto potencial de mercado”.

 

Uma vez identificados os modelos, o estudo trata de avaliar o alcance e o grau de implantação de ambos na Espanha. Para isso, utilizou-se um banco de dados com 97 empresas espalhadas por todo o território nacional, mas com presença marcante na Comunidade de Madri, num total de 27 empresas, e na província de Barcelona, com 15 empresas. Os dados obtidos pelo estudo constataram, entre outras coisas, “o predomínio das atividades voltadas para o desenvolvimento de métodos de diagnóstico genético e do DNA, com poucas empresas focadas no descobrimento e na obtenção de novas moléculas e novas terapias, atividades que requerem um esforço mais intenso e duradouro de pesquisa e desenvolvimento”.

 

Por fim, as empresas da mostra foram classificadas nos seguintes modelos:

 

  • 85 empresas utilizam exclusivamente o Modelo 1 de inovação incremental.
  • 5 utilizam exclusivamente o Modelo 2 de desenvolvimento de novos biofármacos.
  • 7 empresas utilizam predominantemente o Modelo 2.

 

Das 12 empresas que investem total ou parcialmente no segundo modelo, o estudo ressalta que nenhuma delas lançou ainda produtos no mercado, e que não o farão até que tenham transcorrido cinco ou seis anos. Os autores chegaram também a algumas conclusões de acordo com o perfil empresarial das empresas analisadas. Entre elas, cabe destacar o fato de que a adesão a um ou outro modelo não é determinante na hora de obter financiamento junto ao capital de risco, e que a qualidade de membro de um grupo empresarial ocorre com mais freqüência entre empresas do modelo 2.

 

Longe do núcleo do mercado

O estudo termina com a observação de que os resultados obtidos levaram os autores a acatar as duas proposições básicas formuladas. “É inequívoco o predomínio, no setor de biotecnologia da Espanha, do modelo de negócios voltado para a prestação de serviços, ou o desenvolvimento de instrumental de apoio fundamentado, em menor intensidade, em P+D, bem como a ênfase na obtenção de informações e de resultados a curto prazo”, observam.

 

Esse comportamento explica por que o volume de descobertas “de impacto mundial, que estendem os limites da fronteira tecnológica” são menos freqüentes nas empresas espanholas. Além disso, o estudo constatou que, no início de 2006, a indústria espanhola encontrava-se desconectada do chamado núcleo de mercado “constituído pelo desenvolvimento de novas terapias para futuros remédios por meio de novas moléculas, enzimas, farmacogenômica, terapia gênica e terapia celular. Na Espanha, observam os pesquisadores, “as poucas empresas classificadas no modelo 2 encontram-se todas na Fase A, ou no mais alto grau da Fase crítica B: fase pré-clínica e fases clínicas”.

 

O estudo lança alguma luz também sobre o setor ao ressaltar que, desde 2001, observou-se a criação de empresas com orientação mais parecida com a que predomina nos EUA e no Canadá. São empresas relacionadas com a saúde humana e com a busca de novas terapias de base biotecnológica. Seu nascimento se deve, em parte, aos resultados promissores de algumas empresas de base científica, como as do grupo Zeltia, com a Pharmamar à frente, além de iniciativas de apoio público e financeiro como os do Programa Neotec, do CDTI (Centro de Desenvolvimento Tecnológico Industrial), ou Genoma Espanha.

 

Por outro lado, a existência de 12 empresas apenas com características próprias do modelo 2, ou 12,4% da mostra, “confirma que é mínimo o número de empresas em condições de competir em nível internacional no difícil terreno da biofarmácia, tido como ponto nevrálgico do mercado e que ditará os caminhos do setor no futuro”. Em suma, os autores mostram que as empresas espanholas apresentam divergências notáveis em relação ao modelo biotecnológico americano. Além disso, as que mais se aproximam desse modelo estão distantes de suas homônimas americanas, principalmente no que diz respeito ao número de patentes, capital de risco e volume de investimentos.

 

Os autores atribuem a preponderância desse modelo empresarial de baixo risco — o que implica também menores possibilidades de retorno — à escassez de capital para a realização de projetos que necessitam de investimentos longos e caros em P+D. Na Espanha, “a maior parte das empresas encontra-se sujeita a um fator condicionante que determina sua estratégia e seu modelo de negócios: a necessidade de gerar capital próprio para o financiamento de trabalhos posteriores em P+D”. Para obter tais recursos, dizem os pesquisadores, as empresas optaram pelo desenvolvimento de competências tecnológicas que lhes permitem oferecer serviços especializados a uma clientela constituída por empresas farmacêuticas, hospitais e centros de pesquisa.

 

O domínio esmagador do modelo 1 de negócios produziu um cenário corporativo em que predominam empresas que oferecem serviços especializados, de diagnóstico ou análise do DNA. O modelo 2 começa a decolar na Espanha, e de acordo com o estudo, isto é sinal de que há uma maior confiança na possibilidade de êxito das companhias de longo prazo, sustentado em alguns casos por mudanças conjunturais e pela criação de projetos como os trampolins tecnológicos, as bioincubadoras ou os bioconcursos.

 

Apesar dos avanços, March e Seoane concluem que ainda é preciso superar um desafio importante para que se consiga um maior número de empresas do modelo 2: “A existência de investidores dispostos a fazer aportes de capital nessas companhias de retorno incerto e demorado.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A biotecnologia diante de decisões cruciais na Espanha: o modelo do negócio é fundamental." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 January, 2007]. Web. [19 September, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-biotecnologia-diante-de-decisoes-cruciais-na-espanha-o-modelo-do-negocio-e-fundamental/>

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