Com um resultado apertado, a eleição presidencial no Peru surpreendeu 

Conforme vem ocorrendo nas últimas eleições realizadas na América Latina, a presidência do Peru foi decidida por um punhado de votos ― foram 39.000 num total de 17 milhões de eleitores ― que mantiveram o país em suspense durante quatro dias. Desde a realização, em 5 de junho, do segundo turno da eleição presidencial, nenhum dos dois candidatos, a direitista Keiko Fujimori, e o liberal Pedro Pablo Kuczynski (PPK), pôde se declarar vencedor até que tivessem sido contabilizados os votos procedentes do exterior e das localidades mais remotas do país devido à margem muito estreita que os separava. De acordo com o cômputo final, a candidata da Força Popular e filha do ex-presidente e ditador Alberto Fujimori, havia obtido 49,88% dos votos, ao passo que o líder do Peruanos pela Mudança (PPK) a superou ligeiramente com 50,2% dos votos.

O resultado foi uma relativa surpresa porque, embora as pesquisas prévias às eleições dessem como vencedora Keiko Fujimori, os analistas vinham avisando sobre a possível onda de mobilização antifujimorista do eleitorado, conforme ocorreu no ano de 2011 quando a candidata a presidente perdeu a corrida eleitoral para Ollanta Humala (2011-2016). Ser filha de Alberto Fujimori, preso em um cárcere em Lima e condenado a 25 anos por corrupção, sequestro e crimes de lesa humanidade, depois de ter sido declarado responsável intelectual por essas duas últimas acusações, tem sido um obstáculo grande demais para a satisfação das aspirações políticas pessoais de Keiko Fujimori. Apesar da derrota, o fujimorismo, nascido nos anos 90, foi capaz de passar do mais absoluto colapso em 2000 para a atual maioria no Congresso, com 73 assentos num total de 120.

O ressurgimento do fujimorismo se explica em grande medida pela percepção entre a população de que o partido poderia combater de forma eficaz e com punho firme a crescente insegurança que os cidadãos sentem no país, e também pela lembrança de estabilidade econômica que trouxeram consigo esses dez anos de governo. Sem justificá-lo, Gonzalo Garland, vice-presidente de relações exteriores da Escola de Negócios IE e economista peruano, explica que o fujimorismo surgiu em um momento de muita violência interna no país como consequência das atuações do grupo terrorista Sendero Luminoso e uma hiperinflação gigantesca. “O então presidente, Alberto Fujimori, colocou ordem no país”, observa Garland, e acrescenta: “Ainda para muita gente, esse primeiro governo foi muito positivo como estabilizador da inflação e pacificador do país. Por outro lado, foram criados serviços sociais básicos, como colégios e postos médicos, em muitas zonas rurais a serviço dos mais pobres. O segundo governo, com Vladimir Montesinos [assessor de inteligência de Fujimori, encarcerado por crimes de lesa humanidade e desvio de fundos] e o autogolpe (de 1992) desvirtuaram tudo isso, mas muita coisa ficou na mente das pessoas.”

Essa lembrança positiva, principalmente entre as classes populares, que foram as que mais sofreram com a violência e a hiperinflação no passado, além da capacidade do partido liderado por Keiko Fujimori de atrair as gerações mais jovens de peruanos, não foi suficiente para fazer frente a imagem de corrupção, repressão e violação dos direitos humanos que pesa sobre o fujimorismo.

Necessidade de diálogo

Para Garland, a tensão mínima vivida no país e a posição adotada pelos principais líderes políticos durante os vários dias de incerteza até que a autoridade eleitoral desse a conhecer os resultados oficiais definitivos são uma indicação do que se pode esperar no plano político a partir de agora. “A atitude foi muito positiva de ambos os lados: ‘Vamos ter calma; vamos acompanhar os resultados.’ Os candidatos demonstram que haverá necessidade de diálogo”, diz.

Garland acrescenta que a margem estreita com que o PPK chegou à presidência e sua inesperada vitória não impactarão em grande medida o panorama econômico e empresarial do Peru. “Muito pelo contrário. Em geral, a tendência é de que o clima seja positivo.” E acrescenta: “É evidente que Keiko Fujimori e seu grupo têm a maioria no Congresso e até há muito pouco tempo parecia que ela ia ser eleita e dirigir o país. Esse cenário, no que diz respeito à política econômica, não assustava os investidores ou as empresas privadas, embora houvesse muito poder concentrado ao redor do partido e das pessoas que o dirigiam. Portanto, o fato de que Kuczynski seja presidente gera um equilíbrio de poder que, de algum modo, tranquiliza os mercados. Para mim, esse cenário de compartilhamento do poder e a obrigação de ter que dialogar é bastante favorável.”

