Entrevista com Frank Brown, do INSEAD: Fazendo das escolas de negócios uma experiência verdadeiramente global

O INSEAD, uma das principais escolas de negócios da Europa, deu mais um passo rumo à globalização ao abrir uma nova unidade em Nova York, onde deverá competir com escolas de prestígio como Harvard e Columbia. O INSEAD, de origem francesa, já conta com campus próprio em Paris e outro em Cingapura, e acredita que chegou o momento de outras escolas européias se estabelecerem nos EUA. O IESE, escola de negócios espanhola, foi a primeira escola de negócios européia a seguir nessa direção. Em uma entrevista ao Universia-Knowledge@Wharton, Frank Brown, reitor do INSEAD, diz que a grande vantagem das instituições européias é que seu currículo não é dominado por uma única cultura. Elas são mais abertas aos estudantes estrangeiros que vêm de outros continentes. Além da Ásia e dos EUA, o INSEAD também considera a América Latina uma região com alto potencial de crescimento para as escolas de negócios do mundo todo.

 

Universia-Knowledge@Wharton: O INSEAD acaba de inaugurar uma nova unidade em Nova York. Haveria uma razão em especial para isso? Quais são os planos da escola para os EUA?

 

Frank Brown: Abrimos um escritório em Nova York em outubro do ano passado na Rockefeller Plaza, 75. Nosso principal objetivo é desenvolver a marca do INSEAD nas Américas e conscientizar o setor corporativo da nossa presença. Ao marcar presença nos EUA, o INSEAD não só poderá estender seu alcance no setor de educação executiva, como também continuará a promover o contato com sua vasta base de ex-alunos nas Américas. Parte da missão do INSEAD consiste em se estabelecer nos EUA com o objetivo de se relacionar sob um novo ângulo com as empresas americanas e atender melhor os clientes que já possui e que têm operações na região.

 

Mary Lee Rieley, diretora de Relações Exteriores para as Américas, comandará o segmento de ex-alunos e o projeto de desenvolvimento no exterior. O professor J. Stewart Black atuará como reitor associado de Programas de Desenvolvimento Executivo.

 

UK@W.: No ano passado, o IESE, escola espanhola de negócios, também se estabeleceu em Nova York. O sr. acha que ter presença nos EUA é imprescindível para as escolas européias que queiram se internacionalizar?

 

F.B.: Não nos vemos com escola européia de negócios, e sim como uma escola internacional  de negócios, uma vez que possuímos dois campus totalmente integrados na Europa e na Ásia, além de um centro de pesquisas e de educação executiva em Abu Dhabi, bem como um centro de pesquisas em Israel e agora um escritório em Nova York. Não nos internacionalizamos, porque sempre fomos internacionais. Temos fortes laços com empresas que têm escritórios nos EUA e continuamos a construir laços estratégicos profundos com as empresas. Nossa presença nos EUA reforça nossa missão de oferecer educação no segmento de negócios que promova a união das pessoas, culturas e idéias do mundo todo.

 

UK@W.: Essas escolas estão preparadas para competir com universidades há muito estabelecidas, como Harvard, por exemplo?

 

F.B.: Sem dúvida. Já somos a número dois em programas de open enrollment [que não exigem qualificações acadêmicas específicas] e ultrapassamos Harvard em programas específicos para empresas. O INSEAD possui conselhos nacionais há muito estabelecidos constituídos por presidentes e CEOs, tanto nos EUA quanto no Canadá, que orientam a escola em relação a questões atuais de administração e apóiam a interação e o envolvimento da escola com a comunidade de negócios e com ex-alunos.

 

UK@W.: Do ponto de vista estratégico, quais seriam as principais diferenças entre as escolas americanas e européias?

 

F.B: Sob o ponto de vista da estratégia, as escolas americanas privilegiam uma cultura dominante nas discussões em sala de aula. No INSEAD, procuramos sempre trabalhar com um mix de culturas diferentes, de modo que não haja uma única mentalidade predominante. Nosso enfoque enfatiza a diversidade. Como possuímos dois campus, 67% dos alunos optaram, em 2007, pelo intercâmbio entre ambos. As culturas da Europa e da Ásia também agregam variedade ao ano dedicado ao MBA.

 

UK@W.: Quais são os planos do INSEAD a curto e a longo prazo?

 

F.B.: O INSEAD tem uma parceria com a Wharton, da Pensilvânia, que amplia ainda mais o alcance da educação e pesquisa executiva da escola nos três continentes. Os professores do INSEAD estão à frente de projetos de pesquisa de ponta e contam com o apoio de 17 centros de excelência. O INSEAD introduziu recentemente disciplinas opcionais como administração ambiental e responsabilidade corporativa, fundos de hedge e investimentos alternativos, poder e política e arte da comunicação. Oferecemos também programas de estudos na China, Índia e no Vale do Silício, nos EUA. A escola não pretende abrir outro campus, e sim ampliar os que já existem e alavancar seus programas de responsabilidade social corporativa e empreendedorismo, além de desenvolver atividades em seu Centro de Inovação Social.

 

UK@W.: E quanto ao mercado espanhol? Vocês pretendem ampliar as atividades da escola no país? O INSEAD tem alguma parceria com escolas espanholas? Quantos alunos espanhóis freqüentam os cursos do INSEAD anualmente?

 

F.B.: Há mais de 70 nacionalidades diferentes nos cursos de MBA do INSEAD. Entre elas, a espanhola, uma vez que a Espanha é um país importante e já pudemos observar um aumento constante de candidatos espanhóis. Nas turmas de 2007, os espanhóis ficaram em terceiro lugar entre as nacionalidades com maior numero de inscritos. Naquele ano, 43 espanhóis fizeram seu MBA no INSEAD.   Muitos cultivam o espírito da escola participando ativamente da associação de ex-alunos com mais de 300 membros ativos. Temos boas relações com as escolas de negócios mais importantes do país, mas nenhuma parceria formal.

