O Peru diante de um momento decisivo: populismo ou pragmatismo?

Ollanta Humala, um ex-tenente coronel ultranacionalista, obteve cerca de 31% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais do Peru em princípios de abril, deflagrando todo tipo de receio na comunidade empresarial doméstica e internacional. Durante a campanha eleitoral, esse leitor voraz de livros de história, amante do esporte e enxadrista exímio não poupou críticas à classe política tradicional, investindo contra os partidos aos quais pertencem os candidatos  que disputam voto a voto o acesso ao segundo turno, e a possibilidade de enfrentá-lo, em maio próximo: o ex-presidente Alan García, candidato do partido social-democrata APRA, e que traz consigo o estigma de uma gestão governamental desastrosa de 1985 a 1990; e a ex-congressista Lourdes Flores, representante da aliança Unidade Nacional (UN), de centro-direita, que tenta imitar Michelle Bachelet, do Chile, tornando-se a primeira mulher a chegar à presidência do Peru.

 

No entanto, o que mais preocupa os empresários no discurso de Humala é sua intenção manifesta de reavaliar os contratos assinados com as multinacionais que exploram os recursos naturais do país, e, eventualmente, ordenar a nacionalização estratégica dos setores regulamentados. Humala foi favorável à revisão do Tratado de Livre Comércio (TLC) com os EUA — em 13 de abril, porém, foi ratificado em Washington o protocolo do acordo. Ele propôs também uma consulta popular para a aprovação do tratado. Seu partido, o União pelo Peru (UPP), declarou que o TLC “não defende os interesses peruanos, tampouco garante o fortalecimento da indústria nacional”.

 

Consciente de sua liderança momentânea, e do que está em risco no segundo — e definitivo — turno eleitoral, procurou acalmar os empresários no dia seguinte com a seguinte declaração: “Armou-se uma guerra suja contra mim e meus rivais me fazem passar por perseguidor dos investidores.” No meu governo, disse, “a propriedade privada será respeitada. Não me vejam como uma ameaça”. A Câmara de Comércio de Lima informou à imprensa internacional que cerca de 2.500 empresas paralisaram  seus investimentos diante do temor de que um eventual governo de Humala ponha em risco a segurança jurídica do país.

 

O futuro presidente, ou presidenta, receberá um Peru economicamente robusto. A despeito de uma gestão bastante polêmica, que fez crescer a desconfiança dos peruanos em suas instituições, o mandatário prestes a sair, Alejandro Toledo, obteve bons resultados na economia. De acordo com um boletim recente da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), a economia peruana cresceu 6% — a maior taxa já registrada desde 1997. De acordo com o mesmo boletim, isto só   foi possível “graças a uma conjuntura externa extremamente favorável e a políticas macroeconômicas que fortaleceram as expectativas dos agentes privados no mercado interno”. Em sua análise, a Cepal chamou a atenção para “o destacado dinamismo” das exportações peruanas, fato que resultou em um novo aumento do superávit da balança comercial e em um superávit inédito em conta corrente na balança de pagamentos — acima de 1% do PIB. Em virtude da menor expansão das exportações e dos gastos públicos, o organismo multilateral prevê, para 2006, um crescimento moderado para o país que, não obstante, pode chegar a 5%.

 

Discurso populista: mera estratégia de campanha

O que boa parte dos especialistas se pergunta é se um eventual governo de Humala manteria as regras do jogo que garantiram a estabilidade macroeconômica do país. Hugo Macías Cardona, coordenador do Centro de Pesquisas CIECA da Universidade de Medellín (Colômbia), disse que Humala não propôs mudanças radicais na política econômica do seu país a ponto de impor modificações em sua estrutura econômica. “Além do mais, as relações que ele vem construindo com a comunidade econômica internacional não lhe permitirão maiores excessos; sua habilidade como negociador evitará uma luta aberta contra esse aliados necessários à governabilidade.”

