Desencontros entre a universidade e a empresa

São dois mundos que procuram um ao outro, mas não se encontram. A relação entre universidades espanholas e empresas é escassa e, na maioria dos casos, desconexa. Embora ambas reconheçam a importância crucial do trabalho em parceria, muitas vezes isso não é possível, conforme mostra o estudo A universidade e a empresa espanhola, elaborado pela Fundação Conhecimento e Desenvolvimento. Um perfil exageradamente acadêmico diante do pragmatismo empresarial e um desconhecimento das possibilidades que oferecem os centros universitários são os principais pontos de atrito que impedem uma relação mais estreita entre esses dois motores econômicos do país.

 

“As empresas que mantêm algum tipo de relação com as universidades reconhecem que esse relacionamento tem sido satisfatório ou muito satisfatório, o que, em muitos casos, é sinal de que o problema principal é o desconhecimento por parte das empresas do tipo de serviço que as universidades podem lhes oferecer. Quando a relação existe, as empresas a valorizam muito”, explica Francisco Solé Parellada, vice-presidente da fundação e catedrático da Universidade Politécnica da Catalunha.

 

Das 400 universidades consultadas, 53% admitem não ter vínculo algum com os centros universitários, um dado que varia em função do tamanho: quanto maiores as empresas, maior o número de vínculos. A essa falta de conexão deve-se acrescentar uma visão tacanha do papel das universidades como motor econômico do país. Do total de universidades consultadas, 33% não crê que exerça esse papel; 43% acha que não dispõe da organização necessária para isso, ao passo que 60% das empresas admite não ter comprometimento com a universidade de modo que ela seja de fato esse motor.

 

“Esses resultados mostram claramente a necessidade de aproximar o mundo da empresa do mundo da universidade, e vice-versa”, disse durante a apresentação do estudo Ana Patrícia Botín, presidente da Fundação e executiva principal do banco espanhol Banesto.

 

Fonte de emprego

A formação dos profissionais do futuro e o papel da universidade como fonte de abastecimento dos quadros de pessoal são os aspectos mais valorizados desses centros e seu principal laço de união com as empresas. De fato, 83% das empresas admite ter convênios de inclusão de estudantes e programas de estágios com elevado grau de satisfação em 70% dos casos. Contudo, as qualidades mais valorizadas pelas empresas em um profissional são exatamente aquelas que as universidades menos conseguem inculcar nos alunos.

 

Portanto, embora as empresas reconheçam o valor dos conhecimentos teóricos, de informática e de novas tecnologias, bem como a capacidade de análise e o desejo de aprender como pontos fortes dos universitários, criticam sua escassa formação prática, ausência de capacidade de liderança e o pouco conhecimento de idiomas, aspectos que consideram os mais importantes para seus funcionários.

 

“As universidades aprovam com boas notas os alunos formados em conhecimentos teóricos, mas falta a elas uma visão mais prática, que é fundamental para as empresas”, reconhece Martí Parellada, coordenador do estudo e catedrático da Universidade de Barcelona. “A universidade espanhola precisa mudar sua organização, estar mais próxima das empresas e de suas necessidades. A tomada de decisões é lenta demais, porque entram em jogo muitos agentes e opiniões. Além disso, as instituições são enormes, com um número imenso de órgãos que, muitas vezes, não se falam e seguem trajetórias paralelas”, acrescenta como crítica construtiva.

 

“A administração das universidades, bem como sua estrutura, é complexa demais. Portanto, é preciso eliminar as barreiras que impedem o desenvolvimento de inúmeras estratégias”, diz Solé. “Além disso, há na universidade pública um problema de organização. Os professores ganham pontos ao publicar em revistas científicas, mas se executam cem trabalhos para uma empresa, isto não lhes serve de nada”, observa Parellada enfatizando o aspecto prático da questão.

