O que há por trás da aquisição da Skype pela Microsoft por US$ 8,5 bilhões?

Rumores de que o Facebook ou a Cisco comprariam a Skype foram desmentidos na terça-feira quando a Microsoft, numa transação de US$ 8,5 bilhões — a maior de sua história —, comprou o serviço de comunicação por voz e vídeo online. A maior parte dos analistas saudou a aquisição classificando-a de jogada inteligente, uma vez que coloca a Microsoft na vanguarda dos mercados emergentes de vídeo e telefonia virtuais. Contudo, há quem duvide disso, uma vez que a aquisição prévia da Skype pelo eBay terminou em baixas contábeis de US$ 1,4 bilhão. Será que a Microsoft e a Skype conseguirão uma boa sintonia cultural? A Microsoft teria pago um preço alto demais por uma empresa que continua a dar prejuízo? A Knowledge@Wharton discutiu essas e outras questões com Eric Clemons, professor de gestão de operações e de informações, e Kevin Werbach, professor de estudos jurídicos e ética nos negócios, ambos da Wharton.

Entrevista com Eric Clemons

Knowledge@Wharton: A Microsoft concordou em pagar US$ 8,5 bilhões pela Skype. É a maior aquisição já feita pela empresa. Qual a estratégia por trás dessa compra? Você acha que ela agregará ou destruirá valor?

Eric Clemons: A aquisição de empresas de alta tecnologia, principalmente quando há uma grande diferença de cultura ou de tecnologia em relação à empresa compradora, pode ser muito arriscado. Neste caso especificamente, faz todo sentido para a Microsoft. Das três grandes empresas de telefonia celular, a Microsoft aparece em terceiro lugar. Ela foi a primeira a entrar no segmento, mas há quem diga que agora ocupa o terceiro lugar depois da Apple e do Google. Para que o negócio seja bem-sucedido, é preciso que a Microsoft proponha alguma coisa de valor único. Essa aquisição talvez cumpra esse papel. Se a Microsoft conseguir fundir a Skype com a telefonia celular sem grandes atritos, poderá oferecer o melhor telefone para videoconferência do mercado. Se conseguir juntar sem problemas os serviços técnicos da Skype ao seu serviço de mensagens instantâneas, a Microsoft terá também o melhor sistema de mensagens instantâneas do mercado.

É um modelo muito diferente do Facebook, que é centralizado. A Skype trabalha com um sistema de ponto a ponto (peer to peer). Esse sistema é escalável ao infinito. Onde houver dois, três ou cinco celulares, forma-se instantaneamente um núcleo de teleconferência da Microsoft. É o tipo de coisa que pode dar sentido ao celular da empresa.  Trata-se de uma estratégia cujo objetivo é tornar a plataforma da Microsoft mais diferenciada, poderosa e competitiva.

Knowledge@Wharton: O preço deixou você incomodado? A Microsoft pagou um ágio alto demais?

Eric Clemons: São perguntas difíceis de responder. Por um lado, o preço pago foi muito acima do valor real da empresa; por outro, talvez a Microsoft tenha pago exatamente o preço que a Skype valia para ela. Em outras palavras, uma empresa que não tenha uma plataforma para conectar a Skype, não obteria com a transação o mesmo valor que a Microsoft obteve. O mesmo aconteceria a uma empresa que já possuísse uma plataforma móvel dominante. Se, com a aquisição, a plataforma móvel da Microsoft se tornar mais poderosa, mais atraente para o consumidor e para as empresas, o predomínio do BlackBerry pode ficar ameaçado, além de permitir a Microsoft concorrer mais eficazmente com o Android. Seja como for, o valor de US$ 8,5 bilhões, sob essa ótica, parece ter-se guiado por uma decisão inteligente.

Portanto, a questão não é se uma outra empresa teria pago esse mesmo valor. Talvez não. A questão é se em dois anos, ou cinco, o valor pago dará o retorno esperado a Microsoft. Pelo menos sabemos por que a empresa acredita que sim.

Knowledge@Wharton: Se voltarmos seis anos atrás, quando o eBay pagou US$ 2,5 bilhões pela Skype, a expectativa da empresa era integrar seu serviço à nova empresa e agregar valor, mas não foi o que aconteceu. Na verdade, foi preciso fazer uma baixa contábil de US$ 1,4 bilhão antes de vender a Skype para um grupo de investidores. Na sua opinião, quais são as chances de sucesso da Microsoft ?

