Meio milhão de empregos cortados: afinal, há uma estratégia por trás das demissões?

Passados 31 dias de 2009, os cortes de postos de trabalho pelas empresas tornaram-se tema de grandes reportagens no mundo todo. Em uma semana apenas, 100.000 empregos foram eliminados. Foram 20.000 na NEC, 19.500 na Pfizer, 15.000 na Metro, 10.000 na Boeing e 8.000 na Sprint Nextel. Além desses, outros milhares de postos foram eliminados pela Starbucks, Ericsson, Kodak, Philips, Microsoft, Caterpillar, Home Depot e outras companhias totalizando meio milhão no total. De acordo com uma estimativa da Challenger, Gray & Christmas, empresa do segmento de recolocação, as demissões em janeiro totalizaram 241.749, um aumento de 45% em relação a dezembro atingindo o maior índice mensal em sete anos. Em resposta a essa situação, o presidente americano Barack Obama pressionou mais ainda o Congresso para que aprove um plano de estímulo econômico no valor de US$ 819 bilhões. “A cifra mais importante desse plano de recuperação será dada pelo número de empregos criados por ele”, disse Rahm Emanuel, chefe de gabinete de Obama, “e não quantos votos ele será capaz de amealhar”.

Infelizmente, é possível que haja mais cortes a caminho, conforme explicam os economistas que acompanham a situação. “Pelo visto, o quarto trimestre foi incrivelmente fraco para as empresas”, observa Christopher Portman, economista sênior da Oxford Economics, que desenvolve modelos econômicos para bancos e governos do mundo todo. “No que se refere à economia global, 2009 será o pior ano desde a Segunda Guerra Mundial e desde os anos 30. Não sei se os postos de trabalho eliminados até agora refletem fielmente a situação geral. O desemprego vem sempre na esteira de outros indicadores de desempenho econômico, por isso mesmo depois de chegarmos ao fundo dessa recessão, o número de empregos eliminados continuará a subir.”

Além do trauma pessoal do emprego e do salário perdidos em meio à crise econômica mundial, os cortes chamam a atenção por sua profundidade e extensão. Desde setembro de 2008, grandes empresas de todo o mundo cortaram cerca de meio milhão de postos de trabalho — esses números não levam em conta as empresas de serviços financeiros que desencadearam a crise. Praticamente todos os setores foram afetados — montadoras, companhias aéreas, produtos de consumo, varejo, químicos, tecnologia e farmacêuticos, entre outros. Para algumas empresas, as demissões são uma experiência de caráter mais cíclico; outras, porém, estão passando pela primeira vez por esse processo. No caso de muitas empresas que anunciaram ou anunciarão cortes, trata-se de uma guinada drástica no rumo dos acontecimentos, uma vez que tinham bom desempenho até pouco tempo atrás. Esse aspecto abrangente tem alimentado a discussão entre analistas e planejadores estratégicos em torno de uma mudança fundamental nas empresas que viria por meio da reestruturação do sistema econômico mundial.

De acordo com especialistas da Wharton e de outras instituições, o que as empresas estão experimentando não é nem indicação de uma transformação, nem tampouco um prognóstico abrangente para o resto da economia. Em vez disso, dizem, o anúncio das demissões chama a atenção para as debilidades operacionais e para questões estratégicas que há anos vêm rondando sub-repticiamente o sistema. No passado, elas ficavam ocultas da mesma forma que as debilidades e as instabilidades do sistema de capital pelo aparente boom dos valores dos ativos. Agora, a retração econômica colocou-as em evidência.

O que está acontecendo?

Peter Cappelli, diretor do Centro de Recursos Humanos da Wharton, diz que o problema é que a crise está obrigando muitos gerentes a se preocuparem exclusivamente com o curto prazo. “Pelo menos nos EUA, as empresas não parecem estar pensando muito além do impacto imediato. De certo modo, isso talvez se deva à pressão para que as operações se conformem às expectativas de desempenho trimestral. Pode também ser decorrência do fato de que os efeitos negativos das demissões — como, por exemplo, os custos associados à recontratação em períodos de recuperação econômica; atrasos na retomada do desempenho e questões morais — são difíceis de rastrear. Pode também ser resultado do pressuposto implícito de que a força de trabalho não passa, de fato, de um recurso just-in-time, que será fácil admitir novos trabalhadores na hora em que os negócios se aprumarem.”