Oscar Bahamonde Amaya, professor da área de gestão pública da ESAN, no Peru, não acredita que com 18 congressistas apenas ante os 73 de Fujimori e os 20 da bancada das esquerdas, o futuro governo liderado pelo PPK seja necessariamente frágil: “Nosso regime é presidencialista e o executivo contará com uma série de ferramentas para se fortalecer”, garante. Ele assinala que uma das ferramentas mais importantes é o orçamento, “através do qual pode-se estabelecer vínculos com os setores menos favorecidos para criar apoio para as políticas públicas através de grandes programas sociais e obras de infraestrutura, as quais são sempre atraentes para a cidadania”. Outra capacidade da qual, para Bahamonde, o novo governo deve tirar proveito, é o fato de que seu vice-presidente, Martín Vizcarra, “é um bem-sucedido ex-governador regional de Moquegua, no sudeste do país, e através dele é possível criar vínculos com regiões que permitam contar com o apoio do governo e das organizações regionais”.

Por outro lado, Bahamonde acredita que o fujimorismo tem como objetivo ganhar as eleições presidenciais de 2021, por isso, “não pode se dar ao luxo de aparecer como um partido intransigente e sabotador do sistema democrático, exatamente como querem rotulá-lo seus adversários, sobretudo quando não há muita diferença ideológica entre esse partido e o partido do governo”. Possivelmente, acrescenta Bahamonde, o partido de Keiko Fujimori “aguarde com paciência oriental [uma referência à origem japonesa de Fujimori] o desgaste natural do governo e o apoie em seus anos iniciais para, a partir do terceiro ano, tornar-se um crítico acerbo que aglutine a oposição democrática.”

Uma equipe sobretudo econômica

Mas, quem é Kuczynski, o presidente eleito que assumirá o poder no próximo dia 28 de julho? Kuczynski, de 77 anos, é filho de um médico alemão de ascendência judia e polonesa, pioneiro no tratamento de doenças tropicais, que se instalou com sua família na Amazônia em meados dos anos 30. O presidente eleito é um economista de sucesso formado pelo Markham College, de Lima, uma escola elitista para a classe alta limenha, observa Bahamonde. Depois, cursou as universidades de Oxford e Princeton, tendo trabalhado durante metade de sua vida no exterior, “convertendo-se em um funcionário internacional de sucesso do Banco Mundial e empresário de fundos de investimentos”.

Com relação à sua carreira política, Kuczynski foi ministro várias vezes, chegando inclusive a ser primeiro-ministro durante o mandato de Alejandro Toledo (2001-2006). Por outro lado, é conhecido por seu trabalho social por ser o fundador da ONG “Água Limpa”, que apoia os governos das zonas rurais através de financiamentos para projetos de água potável e sistemas de esgoto, além de educar a população sobre os benefícios, o bom uso e o custo do saneamento da água potável.

De acordo com Bahamonde,o interessante de sua carreira política é que “apesar do seu nome e de sua formação estrangeira, ele não desperta muita resistência em um país de cultura andina, já que tem uma personalidade jovial e conciliadora. Sua carreira, principalmente, é vista como referência por jovens das classes médias urbanas cujo nível de vida melhorou nos últimos anos e os quais não querem colocar em risco os benefícios alcançados por uma economia que quadruplicou seu valor e vem crescendo ininterruptamente desde 1999”.

Bahamonde assinala que ainda é muito cedo para adiantar um possível gabinete, mas já se sabe que o ministro da Economia será seu ex-chefe de plano de governo, “Alfredo Thorne, cujo perfil é muito parecido com o do presidente eleito, formado em Oxford e Cambridge e executivo internacional bem-sucedido no setor de banco de investimentos, que terá a seu lado sua mão direita durante a campanha, a bem-sucedida executiva internacional Susana de La Puente Wiese”. O problema, acrescenta Bahamonde, é que a “equipe mais próxima ao PPK é basicamente econômica e as principais carências podem ficar por conta do lado político, já que será preciso buscar o apoio do derrotado partido fujimorista e de outras bancadas que lhe permitam governar, apesar de suas poucas cadeiras no Congresso, 18, em uma câmara de 130 cadeiras; além disso, o partido parece não ter quadros nem as competências necessárias para isso”.

