Os acordos comerciais levam à desigualdade de renda?

Os argumentos usados pelo governo Trump para a imposição de tarifas e outras políticas comerciais restritivas são fora de propósito porque negligenciam duas questões cruciais, conforme explica Geoffrey Garrett, reitor da Wharton: “A rápida mudança tecnológica associada à estagnação econômica têm causado mais sofrimento à classe média americana do que o livre comércio”. No artigo a seguir, Garrett observa também que embora o livre comércio reduza o custo de bens e serviços, ele também produz ganhadores e perdedores econômicos. O segredo para manter os aspectos positivos do comércio ─ compensando os negativos ─ é proporcionar, de algum modo, algo que compense os que perdem com essa situação, diz Garrett. (Este artigo foi publicado originalmente no LinkedIn).

Depois de 25 anos atolada num pantanal de siglas absurdas ─ FTAs e NTBs, TPP e TTIP ─ a política comercial ocupa atualmente lugar de destaque. Em sua primeira semana na presidência, Donald Trump estreou retirando os EUA da Parceria Transpacífico defendida por Barack Obama; em seguida, acenou seriamente com a possibilidade de impor um imposto de fronteira de 20% sobre as importações de países como China e México.

Não quero entrar em uma contabilidade detalhada das vantagens e desvantagens dos acordos de livre comércio ─ eles tendem a ter resultados econômicos líquidos pouco significativos; geralmente, suas implicações geopolíticas são mais importantes. Também não quero entrar nas consequências complexas da introdução do imposto de fronteira ─ se você taxa um componente importado que entra em um carro “Made in USA”, isso prejudicará, em vez de proteger, as montadoras americanas (para não falar de quem compra um carro).

Em vez disso, quero discorrer sobre três pontos bastante amplos de acordo com sua ordem de importância, isto é, do menos importante para o mais importante. O primeiro ponto tem a ver com um slogan fundamental da economia internacional. No entanto, vale a pena repeti-lo porque é verdadeiro.

1. O livre comércio melhora o padrão de vida porque, basicamente, diminui o custo dos bens e serviços que compramos.

Roupas e aparelhos domésticos são mais baratos nas lojas do Walmart porque muitos desses produtos são comprados de terceiros no exterior. iPhones seriam mais caros se feitos nos EUA, em vez de serem montados na China com peças oriundas da Alemanha, Japão e Coreia. Não costumamos prestar atenção ao segundo ponto: o impacto distribuído do comércio, em oposição às suas consequências agregadas.

2. O livre comércio gera perdedores (concentrados) que precisam de compensação por suas perdas. Os economistas políticos sempre souberam do impacto assimétrico do comércio. Enquanto os vencedores encontram-se dispersos (todos os consumidores), os perdedores estão concentrados (pessoas que perderam o emprego para o exterior). Isso cria pressões políticas de proteção. Contudo, como os ganhos agregados do comércio superam os prejuízos concentrados, os governos mantêm as políticas de livre comércio usando parte dos ganhos para compensar o prejuízo de quem saiu perdendo.

A Suécia, por exemplo, bastião da democracia social, há muito tempo pratica o livre comércio porque é bom para a economia em geral. Contudo, os governos suecos usam então parte dos ganhos do comércio para compensar as perdas dos que foram afetados por ele ─ com um estado de bem-estar social generoso e amplos programas de reciclagem para os trabalhadores prejudicados. Portanto, o livre comércio e o estado de bem-estar social caminham juntos, e não apenas na Suécia, mas também por todo o norte da Europa.

Alguém poderia dizer que os EUA deveriam ser mais parecidos com a Suécia, mantendo o curso do livre comércio, amortecendo os custos decorrentes da perda de emprego a curto prazo e dando aos trabalhadores prejudicados as habilidades de que necessitam para competir.

Nem é preciso dizer ─ infelizmente, penso eu ─ que em nada ajudará dizermos aos americanos que seu país deveria ser mais sueco. Em vez disso, o etos do livre comércio capitaneado pelos americanos está mais ameaçado hoje do que em qualquer outra época desde 1945, uma vez que o cidadão comum atribui a culpa dos seus sofrimentos econômicos ao comércio.

Creio que essa perspectiva está em grande medida equivocada, e é disso que trato no terceiro ponto, o mais importante deles.

3. A rápida mudança tecnológica associada à estagnação econômica têm causado mais sofrimento à classe média americana do que o livre comércio.

Isso significa que o caminho a seguir pelos EUA consiste em estimular um maior volume de crescimento econômico e ajudar as pessoas a se beneficiarem da mudança tecnológica, em vez de fechar as portas ao livre comércio.

