Mastretta MXT: a gênese do primeiro carro esportivo feito no México

Em um duvidoso exercício de humor inglês, os apresentadores do programa Top Gear, da BBC, que tem uma audiência milionária no mundo todo, usaram alguns adjetivos ofensivos no final de janeiro ao se referir ao Mastretta MXT, o primeiro carro esportivo produzido e projetado no México: "Os carros refletem as características dos países. Os mexicanos não passam de preguiçosos, irresponsáveis, dados à flatulência…", disseram.

Esse fato, além de deixar furiosos os cidadãos mexicanos, sobretudo porque os apresentadores nem sequer analisaram o carro, fez com que as visitas ao site da Mastretta Tecnoidea disparassem, dando enorme publicidade inesperada a uma empresa familiar com 25 anos de atuação na indústria do transporte. Atualmente, metade da produção de 2011 já está reservada.

O MXT, comparável a uma Lotus Elise, tem motor de 250 cavalos e chega a 100 km/h em menos de cinco segundos. Com um preço médio de US$ 56.000, entrará em circulação nas estradas antes do final do ano.

O Universia-Knowledge@Wharton conversou com Daniel Mastretta, diretor técnico e de projeto e um dos fundadores da empresa juntamente com seu irmão Carlos. Ele falou sobre os desafios que a empresa teve de enfrentar em um nicho de mercado como o de carros esportivos e as lições que aprendeu nesse percurso, inclusive com o incidente do Top Gear.

Universia-Knowledge@Wharton: Conte-nos, por favor, como foi que surgiu a empresa e como foi que ela evoluiu. Em outras palavras, por que vocês decidiram primeiro projetar e fabricar caminhões e depois carros esportivos?

Daniel Mastretta: A Tecnoidea foi fundada em 1987 com o objetivo de atender a demanda de projetos industriais com ênfase no transporte em nosso país. A empresa nasceu como a maioria dos negócios desse tipo: de uma paixão por carros. A família Mastretta é de origem italiana e está há muito tempo no México (somos a terceira geração). Isso nos levou a trabalhar em muitas áreas de produção e administração. Decidimos então nos juntar para inovar nesses setores. A Tecnoidea começou prestando serviços de assessoria de engenharia e de desenho industrial na área de transporte. O setor de manufatura nos procurava pedindo ajuda para baratear seus processos de fabricação. Elas nos passavam suas características e a Tecnoidea se encarregava do desenho, da engenharia e da metodologia de fabricação.

Além disso, a indústria era muito sensível às crises e, por causa disso, a pedido de algumas empresas ou pessoas, passamos a fabricar também réplicas de carros esportivos, o que levou a uma evolução natural ao nosso estágio atual.

UK@W: Como foi que surgiu a ideia de um carro esportivo mexicano? Foi uma evolução natural ou era o sonho dos fundadores da empresa?

Mastretta: Sempre fomos apaixonados pela ideia de fazer um carro. Depois de anos fazendo protótipos e réplicas, sentimos que tínhamos capacidade suficiente para começar o projeto do MXT. A paixão por automóveis esportivos e por corrida vem desde que éramos muito pequenos.

Com base em nossa experiência, decidimos desenhar um novo veículo 15 anos atrás. As opções eram poucas e o acesso à tecnologia era limitado. Fomos escolhendo peças de outros modelos com o objetivo de adaptar sobre elas uma nova carroceria e produzir um carro novo, o MXA, que posteriormente evoluiu para MXB. Foram esses os primeiros carros comercializados pela Tecnoidea. Com isso, decidimos fazer uma plataforma completamente nova e usar componentes mecânicos de outras marcas, como fazem todos, porque é muito caro desenvolvê-las. O resultado disso foi um novo veículo, o MXT, com tecnologia própria de um nicho de mercado muito específico e que nos dá a oportunidade de produzir poucas unidades e vendê-las a um preço competitivo.

As pessoas que se interessam por carros pensam logo em um modelo esportivo. O segmento de carros de luxo é um segmento pensado mais para pessoas que gostam de conforto, e não para quem gosta de dirigir.

