Gary Garrabrant, da Equity International: mercado em baixa nos EUA e em alta nos mercados emergentes

Os países que tiveram fácil acesso ao endividamento — como EUA e Japão — estão sendo mais duramente atingidos pela crise financeira atual, ao passo que os países sem acesso a esse tipo de capital — como o Brasil — foram relativamente poupados, conforme explica Gary Garrabrant, CEO da Equity International. Durante o Fórum de Bens Imóveis em Mercados Emergentes, realizado pela Knowledge@Wharton, Garrabrant falou sobre a estratégia de sua empresa diante do esfriamento do mercado, disse como são tomadas as decisões de investimentos e fez previsões para os próximos 18 a 24 meses.

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Nosso convidado de hoje é Gary Garrabrant, CEO e um dos fundadores da Equity International, empresa que investe em companhias do segmento imobiliário e cria empresas para atuar no setor fora dos EUA. Gary, obrigado por aceitar nosso convite.

Gary Garrabrant: Grato pela oportunidade.

Knowledge@Wharton: Atualmente, todo mundo quer saber de que forma o clima financeiro internacional afetou os investimentos em bens imóveis. O Sr. poderia me dizer qual teria sido o impacto da crise sobre suas operações?

Garrabrant: Bem, as repercussões foram diversas. Em primeiro lugar, estamos vivendo hoje um momento histórico sem precedentes, por isso há tanta gente atrás de uma resposta. O problema é que a resposta muda a cada semana, porque a volatilidade tem sido forte demais. Felizmente, quando criamos nossa empresa há dez anos, não conseguimos o empréstimo que havíamos requisitado. Hoje, agradeço aos bancos por não terem atendido nossa solicitação. Nosso negócio não é alavancado. Esse é o primeiro ponto, que considero muito importante.

Em segundo lugar, nosso quarto fundo nos proporciona o capital de que necessitamos, de modo que essa munição nos permite obter a capitalização necessária para eventuais oportunidades.

Knowledge@Wharton: O Sr. poderia nos dar uma ideia da escala global de suas operações e que mercados foram mais afetados pela desaceleração da economia? E ainda: quais são os mercados mais fortes?

Garrabrant: Desde o início, procuramos trabalhar com os mercados emergentes porque estávamos convencidos de que a ineficiência do capital, o crescimento da classe média, a concorrência frágil ou inexistente, bem como a presença de sócios importantes, entre outros fatores, deviam ser levados em conta. Evitamos a Europa Ocidental e também o Canadá, e até recentemente evitávamos também a Austrália e a Nova Zelândia. É verdade que entramos há pouco no Reino Unido, nosso primeiro mercado desenvolvido, através de uma empresa veterana do ramo imobiliário. Temos 18 empresas investidas. Hoje somos conhecidos por nosso estilo, que se caracteriza, sobretudo, pelo investimento em parceria.

Com relação às áreas mais afetadas, creio que os EUA e os países que tiveram fácil acesso ao endividamento, países da Europa Ocidental e Japão, entre outros, estão sendo mais afetados. Os países sem acesso ao capital de empréstimo, como o Brasil, por exemplo, estão sendo menos prejudicados.

Todavia, ninguém está seguro hoje de que os mercados emergentes estejam mais bem posicionados.

Knowledge@Wharton: Quando o Sr. avalia os mercados emergentes, quais são os prós e os contras na hora de decidir onde investir?

Garrabrant: Sua pergunta é interessante. As pessoas se referem a diversos países quando usam essa expressão. Creio, porém, que existam apenas duas categorias de países. Temos os BRICs, constituídos pelos países que deram origem à sigla, ou por países que podem ser enquadrados com relativa facilidade nessa categoria. Há também os chamados países de fronteira. Já investimos bastante tempo nos BRICs tradicionais, principalmente no Brasil, e por vários motivos.

Tentamos estabelecer operações em cada um dos BRICs. Temos três empresas na China, quatro no Brasil. Tínhamos um investimento na Ucrânia, nada na Rússia especificamente, mas investimos um tempo considerável lá, bem como na Índia.

Creio que o Egito também deveria seria ser incluído nessa lista, assim como o México. Mercados mais fronteiriços, como a África subsaariana ou o Vietnã, também são interessantes. Estes dois últimos se encontram em um estágio exploratório.

Knowledge@Wharton: Quais os principais riscos dos mercados emergentes em comparação com mercados mais desenvolvidos como o dos EUA, por exemplo?

Garrabrant: Os riscos são enormes. A começar pelo risco político, devo dizer que nossa experiência na Venezuela, como investidores, foi muito proveitosa. Não sabíamos no que estávamos nos metendo quando decidimos trabalhar naquele país, mas aprendemos muita coisa. Uma das coisas que aprendemos foi que é importante contar com a experiência de um sócio de nível mundial que, a nosso pedido, nos ajudou a converter o investimento que havíamos feito em dinheiro. Isso é algo de que nos orgulhamos muito. Até hoje somos amigos muito próximos.