Eric Clemons: Vou repetir aqui o que me disseram, mas não sei se há base para isso — se há, desconheço —, mas quando o eBay comprou a Skype, comprou simplesmente uma empresa. Não comprou a propriedade intelectual e nem a equipe de desenvolvimento. O Skype é um sistema de mensagem instantânea de ponto a ponto [peer to peer]. Esse sistema permite ao comprador e ao vendedor passar totalmente ao largo do eBay. Se o eBay quisesse o sistema comercial e de infraestrutura da Skype, ele teria de ser modificado. Se a aquisição tiver sido feita sem a equipe de desenvolvimento da propriedade intelectual adequada, sua utilidade terá sido nula. Insisto: não tenho como confirmar essas coisas. Se forem verdadeiras, certamente haverá alguém capaz de confirmá-las.

De igual modo, pelo que sei da Microsoft, a empresa tem muita experiência em aquisição de tecnologia. Eles já fizeram isso antes. Meu palpite é que se a Microsoft estiver pensando em ampliar esse negócio e integrá-lo a seus demais produtos, tenho certeza que ela contratou também o pessoal adequado e adquiriu a propriedade intelectual do produto. Isto não significa que não haverá problemas. A estrutura da Microsoft é muito centralizada, e o sistema da Skype é de ponto a ponto. Talvez seja preciso fazer mudanças tecnológicas. Contudo, no que se refere à preparação para a aquisição, acho que a empresa fez tudo o que tinha de fazer.

Knowledge@Wharton: Uma coisa que preocupa é que mesmo com 100 milhões de usuários ao mês, a Skype continua a dar prejuízo. No ano passado, as perdas somaram US$ 7 milhões. Você teria alguma ideia de como a Microsoft pode interferir nesse modelo para modificá-lo?

Eric Clemons: Há várias maneiras de gerar receita. O Google, por exemplo, tem centenas de milhões de usuários, mas ninguém paga nada para usá-lo. Deve haver alguma coisa profundamente equivocada com seu modelo de negócio. Contudo, se olharmos para a demonstração de resultados ou para o balanço patrimonial da empresa, veremos que, de algum modo, eles estão conseguindo fazer a coisa funcionar. Há, portanto, duas possibilidades. Em primeiro lugar, a Microsoft espera crescer tanto com a atividade principal da Skype que vai torná-la lucrativa. Em segundo lugar, a aquisição seria um "insumo" para os outros negócios da Microsoft, uma forma de a Microsoft criar uma espécie de rede social, talvez uma rede social para fins comerciais diferente do Facebook. Ou ainda algo que permita gerar valor com a telefonia. Será alguma coisa que fará de um negócio lucrativo algo muito maior e, portanto, muito mais rentável.

Não fui consultado. Não estava trabalhando com a Microsoft. Não sei qual é a estratégia, mas há três possibilidades. Uma delas consiste em cultivar um negócio lucrativo baseado em uma plataforma. A segunda é ampliar o negócio. A terceira é torcer pela sorte. Meu palpite é que deverá haver, provavelmente, algum tipo de combinação entre as duas primeiras possibilidades.

Knowledge@Wharton: Você escreveu algumas vezes que é contra a integração vertical no segmento de busca. Por que essa aquisição agora lhe parece segura?

Eric Clemons: Se você leu algumas coisas que escrevi no meu blog, sabe então que a integração vertical no segmento de distribuição me dá muito medo. Esta última aquisição me pareceu, possivelmente, preocupada em manter viva a Microsoft.

Em outras palavras, se a sua plataforma de busca é predominante no mercado e você começa a subordinar a ela a distribuição em múltiplos canais, vendas e coisas que lhe permitam deixar de fora quem você quiser, porque você é forte no segmento de busca, isso me dá medo.

