A classificação de risco do crédito soberano deve ser terceirizada para a China? Ainda não…

A agência chinesa de classificação de crédito global Dagong anunciou recentemente planos para a criação de uma superagência de classificação de risco de crédito soberano. Isso se deve, em parte, à percepção de que as três grandes agências de classificação de crédito dos EUA — Moody's, Standard & Poor's e Fitch — se acham atreladas demais a Wall Street. Quais as chances de sucesso da empreitada? Anastasia V. Kartasheva, professora de negócios e de políticas públicas da Wharton diz que a Dagong terá de vencer inúmeros obstáculos para conquistar a credibilidade necessária. Ela disse também que o rebaixamento da classificação da nota de crédito de um país pode ter consequências desastrosas para toda a economia.

Enquanto os líderes americanos discutem — às vezes acaloradamente — o que fazer para criar empregos e se a terceirização do trabalho para os mercados emergentes ajuda ou prejudica a recuperação econômica, uma outra indústria ameaça migrar para a China: a de classificação de crédito. Esse, pelo menos, é o objetivo da Dagong Global Credit Rating.

A empresa, criada em 1994 em Pequim, elaborou um plano para a criação de uma superagência de classificação de crédito soberano em parceria com agências da Europa, EUA e BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). "A ideia é boa e desejável porque as três grandes agências de classificação de risco [Standard & Poor's, Moody's Investor Service e Fitch Ratings] passam a impressão de que estão coladas demais aos interesses de Wall Street", disse Pi Kyung Won, gerente geral do departamento de planejamento da NICE, uma unidade da National Information and Credit Evaluation Holdings da Coreia do Sul, em entrevista a Bloomberg em setembro pouco depois que a Dangong divulgou seus planos.

Já há sinais de que os países que se sentem discriminados pelas três grandes poderiam recorrer a Dagong. No dia 8 de novembro, Belarus, país cuja situação financeira é extremamente precária, cansou de ver a nota de sua dívida rebaixada reiteradas vezes pelas agências de crédito do Ocidente. Assinou então um acordo com a Dagong em busca de uma "avaliação mais generosa de sua dívida soberana".

Será que foi uma boa ideia a criação dessa agência? Os mercados emergentes e os investidores sem dúvida alguma poderiam se beneficiar de novas informações, sobretudo se a agência oferecer avaliações de risco de crédito de setores não cobertos pelas três grandes. Contudo, a nova agência terá de conquistar a credibilidade e a reputação necessárias para provar que suas classificações oferecem informações objetivas e imparciais.

A Dagong, porém, talvez tenha algo mais em mente. Em um relatório publicado no ano passado, a agência anunciou que queria dar uma perspectiva diferente das Três Grandes à classificação das dívidas soberanas corrigindo alguns de seus "preconceitos culturais". Ao mesmo tempo, criou duas listas de países que receberiam classificações "unanimemente altas" e "unanimemente baixas". Os "países em melhor situação" seriam, entre outros, a China, Hong Kong, Macau, Rússia, Brasil, Índia, Indonésia, Venezuela, Nigéria e Argentina. Entre os países "mais ou menos" estariam a maior parte das economias desenvolvidas e também a Tailândia e as Filipinas. Em termos práticos, isso significa que o investidor que estiver indeciso entre os títulos da dívida da Rússia e os da Tailândia precisará saber em que medida, aos olhos da Dagong, a dívida russa está em melhor situação do que a dívida tailandesa.

A classificação de risco das empresas chinesas é motivo constante de preocupação. As agências chinesas tendem a atribuir nota AAA a várias companhias estatais e a governos locais. Por exemplo, o ministério das Ferrovias tem nota AAA. De acordo com a agência, essas instituições têm garantias suficientes para assegurar uma classificação de crédito de nota elevada. Contudo, a aquisição de seguro de crédito pode ser uma estratégia equivocada para tentar melhorar a classificação de risco.

Rebaixando a dívida americana

Em agosto, a Dagong rebaixou em um ponto a classificação da dívida americana dando-lhe nota A e situando-a no mesmo patamar da Rússia e da África do Sul. Esse rebaixamento foi mais severo do que o da Standard & Poor's e de outras agências de risco. Será que esse tipo de atitude ajudará a Dagong a expandir sua presença no negócio de classificação de risco das dívidas soberanas?

Sem dúvida isso ajudou a agência a ganhar publicidade. O papel das Três Grandes na economia americana tem sido alvo de todas as atenções nos últimos meses, especialmente pelo fato de que os EUA poderiam perder o triplo A. A S&P rebaixou a classificação dos EUA para AA+, ao passo que a Moody's e a Fitch confirmaram o triplo A, mas com perspectiva negativa. Essa é a primeira vez na história americana que a dívida do país é rebaixada.

Contudo, é preciso deixar claro uma coisa: rebaixamento de dívida não é sinônimo de calote. Mesmo no pior cenário que se possa imaginar — uma nota AA dada pelas Três Grandes — o país "tem grandes chances de atender a suas obrigações financeiras. Sua situação difere muito pouco da situação dos países de nota AAA", conforme a definição de risco da S&P. Será que isso faz diferença para a economia dos EUA? O governo americano não deveria se preocupar com tarefas mais imediatas, como a criação de empregos e o estímulo ao crescimento econômico?