Aprendemos também que o risco político não pode ser quantificado. Há muitas pessoas inteligentes por aí que discordam dessa minha afirmação. Para nós, porém, liquidez é o mesmo que valor. Durante anos, não tínhamos liquidez alguma, e por extensão, nenhum valor no tocante aos nossos investimentos na Venezuela.

Portanto, eu diria que o risco político é muito alto, e nós procuramos evitar problemas. A Rússia seria um exemplo atual de país onde decidimos não trabalhar. Como empresa global, temos oportunidades em diversos países, por isso não há necessidade de riscos extremos. Não alocamos capital. Procuramos oportunidades onde haja estado de direito, direitos de propriedade, um lugar onde as hipotecas funcionem, onde haja leis de execução — todas essas coisas devem ser levadas em conta. Por isso somos muito cuidadosos no que diz respeito à documentação. Em última análise, porém, os investimentos que fazemos são realizados em parceria com sócios conceituados.

Knowledge@Wharton: O Sr. se referiu à Índia, e é claro que hoje, mais do que em outras épocas, é preciso levar muito a sério o risco político no país, haja vista os ataques terroristas sem precedentes ocorridos ali há pouco tempo. Houve também uma reação política muito forte na esteira dos ataques. Isso poderia afetar sua estratégia para a Índia?

Garrabrant: Esse é um fator a considerar. Já me hospedei no Taj Hotel, portanto as imagens que vi são familiares. Trata-se de uma tragédia assustadora e terrível ao mesmo tempo. Pode ser que haja uma ligação local em tudo isso, mas não sabemos. Para mim, o que aconteceu ali é prova de que qualquer coisa pode acontecer em qualquer lugar. Consideramos a Índia um país não-violento, democrático, portanto o que aconteceu foi algo inédito no país.

Para nós, o mais importante é encontrar um sócio que invista conosco na Índia. Ainda estamos à procura desse sócio.

Knowledge@Wharton: O Sr. se referiu também à liquidez como uma parte essencial da sua estratégia. Considerando-se o estado dos mercados atualmente e o congelamento dos mercados de crédito, onde estão localizadas hoje as fontes emergentes de liquidez?

Garrabrant: Excelente pergunta. Não dependemos de dívida, e essa independência nos serve muito bem atualmente. Já analisamos também a maior parte das empresas privadas, mas hoje identificamos um valor extraordinário em empresas de capital aberto e nas ações listadas dessas empresas — a saber, suas ações comuns. Por meio de vários fundos, fundos II, III e IV, hoje em operação, temos uma série de empresas de capital aberto. Amamos essas empresas e, nos níveis atuais de preços, passamos a investir mais e a aumentar nossa posição. Nem é preciso dizer que em cada um desses casos estamos intimamente envolvidos com essas empresas de uma forma que vai além da nossa relação com o conselho de administração. Na minha opinião, isto nos dá uma certa vantagem, porque nos torna únicos. É isso o que fazemos de fato. Criamos e fazemos crescer empresas líderes fora dos EUA.

Knowledge@Wharton: Uma última pergunta: qual o seu prognóstico para os próximos 18 a 24 meses?

Garrabrant: Creio que será uma fase muito complicada. Acho que o mercado americano continuará em baixa. Penso que o consumidor está cansado e superalavancado, e será preciso um tempo para reverter essa situação. Continuamos com expectativa de alta em relação aos mercados emergentes e em relação àquelas regiões que estão crescendo, embora em menor grau. Refiro-me à Índia, China e ao Brasil especificamente.

O crescimento do Oriente Médio é uma tendência muito sólida. Ainda estamos vendendo casas no México e no Brasil, ao contrário do que ocorre nas economias desenvolvidas. Creio que veremos uma mudança de cenário nesses mercados por volta de 2010.

Knowledge@Wharton: Gary, muito obrigado pela entrevista.

Garrabrant: Obrigado pela oportunidade.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Gary Garrabrant, da Equity International: mercado em baixa nos EUA e em alta nos mercados emergentes." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [01 March, 2010]. Web. [19 September, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/gary-garrabrant-da-equity-international-mercado-em-baixa-nos-eua-e-em-alta-nos-mercados-emergentes/>

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Gary Garrabrant, da Equity International: mercado em baixa nos EUA e em alta nos mercados emergentes. Universia Knowledge@Wharton (2010, March 01). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/gary-garrabrant-da-equity-international-mercado-em-baixa-nos-eua-e-em-alta-nos-mercados-emergentes/

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"Gary Garrabrant, da Equity International: mercado em baixa nos EUA e em alta nos mercados emergentes" Universia Knowledge@Wharton, [March 01, 2010].
Accessed [September 19, 2021]. [https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/gary-garrabrant-da-equity-international-mercado-em-baixa-nos-eua-e-em-alta-nos-mercados-emergentes/]


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