Gilles Assouline, da Wuxi Iparks: “A diferença entre a China e o resto do mundo é a demanda.”

De acordo com Gilles Assouline, presidente da Wuxi Iparks Creative Design & Development, a demanda sem paralelo da China, suas reservas em dinheiro e a disposição de investir pesadamente em novas infraestruturas fazem do país uma opção atraente para os investidores estrangeiros em bens imóveis. Em entrevista concedida a Knowledge@Wharton, Assouline explicou por que a China está pronta para as incorporadoras, e de que modo a associação com uma economia cujo crescimento se dá a uma velocidade espantosa pode ser fundamental para a sobrevivência na atual crise econômica. 

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Nosso convidado de hoje é Gilles Assouline, presidente da Wuxi Iparks Creative Design & Development, especializada na incorporação internacional de bens imóveis e de projetos no segmento de lazer na China. Muito obrigado por aceitar nosso convite.

Gilles Assouline: Obrigado.

Knowledge@Wharton: O assunto que mais preocupa as pessoas atualmente é a crise financeira mundial e o impacto dela sobre os diversos mercados emergentes. Como o sr. é muito atuante na China, achei que poderia falar um pouco sobre a crise e seu impacto sobre o mercado imobiliário europeu.

Assouline: De modo geral, acho que a crise pode ser desdobrada em três. Há, conforme você sabe, uma crise de crédito, que encolheu. Essa é uma crise de alavancagem — de alavancagem sobre alavancagem. A segunda crise está associada aos mercados de derivativos. A primeira talvez esteja em torno de US$ 4 a US$ 5 trilhões; a segunda possivelmente esteja na faixa dos US$ 22 trilhões. Há, por fim, uma terceira crise, do tipo invisível, na qual estão representadas todas as demais transações acumuladas e não quantificadas. O volume dessas transações gira em torno de 500 vezes o volume da segunda crise. Aí está o que poderíamos considerar um buraco negro. Como analogia, e generalizando um pouco, poderíamos dizer que os mercados de derivativos são como um disco que gira em torno do buraco negro. O importante, nesse caso, é não cair nele. É preciso seguir em frente sem parar.

Atualmente, como você sabe, a maior parte dos investidores, entre eles os investidores em bens imóveis, estão em compasso de espera. Eles preferem continuar líquidos. Este não é um bom momento para vender, também não é um bom momento para comprar, e por isso nada acontece. No entanto, se ninguém faz coisa alguma, poderá faltar às pessoas a determinação necessária para não cair no buraco negro. Portanto, com relação aos países emergentes, acho que o caso da China é singular, porque se trata de um país afetado, como muitos outros, pela crise, mas de uma forma distinta. Isto porque a mentalidade chinesa é diferente. Existe alavancagem na economia, mas não de forma tão sofisticada quanto nos EUA ou no resto do mundo. Na China, você gasta o que você tem. Toma-se dinheiro emprestado porque o tomador terá condições de pagar o empréstimo contratado. Se você investe em bens imóveis, por exemplo, ou na área de incorporação, sabe que venderá antecipadamente. A partir do momento que você garantiu a pré-venda, pode ir ao banco tomar um dinheiro emprestado que certamente será devolvido. É claro que não devemos generalizar, mas a idéia é basicamente essa.

Em segundo lugar, a China tem reservas superiores a US$ 2,5 trilhões, quase US$ 3 trilhões. Isso é um pouco menos do que o montante da crise de crédito, que chamamos de primeira crise. No entanto, é o bastante para que a China pense de um modo diferente, fora do esquema tradicional — investindo, por exemplo, em infraestrutura […] participando de investimentos juntamente com outros países e assumindo posições estratégicas internamente, mas também fora do território chinês no caso dos segmentos de energia e de tecnologia. Isto, portanto, deixa a China numa posição bastante singular. Os grandes investimentos em infraestrutura permitem aos investidores […] recorrer a infraestruturas eficientes em seus projetos de incorporação.

Knowledge@Wharton: O sr. poderia nos contar um pouco sobre suas atividades na China?

Assouline: Trabalhamos com incorporação e construção. A atividade de incorporação consiste em dois grandes projetos na cidade de Wuxi, que é uma das que mais crescem na China. Estamos construindo em etapas, numa extensão total de 3.000 acres, um parque industrial denominado Cidade da Animação Digital. Esperamos que ele venha a se tornar o polo nacional da indústria da animação digital, atraindo para seus limites as sedes das empresas do setor. Aí vamos encontrar um parque temático e um parque temático de alta tecnologia. Em torno do empreendimento haverá áreas destinadas ao varejo, ao comércio de modo geral e espaço para a construção de residências. Esse é o primeiro projeto. O segundo projeto consiste na construção de uma torre de 75 andares com vista para a cidade de Wuxi. Será uma torre híbrida — isto é, com área para o varejo, um shopping de luxo, hotéis, escritórios e apartamentos.

Knowledge@Wharton: O sr. também tem escritórios em Paris. Aliás, o sr. é de Paris. Para uma incorporadora, qual a diferença entre desenvolver projetos na China e em outras partes do mundo?

Assouline: Bem, chegamos à China através de um consórcio de empresas, sobretudo francesas, que decidiram juntar seu know-how. É necessário também muita paciência, porque o contexto exige. Na China, é preciso passar por diferentes níveis. O primeiro passo consiste na redação de cartas de intenção visando à criação de uma joint venture, ou acordos de parceria, e só depois disso é que se tem permissão para criar a joint venture. Preenche-se depois uma papelada que, se aprovada, lhe dará o direito do uso da terra onde será erguido seu empreendimento. Nesse processo todo você tem de confiar numa incorporadora estatal ou em um incorporador famoso, com vasta experiência. Portanto, a existência de um sócio local é imprescindível na China.