 

Para 97% das empresas, a promoção do espírito empreendedor é a principal disciplina ausente nas universidades.  Além disso, 90% delas acham que as universidades devem favorecer a criação de empresas de base tecnológica. O intercâmbio de profissionais seria um modo de estimular o espírito empreendedor e estreitar os objetivos desses dois mundos. Na verdade, 87% das empresas são favoráveis a que os professores passem um período de sua vida profissional dentro das empresas, conhecendo em profundidade seus segredos. De igual modo, acham bastante positivo que seus profissionais passem algum tempo na sala de aula.

 

“Embora as empresas não acreditem que a universidade atue como motor do desenvolvimento econômico, nem que disponha de organização adequada para isso, concordam, porém, de maneira quase unânime, que deveriam estar mais comprometidas com esse modelo de universidade que é motor do desenvolvimento econômico, e que a universidade — agora de modo praticamente unânime — deveria incentivar o comportamento empreendedor dos alunos, proporcionando a criação de empresas de base tecnológica e incentivando a mobilidade de professores e técnicos entre a universidade e a empresa”, observa o estudo.

 

Desconhecimento majoritário

As empresas precisam também mudar a visão que têm desses centros de formação superior. “É surpreendente como muitas empresas desconhecem o amplo leque de serviços que as universidades podem lhes oferecer e, por isso, não recorrem a elas. Contudo, as que o fazem, estão muito satisfeitas com o resultado”, observa Solé.

 

Os serviços de assessoria, formação e pesquisa oferecidos pelos centros universitários são utilizados por apenas 36% das empresas. Atividades mais concretas e específicas, como a realização de projetos conjuntos de pesquisa e desenvolvimento, cursos de pós-graduação ou conferências, foram contratados por 27% apenas das empresas, já que a maioria não sabe que pode contratar esse tipo de serviço. Todavia, aquelas que deram esse passo dizem estar satisfeitas em 77% dos casos.

 

“As universidades não souberam promover seu papel de instituição de pesquisa, de consultoria e de formação específica aos diretores, ao passo que as escolas de negócios foram capazes de conquistar esse mercado”, acrescenta Solé, que também encontra “diferenças entre os centros públicos e os privados os quais, de modo geral, conseguem melhores resultados. Contudo, a universidade espanhola é a universidade pública, e representa, portanto, a imensa maioria”.

 

Uma simplificação da estrutura interna e dos processos de tomada de decisão dentro das universidades traria enormes benefícios a esses centros e às empresas, que admitem não dispor de ativos importantes que as universidades têm a lhes oferecer. Por exemplo, as empresas que contrataram projetos conjuntos de pesquisa e desenvolvimento  o fizeram, em grande parte, em decorrência da falta de recursos internos que não lhes permitiu bancar sozinhas tais empreendimentos por falta de profissionais especializados — um ativo que não falta à universidade.

 

Além disso, as companhias não se pautam pela reputação de um determinado centro; elas buscam um bom serviço naquele centro onde existam especialistas qualificados para realizá-lo. Na verdade, menos de 3% dos entrevistados acha que a pesquisa feita na universidade é de má qualidade. Não obstante isso, o grau de satisfação médio do trabalho de pesquisa feito na universidade é inferior ao que deveria ser como entidade de formação que é.

 

Mudança de direção

“O problema da universidade espanhola é o da mudança vertiginosa. Ela tem apenas 25 anos. Antes, havia poucos centros universitários, e só um grupo seleto da população tinha acesso a eles. Contudo, nas últimas décadas, o número de centros e de alunos se multiplicou, e agora quase todo mundo tem acesso a um curso superior. Houve uma mudança drástica e as universidades precisam assumi-la, adaptando-se a ela para que possam oferecer um bom serviço às empresas, cumprindo assim o seu papel de motor econômico”, pondera Solé.

 

O espelho no qual as universidades espanholas devem se olhar — no que diz respeito à vinculação com o mundo empresarial e ao espírito empreendedor — são os centros anglo-saxônicos. Já a América Latina padece de dificuldades mais sérias do que a Espanha. “Nos países ibero-americanos, a situação é semelhante, porém mais grave”, reconhece Paralleda, que estende muitas das conclusões do estudo sobre as universidades espanholas para o outro lado do Atlântico onde, para agravar ainda mais a situação, a burocracia interna é muito mais acentuada.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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