A grande transformação: da mineração de carvão a um modelo de sustentabilidade 

Os governos e o público em geral estão cada vez mais sensíveis aos efeitos negativos da mudança climática. Diante disso, o setor privado vem respondendo com novas tecnologias e práticas empresariais. A Royal DSM, com sede na Holanda, antiga empresa do setor de carvão que atualmente opera no segmento de ciências da vida e de materiais, fixou um preço interno para o carbono em seus projetos principais e associa o pagamento de seus executivos a metas de sustentabilidade.

Hugh Welsh, presidente norte-americano da DSM, diz que a mudança climática deverá ser tema nas atuais campanhas à presidência. Contudo, ele espera que a pressão pública force as mudanças necessárias ao combate da mudança climática, especialmente por parte da geração dos millennials que, para ele, se preocupam com essas questões de forma mais intuitiva do que a geração de baby-boomers que a precedeu. 

Fixar um preço para o carbono é uma necessidade para garantir que aqueles que contribuem para a produção dos gases de efeito estufa, que resulta na mudança climática, paguem pelas consequências, em vez de repassar os custos para as gerações futuras, diz Welsh. Ele discorreu sobre esse e outros temas durante o programa da Knowledge@Wharton na Wharton Business Radio, canal 111 da SiriusXM. 

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Vamos conversar um pouco sobre o que a DSM está fazendo para tentar mudar a trajetória da empresa em relação à mudança climática. É cada vez maior o número de empresas que entende a necessidade de mudanças agora que repercutam no futuro.

Hugh Welsh: A DSM, ou Dutch State Mines, começou como uma empresa de mineração de carvão em 1904, na Holanda. Hoje, atuamos em todos os setores, com exceção da mineração de carvão, tendo transformado nosso portfólio no decorrer dos anos. Continuamos em busca de maneiras novas e inéditas de lidar com a questão da mudança climática, de tal modo que possamos evitar as consequências futuras dessa mudança e proteger ao mesmo tempo nossa empresa.

Knowledge@Wharton: O termo que você acabou de usar nos remete à reflexão futura. As empresas pensam no futuro o tempo todo, mas não pensam necessariamente no futuro do meio ambiente. Isso nos leva a imaginar que trajetória uma empresa deve seguir em direção ao futuro.

Welsh: Sim, e isso é uma coisa que repercute em todas as nossas operações e estratégias ─ inclusive no trabalho que realizamos no segmento de relações com os investidores. Somos uma empresa de capital aberto de grande porte e, quando nos sentamos com os investidores, a história que queremos contar não se limita apenas aos resultados financeiros do trimestre seguinte, mas à transformação da empresa e à execução da nossa estratégia no decorrer dos próximos cinco, dez ou 20 anos, de tal maneira que pareçamos um investimento muito mais palatável para os acionistas de longo prazo que estamos tentando atrair.

Knowledge@Wharton: Conforme você disse, a DSM esteve envolvida durante muitos anos em um negócio que hoje enfrenta enormes dificuldades. Que oposição você enfrenta das empresas de carvão atualmente? Elas parecem que continuam a bloquear o caminho […] da oportunidade que têm de lidar com a mudança climática.

Welsh: Tudo que posso oferecer a elas e a outras empresas que trabalham com o combustível fóssil é que tomem a DSM como exemplo.

Éramos uma empresa de mineração de carvão. Nós o extraíamos do solo, levávamos o carvão para a casa das pessoas, para que pudessem queimá-lo e ser por ele aquecidas. Com o passar dos anos, evoluímos. Deixamos um negócio antigo e ingressamos em negócios novos, que são para nós negócios muito mais sustentáveis. Procuramos encorajar as empresas de carvão hoje em dia que lutam com grandes dificuldades em seu ramo de negócio que façam uma transformação semelhante.

Knowledge@Wharton: Aqui, nos EUA, a ExxonMobil tem feito declarações sobre o futuro da energia e o preço do carvão, participando assim de uma conversa que precisa acontecer.

Welsh: Sim, é estimulante ouvir essa retórica. Contudo, gostaríamos de ver também, quem sabe, um movimento de distanciamento em relação a essa retórica pura e simples em direção a uma atuação prática que envolva soluções e, sob alguns aspectos, remuneração.

É estimulante ver empresas como a Royal Dutch Shell e outras grandes companhias de combustível fóssil começarem a atrelar alguns desses incentivos não apenas aos resultados financeiros obtidos por seus executivos, mas também aos resultados associados à sustentabilidade. Esse é o verdadeiro indicador de um propósito genuíno de deflagrar um processo de transformação.