UK@W: Qual é a situação da indústria automobilística mexicana atualmente? É saudável?

Mastretta: A grande indústria está bastante saudável e crescendo. O México é um país propício à produção de carros. Somos atualmente o oitavo produtor mundial e produzimos mais do que a Itália e a Inglaterra. A exportação de carros corresponde a 80% do total de produtos exportados. O mercado interno tem altos e baixos, mas também é importante.

Não há, de fato, indústria automobilística mexicana como tal; não há uma só marca até agora que se encarregue da produção, do desenvolvimento e da fabricação em nosso país. Somos excelentes fabricantes, temos a mão de obra mais qualificada para a produção de automóveis. Depois da crise, melhoraram substancialmente os investimentos das marcas e o mercado vai se recuperando aos poucos. Contudo, não há uma marca propriamente mexicana. Não se pode competir de pronto com as marcas grandes, mas é possível começar em nichos pequenos que nos permitam fazer do México um país que projeta carros, e não apenas fabrica.

UK@W: Na apresentação do carro em novembro do ano passado, vocês disseram que queriam fazer "um produto mexicano que nos enchesse de orgulho por sua origem, mas, principalmente, que satisfizesse e deixasse felizes nossos clientes". Como foi que vocês receberam as críticas do programa britânico Top Gear que zombou do fato de o carro ter sido fabricado no México? Vocês se sentiram ofendidos ou, pelo contrário, interpretaram como um golpe de sorte o que aconteceu?

Mastretta: Não nos sentimos ofendidos pelo programa. Pelo contrário, ele nos deu uma publicidade inesperada. Não creio que tenha sido um golpe de sorte. As coisas simplesmente aconteceram. 

Embora fosse uma situação praticamente impossível de prever, não mudamos de estratégia. O programa não falou muita coisa sobre o carro, embora fosse o centro dos comentários. Os apresentadores se preocuparam em falar mais do país colocando em dúvida sua capacidade de criar carros esportivos de qualidade sem analisar, na prática, o MXT. As pessoas que gostam desse tipo de carro não se baseiam tanto na opinião desse programa. Por outro lado, como se trata de um programa sobre carros de maior audiência no mundo, com cerca de 360 milhões de telespectadores no mundo todo, e mais as pessoas que o acompanham pela Internet, isso fez com que as pessoas acordassem para o fato de que há alguém fazendo carros no México, o que levou muitas outras pessoas a se interessarem pelo que estamos fazendo.

UK@W:Esse incidente afetou de algum modo sua estratégia de vendas? Como você pretende comercializar esse carro e por quê?

Mastretta:  O incidente não prejudicou e nem melhorou as vendas, simplesmente aumentou a presença da marca no mercado mundial. Nosso plano de produzir 100 carros por ano não mudou. Ele será comercializado diretamente no México em contato direto com os clientes, pela Internet e em feiras. No exterior, as vendas serão feitas em parceria com distribuidores especializados em carros de nicho.

Sob alguns aspectos, o MXT é muito inovador; sob outros, ele utiliza coisas que já existem há algum tempo, mas que já não são mais tão usadas: alumínio no chassis, fibra de carbono, plásticos compostos na carroceria, tecnologias que podem ajudar a reduzir muito o peso. Com a redução de peso vem uma vantagem importante que é a economia de combustível, o que torna o carro mais ecológico.

Com essa filosofia de maior eficiência, utilizando materiais mais leves, o MXT aposta num peso menor para ganho de desempenho e sensações dinâmicas muito maiores e com um motor menor. Usamos um motor de 4 cilindros, de dois litros apenas, bastante modificado, que nos dá a possibilidade de ter um desempenho muito bom, graças à redução de peso.

Não há carro algum no mercado igual ao MXT, o que lhe confere uma característica única e faz com que concorra de igual para igual com as marcas mais conhecidas. Uma de suas maiores vantagens é a relação valor/preço, isto é, seu desempenho é muito bom em relação ao seu custo. É difícil conseguir essa relação em outro carro. Pode-se ter um desempenho melhor em outro veículo, porém a um custo mais elevado.