Teto da classificação

Talvez, exceto pelo fato de que o rebaixamento da classificação de um país tem um impacto maior sobre sua economia e sobre sua população do que muita gente imagina. As Três Grandes têm uma prática comum conhecida como teto do país. Isso significa que a classificação atribuída a um emissor ou a uma instituição empresarial não pode exceder a classificação do país em que opera. Por exemplo, a classificação da divida soberana do Brasil tem nota BBB-. Isso significa que nenhum banco brasileiro, seguradora ou empresa pode ter nota substancialmente maior do que BBB, não importa o esforço que faça para elevar a qualidade do seu crédito. A razão disso é que as condições macroeconômicas do país afetam a saúde de seus setores financeiros e industriais. Uma situação de crise na dívida soberana dos mercados emergentes eleva duas vezes e meia, em média, a taxa de calote das empresas, de 10% para 24%.

Portanto, o que o rebaixamento da dívida americana significa para 340 milhões de americanos em seu dia a dia? O impacto é significativo, pela simples razão de que os títulos da dívida do governo têm papel vital na economia. Eles facilitam as interações entre as instituições financeiras como bancos, seguradoras e o setor de crédito hipotecário ainda em recuperação. O rebaixamento da dívida eleva os custos da contratação de empréstimos em toda a economia.

Cartões de crédito e empréstimos ao consumidor, incluindo-se aí o crédito universitário e empréstimos para a aquisição de carros, terão custos maiores. Em outras palavras, devemos nos preparar para pagar contas mais altas no cartão de crédito nos próximos meses. Embora as administradoras de cartões sejam obrigadas a informar seus clientes com pelo menos 45 dias de antecedência antes de qualquer aumento de taxa, a elevação das taxas é inevitável a médio prazo.

Além disso, as taxas de hipotecas são afetadas quase que imediatamente — quem comprou carro a prestação pode esperar que haverá aumento. Além disso, a perda do triplo A levaria ao rebaixamento da nota da Fannie Mae e do Freddie Mac, empresas patrocinadas pelo governo e que se beneficiam de garantia federal explícita. Ambas, por sua vez, garantem as hipotecas de mais da metade do mercado imobiliário dos EUA, que ainda luta para se recuperar da crise. Os custos mais elevados da dívida poderiam aumentar os custos de securitização e retardar a recuperação.

As notícias ruins podem não parar por aí. Instituições financeiras com nota AAA, como as seguradoras americanas, poderiam perder o status elevado de que desfrutam. As seguradoras detêm montantes substanciais da dívida americana em seu balanço patrimonial. Fatores de deterioração da macroeconomia podem reduzir ainda mais o valor de seus ativos. Trocando em miúdos, os prêmios dos seguros poderiam aumentar ainda mais. As seguradoras também desempenham outro papel importante em nossa vida cotidiana. Elas investem bilhões de dólares em títulos municipais que permitem às comunidades levar a cabo projetos cruciais como a construção de escolas, faculdades comunitárias, centros de saúde e projetos de desenvolvimento urbano. Os custos de financiamento desses projetos poderiam aumentar e o número de projetos implantados, diminuir.

O rebaixamento poderia afetar também a classificação dos governos estaduais e locais, principalmente daqueles com maior volatilidade econômica relativa e que dependem em grande medida de gastos federais e dos mercados de capitais. A curto prazo, isso poderia resultar na redução do nível de emprego no setor público e em cortes no orçamento.

A culpa é das agências de risco?

Desta vez, não. A possibilidade do rebaixamento da classificação de risco aponta para a deterioração das condições econômicas dos EUA. No momento em que o governo Obama tiver pronto um plano bem engendrado de consolidação fiscal, e a economia der sinais de recuperação, a classificação poderá voltar ao triplo A. Isso significa que os líderes políticos do país — tanto democratas quanto republicanos — deveriam dar prioridade a políticas que promovam a competitividade americana na economia mundial estimulando o crescimento econômico local. Disputas de curto prazo em torno de vantagens políticas não nos levarão à parte alguma.

O mesmo princípio se aplica a Dagong chinesa. Ela tem a oportunidade única de proporcionar informações preciosas para as economias emergentes onde tais informações são escassas. Neste caso, também, as demandas políticas contribuirão apenas para reduzir seu potencial.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A classificação de risco do crédito soberano deve ser terceirizada para a China? Ainda não…." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [30 November, 2011]. Web. [20 October, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-classificacao-de-risco-do-credito-soberano-deve-ser-terceirizada-para-a-china-ainda-nao/>

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A classificação de risco do crédito soberano deve ser terceirizada para a China? Ainda não…. Universia Knowledge@Wharton (2011, November 30). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-classificacao-de-risco-do-credito-soberano-deve-ser-terceirizada-para-a-china-ainda-nao/

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"A classificação de risco do crédito soberano deve ser terceirizada para a China? Ainda não…" Universia Knowledge@Wharton, [November 30, 2011].
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