Hoje, a plataforma móvel da Microsoft é uma das mais fracas em participação de mercado. A empresa não é considerada atualmente uma companhia que inova muito em alta tecnologia. Sua participação no setor de redes sociais também é limitada. A estratégia da Microsoft não é buscar o domínio de mercado que lhe permita chegar a um domínio de segunda, terceira e quarta ordens. Talvez seja uma tentativa muito inteligente de manter a empresa viva como contrapeso ao Google. Se o Google recorresse a essa tática, desbancaria a concorrência e poderia até mesmo liquidá-la.

Knowledge@Wharton: Você mencionou algumas vezes o Google e o Facebook. De que maneira você acha que isso muda o cenário da concorrência no setor de busca e das redes sociais?

Eric Clemons: Não tenho certeza se muda alguma coisa para as redes sociais. As redes hoje em dia se dedicam, em sua maior parte, à difusão de informações. Nem sempre elas têm o perfil do Twitter. Se alguém, por exemplo, me deseja feliz aniversário, todos os meus amigos veem o que os demais disseram. É divertido. O Skype tem uma preocupação mais objetiva. Se tenho de fazer um trabalho qualquer em parceria com duas pessoas que estão em Cingapura, outra em Pequim e uma outra em Xangai, fazemos simultaneamente uma videoconferência. Mostro a eles uma imagem; eles me mostram suas anotações. Esse é um tipo de rede social muito diferente.

Não é para isso que se usa o Facebook atualmente. O tipo de trabalho a que me referi acima é muito mais colaborativo e objetivo. Seria uma maneira fantástica de usar o Skype. Se a Microsoft quisesse, poderia lançar um tablet, algo que competisse com o iPad, e em seguida combinar o Skype com algo que fosse realmente difícil de fazer bem com o iPad, que é a utilização do PowerPoint. Se eu puder usar o Skype e o PowerPoint com dois ou três colegas de trabalho, teremos uma rede social bem diferente.

Prevejo coisas que não devem apavorar o Facebook, mas que deverão fazer a alegria dos investidores da Microsoft. O exemplo que dei é prova disso.

O Google provavelmente não tem nada a temer. Se a Microsoft fizer um belo trabalho com a aquisição — se lançar seu "M-pad" integrando-o aos softwares da empresa — é possível que este seja o começo da "busca social". Em outras palavras, a questão não é quem pagou para aparecer em primeiro lugar na busca, e sim: do que gostam ou não gostam meus amigos? O que eles apreciam e o que não apreciam? Se a maneira de lidar com essas coisas deixar de ser individual e passar a ser coletiva, seria uma forma de eu me integrar com meus amigos, porque agora eu teria minha lista de contatos do Skype. Hoje, porém, a lista que temos é muito pequena. Portanto, a busca social não será consequência imediata do Skype.

Knowledge@Wharton: O que isso significará para o consumidor? As chamadas de graça pelo Skype vão acabar?

Eric Clemons: Não vejo por quê. Se pensarmos na forma como o Google trabalha, veremos que todas as vezes que se fez alguma coisa grátis para o consumidor, essa coisa se valorizou e, portanto, valeu a pena. É possível que, para ter lucro com o Skype, seja necessário aplicar uma sobretaxa permanente ao produto. Mas se a Microsoft vender milhões de celulares a mais por causa do Skype, o que significa milhões de sistemas operacionais a mais, e se ela lançar o M-pad, com milhões de cópias a mais do PowerPoint, a empresa não precisará cobrar do consumidor o serviço do Skype. Esse poderá ser o início de uma nova plataforma estratégica.

Entrevista com Kevin Werbach

Knowledge@Wharton: A Microsoft decidiu pagar US$ 8,5 bilhões pela Skype. É a maior aquisição da empresa até hoje. Qual seria a estratégia por trás dessa aquisição? Você espera que ela agregue ou destrua valor?

Werbach: Para a Microsoft, no atual estágio em que se encontra a empresa, não há muitas aquisições grandes o suficiente capazes de criar o tipo de oportunidade de que a empresa precisa. A Microsoft é uma empresa muito grande e bem-sucedida. Para criar novas linhas de negócios fora do Windows e do Office será preciso que ela encontre oportunidades que valham realmente a pena. A transformação das comunicações é uma oportunidade desse tipo. A Microsoft, como muita gente sabe, tem inúmeros negócios no segmento de software. Ela tem hoje também uma fatia substancial de negócios com o Xbox. No entanto, a empresa está em busca de novas formas de gerar receita e de crescer.