Knowledge@Wharton: A DSM faz isso, isto é, a empresa vincula a remuneração aos objetivos de sustentabilidade e opera desse modo, certo?

Welsh: Correto. Começamos primeiramente a vincular os bônus dos executivos  ─ 50% dos bônus anuais e 50% das opções de ações ─ a metas de sustentabilidade em 2010. Tomamos essa decisão porque tínhamos de ir além da retórica apenas e, ao vincular a realização dessas metas à questão monetária, sabíamos que teríamos uma mudança comportamental imediata, o que levaria a um efeito cascata dentro da empresa.

Vimos essa mudança ao longo dos últimos cinco anos. Temos sido bem-sucedidos na realização de nossas metas de sustentabilidade e na elaboração de nossas ideias e formas inovadoras de fazer negócios que ofereçam soluções, não apenas, é claro, para a DSM, mas também para a nossa clientela.

Knowledge@Wharton: Boa parte do ímpeto veio do público em geral nos últimos dez a 15 anos. Foi uma experiência notável ver essa iniciativa gerida por tanta gente em anos passados chegar agora a um consenso ─ vê-se uma sincronia entre o público e empresas como a sua.

Welsh: É extremamente encorajador. Temos muito ainda por fazer, mas se olharmos para cinco anos atrás, veremos que caminhamos muito, culminando, sob alguns aspectos, no acordo climático do ano assado em Paris, sob os auspícios das Nações Unidas. Não devemos, porém , descansar sobre o que já conquistamos. Há muita coisa ainda a fazer, e muito mais ainda no setor privado.

Knowledge@Wharton: O que você gostaria que acontecesse nas próximas décadas para melhorar a contribuição da sua empresa, e de outras, no que diz respeito à sustentabilidade?

Welsh: Há uma coisa de que precisamos, algo bastante provocador aqui nos EUA, que é a fixação do preço do carbono. O uso de combustíveis fósseis e de materiais com base de carbono na manufatura de produtos tem impactado a mudança climática. Em vez de passar essa responsabilidade para nossos filhos e netos, é extremamente importante que essa geração aceite essa responsabilidade e assuma os custos dela decorrentes. Isso será possível se fixarmos um preço para o carbono.

Veremos que os gases e emissões que induzem a mudança climática serão abandonados mais rapidamente se pusermos um preço no carbono. Isso nos permitirá adotar de forma mais abrangente a energia renovável tornando mais competitivas fontes de energia renovável como a energia solar, eólica e os biocombustíveis.

Knowledge@Wharton: Você acha isso possível nos próximos anos?

Welsh: Sem dúvida. Já observamos iniciativas nesse sentido na Califórnia e no Quebec com o sistema de comércio de carbono. Já ouvimos os chineses dizerem que vão fixar o preço do carbono. Meu chefe, o diretor-executivo da DSM, tem trabalhado diligentemente na Coalização de Liderança do Preço do Carbono, em associação com o Banco Mundial, na tentativa de estabelecer algumas políticas mundiais para a fixação do preço do carbono. Portanto, isso é algo que veremos num futuro não muito distante.

É uma indicação de que muitas empresas, como a DSM, estão impondo a si mesmas hoje um preço interno para o carbono no momento em que avaliam projetos de despesas de capital com investimentos em grande escala.

Knowledge@Wharton: O que isso significa para sua empresa?

Welsh: 50 euros a tonelada.

Knowledge@Wharton: O que isso significa para o custo anual da DSM em um ano?

Welsh: Isso nos obriga a examinarmos projetos de capital de grande escala nos quais empregaremos um montante significativo de capital, como na construção de uma nova planta para trabalharmos em um novo incentivo. Isso exige que se estabeleça um preço, de modo que não sejamos pegos de surpresa daqui a cinco, dez ou 15 anos durante a vida natural de uma planta que não possa competir em um mundo em que o preço do carbono tenha sido fixado.

Knowledge@Wharton: Esse é um tópico que provavelmente deveria ser mais explorado na corrida presidencial […] Por mais feliz que você esteja ao ver que os setores público e privado estão tentando lidar com essa situação, não é um pouco decepcionante que o assunto não seja tratado em bases mais consistentes na corrida eleitoral à presidência em Washington D.C.?

