Gestão de estoque: em busca de um desempenho melhor

Celulares com acesso a e-mail que tiram foto e navegam pela Internet; carros com opções que vão de rádios embutidos integrados a satélites a lâminas de limpadores de pára-brisa sensíveis à chuva; teclados de tecido sem fio que o usuário pode enrolar e desenrolar dentro do bolso. Não passa um dia sequer sem que surja um novo produto — ou sem que um produto antigo incorpore novos recursos tornando-se mais poderoso, prático ou fácil de usar.

 

Embora sejam todos uma bênção para o consumidor, esses milhões de novos produtos que surgem regularmente tornam a gestão do estoque tão arriscada quanto adivinhar o presente que uma adolescente deseja ganhar de aniversário no ano que vem. “Ninguém sabe qual será a demanda para esse tipo de coisa”, observa Serguei Netessine, professor de Gestão de Operações e de Informações da Wharton. Contudo, com a crescente diminuição do ciclo de vida dos produtos, diz ele, hoje a gestão da cadeia de suprimentos é mais importante do que nunca.   Netessine cita como exemplos a indústria automobilística e de computadores. “Basta lembrar que, no passado, o Ford modelo T (Ford bigode) tinha uma cor só: preto. Agora, veja o número de modelos e de opções — são milhões de um mesmo carro. Como é que se estima quantos carros devem ser fabricados? Se observarmos a indústria da computação, veremos que são vários os chips de memória e os novos processadores lançados em um mesmo ano.”

 

É natural, portanto, que a gestão de estoques de diferentes níveis tenha se tornado uma operação altamente complexa. Se alguém mantém um estoque elevado demais, as despesas aumentam. “Mas se o reduzirmos exageradamente, não teremos nada para vender”, diz Netessine. Entretanto, apesar do papel fundamental da gestão de estoque para o sucesso de uma empresa, ninguém sabe como mensurar a qualidade da gestão da cadeia de suprimentos. “Todos sabem que a Dell e o Wal-Mart são bons nisso, mas fora essa duas empresas, ninguém sabe dizer se alguma outra saberia gerir sua cadeia de suprimentos melhor do que o seu vizinho.”

 

Decidido a descobrir se haveria um parâmetro legítimo de mensuração da qualidade, Netessine juntou-se a Serguei Roumiantsev, doutorando da Wharton. Dessa parceria resultou “uma metodologia estatística que associa decisões administrativas de estoque a retornos contábeis”, observam os autores em seu novo estudo intitulado “A política de estoque deve ser rígida ou reativa? Evidências para empresas americanas.”

 

Estoque de menos não está na moda

Uma das maiores surpresas com que Roumiantsev e Netessine depararam foi que a adoção de estoques enxutos não está necessariamente associada a lucros mais polpudos. “Os níveis de estoque, por si sós, não estão relacionados de maneira significativa e negativa aos lucros atuais ou futuros”, informam os autores. “Na verdade, em algumas indústrias, quanto maior o estoque, maior o lucro”, diz Roumiantsev.

 

O que de fato afeta a lucratividade de uma empresa é a velocidade com que o gestor ajusta o estoque para atender às mudanças do mercado. “Ganhos mais elevados estão relacionados à velocidade do binômio mudança/reação observada na gestão de estoque”, assinalam os autores. Em outras palavras, as empresas que elevam os níveis dos estoques rapidamente para atender à maior demanda, ou os reduzem quando a demanda decresce, são mais lucrativas.

 

Tais descobertas parecem respaldar as técnicas de fabricação “Just In Time”, que enfatizam a preservação de níveis mínimos de estoque. Só há solicitação de novos itens quando o estoque do produto em questão atinge o nível mínimo de atendimento à demanda real. Contudo, a pesquisa de Netessine tira a ênfase do estoque enxuto e o substitui pela velocidade, atribuindo a esta maior importância. “Não creio que nossa pesquisa contrarie o Just In Time, cuja preocupação é a de adequar rapidamente o estoque’, diz ele. “Contudo, as pessoas não sabiam como mensurar esses dados financeiros disponíveis para consulta.”

 

Avaliando a capacidade de reação do estoque

Em seu estudo, Netessine e Roumiantsev analisaram dados de 722 empresas de capital aberto representando oito indústrias: petróleo e gás, eletroeletrônicos, atacado, varejo, maquinário, hardware, alimentos, bebidas e químicos. “Utilizamos dados trimestrais com 44 pontos no tempo entre 1992 e 2002 referentes a cada empresa utilizada na amostra”, assinalam os pesquisadores. Nenhuma atividade do setor de serviços foi incluída na amostra, uma vez que os estoques não têm tanta importância nesse segmento. Foram também excluídos os conglomerados, como a General Electric, cujas operações são diversificadas demais para serem fragmentadas. Em média, as empresas da amostra totalizaram 396 milhões de dólares em estoques e contabilizaram um total de vendas, por trimestre, de 572 milhões. 

 

“Tentamos primeiramente descobrir por que uma determinada empresa mantém um nível x de estoque”, diz Netessine. “Por que esta empresa tem esse nível específico e aquela outra um nível diferente, sendo que as duas fazem parte de uma mesma indústria?” Os principais determinantes dos níveis de estoque são conseqüência da demanda média, do grau de incerteza próprio da demanda, do lead time [tempo de espera] e do custo do capital. “Se você trabalha com algum item da Ásia, seu estoque deve ser maior”, diz Netessine. “Se o custo do capital for mais elevado, seu estoque deve ser menor. Todos esses fatores somados vão resultar no volume de estoque necessário para uma determinada empresa.”