 

Diferentemente da Venezuela, observa Macías Cardona, o Peru não conta com uma situação de prosperidade em que se apoiar, nem sequer momentaneamente, de modo que possa desafiar a comunidade internacional. “A economia seguiria por um caminho  muito semelhante ao de hoje, principalmente por causa da adesão dos funcionários do Banco Central à campanha política.”  Macías Cardona refere-se à decisão do candidato Humala de colocar como seu primeiro vice-presidente Gonzalo García Nuñez, integrante do diretório do Banco Central de Reserva (BCR). “Esse é o vínculo de Humala com o establishment econômico internacional, mediante o qual ele fará a aproximação com as instituições americanas e européias, de modo que os investidores não se sintam inseguros.” Além disso, acrescenta Macías Cardona, o também ex-diplomata estabeleceu relações importantes com os empresários Isaak Galski e Salomón Lerner Ghitis, “que gozam de plena credibilidade no establishment local”.

 

David Álvarez, pesquisador da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) e analista político da Universidade Católica do Chile, também acha que Humala suavizou seu discurso e que, tal como se viu em outros casos, poderá recorrer a um certo pragmatismo se chegar ao poder. “É quase um axioma em ciência política que alguém diga certas coisas para ganhar uma eleição e faça outras depois de eleito.” Por isso, Alvarez crê que se Humala chegar ao poder, se empenhará em manter os níveis de crescimento num esforço para vencer “o grande desafio de distribuí-los entre sua gente de maneira adequada”. Contudo, disse, Humala teria que se empenhar a o máximo para tranqüilizar os investidores estrangeiros, “já que, em alguns de seus discursos, ele disse que procurará impedir, por exemplo, o acesso de capitais chilenos aos portos em via de privatização. Humala terá de esclarecer cada um dos pontos mencionados em seus discursos e dar sinais evidentes de estabilidade para que o país continue crescendo”.

 

O fator Venezuela

A imprensa peruana destacou que desde sua estréia no cenário político, em outubro de 2005, Humala vem mantendo contato com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, dando a entender que o  líder venezuelano teria financiado parte de sua campanha eleitoral. No entanto, Humala e o próprio Chávez negaram qualquer apoio econômico, e afirmam que a única coisa que os une é o desejo de integração dos países latino-americanos em um mesmo espírito nacionalista.

 

O professor de Administração Internacional da Wharton, Mauro Guillén, disse que um eventual  governo do ex-militar não deverá ser tão extremista quanto o da Venezuela, “mas é evidente  que o pêndulo oscila hoje em direção ao nacionalismo e ao populismo na região: Argentina, Equador, Venezuela, Bolívia e agora, ao que tudo indica, o Peru.” Guillén não acredita, porém, que o possível alinhamento entre um Peru governado por Humala, e Caracas, resulte na interrupção dos investimentos na região. A diminuição dos fluxos de capitais de tipos diversos afetaria apenas o Peru, observa. “Brasil, México e Chile são economias que continuam abertas ao exterior. As três juntas perfazem 65% da economia da região”, lembra o professor da Wharton.

 

Ainda que, à primeira vista, o passado militar de Humala se assemelhe ao de Chávez, há grandes diferenças entre ambos, explica Macías Cardona. Embora Chávez tenha feito carreira militar, “desde cedo esteve ligado a movimentos da esquerda democrática em seu país. Humala, por sua vez, esteve à frente de diversas operações com o propósito de derrotar militarmente a guerrilha do Sendero Luminoso, tendo-se envolvido em algumas investigações de violação de direitos humanos”. Para Macías, Humala não é populista, nem militante da esquerda democrática do país, e sim “basicamente um nacionalista, embora prefira que lhe chamem de progressista”. Um provável governo de Humala, acrescenta, “assumiria uma posição intermediária entre Cuba, Venezuela e Bolívia por um lado; e entre a Argentina, Brasil e também o Chile, por outro. Sua aproximação com os líderes de todos esses países”, prevê Macías, “poderá convertê-lo em peça chave para o consenso de posições na América Latina, do qual ficaria de fora apenas a Colômbia, mais próxima dos EUA”.