Knowledge@Wharton: Quais foram alguns dos principais desafios que o sr. teve de enfrentar para a realização desses dois projetos?

Assouline: Não creio que os desafios venham de fato da China. Os chineses nos têm dado muito apoio em infraestrutura, conforme já disse. No caso do nosso projeto, por exemplo, a cidade de Wuxi construiu um aeroporto internacional a 14 km de distância das nossas obras. Construíram também um trem de alta velocidade, uma estação ferroviária, além de estradas ligando a cidade ao nosso projeto. Na verdade, eles gastaram mais dinheiro do que o custo total do projeto. Isso é impressionante. Em torno de 175 milhões de pessoas vivem a duas horas de distância das obras, e contam com a infraestrutura necessária para chegar ao nosso projeto.

Portanto, a China tem tudo para fazer do projeto um sucesso. O desafio maior procede da comunidade financeira internacional. Ainda há muita reserva em relação aos chineses. Para entender a China, é preciso primeiramente passar algum tempo no país. Em segundo lugar, é preciso entender a mentalidade local. Encontramos ali pessoas extremamente inteligentes, que trabalham duro, gente disposta a compartilhar com você os lucros do seu crescimento econômico, que é fabuloso. Embora falemos hoje de um crescimento de cerca de 8%, são 8% do PIB todos os anos, o que é fantástico.

Knowledge@Wharton: Quais as perspectivas para suas operações nos próximos 18 a 24 meses? Onde o sr. gostaria de chegar?

Assouline: Bem, acho que gostaria de continuar a explorar as oportunidades proporcionadas pelas joint ventures na China. Hoje, porém, pensamos em desenvolver em parceria com a China novos instrumentos financeiros em que as companhias chinesas e — por que não — os fundos soberanos chineses investiriam em igualdade de condições com outros fundos soberanos do Oriente Médio, Noruega, EUA, França e de outros países da Europa, de modo que todos compartilhassem do crescimento econômico que a China vem proporcionando ao mundo. Para tanto, haveria investimentos em infraestrutura, mas não só: assistiríamos os chineses em seu desejo de adquirir ativos estratégicos fora do país — operados por empresas chinesas em parceria com companhias estrangeiras —, garantindo o abastecimento de energia, recursos naturais e outros para a China. Contudo, tais investimentos ajudariam também as populações com menos pontos demográficos fortes, como a população do Oriente Médio, por exemplo, a investir seu dinheiro de maneira adequada.

A diferença entre a China e o resto do mundo, com exceção possivelmente da Índia, é a demanda. Demanda, como você sabe, é o forte da China. Estamos falando de mais 1,4 bilhão de pessoas, o que representa uma demanda enorme a ser satisfeita. Por isso mesmo, não há por que ter receio da China, pelo contrário: só há motivo de satisfação, porque os chineses vão empurrar adiante o resto do mundo. Isto, é claro, se o mundo souber trabalhar em conjunto, em vez de procurar trabalhar sozinho, em posições antagônicas, ou mesmo tentando tirar vantagem da crise, uma vez que uma ou outra empresa ou ativo se acha extremamente subavaliado em seu valor de mercado. Deve-se, isto sim, tirar vantagem da crise com base no seguinte raciocínio: “Por que não pensar de uma maneira nova? Por que não pensar diferente? Por que não trabalhamos todos juntos?” Temos atualmente instrumentos de regulação muito bons. Somos capazes de administrar muito bem fundos de investimentos estruturados. Podemos combinar recursos financeiros tomando como ponto de partida o local onde o dinheiro se encontra — isto é, China, Oriente Médio, mas também amigos de amigos, ou alguns amigos, que têm liquidez mas estão à espera do momento de investir. Podemos seguir a China, conforme eu disse, adquirindo ativos estratégicos fora dali, trabalhando de mãos dadas com outras empresas. Creio que a China está preparada para isso.

Podemos pensar globalmente, em vez de imaginar que a crise é um fenômeno sincrônico que obriga a todos a proteger suas posições. Creio que se nos convencermos de que essa não é a maneira certa de agir, e que a maneira certa de agir é trabalhar em conjunto e investir em conjunto, compartilhando a liderança, o controle e o know-how, a crise chegará ao fim.

Knowledge@Wharton: Gilles, muito obrigado por sua presença aqui hoje.

Assouline: Obrigado.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Gilles Assouline, da Wuxi Iparks: “A diferença entre a China e o resto do mundo é a demanda.”." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [01 March, 2010]. Web. [19 September, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/gilles-assouline-da-wuxi-iparks-a-diferenca-entre-a-china-e-o-resto-do-mundo-e-a-demanda/>

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Gilles Assouline, da Wuxi Iparks: “A diferença entre a China e o resto do mundo é a demanda.”. Universia Knowledge@Wharton (2010, March 01). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/gilles-assouline-da-wuxi-iparks-a-diferenca-entre-a-china-e-o-resto-do-mundo-e-a-demanda/

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"Gilles Assouline, da Wuxi Iparks: “A diferença entre a China e o resto do mundo é a demanda.”" Universia Knowledge@Wharton, [March 01, 2010].
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