O MXT é resultado de um desenvolvimento, de um projeto, da qualidade de produção e da mão de obra especializada mexicana que, além disso, é muito mais rentável comparada à mão de obra de outros países especializados na produção de carros esportivos.

O volume de produção é definido por nossa capacidade técnica instalada, sobretudo porque estamos começando. Deveremos chegar a uns 500 carros ao ano dentro de quatro ou cinco anos. Nossa capacidade atual não nos permite ir além de 200 carros e não podemos nem mesmo atingir esse número porque temos de aperfeiçoar nossos processos.

Já temos muito pedidos, embora ainda não tenhamos entregue nenhum carro. Metade da produção deste ano já está reservada.

UK@W: Você pensa no mercado internacional? Que países pretende atingir e por que você acha que eles oferecem as melhores oportunidades?

Mastretta: Já estamos trabalhando com distribuidores no Reino Unido e na França. Começaremos a vender no segundo semestre de 2011. Por enquanto, estamos vendendo apenas no México, mas o mercado internacional representa a fatia principal desse tipo de carro. Inglaterra, Alemanha, Itália, Dinamarca, China e Rússia são países com grande quantidade de consumidores desse tipo de carro. A Itália e até o Brasil são mercados em potencial a médio prazo. Temos agora um sócio na Inglaterra que nos ajudou com a homologação e que será nosso distribuidor oficial no Reino Unido. Temos também um acordo com um distribuidor na França e ambos deverão começar a vender o MXT no final do ano.

UK@W: Quais foram os desafios mais importantes que vocês enfrentaram como empreendedores? Como vocês os superaram? Que desafios terão de enfrentar a curto, médio e a longo prazo?

Mastretta: O desenvolvimento do MXT foi nosso maior desafio, principalmente produzi-lo com qualidade e consistência. A melhor maneira de superar um desafio desses consiste em ter um boa equipe de trabalho e um alto nível de exigência para que haja um elevado nível de qualidade, porque é com isso que contam os clientes. 

Foi um desafio saber que tínhamos diante de nós a capacidade de desenvolver por completo um carro no México e que podíamos conseguir o necessário para fazê-lo. Desafios temos todos os dias, no local de trabalho, na descoberta de pessoas dotadas do conhecimento técnico necessário. Foi difícil encontrar engenheiros especializados em algumas áreas. Encontrar a equipe certa de projeto foi um dos principais desafios.

Depois, tivemos de instalar a linha de produção, descobrir como torná-la mais eficiente, como reduzir o peso do carro, achar fabricantes para algumas peças. Foi preciso muita gente especializada.

Contudo, conseguimos superar cada um desses desafios e não houve nada que nos impedisse. Havia sempre uma solução e pudemos seguir em frente.

UK@W: Que lições vocês aprenderam com esses desafios e com as iniciativas empresariais em que não tiveram sucesso?

Mastretta: Procurar nunca tropeçar duas vezes na mesma pedra, embora isso nem sempre seja possível. Reconhecer os erros e estar atentos para reduzi-los ao mínimo, já que nem sempre é possível evitá-los. Procurar sempre ter novas ideias que sejam também rentáveis.

Muitas coisas acontecem. Às vezes, idealizamos certos processos, mas na hora de colocá-los em prática vemos que não eram tão bons assim, e por isso temos de voltar um pouco atrás. O processo de desenvolvimento da carroceria utilizou uma tecnologia muito precisa de modelagem. O resultado foi bom, mas no fim das contas faltaram alguns milímetros porque não usamos a tecnologia certa, o que nos obrigou a voltar atrás e fazer de novo do jeito certo.

Estamos aprendendo qual a melhor maneira de fazer as coisas para economizar tempo e custos. Continuamos a aprender com esse projeto, embora esteja quase pronto, mas nunca deixamos de avançar e de aprender sempre.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Mastretta MXT: a gênese do primeiro carro esportivo feito no México." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [18 May, 2011]. Web. [08 December, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/mastretta-mxt-a-genese-do-primeiro-carro-esportivo-feito-no-mexico/>

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"Mastretta MXT: a gênese do primeiro carro esportivo feito no México" Universia Knowledge@Wharton, [May 18, 2011].
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