Luzes e sombras no primeiro ano de Mauricio Macri à frente da Argentina 

Há um ano, no dia dez de dezembro, chegava à presidência da Argentina Mauricio Macri, candidato de centro-direita, depois de uma vitória em segundo turno com o apoio de 51% do eleitorado. Os argentinos punham assim um ponto final a mais de uma década de governos populistas dominados pelos Kirchner ─ Cristina Kirchner e seu falecido marido, Néstor Kirchner ─ e se viam desse modo esperançosos diante de uma nova etapa de mudanças políticas e econômicas lideradas por esse ex-empresário e milionário sem vinculação com os partidos políticos tradicionais.

Os primeiros passos de Macri na presidência foram rápidos e com o claro objetivo de restabelecer a confiança internacional no país e em suas instituições. Em primeiro lugar, o novo presidente se apressou em chegar a um acordo para saldar uma dívida de US$ 9,3 bilhões que o país havia deixado de pagar a fundos americanos, pondo fim dessa forma a um conflito legal de mais de dez anos e que dificultava o acesso do país ao crédito externo. Ao mesmo tempo, acabou com o controle cambial, desvalorizou a moeda, fez demissões em massa no funcionalismo e reduziu os impostos sobre as exportações que penalizavam os setores mais competitivos da economia.

Os argentinos acolheram de bom grado todas essas medidas e apoiaram majoritariamente sua gestão chegando a lhe conferir, a certa altura, uma aprovação superior a 60%. Contudo, uma inflação de 40% e crescimento econômico nulo ─ e que este ano terá uma queda de 2% ─ acabaram por afetar sua popularidade, mas nem tanto como seria de esperar em vista de dados tão ruins. Algumas sondagens, como a que foi feita pelo Grupo de Opinião Pública, lhe davam uma avaliação positiva de 51%; outras, porém, como a que acaba de ser publicada pelo jornal El Clarín, e que foi realizada pela consultoria Management & Fit, já indicam que o desgaste vem se acelerando. De acordo com esse levantamento, 43,6% dos entrevistados aprovam o presidente, porém 43,1% considera sua gestão negativa ou muito negativa, ao passo que somente 29% a considera positiva.

Para entender a situação atual do país e a mudança de tendência na valorização do seu presidente, é preciso primeiramente entender qual foi a herança recebida por ele. Macri recebeu um país cujo crescimento estava paralisado havia quatro anos, os cofres públicos estavam vazios em decorrência das políticas populistas de sua antecessora, a inflação era alta e pairava sobre a era Kirchner uma sombra extensa de corrupção que se materializou em numerosas denúncias que, em sua maioria, ainda não foram totalmente esclarecidas devido à lentidão da justiça local.

Poucos beneficiados

Julio C. Gambina, professor de economia política da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Rosário, diz que o principal motivo do descontentamento popular se deve ao fato de que as primeiras medidas implementadas até o momento só beneficiaram a uns poucos. Ele explica que essas medidas acarretaram a transferência de US$ 40 bilhões para o núcleo de poder mais concentrado da Argentina. “A desvalorização da moeda favoreceu os grandes produtores e exportadores que, atualmente, continuam a exigir novas e sucessivas desvalorizações com o argumento de que a taxa cambial continua desvalorizada e que a desvalorização já teria sido absorvida pelo aumento dos preços”, disse Gambina.

Por outro lado, a redução dos impostos sobre as exportações agrícolas, minerais e industriais resultaram, conforme explica Gambina, “na melhora da receita individual desses setores econômicos e na diminuição da arrecadação fiscal e consequente crescimento do déficit nacional que motivou um novo ciclo de endividamento público que compromete as finanças públicas a curto e a médio prazos”. Some-se a isso o pagamento dos credores da dívida em default aos chamados fundos abutres, o que também resultou em elevado endividamento público.

Por fim, Gambina diz que essas três medidas de política econômica têm como “principais beneficiários os grandes produtores e exportadores, os credores externos em conflito com o governo e, de modo geral, os que ganham com a especulação. A maior parte da sociedade não foi beneficiada pela política econômica do governo Macri”.

