A contribuição dos MOOC, cursos online em massa e abertos, para a educação latino-americana

Os Massive Open Online Courses, conhecidos como MOOC, irromperam com força há pouco mais de um ano no âmbito educacional ao permitir o acesso, de forma universal, gratuita e ilimitada, a cursos distribuídos pela Internet ministrados por professores das mais prestigiosas universidades dos EUA. Surgiram assim plataformas como a Udacity, criada em Stanford, e a Coursera, da qual participam a Universidade de Yale e a Universidade da Pensilvânia, entre outras e, conforme sua página na Internet, conta com pouco mais de cinco milhões de participantes, ou "courserianos", que podem optar por 457 cursos de 90 universidades em 16 países diferentes.

A febre dos MOOC ultrapassou as barreiras idiomáticas e agora os cursos são oferecidos também em espanhol, de modo que os cursos online, em massa e abertos, conforme são chamados em inglês, estão ganhando terreno nas plataformas em inglês já existentes — é o caso do Coursera, onde se podem achar cursos do Tecnológico de Monterrey do México e da Escola de Negócios IE, da Espanha, entre outros. mas isso não é tudo. Surgiram também plataformas em espanhol que começaram a funcionar há menos de um ano, como é o caso da MiríadaX e Wedubox, a primeira delas por iniciativa da rede latino-americana de universidades de fala espanhola e portuguesa Universia, e a segunda através da colaboração de docentes que divulgam seus cursos de forma gratuita e também paga.

Os especialistas já não questionam mais o florescimento dos MOOC vinculados a plataformas ou universidades com conteúdo em espanhol, mas qual será seu impacto sobre a educação latino-americana? E que desafios terá de enfrentar esse tipo de ensino para sua consolidação na região?

Democratização do conhecimento

A ideia dos MOOC ganhou impulso entre os meses de setembro e novembro de 2011 depois do sucesso público conquistado por um curso de inteligência artificial no qual se matricularam mais de 160.000 pessoas e que foi dado por Sebastian Thrun e Peter Norvig na Universidade de Stanford através de uma start-up, a Know Labs, conhecida atualmente como Udacity. Diante dos resultados, Daphne Koller e Andrew Nq se animaram e criaram a start-up Coursera, cuja popularidade foi crescendo até alcançar as cifras mencionadas anteriormente.

Didina González, vice-reitora de Inovação em Aprendizagem da Escola de Negócios IE, diz que projetos desse tipo surgiram em um momento chave, exatamente quando o mundo estava em meio a uma crise econômica muito grave que afetava diretamente os bolsos dos estudantes, ao mesmo tempo que as matrículas nas universidades americanas não paravam de aumentar. "Os custos dos campi nos EUA permitiram que surgissem esses projetos. Além disso, os investidores de capital de risco e instituições como a Fundação Bill & Melinda Gates [por trás de algumas dessas plataformas] estavam procurando onde investir."

Por outro lado, os MOOC se converteram em campeões da democratização do conhecimento, principalmente na América Latina, "onde, em face das características de desigualdade, o impacto desse tipo de formação sobre a população é ainda maior do que em outras regiões", observa Fernando Sandoval Arzaga, diretor de Empreendimento e do Centro de Famílias Empreendedoras do Tecnológico de Monterrey, no México, e para exemplificar, destaca que aproximadamente metade dos alunos que se inscreveram em seu curso de espanhol sobre empresa familiar no Coursera não teriam condições de ter acesso a um centro universitário privado como o Tecnológico. O problema é que "muitas pessoas da região tampouco podem ter acesso à universidade pública, por isso deveríamos prosseguir com essa ideia de democratizar o conhecimento", disse.

"Tudo isso teve repercussão na mídia, uma publicidade que as grandes universidades aproveitaram", observa González em referência a críticas surgidas na opinião pública sobre a utilização desses recursos como estratégia por parte das universidades para incrementar as matrículas de estudantes dos cursos pagos, incluindo os oriundos de países emergentes, e para promoção pessoal dos professores. Embora ressalte que por trás dessas iniciativas haja também pessoas que realmente acreditam na "transmissão do conhecimento universal e que tem uma visão mais universitária e acadêmica."