É evidente que a comunicação por voz e vídeo por meio de tecnologias de Internet goza de imensa popularidade no mundo todo. A oportunidade de casar esse tipo de comunicação com os softwares e o conteúdo que a Microsoft já tem coloca a empresa diante de uma grande oportunidade. Seu sucesso ou fracasso depende da habilidade com que a empresa a administrar. Quando a Skype foi adquirida pelo eBay há alguns anos, achei que a transação tinha o potencial e a sinergia para ser bem-sucedida, mas não foi. Não porque a estratégia estivesse fundamentalmente equivocada, mas porque o eBay jamais a pôs em prática com sucesso. O desafio da Microsoft consistirá em imaginar um meio de atrair a base de usuários e a tecnologia que a Skype tem para os produtos que a empresa hoje dispõe.

Knowledge@Wharton: O que o eBay fez de errado e que lições a Microsoft pode aprender com isso?

Werbach: Uma coisa que o eBay fez corretamente foi pegar a Skype do jeito que era na época, uma startup bastante desorganizada, transformando-a num negócio bem administrado que cresceu em volume de receita e chegou mais perto da lucratividade sustentável, o que não é necessariamente uma coisa fácil de fazer — principalmente quando se toma uma empresa das mãos dos seus fundadores colocando-a em seguida sob os cuidados de gente nova.

Contudo, o eBay jamais soube integrar perfeitamente as capacidades de comunicação em tempo real do Skype com as atividades de leilão, comércio e produtos da linha de pagamento do eBay. Não conheço o eBay por dentro o suficiente para dizer por que foi que isso não aconteceu. A empresa tinha um plano de aquisição na época baseado no recurso de clique para falar [click-to-call], além de várias outras alternativas, mas que nunca tiveram muito sucesso.

Boa parte do problema era cultural. O eBay, embora não seja uma empresa de tecnologia, é, sob vários aspectos, uma empresa bem tradicional, mas não no mau sentido. É uma empresa, aliás, muito bem-sucedida. Ela sabe como funciona a pequena empresa, o setor de vendas e de marketing, e sabe também como ampliar a comercialização de bens físicos. A Skype é uma empresa cem por cento virtual. É uma companhia global com operações no leste europeu e outros lugares. Ela é uma startup agressiva. Portanto, acho que nunca houve um bom entrosamento cultural. Restar saber agora se haverá esse entrosamento com a Microsoft.

Sem dúvida é mais fácil ver a conexão com a Microsoft, porque se trata, essencialmente, de uma empresa de tecnologia. Dá para apostar nessa química, mas não é sucesso garantido. Em aquisições dessa escala, aliás, o sucesso nunca é garantido.

Knowledge@Wharton: O preço pago o incomodou? A Microsoft pagou caro demais?

Werbach: Na escala em que a Microsoft trabalha atualmente, a oportunidade tem de ser muito boa para mexer com uma empresa do seu porte. Pode ter havido um ágio de alguns bilhões de dólares, mas a oportunidade que a Microsoft busca na Skype está na casa de muitos bilhões de dólares a mais ao ano. No fim das contas, isso não importa, contanto que o negócio seja bem-sucedido. Caso contrário, se a empresa pagou uns poucos bilhões a mais, ou a menos, considerando-se o caixa de que dispõe — em retrospectiva, pode-se analisar o preço pago em termos de valor gerado para o acionista e se havia outro uso possível para o dinheiro —, não creio que, estrategicamente, essa seja a variável principal.

Knowledge@Wharton: Em parte, a preocupaçãocom o preço alto se deve ao fato de que embora a Skype tenha mais de 100 milhões de clientes ao mês, a empresa continua dando prejuízo. No ano passado, as perdas somaram US$ 7 milhões. Que mudanças a Microsoft terá de fazer para colocar as contas da Skype no azul novamente?

