A convergência européia chega ao ensino superior

A Europa está decidida a fazer frente aos EUA em matéria de educação. Mais de quarenta países europeus estão promovendo uma revolução universitária sem precedentes. Este ano, a  convergência universitária em processo na Europa completará meio caminho andado. A partir de 2010, com a inauguração do Espaço Europeu de Ensino Superior, um distrito universitário sem paralelo, estudantes, professores e pesquisadores europeus transitarão livremente por um sistema de ensino superior homogêneo, mais competitivo e com maior qualidade na proposta e na metodologia de ensino.

 

Convergência universitária européia

Quarenta nações da Europa juntaram-se à iniciativa de vários países membros da União Européia (França, Alemanha, Reino Unido e Itália) responsáveis pela deflagração de um  processo que teve início em 1999, na cidade de Bolonha. Ali, eles se comprometeram a criar, no prazo de onze anos, um espaço comum de educação superior que asseguraria a seus alunos condições efetivas de mobilidade.

 

Os mais otimistas vêem no bojo deste processo desencadeado em Bolonha um passo decisivo na construção de uma sociedade européia do conhecimento em que haveria uma convergência no campo da cultura e da educação semelhante à que se verifica na política ou na economia. Contudo, os mais pragmáticos sustentam que tal empreitada tem por objetivo atender à necessidade de dinamização e de melhoria das  universidades européias, de tal modo que sejam uma alternativa concreta ao sistema educacional dos EUA, para onde afluem cada vez mais estudantes do mundo todo.

 

Para Pedro Chacón, diretor geral de Universidades do Ministério da Educação, Cultura e Esportes da Espanha, “nosso propósito é elevar a qualidade e a competitividade das universidades  européias. Além do mais, em um mercado de trabalho unificado, como é o europeu, em que os cidadãos podem se estabelecer nos países membros, é inconcebível que se coloquem obstáculos ao reconhecimento de diplomas que permitem ao trabalhador o direito ao exercício de suas atividades profissionais.” Para Ángel G. Montoro, vice-reitor de Alunos e Organização Acadêmica da Universidade de Navarra (Espanha), o projeto tem uma finalidade prática: “o projeto de convergência não consiste em grandes reformas do sistema universitário, e sim na criação de um espaço europeu comum que facilite a mobilidade por meio do reconhecimento e da homogeneização dos diplomas.”

 

Os três pilares sobre os quais se assenta o Espaço Europeu de Educação Superior são o sistema de créditos vigente na Europa, o complemento europeu ao diploma e a implementação de grades curriculares comuns. Na Espanha, os dois primeiros contam já com decretos reais específicos, os quais estabelecem os parâmetros para avaliação do novo crédito europeu e do documento a ser acrescido ao diploma.

 

O sistema europeu de créditos (ECTS, European Credits Transfer System, ou Sistema Europeu de Transferência de Créditos) tem como finalidade unificar os diferentes sistemas de ensino. Atualmente, o sistema de créditos espanhol, instituído em 1992, baseia-se no número de horas letivas ministradas pelo docente. O novo modelo se assemelha mais ao sistema educacional alemão ou inglês, e pretende dar destaque à formação prática. Nesse sistema, a avaliação do crédito depende do esforço do aluno. Assim, por exemplo, a qualificação não resultará exclusivamente da nota obtida nas provas, mas também dos trabalhos, atividades, apresentações, horas dedicadas ao estudo, etc.

 

Com o complemento europeu ao diploma, pretende-se criar um sistema transparente em que um diploma expedido em Roma, por exemplo, terá a mesma validade de outro, expedido em Copenhague; ou ainda, permitirá que um estudante espanhol possa freqüentar o primeiro ano letivo em Bruxelas, o segundo em Paris e o terceiro em Berlim. O complemento valerá como certificado de qualidade do currículo acadêmico do aluno.

 

Atualmente, os organismos espanhóis trabalham na minuta daquilo que será o terceiro pilar, as novas grades curriculares, que compreenderão dois ciclos: graduação, equivalentes à atual licenciatura, com duração de três a quatro anos; e pós-graduação ou mestrado, especialização com duração de um ou dois anos. A maior novidade na Espanha é que os títulos de mestre obtidos no ensino privado, e que são expedidos por qualquer centro de formação, deverão ter caráter oficial e serão expedidos pelas universidades.

 

Obstáculos à convergência na Espanha

As mudanças das normas são meios que têm como objetivo a transformação do sistema universitário espanhol; contudo, tais meios encontrarão pela frente obstáculos que dificultarão sua aplicação. De acordo com especialistas, os problemas ocorrerão principalmente no financiamento do programa e na dificuldade de adaptação do professorado ao novo modelo.