Diante disso, a grande acolhida que tiveram os MOOC fez disparar as expectativas de possibilidades que oferecem a ponto de haver quem os considere uma revolução no ensino superior quando, na realidade, "eles são um passo natural, mais evoluído, de outros cursos ou formas de ensino abertas que já existiam", explica González, que dá como exemplo o repositório  de conteúdo educacional gratuito, inclusive em espanhol, como é o caso do Merlot.org e os livros digitais. De igual modo, Miquel Durán, professor de química da Universidade de Girona, na Espanha, que oferece um curso sobre comunicação científica na plataforma MiríadaX, diz que, na verdade, estamos assistindo à explosão dos Recursos Naturais Abertos (RNA) no campo do conhecimento aberto. "Os MOOC são muito mais um projeto por parte de um professor ou equipe de conexões RNA, cujo objetivo é formar uma pessoa em um determinado aspecto do conhecimento."

Mudança de paradigma nas aulas

Por esse motivo, González acredita que os MOOC, por si sós, estão supervalorizados, mas contam com um componente revolucionário no sentido de que estão chamando a atenção para um ponto muito importante: "A participação ou colaboração dos alunos na aula". E acrescenta que os cursos têm servido para que as universidades busquem uma forma diferenciada de ministrar as aulas presenciais: "Em outras palavras, não basta mais que o professor entre numa sala com 300 alunos — uma quantidade normal em alguns centros educacionais  ibero-americanos — faça seu discurso e vá embora", porque para isso existe gravação, um MOOC, que não é outra coisa se não uma conferência gravada em vídeo apoiada por leituras, projetos, exames e fóruns semanais geridos online.

A partir de agora, "os alunos deveriam ir para a sala de aula para fazer exercícios e refletir. Essa é a verdadeira contribuição dos MOOC para a educação: a mudança de paradigma em que o professor já não é o centro, aquele que transmite conceitos. A aula deve ser usada para outras atividades", diz González. É o que pensa também Sandoval, e acrescenta que "é preciso incorporar esse tipo de educação virtual na sala de aula valorizando mais o estudante. Isso fará com que o ensino presencial se torne um híbrido de aprendizagem dentro das universidades".

No mundo virtual, o aspecto revolucionário dos MOOC está no M, de massa, porque permite que um vasto grupo da população sem recursos tenha acesso a conteúdos de qualidade das universidades locais e de outras regiões. "O que a tecnologia fez foi elevar em grande escala essa possibilidade", diz Sandoval. Embora os especialistas advirtam que a massificação é uma faca de dois gumes porque, em comparação com as aulas presenciais, perde-se a interação do professor com o aluno, o que facilita a resolução de dúvidas e a reflexão sobre temas específicos. Esse inconveniente, porém, ocorre em qualquer tipo de ensino de massa. "A vantagem é que os MOOC podem alcançar milhares de alunos, por isso acredito que a educação híbrida seja uma boa opção", acrescenta o professor do Tecnológico de Monterrey.

Os números falam por si mesmos. O curso de Sandoval teve um total de 10.000 pessoas inscritas de 65 países do mundo todo. "Se conseguir que meus alunos assistam à aula presencial  ao mesmo tempo que os dos MOOC, isso permitirá que todos tenham uma experiência distinta e relevante no tocante aos conteúdos, mas também no que diz respeito à interação com profissionais — perfil majoritário dos estudantes dos MOOC —, o que tornará mais rica a aula presencial."