 

Macías Cardona salienta que Humala e Chávez se unem na crítica aos partidos tradicionais e ao modelo neoliberal, à reforma agrária, “e à necessidade — ao menos no plano do discurso — de que a população tradicionalmente excluída se sinta representada por seus dirigentes”.

 

Causas da tendência populista

Gerald McDermott, professor de Administração da Wharton, observa que, para entender a situação do Peru, é preciso começar pelas origens da expansão “intempestiva” da esquerda latino-americana nos últimos cinco anos. De acordo com o acadêmico, essa avaliação compreende dois fenômenos: o primeiro, relativo “ao conjunto de limitações institucionais que se observa em alguns países da região, com fraco desenvolvimento das organizações sociais e políticas, tanto no que diz respeito aos partidos políticos quanto ao poder Executivo e ao Congresso”. O segundo fator, prossegue, “consiste no advento do populismo, que nos leva a indagar sobre a saúde dos partidos”.

 

McDermott crê que o grande erro dos projetos de desenvolvimento adotados durante a década de 1990 na América Latina — embora também tenham sido adotados pelos países do leste europeu — “consista na falta de atenção fundamental à política, que deve preceder, inclusive, as reformas econômicas”. McDermott afirma que o desenvolvimento das instituições políticas, ou da participação social, “é muitas vezes mais importante” do que o progresso da economia. “Temos, por exemplo, o problema da incorporação da esquerda e das classes destituídas no processo político — a que tiveram acesso, mas não da forma mais adequada, como provam os casos históricos do peronismo, na Argentina, e do PRI, no México, de estilos nitidamente autoritários.”

 

Em outros países latino-americanos, observa McDermott, não há “uma demanda tão intensa” pelo populismo, como é o caso do Chile, “onde a esquerda é forte; entretanto, o país tem um sistema institucional muito desenvolvido. Portanto, (a presidente Michelle) Bachelet é símbolo de um sistema moderno de social-democracia”. O mesmo ocorre no Brasil, salienta o professor, “principalmente pela presença do presidente Lula, um dos líderes responsáveis pela reforma da esquerda. Além de contar com um sistema institucional muito mais forte do que o do Peru, da Venezuela e da Bolívia, McDermott diz que o Brasil e Lula são muito importantes, porque “são prova de que a esquerda pode ser moderna, progressista, responsável e útil para a consolidação institucional e para o crescimento econômico”.

 

Mas o que acontece no Peru? McDermott disse que o país foi “destruído, institucionalmente falando”, nos últimos 20 anos. “Não existe, por exemplo, um Estado moderno do ponto de vista de seus marcos regulatórios. Não há partidos políticos propriamente ditos, os quais são fatores importantes da perspectiva da estabilidade.” Diante disso, o acadêmico admite que há um campo aberto para o populismo, “primeiro, como reação ao que sucedeu ao (ex-presidente) Alberto Fujimori (obrigado a deixar o país por causa de escândalos políticos) e; em segundo lugar, como reação à “grande esperança” gerada pelo presidente hoje prestes deixar o governo, Alejandro Toledo, que não pôde satisfazê-la”.

 

As alternativas: García ou Flores

Durante a campanha eleitoral, o ex-presidente Alan García, que concluiu sua administração em 1990 exilado na Colômbia sob a acusação de corrupção e de uma gestão desastrosa que deixou como herança um triste recorde de inflação (de quase 3.000%), disse ser o único capaz de deter o “perigo autoritário” que se atribui a Humala. García comprometeu-se a corrigir “os erros” de seu governo anterior, enfatizando a luta contra a pobreza, a distribuição eqüitativa da riqueza, geração de emprego, incentivo à   exportação agrícola e a concessão de créditos às micro e pequenas empresas.

 

Lourdes flores, uma advogada de 46 anos rotulada de “candidata dos ricos”, tem seu apoio principal em Lima, capital do país, e nos votos dos residentes no exterior, mas tem pouca penetração popular nas zonas periféricas e menos ainda nas regiões do interior do país. Flores declarou-se partidária da livre empresa, de um Estado regulador e não intervencionista, e prometeu a geração de 650.000 empregos ao ano, melhoras na educação e na saúde.