 

Embora em 2003 o orçamento público das universidades tenha aumentado 25%, várias das cinqüenta universidades públicas da Espanha manifestaram sua preocupação com a falta de fundos para adequação ao novo sistema. Mónica Melle, vice-decana de graduação da faculdade de economia da Universidade Complutense de Madri, observa: “Para que a Espanha possa participar da convergência em curso, teria de ter, no mínimo, os mesmos meios e recursos que têm as demais universidades européias. Aprovam-se aqui decretos reais que deveriam vir acompanhados de medidas orçamentárias que dotassem de recursos as universidades, permitindo-lhes assim a implementação da convergência.”

 

Por sua vez, Pedro Chacón, o principal responsável pelas universidades, argumenta que “melhorias de qualidade não se fazem a custo zero. A responsabilidade institucional deve ser de todos, das administrações públicas, estatais e autônomas, como também das próprias universidades, porque nem sempre as melhorias decorrem de um maior volume de fundos, mas também da melhor utilização dos recursos existentes. É preciso não esquecer que o percentual do PIB que a Espanha canaliza para o ensino superior é igual ao da Itália e da Alemanha.”

 

Outra dificuldade com que a Espanha se defrontará para adaptar-se ao espaço europeu de ensino superior refere-se à mudança de concepção da docência e da metodologia de ensino, que demandará a participação ativa dos professores: “Dizem que é difícil lidar com os professores, mas eu não sou tão pessimista assim. Por ocasião da mudança da grade curricular em 1992, quando foi introduzido o sistema de créditos, nós nos adaptamos perfeitamente a um sistema muito rígido”, assinala o vice-reitor da Universidade de Navarra, uma das dezenove universidades particulares da Espanha.

 

Formação de melhor qualidade, profissional mais bem preparado

Um dos pontos principais  do processo de convergência universitária consiste em assegurar um nível de qualidade homogêneo como conseqüência  do reconhecimento dos cursos de toda a Europa e da reestruturação da oferta de cursos. “Se não houvesse o processo de Bolonha, nós, da Espanha, teríamos de inventá-lo, porque existe uma grande necessidade de atualizar, modernizar e adaptar a oferta atual de cursos às necessidades do mercado de trabalho e da sociedade espanhola”, diz Chacón.

 

Existe hoje um descompasso entre o nível de qualificações adquiridas durante os estudos universitários e as requeridas pela função a ser exercida. Os mais críticos referem-se à  universidade espanhola como fábrica de desempregados, em virtude da baixa qualificação ante as exigências do mercado. De acordo com a pesquisa Cheers (Career After Higher Education: a European Research Study, ou Carreira depois de concluído o ensino superior: uma pesquisa européia) realizada em onze países da União Européia (UE), 25% dos graduados na Espanha dizem que seu trabalho pouco ou nada tem a ver com os conhecimentos aprendidos ao longo dos estudos. O vice-reitor de Organização Acadêmica da Universidade de Navarra, Ángel Montoro, afirma que “uma das preocupações do processo de Bolonha é a transversalidade, que não se atém exclusivamente aos conhecimentos da carreira escolhida, mas também à capacitação profissional: trabalho em equipe, expressão oral, organização, aptidão para falar em público, capacidade para motivar, planejar etc., coisas, enfim, que pressupõem uma mudança de mentalidade”.

 

Nesse sentido, os novos cursos, voltados mais para o emprego, e a nova metodologia de ensino, com um enfoque mais prático, permitem acreditar que o aluno terá maiores condições de conseguir emprego depois de formado. E isto não só pela concentração nas disciplinas profissionais, como também pelos benefícios decorrentes da mobilidade geográfica dos estudantes.

 

Contudo, a qualidade, que segundo os especialistas melhorará como o novo diploma oficial de mestre, será testada por um examinador a quem não se pode enganar: o mercado de trabalho. Mónica Melle, da Universidade Complutense, explica que “o fato de ser oficial não garante a qualidade do diploma de mestre.  A excelência dos mestres será medida, mais do que qualquer outra coisa, por sua capacidade de inserção no mercado de trabalho. Centros espanhóis como o Deusto, IESE, ESADE, são considerados instituições de qualidade pelo público e pelos empregadores”.

 

Proposta da Espanha para a América Latina

A Espanha conta com dois dos doze milhões de universitários da Europa; entretanto, o índice de importação de estudantes estrangeiros é de apenas 2,2% do total. Dos estudantes matriculados nas universidades alemãs, 13% são estrangeiros e, no Reino Unido, esse percentual é de 15,9%. São números que contrastam com os 32,6% registrados pelos EUA.