Desafios técnicos e pedagógicos

Sandoval recorre novamente à sua experiência pessoal para deixar claro um dos principais desafios da formação escolar através dos MOOC: a eleva taxa de desistência. De 10.000 alunos inscritos no curso, diz, 5.000 foram alunos participantes, isto significa que toda semana eles entraram no site do curso, revisaram o material e fizeram alguns exercícios. Desse total, cerca de 1.000, ou 10%, completaram o curso, isto é, fizeram todas as atividades, obtiveram uma qualificação e, alguns, inclusive, se diplomaram. De acordo com Sandoval, os números dos que concluíram um curso do Coursera dado em inglês são até menores, em torno de 5%, número semelhante ao registrado pelos MOOC em espanhol.

O problema é que os MOOC exigem uma grande dose de autodisciplina e de motivação pessoal, o que, em sua opinião, tem muito a ver com o próprio projeto do curso, isto é, "se ele é de fato capaz de oferecer conteúdo e material produtivo atraentes, bem como atividades que sejam significativas para o perfil do estudante". Durán concorda e acrescenta que mais do que "dar aulas, trata-se de elaborar exercícios, de propor trabalhos e dar recomendações que garantam que o próprio aluno se dê conta do seu progresso no curso, permitindo que ele ajuste sua dedicação e seu esforço em função de suas disponibilidades".

As plataformas contam com um sistema cuja arquitetura tem por objetivo manter o interesse do participante no decorrer do curso, de modo que, depois de completar certas etapas, conquiste algumas insígnias de participação como recompensa, além de algum tipo de reconhecimento ou certificado de conclusão. Contudo, González salienta que há "muitas dúvidas no que diz respeito ao reconhecimento do mercado ou à validade do rigor acadêmico desses certificados. As universidades são cautelosas em concedê-los. Seu verdadeiro valor está no compromisso que assume o participante do curso".

Portanto, dado o caráter de autoaprendizagem dos MOOC, Durán recomenda a todos os estudantes que se perguntem que utilidade poderá ter o curso no futuro, e se serão capazes de "priorizar seu limitado tempo pessoal dedicando-se a um curso específico em comparação com outros ou com o elevado número de distrações que pedem sua atenção". Por outro lado, ele diz que esses alunos deveriam ler ou visualizar a introdução dos cursos para ter uma ideia mais clara do seu conteúdo, do que podem esperar os professores, e do que podem realmente conseguir em relação a um novo conhecimento. "Por fim, devem verificar se têm habilidades suficientes para prosseguir com o curso à distância. No nosso caso, é imprescindível um mínimo de habilidades comunicacionais e de uso da Web 2.0."

Sandoval diz que apesar do percentual aparentemente baixo de conclusão dos MOOC, mesmo assim alcançam milhares de alunos, uma cifra que supera em muito a do ensino tradicional. "Pode-se duvidar da profundidade do conhecimento adquirido — outra ressalva que se faz nesse tipo de formação —, mas não do seu alcance." Com relação à profundidade do que foi aprendido, ele não tem dúvida: "O participante que quiser aprender, vai aprender, e o que não quiser poderá sempre usar a informação como referência para futuras consultas mas, nesse sentido, dificilmente os MOOC substituirão a universidade."

Talvez por isso o perfil dos estudantes dos MOOC, conforme já destacado, difira do perfil do universitário tradicional. Sandoval diz que o grupo dos "courserianos" geralmente tem curso superior, está na faixa entre 30 e 40 anos, mas esse perfil de idade cai no caso dos MOOC espanhóis. No curso dado por ele, a idade de 80% dos participantes estava entre os 25 e os 35 anos —, 70% tinha uma empresa familiar e 30% queria abrir uma, porém o perfil de idade nos demais cursos em espanhol gira, em média, em torno de 18 a 25 anos, o que é uma novidade no que se refere às ofertas existentes no Coursera em outros idiomas. Sandoval acha que isso talvez se deva aos temas que a plataforma em espanhol oferece, como a disciplina de matemáticas básicas e possivelmente também ao fato de que "os nativos digitais da América Latina são mais jovens e tiveram maior acesso às tecnologias".