No entanto, o histórico de empresas que fizeram demissões é terrível. “Praticamente todos os estudos mostram um declínio no desempenho associado às demissões”, salienta Cappelli. “Contudo, o que se deve levar em conta aqui é que as demissões são um substituto para o fato de que as empresas que optaram por essa saída já se achavam em dificuldades. É difícil separar o efeito das demissões em si mesmas do efeito de substituição.”

Isto significa que, para muitas empresas que já anunciaram ou que anunciarão demissões em breve, a crise econômica atual não é necessariamente a causa dos seus problemas. É simplesmente o fator que as deixou expostas. Por mais intuitivo que seja esse argumento, os especialistas dizem que os gerentes das empresas, bem como analistas, investidores e gestores de políticas públicas de fora do segmento de negócios deparam com o risco de colocar boa parte da culpa, ou a culpa toda, na crise econômica atual, em vez de buscar causas mais profundas.

Jay Anand, professor de administração e de recursos humanos da Universidade Estadual de Ohio, diz que tempos difíceis como os de hoje trazem à tona as diferenças entre empresas. “Do ponto de vista das implicações estratégicas, nem toda empresa sente o impacto da crise da mesma forma. Algumas contam com mecanismos de proteção mais adequados, têm maior capacidade para suportar pressões, a demanda por seus produtos é boa e têm clientes fiéis, sua estrutura de custos é um pouco mais flexível, sua cadeia de fornecedores não tem dificuldades para se adaptar etc.”

Especialistas observam que os cortes nos postos de trabalho deveriam ser vistos como sinal da mudança em curso — e a um ritmo cada vez mais veloz — em algumas indústrias. Esse é obviamente o caso dos serviços financeiros e das montadoras, por exemplo, mas o mesmo vem ocorrendo no segmento de tecnologia. Isso explica, em parte, por que alguns dos maiores nomes da indústria de TI, como a Microsoft, Hewlett-Packard, EMC, Dell, SAP e outras foram atingidas. Cada uma dessas empresas, de algum modo, está diante de um ponto de transição em sua evolução, obrigando-as a introduzir mudanças em seus modelos de negócios.

Na Microsoft, por exemplo, o primeiro grande corte da empresa está relacionado à queda acentuada na demanda por PCs tradicionais, que desde sempre foram o negócio principal da empresa. A empresa anunciou recentemente cerca de 5.000 demissões. Sinais de mudança no mercado da Microsoft em anos recentes já haviam forçado a empresa a procurar meios de diversificar mais ainda seu negócio — prova disso foi a oferta malsucedida feita no ano passado pelo Yahoo. Agora a empresa terá de acelerar esses esforços. De acordo com relatórios e análises da empresa, isso poderia se dar pelo menos de duas maneiras: em primeiro lugar, embora a Microsoft corte empregos em seus negócios tradicionais para reduzir custos, a empresa planeja acrescentar até 3.000 empregos em áreas como busca, serviços online e computação em nuvem. O número de pessoas contratadas dependerá do que alguns analistas descrevem como possível “coringa” — o fator Yahoo. Eles acreditam que com Carol Bartz à frente do Yahoo, um futuro acordo com a Microsoft ainda possa vir a se concretizar. Seja como for, as demissões — e os planos de contratação — da Microsoft são impulsionados por essas considerações estratégicas, e não apenas pela atual situação de debilidade da economia.

De igual modo, na Caterpillar, a maior fabricante mundial de máquinas para construção e mineração, a reestruturação de grande porte ocorrida na empresa foi atribuída basicamente aos elevados custos operacionais em suas operações de fabricação. Tais custos tornaram-se insustentáveis na medida em que a utilização da capacidade disponível despencou devido à fraca demanda. Como consequência disso, a Caterpillar anunciou que cortaria 20.000 empregos, uma vez que o volume de vendas de equipamentos de construção — fortemente atingidas pelo colapso do mercado de moradia — encolheu em torno de 25%.

Tanto para a Microsoft quanto para a Caterpillar, além de muitas outras empresas, a queda abrupta na demanda colocou em evidência a ineficiência de suas operações.

Conforme mostram os exemplos, os problemas que levaram aos anúncios feitos já há muito tempo se acham em fermentação. Os cortes nos postos de trabalho, na verdade, são indicadores de algo que já vinha ocorrendo, não só na economia como um todo, mas também em empresas específicas envolvidas. É o tipo de coisa que leva tempo para ser divulgada e chegar às manchetes porque, em geral, estão entre as últimas medidas que as empresas decidem tomar em resposta a condições desafiadoras. Trata-se também de questões extremamente complexas de lidar, obrigando a gerência a fazer escolhas bastantte difíceis.