Outra coisa na qual o PPK não tem maioria é a segurança e a defesa, “já que sua equipe é muito reduzida e sua principal referência, o Dr. Gino Costa, já foi ministro do Interior (com Alejandro Toledo). Sua de gestão opaca e não oferece segurança de bom desempenho”, garante Bahamonde. Ele acrescenta que, além disso, se o governo não demonstrar eficiência na hora de combater a insegurança do cidadão, isso poderá se converter no seu primeiro problema. Não se pode avançar nesse campo, prossegue Bahamonde, “sem estudos sérios sobre as causas e as projeções de insegurança e sem uma equipe que apresente sucessos prévios, e é aí que o executivo tem seu ponto fraco, pois, ao contrário dos assuntos econômicos, seus quadros aqui são muito insossos e não oferecem garantia de nenhum sucesso futuro”.

Relançar o crescimento econômico

Assim, os desafios para o próximo presidente e sua equipe serão de índole mais política do que econômica, uma vez que há um amplo consenso no país em relação à necessidade de prosseguir com o modelo econômico de livre mercado que até há alguns anos fez com que o país crescesse mais rapidamente do que outros vizinhos latino-americanos, como a Argentina e a Venezuela. Garland explica que “o Peru, como um outro país qualquer da América Latina ― Chile e agora a Colômbia ―, tem um histórico de muitos anos de políticas econômicas prudentes em nível macro, sem grandes experimentos e que estão dando bons resultados, já que a grande maioria da população os vê como positivos. Entre eles, destacam-se: uma gestão fiscal responsável, déficits controlados, inflação controlada etc. Ninguém questiona a economia de mercado, tampouco o papel da empresa privada”.

O desafio, assegura Garland, consiste em continuar a crescer em renda per capita e, principalmente, que esse crescimento chegue a amplas camadas da população. “O crescimento está chegando a certas regiões, mas não chegou suficientemente ao Sul, região muito pobre. É um desafio para o Peru, mas também para toda a América Latina, que haja um crescimento equitativo que tire as pessoas da pobreza e que elas entendam que a economia de mercado lhes permite ter uma certa mobilidade social e uma certa melhora econômica a médio e a longo prazo”, diz.

Contudo, o fim do boom das commodities freou a economia peruana, que passou de taxas de crescimento de 6% até 2013, para 3% ou 4% desde então,”o que não é nada mau. Agora é preciso, a muito curto prazo, continuar com essas políticas, algo que não estava em dúvida nem com Kucynsky nem com Keiko Fujimori”, observa Garland. Em síntese, Bahamonde acrescenta que o novo governo deverá garantir que aquilo que foi oferecido durante a campanha eleitoral, “isto é, uma taxa de crescimento anual de 5% do PIB que supera em dois pontos os magros resultados da economia na última parte de governo do presidente Humala”.

Bahamonde assinala que a mineração deverá ser a locomotiva que continuará a puxar o PIB, já que acabam de entrar em produção projetos importantes como o Tocomocho (Junín) e Constancia (Cusco), e este ano serão iniciadas as atividades de Las Bambas (Apurímac) e a ampliação de Cerro Verde (Arequipa). O último relatório de perspectivas econômicas do Banco Mundial subscreve esse ponto de vista, já que se mostra um pouco mais otimista do que no início do ano em relação ao dinamismo da economia peruana, tendo elevado a projeção de crescimento de 3,3% para 3,5%, justamente pelo repique da produção de minérios. Contudo, 2017 continuará a ser, para o Banco Mundial, um ano de crescimento moderado, por isso a organização rebaixou a expectativa de 4,5% para 3,5% como consequência da demanda interna ainda frágil e da desaceleração da economia dos principais sócios comerciais do Peru.

Bahamonde acrescenta que, segundo analistas, uma vez superado o fenômeno do El Niño 2016, “que foi tão destrutivo quanto se esperava, a pesca poderá retomar um ciclo de crescimento favorável que, unido à agroindústria e à metal-mecânica, poderá servir de impulso para o setor decaído da construção, onde se espera que sejam gerados os postos de trabalho tão necessários”.

Contudo, “tudo isso só se transformará em um bom governo somente se o PPK puder discutir minúcias em dois campos fundamentais, o político e o da segurança, de onde podem vir as ameaças mais fortes a um governo de sucesso”, conclui Bahamonde.

 

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Com um resultado apertado, a eleição presidencial no Peru surpreendeu " Universia Knowledge@Wharton, [June 15, 2016].
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