Vou ilustrar o que estou dizendo comparando a década de 90 (quando o comércio realmente decolou nos EUA) com a última década (2006-2015). Na década de 1990, a desigualdade nos EUA aumentou consideravelmente. Contudo, em todo o espectro de distribuição de renda, as pessoas se saíram melhor em termos absolutos. De acordo com o Escritório do Censo dos EUA, a renda real das famílias americanas do primeiro quintil da distribuição de renda (20% da amostra estatística) aumentou em mais de 25% durante os anos 90. Esse aumento foi duas vezes mais rápido do que o observado no quinto quintil (último) e nos quintis intermediários, mas os indivíduos das famílias que ocupam 60% da faixa inferior desse espectro ainda experimentam mais de 10% de crescimento em renda real.

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Compare esses dados com a última década. A desigualdade de renda aumentou, mas não tanto quanto nos anos 90 (conforme revelaram as medições das distâncias entre mudança de renda na base e no topo da distribuição de renda nos EUA). A renda real (isto é, corrigida pela inflação para refletir o poder de compra) no quintil mais elevado aumentou apenas 2,4% de 2006 a 2015. No entanto, ela teve uma queda de -6,6% no quintil inferior e ficou invariável na metade inferior da distribuição de renda.

Em suma, a desigualdade de renda aumentou mais nos anos 90 do que na década passada. A diferença é que todos, nos EUA, prosperaram menos na década passada do que nos anos 90. Quem está na parte inferior da distribuição de renda piorou sem dúvida nenhuma desde 2006.

O que explica esses resultados? Ouvindo o que diz o governo Trump, a resposta seria uma só: o “comércio”. Essa resposta, porém, na melhor das hipóteses, está incompleta. Na verdade, creio que está em grande medida equivocada. A maior parte dos economistas acredita que a “mudança tecnológica que favorece a alta especialização” (isto é, a Internet) está mais associada aos problemas das pessoas de baixa renda (e com menos habilidades). Além disso, o que mais chama a atenção nos EUA é o baixo nível de crescimento registrado no país em anos recentes, certamente se comparado aos anos de 1990.

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Os dados acima foram tirados do banco de Indicadores de Desenvolvimento Mundial do Banco Mundial (fonte a que recorro para estatísticas econômicas globais). Seguem abaixo as conclusões que tiro com base nesses números.

Nos anos 90, o comércio (exportações + importações) representava 21,5% do PIB americano ─ bem pequeno pelos padrões das economias desenvolvidas, mas compreensíveis dado o tamanho colossal do mercado interno americano. A Internet nasceu nos anos 90, mas apenas um em cada oito indivíduos tinha acesso a ela. O crescimento econômico anual foi de 3,2%, ou seja, mais ou menos um ponto percentual a menos do que 20 anos depois da Segunda Guerra Mundial, mas muito robusto se comparado ao que se seguiu.

Faça a comparação com a última década. A atividade comercial ainda era menos do que 30% do PIB, ¾ dos americanos tinham acesso a Internet, mas o índice médio de crescimento caiu para 1,3%. Em comparação com as mudanças dos anos 90 e a última década, o comércio cresceu cerca de 1/3 ─ uma grande mudança, sem dúvida. Contudo, a penetração da Internet aumentou 600%. O índice de crescimento encolheu 60%. Ambas as mudanças superaram grandemente o volume de comércio.

Essas comparações muito simples apontam para uma ideia que considero coerente com a análise mais rigorosa. A mudança mais significativa no mercado de trabalho americano é o impacto da mudança tecnológica, e não o crescimento do comércio. E o que mais afeta o padrão de vida das famílias americanas é a redução drástica da taxa de crescimento (na verdade, o crescimento do comércio ampliou o crescimento).

Para mim, isso significa que os dois maiores desafios para o governo Trump são:

1. Aumentar a taxa de crescimento e; 2. Ajudar mais americanos a se beneficiarem da revolução trazida pela TI. Os cortes fiscais propostos por Trump e os gastos com infraestrutura deverão ajudar o crescimento. Coisas como a educação online devem ajudar mais americanos a obter as habilidades básicas de TI necessárias a tantas ocupações hoje.

O comércio é o saco de pancadas político mais óbvio. No entanto, não se justifica economicamente. Só nos resta esperar que os impulsos protecionistas do governo Trump se atenham mais ao reino da retórica do que à realidade, aos símbolos do que às tarifas.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Os acordos comerciais levam à desigualdade de renda?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [13 February, 2017]. Web. [18 October, 2019] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/os-acordos-comerciais-levam-desigualdade-de-renda/>

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