Efeito multiplicador: conseqüências financeiras do absenteísmo

Quando o trabalhador se ausenta por alguns dias do local de trabalho por motivo de doença, o impacto financeiro disso sobre a empresa nem sempre recai apenas sobre as atividades desempenhadas pelo trabalhador ausente. Ele repercute muitas vezes por toda a organização, sobretudo se o empregado pertencer a um grupo cuja produção tem implicações praticamente imediatas sobre o cronograma. Até recentemente, porém, as empresas tinham muita dificuldade em mensurar o impacto do absenteísmo por meio de dados concretos.

 

Muitos paralegais, por exemplo, servem de “memória e de pernas” dos advogados nos escritórios, auxiliando no monitoramento dos prazos e certificando-se de que os processos sejam encaminhados no timing correto, observa Mark Pauly, professor de Sistemas de Saúde da Wharton. Portanto, quando um paralegal adoece, o dano à produtividade pode ser grande, já que seu substituto terá de se familiarizar com os casos sob os cuidados do trabalhador ausente. Já o mesmo, porém, não acontece em igual intensidade com profissionais da área de cozinha, garçons e arrumadeiras de hotel. Uma vez que os trabalhadores desse segmento costumam desempenhar tarefas individuais e sujeitas à mensuração, a gerência não depara com muita dificuldade em substituir os empregados doentes.

 

Esse tipo de avaliação de funções caso a caso tem implicações bastante profundas, diz Pauly. Em primeiro lugar, quando os pesquisadores mensuram o custo cumulativo das perdas de produtividade, a estimativa do custo total decorrente da ausência do funcionário para a economia como um todo — isto é,  por motivo de saúde — aumenta em um terço. Contudo, talvez o mais importante neste caso seja o fato de que a análise pode ajudar as empresas a justificarem um volume maior de gastos para o aperfeiçoamento da qualidade dos benefícios de saúde oferecidos aos trabalhadores. Programas que ajudem o trabalhador a gerir condições crônicas de saúde, por exemplo, podem pagar a si próprios com a redução das ausências e melhorando a produtividade. Contudo, os executivos precisam de números palpáveis antes de conceder sua aprovação a esses gastos específicos. É o que se constata hoje, especialmente por causa da inflação elevada dos custos com saúde. Tal situação tem levado algumas empresas a considerar a possibilidade de cortar os benefícios de saúde concedidos aos trabalhadores.

 

“Em comparação com uma pessoa saudável, o funcionário de saúde debilitada tem maiores chances de se ausentar do emprego ou de produzir menos quando não se ausenta do trabalho”, escreve Pauly em estudo a ser lançado em breve: “Como explicar aos empregadores a importância do plano de saúde para os negócios”, em co-autoria com Sean Nicholson, da Universidade Cornell, e Daniel Polsky, da Universidade da Pensilvânia. “De acordo com um estudo recente, os custos indiretos relativos a um estado de saúde frágil podem exceder os custos médicos diretos. Mas como será possível quantificar de forma precisa e convincente os benefícios que o empregador terá se investir na saúde do trabalhador?”

 

De garçons a engenheiros mecânicos

Pauly, Nicholson e Polsky juntaram-se aos pesquisadores da Dow Chemical e da Merck para elaborar uma fórmula que ajudasse a empresa a lidar com problemas desse tipo.

 

Um conceito de importância  fundamental para o tratamento da questão da saúde do trabalhador na empresa, observa Pauly,  diz que o custo do absenteísmo por motivo de doença é, via de regra, maior do que o salário pago ao trabalhador doente que deixa de comparecer ao local de  trabalho. Se não há substitutos de mesmo nível disponíveis, as implicações para a produtividade são bem maiores. É o que acontece de modo especial em organizações em que os funcionários trabalham em equipes cuja produção tem implicações praticamente imediatas sobre o cronograma.

 

Em termos de números, os pesquisadores identificaram 35 funções em 12 indústrias compreendendo diferentes tipos de tarefas produtivas. Em seguida, entrevistaram mais de 800 gerentes para avaliar as conseqüências financeiras ocasionadas pela ausência desses trabalhadores. Com base nas entrevistas, estabeleceram-se “multiplicadores” para cada tipo de função. O multiplicador calculado reflete o custo para a empresa, em termos proporcionais, do montante diário pago ao trabalhador ausente.  O multiplicador da mediana foi de 1,28 — isto significa que, para a função localizada nessa mediana, o custo da ausência foi 28% maior do que o salário pago ao trabalhador em decorrência do impacto desse evento sobre a produtividade de modo geral.

 

Garçons e trabalhadores da construção civil agruparam-se na extremidade inferior da escala, com multiplicadores abaixo de 1,1. Engenheiros mecânicos e vendedores da área de veículos motorizados ficaram na extremidade mais alta, com multiplicadores superiores a 1,5. As empresas que empregam trabalhadores com multiplicadores elevados seriam mais propensas a investir na saúde do seu pessoal, dado que o impacto sobre a produtividade decorrente da ausência desses profissionais por motivo de doença é relativamente alto, diz Pauly.

 

Se as empresas levassem esses multiplicadores em consideração no momento de avaliar os possíveis gastos com benefícios de saúde, talvez tomassem decisões muito diferentes. Pauly e seus colegas apresentam, como exemplo hipotético, um programa de gestão de doenças em que enfermeiras profissionais monitoram os empregados com problemas graves de saúde para que não deixem de receber cuidados médicos adequados na hora certa. O programa não gera retorno financeiro suficiente sobre os investimentos se tomarmos como referência os custos médicos que poupa ao trabalhador. O montante líquido atual do programa também não é extremamente positivo — em termos salariais — se levarmos em conta a redução do valor das ausências por ele proporcionada.