Uma bomba econômica, financeira e social

Gambina não tem dúvida de que o ponto mais frágil da gestão de Macri é a economia. Foram afetados todos os indicadores sociais cujos efeitos se observam sobre a maior parte da população. “Cresceram o desemprego, o subemprego, a precariedade do trabalho e dos salários […] A renda popular diminuiu como consequência da inflação e da recessão econômica. Foram cortados milhares de postos de trabalho no setor estatal privado.” Os aumentos das tarifas dos serviços públicos de luz, água é gás também se fizeram sentir no bolso das castigadas classes média e baixa durante este primeiro ano.

Nesse ínterim, Macri mostrou um estilo de liderança que Gambina classifica de “tentativa e erro no que diz respeito ao ajuste econômico, suscitando tudo o que o conflito social permite, com críticas por parte da direita, por não ser mais drástico na aplicação do ajuste econômico, e também pela esquerda pelos ajustes que fez”. Martín Simonetta, professor titular de economia política I da Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES) e diretor executivo da Fundação Atlas para uma Sociedade Livre, acrescenta que o estilo de Macri contrasta muito com o de Cristina Kirchner, já que ele está mais “preocupado em ‘fazer’ do que em ‘dizer’, o que é muito bom por um lado, mas em vista das expectativas dos setores sociais mais baixos, isso também pode ser uma fragilidade”. De qualquer maneira, Simonetta diz que dada a ausência de uma maioria parlamentar, “a implementação de medidas pelo presidente não foi tão rápida como as expectativas geradas”.

Simonetta diz que coube a Macri governar o país em um momento complexo do ciclo econômico argentino. E para ilustrar a idiossincrasia do país, diz: “Se alguém pergunta a um argentino qualquer com que frequência há uma crise econômica no país, é possível que o taxista, o verdureiro, o sapateiro e o encanador digam que a cada dez anos. Isso tem a ver com a lógica perversa da economia do nosso país, que tensiona as cordas públicas até arrebentá-las.” Para Simonetta, o que Macri enfrenta atualmente é a desativação da bomba econômico-financeira e social deixada pelo governo anterior, uma tarefa que ele define como “ingrata, complexa e que requer que se tomem medidas impopulares de tal modo que o menor número possível de pessoas sejam prejudicadas”. Ele lembra que para o cidadão comum, a desvalorização não foi “uma medida simpática. De modo geral, o dólar passou de 10 pesos para 15 pesos, que era o preço com que se negociava a moeda americana no mercado informal”.

Simonetta, porém, introduz uma nota positiva nesse cenário sombrio ao dizer que a sociedade percebeu melhoras evidentes em diferentes áreas. “Há uma maior transparência estatística porque agora já se começa a falar a verdade nesse âmbito”, diz ele em referência ao INDEC (Instituto Nacional de Estatística), cujas informações eram falseadas durante o kirchnerismo. Com relação a esse avanço, o professor chama a atenção para a importância de se “ter um diagnóstico claro para que se possa elaborar um plano de ação.” Simonetta diz que a sociedade também valoriza de forma positiva a melhoria da qualidade institucional. As práticas de corrupção reveladas “puseram em evidência a escassa transparência na conduta dos Kirchner ao longo de 12 anos de governo”. Os escândalos conseguiram eclipsar a polêmica devido ao aparecimento do nome de Macri na lista dos papéis do Panamá. “A pergunta que ainda não foi respondida é se a sociedade argentina condena s práticas corruptas ou se prefere os que roubam, mas fazem”, observa Simonetta. Para ele, é evidente que “os ritmos da economia e da política neste primeiro ano são marcadamente distintos”.

Um futuro promissor

Se até o momento não se observaram melhoras na reativação da economia e na redução da pobreza, as perspectivas para 2017 são mais ilusórias. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê que o país termine o ano de 2016 com um crescimento negativo de 1,7%, mas prognostica uma forte recuperação do crescimento nos próximos anos, de 2,9% em 2017 e de 3,4% em 2018, conforme o relatório semestral de Perspectivas.

