Empresas em risco: seqüestradores têm como alvo executivos globais

Um empresário mexicano que participou de um recente programa de formação de executivos e de um workshop de negociações na Wharton tinha uma história interessante para contar a seus colegas. Parece que bandidos recentemente seqüestraram seu tio, um rico empresário, e exigiram dinheiro da família em troca de sua libertação. A família imediatamente pagou o resgate, os seqüestradores entregaram o parente e recolheram o dinheiro; em seguida o seqüestraram pela segunda vez, exigindo mais pagamento. “Outros executivos relataram histórias semelhantes nas quais a exigência inicial de resgate, prontamente aceita, acabou sendo apenas o pagamento inicial para obter a libertação ou tornou-se o preço da evidência de que o refém ainda estava vivo”, diz o professor de estudos jurídicos G. Richard Shell , instrutor do programa e autor de Bargaining for Advantage: Negotiation Strategies for Reasonable People. “Em Wall Street, uma atitude como essa seria considerada uma má transação. Mas é desnecessário dizer que isso não é Wall Street.”

 

E não é mesmo. À medida que as empresas americanas negociam mais bens e serviços no exterior, o número de funcionários seqüestrados para obtenção de resgate aumentou em lugares como México, Brasil, Filipinas e Chechênia. Junto a esse aumento veio a necessidade cada vez maior de dinheiro para resgate, apólices mais caras de seguro e táticas mais sofisticadas de negociação nos dois lados da mesa.

 

De acordo com o Hiscox Group, companhia de seguros de Londres, os seqüestros com resgate no mundo todo em 1999 alcançaram o pico recorde de 1.789 (em comparação com 1.670 em 1998) e não incluem incidentes que não foram denunciados e/ou resolvidos em sigilo. De fato, algumas fontes ligadas a companhias de seguros estimam que o número de seqüestros somente na Colômbia aproxima-se de 3.000 por ano. Dos incidentes em 1999, continua o relatório, 92% ocorreram nos 10 países de maior risco: Colômbia, seguida do México, a antiga União Soviética, Brasil, Nigéria, Filipinas, Índia, Equador, Venezuela e África do Sul.

 

Em muitos países do mundo, diz o consultor especializado em crises Mike Ackerman, chefe do Ackerman Group com sede em Miami, “o seqüestro é uma atividade de risco relativamente baixo para os criminosos. Conseqüentemente houve um aumento de seqüestros”. E em países em que os departamentos de polícia são bastante ineficientes, tais como o México, o problema se agrava ainda mais, acrescenta ele.

 

Enquanto as vítimas de seqüestro no passado eram em geral rivais políticos ou funcionários do governo e as exigências dos seqüestradores estavam relacionadas de alguma forma com sua ideologia, atualmente as vítimas podem ser tanto turistas quanto empresários e a meta é bem mais simples: dinheiro. Recentemente, as exigências de resgate aumentaram. “Há uma espécie de inflação natural envolvida”, diz Ackerman, que serviu durante 11 anos na unidade de serviços secretos da CIA antes de fundar a própria empresa. “Se os seqüestradores conseguem uma quantia alta, querem repetir a façanha.” Por estarem associados a empresas ricas, os americanos constituem um alvo especialmente atraente.

 

Na ausência de qualquer solução governamental coordenada, a resposta pragmática, com base no mercado, tem sido o seguro. Mais de 60% das 500 empresas relacionadas na revista Fortune atualmente fazem seguro contra seqüestro e resgate para seus funcionários, de acordo com relatos da mídia. E empresas especializadas em negociações envolvendo reféns, constituídas de antigos agentes do FBI, da CIA e de outros órgãos semelhantes, atualmente fazem sociedade com importantes companhias seguradoras, que oferecem seguro contra seqüestro e resgate, incluindo a Chubb, a AIG, a Travelers e a Lloyd’s de Londres. O Ackerman Group, por exemplo, trabalha com a Chubb e está à disposição de qualquer cliente da Chubb que necessitar de seus serviços.