 

Contudo, no momento em que esses valores salariais são ponderados pelos multiplicadores, a coisa muda de figura. O valor líquido atual do programa hipotético praticamente quadruplica no decorrer dos primeiros cinco anos— o que contribui muito para que seja aceito pela alta gerência.

 

Trabalhadores doentes no local de trabalho

A Dow Chemical levou a análise alguns passos adiante ao examinar a questão do comparecimento de trabalhadores doentes ao local de trabalho, mensurando seu impacto sobre a produtividade. A Dow elaborou diversas perguntas a respeito em um levantamento de grande porte sobre questões relativas à saúde do trabalhador, em 2002. A empresa constatou que 64% dos empregados tinham um ou mais problemas graves de saúde. A pesquisa resultou em uma descoberta alarmante. Embora doenças graves como o diabetes, artrite e distúrbios circulatórios sejam responsáveis pela maior parte dos custos médicos diretos entre os trabalhadores, o problema de saúde que gera mais custos à empresa por trabalhador — depois de fatorados os custos resultantes do comparecimento do trabalhador doente  para desempenho de sua funções no local de trabalho — é a depressão/ansiedade.

 

De posse desses dados, a Dow criou estratégias específicas de intervenção em casos especiais dos quais a empresa talvez não tivesse conhecimento suficiente se não fosse pelo levantamento feito, observam os autores, acrescentando que “a estratégia da empresa consiste em enfatizar a prevenção, a qualidade dos serviços de saúde administrados, além da implementação de controles mais sofisticadas, como, por exemplo, programas de remuneração por desempenho”.

 

A Dow é exemplo do que os empregadores do setor privado podem fazer para a melhoria da área da saúde, diz Paul. As empresas têm cacife para provocar mudanças porque proporcionam cobertura de seguro-saúde para 160 milhões de trabalhadores. Os dados mostram que os empregadores gastaram uma média de 6.700 dólares por família, e 2.900 dólares por indivíduo,  além da contribuição dos empregados durante o ano de 2003.

 

Contudo, duas tendências atuais aparentemente contraditórias no tocante aos benefícios concedidos pelo empregador indicam que as empresas agem de modo ambíguo no que diz respeito à forma como desejam que seus programas de benefícios funcionem. Por um lado, muitos empregadores estão investindo em novos programas com o objetivo de melhorar a qualidade dos planos médicos, em parte em resposta às preocupações recentes manifestadas pelo Instituto de Medicina (braço da Academia Nacional de Ciências que cuida de questões de caráter médico) e de outras organizações sobre a situação aquém da ideal do sistema de saúde americano. A coalizão de empregadores denominada Leapfrog Group, por exemplo, incentiva há vários anos os hospitais a adotarem sistemas computadorizados para o registro de pedidos médicos como forma de evitar erros. A General Electric trabalha há cinco anos em um programa de identificação de médicos e hospitais de qualidade superior a que os trabalhadores costumam recorrer. O objetivo do programa é conceder incentivos financeiros para os empregados que fazem uso dos melhores fornecedores.

 

Enquanto isso, um número maior de empresas vem transferindo os custos dos seus planos de saúde para os empregados, em parte porque os custos com seguro-saúde aumentaram mais de 50% durante os últimos seis anos. O exemplo mais evidente dessa tendência de compartilhamento de custos é a migração para as Contas de Poupança de Saúde (CPS), defendida pelo governo Bush como forma de combate à inflação no sistema de saúde, já que dá ao trabalhador incentivo para que ele adquira seu plano de saúde de maneira planejada. As contas são também uma forma de as empresas tornarem os trabalhadores mais responsáveis por seu plano de saúde, evitando que o empregador tenha de se envolver em transações entre pacientes e médicos.  Excetuando-se as CPS, o compartilhamento de custos também pode ser algo tão simples quanto o aumento do valor compartilhado que é pago no balcão da farmácia.

 

As tendências observadas mostram que as empresas procuram avaliar com precisão de que maneira as decisões relativas aos benefícios de saúde incidem sobre os lucros, diz Pauly.  A tendência de compartilhamento de custos, de modo especial, ocorre em um momento em que não se sabe se as economias de curto prazo desembocarão em problemas no sistema de saúde no longo prazo, e também em custos, uma vez que os trabalhadores evitam os cuidados básicos por razões financeiras; não se sabe também se os trabalhadores se preocuparão mais com sua saúde, procurando não adoecer, para que não se vejam obrigados a  pagar mais pelo plano de saúde.

 

Além disso, é possível que as empresas tenham de pagar salários mais altos, caso a qualidade dos benefícios seja reduzida, observam os autores. O que falta a esse debate, acrescentam, é um método prático e preciso que determine quanto os empregadores devem investir na saúde dos seus funcionários, e que identifique os planos de benefícios mais adequados, de modo que incentivem a gestão e o uso adequados do sistema de saúde.

 

“O que procuramos mostrar em nosso estudo”, diz Pauly, é que quando discutimos coisas como a mensuração do custo real incorrido pela ausência do trabalhador no local de trabalho, “queremos que o empregador se sinta motivado a avaliar com a maior exatidão possível os retornos que poderá ter com as melhoras introduzidas no plano de saúde dos seus funcionários”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Efeito multiplicador: conseqüências financeiras do absenteísmo." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [11 January, 2006]. Web. [09 May, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/efeito-multiplicador-consequencias-financeiras-do-absenteismo/>

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