Werbach: Há duas maneiras de analisar essa questão. Uma delas diz respeito ao modelo de negócio da Skype. Qual seria o modelo de negócio para a comunicação em tempo real sobre IP? Esse é um negócio que certamente gera receita. No caso da Skype, a receita da empresa é de cerca de US$ 1 bilhão ao ano. O problema é que, como diz você, a empresa não é rentável. Isto se deve, em parte, a uma questão de escala, e em parte também aos custos substanciais que a empresa tem de arcar com as operadoras de telecomunicações existentes pela "milha final" [ponta final de acesso de uma rede].  A indústria da comunicação está madura para um rompimento significativo. Trata-se de uma indústria de US$ 1 trilhão construída sobre uma infraestrutura herdada, modelos de negócios preexistentes e estruturas regulatórias antigas.

A Skype, como não tem essa bagagem herdada, está em situação tão boa quanto qualquer outra empresa e pode ser uma das que vão sair bem-sucedidas nessa transformação. Isso não garante que seja um negócio destinado ao sucesso. Contudo, o fato de que a Skype tenha escala e seja tão grande, ou maior, do que uma operadora tradicional qualquer, sem os inconvenientes dos modelos de negócios tradicionais, dá a ela uma grande oportunidade. De modo especial, o crescimento do segmento de vídeo — que corresponde a aproximadamente 40% da utilização do Skype na Europa — é uma grande oportunidade, porque é possível agregar um volume maior de valor a ele. Há mais oportunidade para coisas como publicidade, por serviços pelos quais as pessoas pagam e assim por diante.

A grande oportunidade para a Microsoft nesse negócio, porém, não está relacionada à questão "Será possível transformar a Skype numa empresa rentável por si só?", e sim "Será que a Microsoft encontrará oportunidades para incorporar o Skype a todos os seus demais negócios?" criando propostas de valor de melhor qualidade que lhe permita ter lucro juntamente com suas ofertas de software em nuvem, com o Bing etc? Será preciso esperar para ver. Não sei exatamente como eles vão fazer isso. Trata-se, porém, de plataformas de grande geração de receitas, em que se pode, sem dúvida, ver o potencial que há em acrescentar esses componentes de voz e vídeo em tempo real do ponto de vista das finanças da empresa.

Knowledge@Wharton: Ainda nessa mesma linha de raciocínio, se a Microsoft decidir integrar a tecnologia da Skype para aprimorar a colaboração dentro da empresa, haveria o risco de que pudesse acabar sufocando os elementos que tornaram o Skype tão bem-sucedido?

Werbach: Há sempre um risco emaquisições desse tipo. A Microsoft é uma empresa que desperta sentimentos fortes nas pessoas. Portanto, há sempre algum risco. Não nos esqueçamos, porém, de que a Skype não é, no atual momento, uma empresa pequena e impulsiva. Trata-se de uma companhia de peso que já passou pelo processo — quando foi adquirida pelo eBay e, depois, quando foi vendida — de contratar profissionais que sabem como dar escalabilidade e gerir esse tipo de negócio. Há sempre a possibilidade, em transações de tecnologia dessa escala, de que haja algum conflito. No entanto, o que motiva os engenheiros da Skype, na minha opinião, é a dimensão da escala que essa oportunidade oferece — o desafio técnico e a capacidade de mudar o mundo ao conectar bilhões de pessoas. É isso o que eles querem. Na medida em que a Microsoft facilitar esse trabalho, creio que esses profissionais continuarão entusiasmados. Caso contrário, a Microsoft vai perder gente.

Knowledge@Wharton: Antes desse negócio entre a Microsoft e a Skype, comentou-se a possibilidade de aquisição da Skype pelo Facebook ou pela Cisco. De que maneira isso muda a concorrência entre a telefonia e as redes sociais?

Werbach: É evidente que as comunicações em tempo real num elemento de vídeo em particular serão uma peça importante no quebra-cabeças de várias empresas de tecnologia. Se analisarmos algumas das empresas concorrentes mais fortes, veremos que o Google já tem o YouTube, o Google Voice e dispõe de uma infraestrutura imensa de rede de fibra ótica no mundo todo. A Cisco tem produtos de telepresença, a ex-WebEx, a antiga Linksys e também dispõe de larga infraestrutura. O Facebook tem um componente muito importante no segmento de mensagem como parte de sua rede social, mas não conta com estrutura própria para o tipo de coisa de que estamos falando. O Facebook, porém, é parceiro forte da Microsoft.