Welsh: É mais do que um pouco decepcionante. O reconhecimento da mudança climática como questão séria é bem aceita tanto pelo público em geral quanto pela classe política. Contudo, quando você olha para algumas plataformas dos principais partidos políticos, vê-se que eles não tratam de questões como a fixação o preço do carbono ou de outras coisas que possam atenuar a mudança climática. Gostaria de ver resultados mais tangíveis.

Pode ser um pouco frustrante ir a Washington D.C. de vez em quando, ir ao Congresso, e esbarrar ali com pessoas de empresas que têm a retórica da atenuação da mudança climática e fazem lobby contra toda conta que aparece e que tem a ver com a diminuição da mudança climática.

Knowledge@Wharton: Fala-se muito da fixação do preço do carbono em níveis suficientemente elevados? De acordo com alguns artigos, talvez a estrutura de preço não seja alta o suficiente.

Welsh: Concordo que, em última análise, a estrutura de preço adotada precisa ser alta o bastante para dar conta de todos os custos associados ao uso de combustíveis fósseis. Você terá então um incentivo genuíno para migrar mais rapidamente ─ tanto os governos quanto o setor privado ─ para fontes de energia renováveis.

Eles não querem discutir isso nas campanhas políticas, porém os governos terão de achar uma fonte de financiamento para mitigar os impactos da mudança climática. Se você pensar nos impactos da infraestrutura, nos impactos de portos e pontes, a conclusão é que o financiamento para isso tem de vir de algum lugar. Não podemos continuar a impor essa responsabilidade a nossos filhos e netos.

Knowledge@Wharton: Fora o preço do carbono, que outras áreas você e a DSM consideram importantes e que precisam de atenção?

Welsh: Estamos trabalhando para descobrir produtos novos e inovadores que atenuem a mudança climática. Eu poderia lhe dar um exemplo. Temos um produto chamado Clean Now. É um aditivo alimentício com que podemos alimentar vacas leiteiras para reduzir as emissões de metano. Uma das maiores fontes de emissão de gases de efeito estufa nos EUA ocorre na etapa inicial de qualquer processo, mas há também emissões na ponta final, como é o caso das vacas leiteiras. Estas talvez sejam responsáveis pela segunda maior fonte de emissões de gases de efeito estufa. Podemos reduzir essas emissões em até 60% em alguns casos introduzindo um aditivo alimentar purificador na ração bovina.

Knowledge@Wharton: O que falta para que se consiga implementar algo desse tipo e usá-lo como produto que esteja em conformidade com [a alimentação dada às] vacas, seja nos EUA ou em qualquer outro lugar?

Welsh: É claro que precisamos de suporte regulatório para que possamos encaminhar o produto pelos processos de aprovação, talvez um pouco mais rapidamente do que o normal. Temos de tentar gerar também um caso de negócio real para os fazendeiros que utilizarão o produto. Não esperamos que eles arquem sozinhos com os custos de um produto que funcionará como um elemento atenuador da mudança climática. Eles precisam encontrar uma forma de repassar esse custo para o consumidor, receber incentivos de um modo diferente ou associá-lo a outros produtos que possam melhorar a eficiência do animal […] de tal forma que ele produza mais carne e mais leite.

Knowledge@Wharton: O número que você citou de volume de gases de efeito estufa emitido pelas vacas é algo que vai pegar as pessoas de surpresa. Acho que isso deveria ter uma divulgação cada vez maior.

Welsh: Concordo. Imagino que seja uma coisa que repercuta junto aos filhos dos nossos empregados quando vão para casa e conversam sobre o que os pais fazem diariamente.

Intuitivo para os millennials

Knowledge@Wharton: Há também uma certa mudança cultural, já que essa é uma ideia que encontra eco muito mais junto aos millennials do que junto aos baby boomers de 20 ou 30 anos atrás. Agora talvez ela esteja começando a ecoar um pouco mais também junto a pessoas de várias gerações, mas com os millenials pensando a respeito do assunto e problematizando a questão, sua importância é maior.

Welsh: É verdade. Podemos mudar a estrutura de incentivos para os executivos da nossa empresa da geração mais antiga para tentar fazer com que deem atenção a essas questões em pontos em que talvez não sejam intuitivos para eles. É intuitivo para os millennials. Haverá mais empresas trabalhando nesse espaço, nessas questões, no mínimo para atrair gente mais talentosa para o negócio. Essa é a fonte verdadeira da vantagem competitiva sustentável a longo prazo.