De olho no futuro

Agora vem a parte mais complicada. No caso das empresas que anunciaram cortes de empregos, as operações se tornarão muito mais difíceis de administrar nos próximos meses, à medida que tiverem de notificar os trabalhadores, dar apoio a eles e, não menos importante, encontrar meios de compensar as mudanças ocorridas no quadro de funcionários através de processos novos ou já existentes. Todos esses esforços exigirão um volume expressivo de manobra administrativa. Ao mesmo tempo, muitos projetos importantes ficarão desfalcados de mão-de-obra ou sofrerão atrasos. Tudo isso se dá num momento em que as empresas não podem se dar ao luxo de um mínimo de distração.

Há alguma empresa ou equipe de administração que saiba lidar “bem” com situações desse tipo? Cappelli, da Wharton, diz que o importante é analisar e procurar primeiramente outras saídas. É difícil acreditar que alguma empresa saiba realmente lidar bem com esse processo e, ao mesmo tempo, não esteja envolvida com outras saídas criativas para redução dos custos de mão-de-obra (cortes de salários, compartilhamento do emprego, anos sabáticos, férias obrigatórias etc.), disse. “A razão disso é que seria fantástico se, depois de uma análise cuidadosa, a única opção que fizesse sentido para a empresa fosse demitir.”

Anand, da Universidade Estadual de Ohio, observa que é imprescindível manter a perspectiva. Ele sugere que as empresas se concentrem de modo específico na crise atual, mas que estejam também preparadas para uma guinada. “Quando todo mundo diz que vivemos tempos maravilhosos, é preciso seguir em frente. De igual modo, quando todos dizem que os tempos são terríveis, devemos analisar tudo o que se passa de forma equilibrada. Com o tempo, tudo voltará a uma situação média, e é importante que as empresas estejam preparadas para esse momento. Embora os gerentes tenham de agir agora para fazer frente a essa situação, é importante olhar para frente e manter abertas as opções de crescimento. Não se deve reagir de forma extrema de um modo que cause uma redução expressiva nas competências, o que pode comprometer bastante seu futuro.”

A virada pode chegar mais cedo do que alguns imaginam. Portman, da Oxford Economics, ressalta que embora as recessões anteriores tenham evoluído mais lentamente, e de maneira menos global, as empresas observam agora uma transição veloz dos EUA para o resto do mundo. Contudo, há uma vantagem nisso, diz. “A crise veio bem depressa, mas o inverso, isto é, a recuperação, virá também mais rapidamente do que no passado. Hoje, o cenário sombrio é extrapolado sem levar em conta a dinâmica envolvida. A recessão não deverá durar tanto quanto algumas pessoas imaginam.

“Sofremos um grande revés, e continuaremos prejudicados no ano que vem e talvez ainda no ano seguinte”, diz Portman. “No momento, porém, que as coisas começarem a caminhar bem novamente, não vejo motivo para grandes mudanças na forma como as empresas operam — não vejo como isso possa se dar. As empresas se adaptarão, e já estamos vendo isso ocorrer. Observamos que a produtividade da mão-de-obra melhorou, a concorrência idem, e isso dará o respaldo à economia quando as coisas retomarem seu curso. Em dois anos, a situação será melhor e as empresas poderão se concentrar novamente no crescimento.

A dificuldade, é claro, consistirá em decidir quais empresas serão capazes de fazê-lo. A resposta não é clara. Sem dúvida, as empresas que têm optado pelas demissões — ou outras soluções para a preservação do seu quadro de profissionais durante momentos difíceis da economia — estarão mais bem posicionadas para a recuperação do que aquelas que optaram por uma estratégia automática de corte de empregos como forma de reduzir custos para a obtenção de ganhos a curto prazo. “Hoje, algumas empresas estão sendo obrigadas a abrir mão de suas competências, enquanto outras não tiveram de cortar músculo algum”, diz Anand. “No momento em que a economia melhorar novamente, veremos a diferença.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Meio milhão de empregos cortados: afinal, há uma estratégia por trás das demissões?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [11 February, 2009]. Web. [20 October, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/meio-milhao-de-empregos-cortados-afinal-ha-uma-estrategia-por-tras-das-demissoes/>

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Meio milhão de empregos cortados: afinal, há uma estratégia por trás das demissões?. Universia Knowledge@Wharton (2009, February 11). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/meio-milhao-de-empregos-cortados-afinal-ha-uma-estrategia-por-tras-das-demissoes/

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"Meio milhão de empregos cortados: afinal, há uma estratégia por trás das demissões?" Universia Knowledge@Wharton, [February 11, 2009].
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