Na medida em que uma empresa como a Microsoft se mostra desejosa de participar de todas as dimensões possíveis nesse espaço de comunicações e de tecnologia, tanto do lado do consumidor quanto da empresa — o que, na minha opinião, eles querem de fato — é importante que a empresa tenha um portfólio forte de voz e vídeo. Insisto novamente, porém, que isso depende da cultura da empresa e de sua posição estratégica de marketing. O significado da Skype para o eBay é diferente do que a Skype significa para a Microsoft. E o que ela significa para a Microsoft é diferente do que significaria para qualquer outro possível comprador.

Knowledge@Wharton: O que esse negócio significará para o consumidor? Será o fim das ligações grátis pela Skype?

Werbach: Não creio, porque a concorrência nesse mercado permite isso. Além do mais, o componente de voz é muito barato. No momento em que tudo se torna digital, a limitação será consequência da largura de banda. O componente de voz ocupa pouca banda. Com ele se tem a oportunidade de pôr fim à rede pública de telefonia comutada. É isso o que a Skype cobra de você quando você faz uma ligação de uma rede de telefonia, que nada tem a ver com o princípio econômico do serviço. Tem a ver, isto sim, com o sistema regulatório antigo, e à medida que os pontos finais se aproximam mais dos PCs e dos aparelhos móveis que rodam coisas como o cliente móvel Skype, isso vai desaparecer. O que importa de fato aqui é a disponibilidade de serviços de valor agregado. Na medida em que o cliente obtiver um valor maior, seja pelo lado do consumidor ou da empresa, ele não se negará a pagar pelo serviço oferecido.

Contudo, a possibilidade de fazer uma ligação telefônica é cada vez mais normal. Essa é a transformação, a ruptura. A ligação telefônica é a pedra angular desse sistema imenso de telefonia tradicional no mundo todo. Esse será o elemento oferecido gratuitamente. Há, porém, outras coisas além dessas — mais conferência e outros recursos, uma integração maior com o software, localização, mobilidade etc. É aí que está a oportunidade de geração de receita.

Knowledge@Wharton: Você teria algum outro comentário para finalizar?

Werbach: Outro aspecto do quediscutimos aqui é o aspecto político. Embora eu não creia que deva haver quaisquer impedimentos regulatórios significativos a essa aquisição, ela fará com que haja mais pressão sobre os órgãos reguladores para que lidem com uma questão que eles vêm adiando há mais de uma década: como adequar o VoIP [Voz sobre Protocolo de Internet] ao sistema regulatório tradicional? Trabalhei na Comissão de Comunicações Federais (FCC) nos anos 90. Na época, o órgão decidiu não aplicar a regulação tradicional de telefonia a Internet, porque se tratava de uma indústria nascente e com características diferentes. Mas quando se chega ao ponto de uma Skype valer US$ 8 bilhões, de ser adquirida por uma empresa sólida como a Microsoft e sendo cada vez mais usada em concorrência direta com as companhias telefônicas tradicionais — que estão modificando sua tecnologia de back-end para a de Protocolo de Internet —, não dá mais para se esquivar dos desequilíbrios regulatórios.

Isso significa que deveríamos aplicar as regras antigas à nova tecnologia? Na verdade, temos de dar uma interpretação mais lógica ao sistema regulatório para evitar que isso aconteça acidentalmente. Embora essa aquisição não mude nada objetivamente, ela coloca mais pressão sobre os órgãos reguladores dos EUA e de outros países, para que não adiem mais essas questões.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"O que há por trás da aquisição da Skype pela Microsoft por US$ 8,5 bilhões?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [18 May, 2011]. Web. [08 December, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-ha-por-tras-da-aquisicao-da-skype-pela-microsoft-por-us-85-bilhoes/>

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O que há por trás da aquisição da Skype pela Microsoft por US$ 8,5 bilhões?. Universia Knowledge@Wharton (2011, May 18). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-ha-por-tras-da-aquisicao-da-skype-pela-microsoft-por-us-85-bilhoes/

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"O que há por trás da aquisição da Skype pela Microsoft por US$ 8,5 bilhões?" Universia Knowledge@Wharton, [May 18, 2011].
Accessed [December 08, 2021]. [https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-que-ha-por-tras-da-aquisicao-da-skype-pela-microsoft-por-us-85-bilhoes/]


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