 

Com relação aos votos para um ou outro candidato, dependendo de quem passe para o segundo turno, Alvarez, da FLACSO, disse que o problema de García e Flores é que são “mutuamente excludentes”. “A candidata conservadora não pedirá votos para García, e vice-versa, mas isso cabe às cúpulas dos partidos decidir. Com relação aos eleitores, pode haver uma reação diferente: o eleitorado de García pode votar  em Flores se ela passar ao segundo turno, já que não votaria de forma alguma em Humala.” Álvarez disse que o voto de protesto em Humala pode ocorre entre os eleitores de García e Flores. Além disso, observa que Flores não tem um partido forte que lhe dê respaldo, portanto, “a candidata atrai votos por si mesma, e não por causa do partido”.

 

Macías Cardona disse que os resultados das últimas eleições parecem favorecer García, o que conduziria a um segundo turno entre García e Humala, porém atribui um “papel importante” aos seguidores de Flores na definição do próximo presidente. Segundo Macías, Flores é bem vista por Wall Street, é considerada uma aliada dos interesses financeiros e menos preocupada com os cidadãos de baixa renda. “Ao que parece, a candidata ganhou força entre os eleitores devido à sua proximidade com o poderoso grupo Romero e a uma campanha publicitária muito próxima da que fez o atual presidente da Colômbia (Álvaro Uribe) nas eleições passadas.”

 

Agora, prossegue Macías Cardona, o que importa é saber quem herdará os votos de uma mulher “com uma trajetória tão extensa no cenário político, que conta com a simpatia dos eleitores, em boa parte em razão de sua oposição ao presidente Toledo”. Macías acha que a aliança de Flores, ou pelo menos um setor importante dessa coalizão, tem mais possibilidades de apoiar Humala do que García, a julgar pelo que ocorreu no passado. “Nas eleições de 2001, a Unidade Nacional não apoiou nenhum dos candidatos que passaram para o segundo turno (Toledo e García), ao passo que em 1995, o Partido Popular Cristão — no qual milita Flores — abandonou a candidatura presidencial de Flores para apoiar o candidato da União pelo Peru, que agora lançou Humala.”

 

Macías Cardona acha que uma eventual chegada de Flores à presidência inspiraria confiança aos diversos agentes econômicos, porém disse que no caso de García, a economia peruana correria maior risco. “Ele é visto pelos peruanos como alguém que levou o país à crise econômica mais severa jamais experimentada pela população: manteve a taxa de câmbio em níveis mais altos do que os toleráveis pelo mercado, fez emissões primárias, elevou a hiperinflação acima de 1000%, mudou duas vezes a moeda (sol e inti) e restringiu severamente o serviço da dívida, levando o FMI a classificar o Peru como país sem direito ao crédito internacional (ineligible) em 1986.”

 

McDermott conclui que é provável que haja negociações entre os partidários de García e de Flores para que Humala não saia vencedor. “As alas de centro-direita e de centro-esquerda podem perfeitamente ser modernas e responsáveis, submetendo-se a compromissos que lhes permitam apresentar-se como frente nacional. Isto porque seu adversário não é apenas Humala; é também o apoio com que conta Fujimori e outros grupos de pressão, como o dos militares.” McDermott crê que o Peru tem diante de si a oportunidade da governabilidade, sobretudo se a coalizão tiver lugar também no Congresso, onde há pelo menos nove forças políticas representadas. “Essa aliança ajudaria muito o país  em seu desenvolvimento institucional; caso contrário, teremos muita volatilidade pela frente”, adverte.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O Peru diante de um momento decisivo: populismo ou pragmatismo?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [19 April, 2006]. Web. [31 October, 2020] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-peru-diante-de-um-momento-decisivo-populismo-ou-pragmatismo/>

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"O Peru diante de um momento decisivo: populismo ou pragmatismo?" Universia Knowledge@Wharton, [April 19, 2006].
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