Os autores do relatório observam que a contração deste ano se explica principalmente pela desaceleração do consumo e pela perda do poder aquisitivo das famílias, ao que se deve somar a frágil demanda externa e os baixos preços dos produtos básicos agrícolas e, de modo especial, as consequências para as exportações da recessão no Brasil, país vizinho e parceiro comercial estratégico da Argentina. A nota positiva do ano é o fortalecimento da confiança empresarial. O relatório diz que a queda gradual da inflação, ajudada por taxas de juros mais altas (de 27%), juntamente com as reformas feitas, começará a ser sentida no ano que vem. É o que pensa também o governo, que estima um crescimento econômico de cerca de 3,5% e uma inflação de 17% em 2017.

Simonetta confirma essas previsões e diz que alguns dos setores mais favorecidos, em sintonia com o que foi dito anteriormente, “são o agropecuário, em razão da rentabilidade gerada pela desvalorização da moeda e redução de impostos aos exportadores, e o setor de construção”. Contudo, ele explica que o efeito positivo disso será sentido em todo o país, com exceção da cidade e da província de Buenos Aires. Outro setor favorecido será o imobiliário, cuja reativação se deve ao fato de que o governo permitiu a livre transação em moeda internacional e acabou com as várias taxas de câmbio que prejudicavam os contratos. Simonetta acrescenta que “os argentinos preferem investir em imóveis depois do coralito e do corralón bancário de 2001 e 2002, além da desconfiança que nutrem pelo sistema financeiro. Os imóveis talvez sejam menos rentáveis, mas são garantidos”.

Por fim, Simonetta, da UCES, diz que o setor que enfrenta maiores dificuldades para se recuperar a curto prazo é o setor industrial, “que com o dólar desvalorizado (a inflação subiu muito mais do que a taxa de câmbio) vê ameaçado sua competitividade”. Ele adverte ainda que “o setor não é tão competitivo quanto o campo, mas é fundamental para a geração de empregos”.

Gambina acrescenta que a aposta do governo em relação ao futuro está voltada para a entrada de investimentos externos, “já que o investimento público ou privado local pode ativar a economia”. Ele destaca que o principal setor de investimento poderá ser o de energia, “especialmente as energias que apontem para a diversificação da matriz energética local, muito concentrada em hidrocarbonetos. Nesse sentido, busca-se também reativar a exploração de hidrocarbonetos não convencionais, principalmente a jazida de Vaca Muerta”. Gambina acrescenta que a política externa “é de aproximação a uma orientação liberalizadora, o que favorecerá acordos de livre comércio de todo tipo para atrair investidores externos”.

Ambos os professores concordam em assinalar a importância das eleições parlamentares de meio de mandato no ano que vem. “O ano de 2017 é um ano de eleições. Na Argentina, dizemos ─ brincando e a sério ─ que os anos pares são para ‘lavar a roupa suja’, isto é, tomam-se medidas politicamente impopulares, porém necessárias, e nos anos ímpares a economia é posta a serviço da política com redistribuição de medidas, contanto que não sejam de piantavotos, termo ítalo-argentino que significa afugentar [os votos]”, explica Simonetta. Gambina acrescenta que o resultado das eleições é uma grande incógnita “que definirá a possibilidade de mais um mandato para Macri em 2019 ou o vislumbre de alguma variante diferente para a gestão do capitalismo local”.

Por último, Gambarina chama a atenção para outra incógnita oriunda do exterior: “O governo Trump e as modificações que ele trará nos vínculos com a região, especialmente no que diz respeito ao governo Macri e à entrada de capitais externos no país.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Luzes e sombras no primeiro ano de Mauricio Macri à frente da Argentina ." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [14 December, 2016]. Web. [18 October, 2019] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/luzes-e-sombras-no-primeiro-ano-de-mauricio-macri-frente-da-argentina/>

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