 

Em seguida, Netessine e Roumiantsev analisaram a rapidez com que uma empresa adequava seu nível de estoque em resposta às mudanças do ambiente. Para determinar o grau de reação do estoque de uma companhia qualquer — ou a “elasticidade” do estoque — os autores mediram a velocidade da mudança observada no estoque em relação ao lead time, vendas, prováveis vendas e margem bruta. “Depois, observamos as mudanças ocorridas nesses fatores de um trimestre para o outro e como se davam as mudanças no estoque de um trimestre para o outro”, explicou Netessine. “A elasticidade, por exemplo, mede a mudança de estoque associada a 1% de mudança na demanda. Ela mostra com que rapidez a empresa deve ajustar seus estoques em relação a outras variáveis ambientais.”

 

Por fim, os pesquisadores examinaram o impacto da gestão de estoques sobre o retorno sobre ativos (RSA) da empresa, tomando-o como medida de desempenho financeiro. Resultado: “As empresas que reagem mais rapidamente (ou que têm maior elasticidade) às vendas, à demanda incerta e ao lead time, adequando seus estoques, apresentam, em média, um RSA mais elevado.” Essa constatação se mostrou verdadeira não apenas para o RSA atual, mas também para o RSA futuro, com projeção de três a seis meses.

 

Os resultados de empresas específicas apresentaram uma variação maior. Por exemplo, a capacidade de obter mais rapidamente um determinado item mostrou um impacto maior sobre o RSA nos segmentos de varejo e de produtos eletrônicos. Não é de surpreender, portanto, que o estudo tenha demonstrado que as empresas de indústrias nas quais a demanda é menos certa são, em média, menos rentáveis. “Aconselhamos que se faça uma análise mais detalhada desse segmento com uma amostra de dados menos agregada para o estudo de indústrias específicas”, observam os autores.

 

Ferramenta para determinação da qualidade

O estudo poderá ajudar os investidores a predizer com maior acerto o desempenho financeiro das empresas. “Devido à compreensão limitada da relação entre gestão de estoque e desempenho financeiro, poucos analistas e gestores de fundos recorrem aos estoques para predizer/explicar os retornos contábeis de qualidade superior”, afirma o relatório. Contudo, os autores apontam uma exceção — David Berman, gestor de fundos de hedge que opera no varejo. Ao conferir especial atenção à “dinâmica conjunta de estoques e vendas”, Berman conseguiu um desempenho notável para sua carteira. (Sua metodologia foi detalhada em um caso recente da Harvard Bbusiness School intitulado “David Berman”). Todavia, Roumiantsev ressalta que só a elasticidade do estoque não explica o seu desempenho, portanto é “preciso pesquisar mais antes de fazer essa ligação”.

 

Um resultado mais óbvio e importante do estudo é que ele proporciona um meio de mensurar a capacidade da empresa de gerir seu estoque. A análise da “elasticidade do estoque”, conclui o relatório, é um parâmetro mais relevante de excelência operacional do que a simples observação dos níveis de estoque. Na verdade, é comum as empresas manipularem os níveis de estoque retardando a aceitação das remessas ou dando descontos — reduzindo assim, temporariamente, seu nível de estoque. “Nossa intenção é mostrar que é mais difícil manipular as elasticidades de estoque, já que elas propiciam um quadro mais abrangente da situação”, informa Netessine. “Ao analisar a reação de uma empresa ao ambiente tomando-se como referência seus ajustes de estoque, os conselhos de administração terão como avaliar melhor a gestão da companhia.”

 

Trata-se de um expediente que o Wal-Mart já incorporou. “Não há dúvida de que o Wal-Mart monitora o comportamento do estoque em relação às vendas”, diz Netessine. Tanto é que em seu relatório anual de 2004, a empresa ressalta que “uma medida fundamental para avaliação da nossa eficiência consiste em observar se o crescimento do estoque se dá a uma taxa inferior a 50% do crescimento das vendas.”

                  

Ao pôr em funcionamento seu modelo de elasticidade e lucratividade, Netessine e Roumiantsve constataram que os estoque do Wal-Mart não se situavam em níveis muito reduzidos. “Contudo, a empresa tem conseguido reagir com sucesso às variáveis ambientais”, a tal ponto que hoje pertence ao grupo de 25% das empresas com melhor desempenho no que diz respeito à elasticidade do estoque em relação às vendas. Já o Kmart apresentou níveis semelhantes   de estoque, porém mostrou-se “lento demais em geri-lo”. Netessine conclui que “as empresas cuja gestão da cadeia de suprimentos é mais sofisticada sabem como é importante reagir quando o assunto é gestão de estoques”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Gestão de estoque: em busca de um desempenho melhor." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [08 March, 2006]. Web. [20 October, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/gestao-de-estoque-em-busca-de-um-desempenho-melhor/>

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Gestão de estoque: em busca de um desempenho melhor. Universia Knowledge@Wharton (2006, March 08). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/gestao-de-estoque-em-busca-de-um-desempenho-melhor/

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"Gestão de estoque: em busca de um desempenho melhor" Universia Knowledge@Wharton, [March 08, 2006].
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