 

O novo cenário que se desenhará no espaço europeu de ensino superior com a introdução do diploma oficial de mestre, de melhor qualidade e com maior especialização, poderá, segundo muitos analistas, converter-se em uma alternativa aos EUA para os estudantes latino-americanos. “A captação de alunos latino-americanos em nossos país é um elemento estratégico fundamental que coloca a Espanha em uma situação privilegiada, entre outras coisas, por causa do idioma”, salienta o diretor geral de universidades. “Seremos a melhor alternativa. Nossos centros são mais baratos do que os americanos”, afirma Montoro, vice-reitor da Universidade de Navarra, onde 30% dos estudantes da área de pós-graduação é composta por latino-americanos.

 

Os obstáculos e restrições da Espanha à América Latina dizem respeito à validação e ao reconhecimento dos cursos. “Padecemos em nossas universidades de entraves e de uma morosidade que dificultam a validação de diplomas estrangeiros. É preciso solicitar às autoridades que agilizem o reconhecimento dos diplomas, dos vistos, etc., sem que isso implique em perda das garantias e do rigor dos cursos”, observa Montoro. Já a vice-decana Melle argumenta: “Temos aqui um sistema retrógrado de validação e de equiparação de diplomas imposto por um decreto de 1973. O aluno sul-americano vem à Espanha e solicita a homologação do diploma; a partir desse momento, ele terá de esperar no mínimo dois anos para obtê-la.”

 

“A Espanha se converteu na segunda ou terceira opção para os estudantes latino-americanos. O estudante mexicano, argentino ou brasileiro, mais próximos dos EUA, sentem-se atraídos pela imagem de excelência e pela reputação que projetam os centros deste país. Muitas vezes, a imagem coincide com a realidade, mas nem sempre. O certo é que eles sabem vender muito bem o seu produto”, assinala Mónica Melle, da Universidade Complutense de Madri.

 

Ninguém duvida de que o Espaço Europeu de Ensino Superior tornará mais atraente a oferta espanhola para os latino-americanos. Contudo, será preciso que as universidades da Espanha saiam da letargia. O vice-reitor Montoro reconhece que “não estamos acostumados a vender a universidade. Hoje, todas as universidades procuram vender sua imagem, porque é cada vez menor o número de estudantes espanhóis. Além disso, a concorrência é cada vez mais acirrada na Europa”.

 

Disputa entre universidades acirra a concorrência

O desenrolar do processo de Bolonha e sua materialização nos decretos reais desencadearam nas universidades espanholas “uma enorme concorrência. Os centros disputam a primazia de lançar diferentes projetos, porque todos querem liderar o processo de convergência”, afirma Melle. Os responsáveis pelas instituições falam de uma concorrência saudável entre as universidades. “No momento, há uma colaboração intensa entre elas, uma vez que precisamos chegar a um acordo. Contudo, será grande a concorrência para que a universidade não fique para trás, e se mantenha sempre no grupo mais avançado. Cada universidade terá de avaliar sua situação. Os decretos reais darão maior flexibilidade  às universidades, permitindo-lhes fazer ofertas mais atraentes e apostar em perfis mais específicos.  A implantação da área comum européia não obriga as universidades a ter as mesmas grades curriculares; seu objetivo é assegurar uma grade mínima”, observa o vice-reitor da Universidade de Navarra.

 

Neste momento, encontra-se em fase de preparação a nova lista de cursos que a ministra da Educação, Pilar del Castillo, prometeu para a próxima reunião dos ministros da educação em 2005, na Noruega. Nessa ocasião, os ministros da educação da Europa apresentarão os compromissos que regerão a nova estrutura das carreiras universitárias, as quais se dividirão em dois ciclos: graduação e pós-graduação. Na Espanha, prossegue a discussão da minuta do decreto enquanto se busca um acordo entre os centros, decanos, reitores, colégios profissionais e administração. Com a aproximação das eleições gerais (14 de março),  crescem as incertezas, uma vez que “a mudança de governo poderia refletir sobre aspectos concretos do decreto, o que talvez atrase a tramitação dos decretos ainda pendentes. Porém, creio sinceramente que não haverá mudança nos objetivos e medidas assumidos pelos espanhóis no tocante à convergência européia, porque é impensável que a Espanha não faça parte dela”, assegura Chacón, ministro da Cultura.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"A convergência européia chega ao ensino superior." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 March, 2004]. Web. [21 September, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-convergencia-europeia-chega-ao-ensino-superior/>

APA

A convergência européia chega ao ensino superior. Universia Knowledge@Wharton (2004, March 10). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-convergencia-europeia-chega-ao-ensino-superior/

Chicago

"A convergência européia chega ao ensino superior" Universia Knowledge@Wharton, [March 10, 2004].
Accessed [September 21, 2021]. [https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-convergencia-europeia-chega-ao-ensino-superior/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far