Knowledge@Wharton: De quanto deverá ser o aumento de produtividade dos animais que usarem o aditivo alimentício?

Welsh: Trabalhamos diariamente no espaço de saúde animal para aumentar a produtividade dos animais, sejam porcos ou frangos. Vamos precisar disso. A população do planeta saltará de sete bilhões para nove bilhões e fica a cada ano mais rica. As pessoas mais ricas querem proteínas de carne. Teremos de descobrir um modo de produzir o que elas desejam, não apenas num volume maior, mas de uma maneira mais sustentável.

Knowledge@Wharton: Que outras iniciativas verdes a DSM está considerando?

Welsh: Várias outras, por exemplo, revestimentos para piso baseados em produtos não solventes, ou ainda, usar parte da nossa tecnologia de fibra de resistência elevada à tensão para produzir mais redes sustentáveis para o negócio de aquicultura, ou ainda, plásticos resistentes à tensão e ao calor extremo que podem ser usados em um automóvel para reduzir seu peso e aumentar a eficiência do combustível.

Knowledge@Wharton: Por que uma empresa do setor de carvão continua, hoje em dia, a se empenhar na tentativa de levar avante a necessidade de extrair grandes quantidades de carvão do solo?

Welsh: Só posso acreditar que seja por falta de imaginação. Não é um negócio sustentável. Não consigo imaginar que alguém nesse negócio acredite que seja um negócio sustentável, seja da perspectiva do clima, seja da perspectiva dos negócios. Seria de esperar que eles começassem a se mexer o mais rápido possível para se distanciar disso e passassem a empregar seus ativos de outra maneira.

Insisto: nosso negócio era o carvão, agora somos uma empresa alimentícia. Antes trabalhávamos com carvão, agora somos uma empresa de energia limpa. Antes, o carvão, agora nosso negócio é o plástico sustentável. Essa transformação é possível.

Knowledge@Wharton: Você tem a esperança, e a expectativa, de que não importa quem seja eleito presidente em novembro, essa pessoa terá em primeiro lugar em sua agenda as questões referentes à sustentabilidade, à fixação do preço do carbono e às iniciativas verdes?

Welsh: Tenho uma grande esperança que seja assim. Gostaríamos muito de ter mais apoio do executivo hoje com referência a coisas como o padrão de combustível renovável aqui nos EUA e algumas outras iniciativas estratégicas.

Contudo, esperamos que boa parte da retórica, emoção e energia que estão sendo criadas em torno da sustentabilidade e, particularmente, em torno da energia renovável, sejam encampadas pelo próximo governo, seja republicano ou democrata, e que sejamos mais determinados na criação não apenas de uma solução para esses grandes problemas, mas que se produzam também vantagens competitivas genuínas para os EUA.

Knowledge@Wharton: Se os EUA e a China não tivessem feito as declarações que fizeram no Acordo de Paris, esse esforço teria avançado tanto quanto avançou até o momento?

Welsh: Não, seria impossível. Sem que os dois maiores emissores de gases se comprometam a fazer mudanças concretas, o restasse depois disso seria ótimo, mas não haveria como pôr em ação.

Knowledge@Wharton: Com que rapidez você acha que é possível haver uma mudança na China para que haja uma redução significativa das emissões dos gases de efeito estufa?

Welsh: Sinto-me bastante animado com o que eles já estão tentando fazer. Conversamos com o governo chinês sobre a possibilidade de introduzir o etanol de celulose como possível combustível para o transporte com 90% a menos de emissões de gases de efeito estufa do que a gasolina. Eles continuarão a construir usinas elétricas movidas a carvão, mas em menor quantidade. As mudanças na China virão rapidamente, e não apenas como consequência de coisas como o Acordo de Paris, mas de sua população, que vive em cidades como Pequim, e que não mais tolerará não ser capaz de respirar.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A grande transformação: da mineração de carvão a um modelo de sustentabilidade ." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [18 October, 2016]. Web. [29 May, 2020] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/grande-transformacao-da-mineracao-de-carvao-um-modelo-de-sustentabilidade/>

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A grande transformação: da mineração de carvão a um modelo de sustentabilidade . Universia Knowledge@Wharton (2016, October 18). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/grande-transformacao-da-mineracao-de-carvao-um-modelo-de-sustentabilidade/

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"A grande transformação: da mineração de carvão a um modelo de sustentabilidade " Universia Knowledge@Wharton, [October 18, 2016].
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