Outra diferença entre os cursos em espanhol e em inglês é que estes contam com um número maior de participantes, já que estes últimos dispõem de equipes e conexões à Internet de melhor qualidade do que na América Latina. Além disso, as plataformas foram mais divulgadas e estão em funcionamento há mais tempo. "Em espanhol, elas começaram a operar há pouco tempo", observa. Sandoval diz que lhe chamou a atenção o fato de que um grande número de pessoas, cujo idioma nativo era o inglês, haviam se inscrito em seu MOOC para praticar o espanhol, inclusive participantes cujos idiomas nativos eram o francês ou o português. Com relação à procedência dos estudantes, a maior parte era da Colômbia, Peru, Venezuela, Espanha e , um dado curioso, também havia muita gente dos EUA, provavelmente porque "há muitos latinos trabalhando ali", diz. Ele acrescenta que metade das pessoas jamais havia feito um curso online e que uns ajudavam os outros quando havia uma dificuldade decorrente da falta de prática com a tecnologia empregada.

A tecnologia é justamente um dos principais desafios para o crescimento desse tipo de formação na América Latina. Sandoval diz que, no tocante ao país, seria preciso melhorar o acesso às estruturas tecnológicas, principalmente uma banda larga que suporte o download de vídeos etc. Do ponto de vista do ensino superior, seria preciso também que mais universidades públicas e privadas participassem desse tipo de projeto, "mas são muitas as cautelas , porque existe a ideia de que, no fim das contas, esse tipo de educação pode se tornar "light"demais, pouco relevante, o que resultaria numa educação de má qualidade".

Apesar dos obstáculos, Sandoval acredita que como em qualquer outro modelo de negócio no campo das tecnologias da informação, haverá uma bolha e um aumento no número de plataformas e universidades que se somarão às plataformas existentes, ou que criarão MOOC próprios. Haverá, portanto, uma fragmentação na organização da informação. Por fim, Sandoval disse que "sobreviverão aqueles que oferecerem um conteúdo de qualidade, um bom projeto tecnológico e que sejam capazes de criar comunidades à sua volta". Para ele, este último ponto é o calcanhar de Aquiles do Coursera, porque os participantes dos cursos, por uma questão de privacidade, não podem saber quem está em sua mesma região ou área geográfica, o que os impede de estabelecer contato, trocar informações etc. "Os MOOC permitiriam criar unidades de aprendizagem regionais importantes ao ajudar as pessoas de uma mesma região — empresários e estudantes —, ou de outras regiões do mundo,  a fazer contato."

Para Durán, a superabundância de RNA não será problema, tampouco a concorrência dos MOOC que pretendem ensinar a mesma coisa: "Hoje em dia há também diversos livros sobre o mesmo tema." O desafio, em sua opinião, não será técnico, e sim pedagógico. "Difícil será gerar bons recursos, projetar fluxos entre o RNA que maximizem a aprendizagem e, principalmente, elaborar processos de avaliação, acompanhamento e autocontrole." Por fim, conclui, "sobreviverão as plataformas que façam as coisas de um jeito simples para professores e equipes e para os alunos, que proporcionem maiores benefícios aos alunos e que saibam colaborar com instituições de ensino superior. Tudo deve isso deve ocorrer de maneira sustentável".

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A contribuição dos MOOC, cursos online em massa e abertos, para a educação latino-americana." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [19 November, 2013]. Web. [17 October, 2017] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-contribuicao-dos-mooc-cursos-online-em-massa-e-abertos-para-a-educacao-latino-americana/>

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A contribuição dos MOOC, cursos online em massa e abertos, para a educação latino-americana. Universia Knowledge@Wharton (2013, November 19). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-contribuicao-dos-mooc-cursos-online-em-massa-e-abertos-para-a-educacao-latino-americana/

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"A contribuição dos MOOC, cursos online em massa e abertos, para a educação latino-americana" Universia Knowledge@Wharton, [November 19, 2013].
Accessed [October 17, 2017]. [https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-contribuicao-dos-mooc-cursos-online-em-massa-e-abertos-para-a-educacao-latino-americana/]


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