 

UK@W.: O INSEAD está interessado no mercado latino-americano porque deseja recrutar mais alunos? Vocês pretendem abrir escolas em países da América Latina?

 

F.B.: Há diferentes projetos do INSEAD em andamento nesses mercados sob a responsabilidade dos professores Lourdes Casanova e Soumittra Dutta: Multinacionais emergentes na América Latina, financiado pelo INSEAD e pelo Banco de Desenvolvimento Interamericano, e Criando um índice de inovação para países latino-americanos (financiado pela Fundação Telefônica). O INSEAD promove vários eventos em parceria com associações de ex-alunos latino-americanos todos os anos. Hoje, temos 39 alunos latino-americanos em nosso programa de MBA de tempo integral. O INSEAD participa de diferentes feiras de MBA na Cidade do México, Lima, Rio de Janeiro, São Paulo, Santiago, Quito e Bogotá. A escola organiza aulas especiais e sessões de informações em diferentes países da América Latina.

 

Os principais clientes latino-americanos do INSEAD são a Petrobrás (terceiro maior cliente da empresa nos programas de open enrollment; Cemex (que participa de programas de educação executiva desde 2004 em parceria com Stanford e Tec de Monterrey); Bancomer/BBVA e Telefônica. Organizamos também programas de educação executiva [em parceria com escolas de negócios latino-americanas como, por exemplo] com a FDC, do Brasil, INCAE, da Costa Rica, e IAE, da Venezuela. O INSEAD participa também de grandes eventos regionais, com o Fórum Mexicano de Negócios de Monterrey, da Cúpula Latino-Americana do Fórum Econômico Mundial, em Santiago do Chile, do Fórum de Inovação da CNI, do Evento de Mídia de TI, de São Paulo, da Assembléia Geral do Banco de Desenvolvimento Interamericano, em Belo Horizonte. O INSEAD criou um Conselho Latino-Americano em 2005 com CEOs das principais empresas da região, mas não tem a intenção de investir em um campus na América do Sul.

 

UK@W: Qual o papel das escolas americanas e européias na América Latina?

 

F.B.: As empresas latino-americanas estão passando por um grande processo de internacionalização. O perfil e as habilidades que as empresas querem para seus gerentes estão mudando, e as escolas de negócios como o INSEAD podem ajudar as empresas nesse processo de transformação.

 

UK@W.: Que países latino-americanos estão mais interessados nos programas das escolas de negócios? Por quê?

 

F.B.: Todos. O México e o Brasil, por causa do seu tamanho, são sem sombra de dúvida os maiores mercados.

 

UK@W.: De modo geral, considerando-se os programas para gerentes, que regiões exigem mais cursos e por quê?

 

F.B.: Países como a Rússia têm pressa em formar executivos, assim como a Índia e a China. Nos cursos de MBA, por exemplo, observamos o crescimento da diversidade à medida que atraímos mais pessoas dessas regiões.

 

UK@W.: Em seu novo livro, O líder de negócios global [The global business leader], o sr. fala das habilidades que o líder precisa desenvolver. Que habilidades seriam essas? As escolas de negócios estão preparadas para enfrentar novos desafios educacionais ou será que precisam mudar de estratégia?

 

F.B.: Em um mundo cada vez mais conectado, a habilidade de operar em um ambiente multicultural é um dos maiores desafios com que deparam os líderes de negócios e de outras áreas. Contudo, existem habilidades e técnicas que podem ser trabalhadas para que os líderes possam desempenhar bem suas funções em seu país e no exterior. Conforme explico no livro, o tipo de líder que a economia mundial, em constante evolução, exige atualmente — um líder transcultural — é aquele que precisa ter habilidades que lhe permitam trabalhar em diferentes culturas. Com base na minha experiência de 26 anos na PricewaterhouseCoopers, apresento exemplos no livro que mostram como desenvolver essas habilidades de liderança transculturais indispensáveis para que as empresas ingressem em novos mercados, para que cresçam, adquiram responsabilidade e preservem uma cultura de excelência. Os elementos mais críticos e as habilidades fundamentais para se tornar um líder global mais eficaz são a comunicação, o networking (relações), construção de equipes, mentoring, presença executiva, definição de objetivos, tomada de decisão, inovação, gestão de crise e equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional.

 

UK@W.: Qual seria, na sua opinião, o perfil de um “gerente global”?

 

F.B.: Dado o ambiente atual dos negócios em todo o mundo, os gerentes precisam ser líderes transculturais, conforme sempre digo, para que possam administrar uma empresa ou equipe com presença fora do seu país de origem. Esse tipo de líder combina as melhores práticas da liderança executiva tradicional com o entendimento de que o mundo é constituído por várias culturas cujos valores variam drasticamente. Para fazer negócios em âmbito global, precisamos ser sensíveis a essas diferenças. A perspectiva global e a habilidade de operar em localidades distintas contribuem para o sucesso geral da empresa na construção do seu negócio no mundo todo. Acho que cultivar uma atitude de abertura é a chave do sucesso, tanto nos negócios quanto na vida.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Entrevista com Frank Brown, do INSEAD: Fazendo das escolas de negócios uma experiência verdadeiramente global." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [20 February, 2008]. Web. [22 June, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/entrevista-com-frank-brown-do-insead-fazendo-das-escolas-de-negocios-uma-experiencia-verdadeiramente-global/>

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"Entrevista com Frank Brown, do INSEAD: Fazendo das escolas de negócios uma experiência verdadeiramente global" Universia Knowledge@Wharton, [February 20, 2008].
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