 

As negociações envolvidas em casos de seqüestro e resgate tendem a ser extraordinariamente intensas e prolongadas. “As situações de seqüestro envolvendo funcionários incluem uma combinação bizarra de barganha tensa e arriscada com táticas de negociação para ajustes de seguro”, diz Shell, que assistiu às sessões de treinamento do FBI para negociação de reféns no último verão. “Normalmente vale a pena ser paciente e deixar que profissionais lidem com o processo de negociação. Não somente os especialistas sabem mais sobre o que se pode esperar dependendo da região, mas também estão menos envolvidos emocionalmente no processo.”

Shell também observa que um dos aspectos mais estranhos desses enfrentamentos envolve freqüentemente discussões acaloradas sobre o conjunto apropriado de “fatores de comparação” para determinar o “preço justo” de uma vítima de seqüestro. O caso do exército guerrilheiro Abu Sayyaf das Filipinas – o grupo rebelde muçulmano que seqüestrou vários estrangeiros no início deste ano – é um exemplo desse fenômeno, pois, a certa altura, exigiu US$ 10 milhões pelo seu único refém americano. “O grupo alegou que o pagamento de US$ 1 milhão por refém feito pela Líbia para a libertação de 10 pessoas “comuns” forneceu um parâmetro para a determinação do preço do americano em 10 vezes essa quantia”, declara Shell. “Aqui por perto, se uma empresa pagar US$ 500.000 por um vice-presidente executivo no México, a notícia se espalhará rapidamente até a Colômbia, onde o preço por um funcionário de tal calibre poderá subir até esse nível para empresas do mesmo setor.”

 

O seguro contra seqüestro e resgate gera entre US$ 125 milhões e US$ 150 milhões por ano em prêmios no mundo todo, de acordo com fontes do setor, e prevê-se o aumento dessas quantias, diz um corretor. “É um setor em crescimento. Os prêmios nos últimos cinco anos não têm se alterado muito, mas no ano passado, devido à escalada no número de seqüestros, especialmente na Colômbia, no México e no Brasil, esses prêmios aumentaram.”

 

Em geral, os funcionários não sabem que seus empregadores possuem um seguro contra seqüestro e resgate. E quase todas as apólices contêm um acordo de confidencialidade visto que as empresas que compram cobertura contra seqüestro e resgate não querem que esse fato venha a público por razões óbvias de segurança.

 

Embora o seguro contra seqüestro e resgate seja normalmente uma oferta de produto padrão para muitas empresas – a maioria das empresas de capital aberto compram o seguro contra seqüestro e resgate ou o auto-seguro –, as apólices podem ser diferentes. Segundo o National Underwriter, algumas apólices podem cobrir as despesas com a contratação de um negociador de reféns, por exemplo; outras podem cobrir viagem e acomodações para a família da vítima e/ou custos com psiquiatras e médicos para a vítima. Outras ainda podem incluir reembolso de pagamento ou despesas com um relações-públicas, intérprete ou especialista forense e assim por diante.

 

Enquanto isso, a Chubb anunciou recentemente que está acrescentando cobertura contra seqüestro como um recurso padrão em suas apólices para seguros residenciais nos EUA. A apólice cobre até US$ 100.000 de gastos relacionados com o seqüestro tais como a contratação de um negociador profissional, mas não inclui cobertura para pagamentos de resgate. A cobertura se aplica a todos os segurados bem como determinados membros da família quando viajam dentro dos Estados Unidos ou para o exterior.

 

“Nossos clientes viajam cada vez mais não somente pelo país, mas também pelo mundo todo”, diz o porta-voz da Chubb, Mark Schussel. “Há necessidade de estender a paz de espírito ao viajar para outras paragens.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Empresas em risco: seqüestradores têm como alvo executivos globais." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [14 September, 2005]. Web. [22 June, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/empresas-em-risco-sequestradores-tem-como-alvo-executivos-globais/>

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Empresas em risco: seqüestradores têm como alvo executivos globais. Universia Knowledge@Wharton (2005, September 14). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/empresas-em-risco-sequestradores-tem-como-alvo-executivos-globais/

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"Empresas em risco: seqüestradores têm como alvo executivos globais" Universia Knowledge@Wharton, [September 14, 2005].
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