Os cursos online gratuitos podem transformar a indústria do ensino superior?

Quando Bilal Shah doutorou-se em ciências da computação pela Universidade do Sul da Califórnia, em 2010, o mercado de trabalho não estava exatamente aquecido. "Eu me formei durante a Grande Recessão. Não podia haver prova de coragem maior", diz.

Na época, ele tinha ouvido falar de um curso gratuito em massa online (MOOC, na sigla em inglês) — uma especialização na área de inteligência artificial relacionada ao projeto de certos algoritmos de computador — ministrado por Andrew Ng, de Stanford. Como Shah tinha muito tempo livre, decidiu fazer o curso. Todo dia de manhã, durante três meses, ele ia ao Peet's Coffee & Tea no bairro de Brentwood, em Los Angeles, e enquanto tomava café, assistia às aulas em seu laptop. Fez provas-surpresa, tarefas de programação e conferiu seu progresso no fórum de discussão online do curso. "Era uma maneira fácil e conveniente de aprender uma coisa nova", diz Shah, de trinta e poucos anos.

Logo depois de pegar o certificado de conclusão, fez uma entrevista de emprego na ID Analytics, empresa de San Diego do segmento de detecção de fraudes de identidade e modelos de risco de crédito. "Eles testaram a fundo meu conhecimento de aprendizagem de máquina e disseram que eu dominava bastante o assunto", diz. "Consegui o emprego e me senti muito bem."

Em meio a uma recuperação trôpega que acabou por colocar em evidência a escassez de trabalhadores qualificados em segmentos específicos da economia, muita gente no mundo empresarial vê nos cursos gratuitos em massa online (MOOCs, na sigla em inglês) uma peça fundamental para a solução desse problema. Numa época de aumentos crescentes do custo do ensino superior, e em que a desigualdade persistente de renda ocupa a atenção do país, há quem acredite que a plataforma oferecida pelos MOOCs possa transformar o ensino superior, uma vez que o acesso de milhões de alunos no mundo todo a aulas de alta qualidade poderia diminuir a distância entre os que têm e os que não têm.

Várias start-ups e faculdades importantes aderiram recentemente a esse modelo. O Coursera, sistema de ensino online criado por Ng e Daphne Koller, ambos cientistas da computação de Stanford, tem parcerias com quatro universidades: Stanford, Universidade de Michigan, Universidade da Pensilvânia e Princeton. O Coursera tem cursos de MOOC nas áreas de matemática, ciências e humanidades. O Udacity, outra empresa de ensino online, criada em fevereiro por Sebastian Thrun, ex-professor de Stanford, oferece MOOCs principalmente nas áreas de programação de computador e design de software. A Universidade de Harvard e o MIT anunciaram recentemente o lançamento do edX, uma parceria online voltada para o ensino, cujas aulas começarão em setembro.

"O ensino superior vai mudar; o sistema está instável", diz Kevin Werbach, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton, que dará um MOOC no Coursera no verão. "É uma indústria que passará por grandes reviravoltas na próxima década. Há inúmeras escolas em dificuldades, e os empréstimos contratados pelos alunos para financiar os estudos são um fardo pesadíssimo para eles. Nesse contexto, as plataformas online como o Coursera constituem uma oportunidade interessante."

Contudo, embora o Coursera e outros se apoiem na promessa de levar o ensino superior às massas, nivelando a oferta de oportunidades entre as escolas ricas e as de recursos precários, há quem se pergunte se os currículos de tais plataformas atendem aos padrões rigorosos exigidos nesses casos. Os críticos indagam se as credenciais emitidas ao término do curso teriam valor no mercado de trabalho. Há também um ceticismo muito grande em torno da sustentabilidade desse modelo de negócio já que, pelo menos por enquanto, as aulas oferecidas nessas plataformas são gratuitas.  

"É um mundo à la Facebook"

Ao longo dos anos, muitas escolas se aventuraram pelo ensino online. O Fathom, empresa de ensino online com fins lucrativos da Universidade de Colúmbia, fechou em 2003 poucos anos depois do seu lançamento. O AllLearn, empreendimento semelhante com respaldo da Universidade de Yale, Princeton e Stanford, foi lançado em 2000 e fechado em 2006.

Por que o Coursera ou outro novo empreendimento qualquer deveria dar certo onde outros falharam? Em primeiro lugar, a tecnologia evoluiu. Os sistemas de áudio e vídeo estão mais nítidos. As ferramentas de compartilhamento para desktop e os fóruns de discussão estão mais fáceis de navegar. O acesso às bibliotecas pela Internet é muito mais amplo hoje. Os desenvolvedores dos cursos também têm uma compreensão mais sutil de como as pessoas aprendem online e quais as melhores maneiras de apresentar a informação naquele formato. O Coursera, por exemplo, fatia em aulas em segmentos palatáveis de 10 ou 15 minutos e oferece testes online a cada sessão. Os professores respondem às perguntas dos alunos em fóruns online. Trata-se de um aperfeiçoamento e tanto em relação aos empreendimentos online anteriores na área de ensino, que propunham um modelo de aprendizagem menos dinâmico em que os alunos assistiam a aulas "enlatadas" sem nenhuma interação.

Em segundo lugar, diminuíram as barreiras de acesso do aluno aos cursos. Assistir a uma aula online atualmente não requer muito know-how tecnológico. Mesmo que assim fosse, o contingente de possíveis alunos online tem hoje um conhecimento maior de tecnologia em relação ao que se tinha cinco anos atrás. A geração Y cresceu no meio digital e, como se sabe, entende muito de tecnologia. Esse pessoal usa a tecnologia e as ferramentas online em atividades de colaboração, comunicação e pesquisa. Os baby boomers [geração pós-1945] não ficam muito atrás. Em 2008, somente 1% desse grupo com idades entre 50 e 64 anos usavam as mídias sociais. Hoje, 52% das pessoas dessa faixa etária usam as mídias sociais, conforme dados do Pew Research Center.

O avanço tecnológico e a aparente facilidade com que a sociedade usa seus produtos fazem com que o modelo de aprendizagem em que uma pessoa só ensina pareça ultrapassado, esquisito mesmo. "De modo geral, a forma como os professores dão aulas na maior parte das universidades não difere muito do modo como os alunos vêm sendo instruídos nos últimos cem anos", diz Werbach. "E isso a despeito de todos os avanços tecnológicos ocorridos. Há uma percepção cada vez mais nítida de que o local de trabalho hoje não parece mais o mesmo de 1940 ou 1970; a sala de aula, porém, pouco mudou desde então […] É impossível imaginar que as mudanças drásticas na forma pela qual as pessoas interagem entre si e com a tecnologia não tenha impacto algum na maneira como aprendem."

Ou onde, quando e como aprendem. Os alunos hoje exigem facilidade e conforto. A educação online oferece um ritmo de aprendizagem ditado pelo estudante, de modo que ele possa estudar de acordo com seu cronograma particular. "A ideia de frequentar uma escola física real é incompreensível para muita gente, já que as restrições de espaço e tempo foram eliminadas", observa Douglas Shackelford, professor da Escola de Negócios Kenan-Flagler, da Universidade da Carolina do Norte, e reitor do seu novo programa de graduação online em negócios, o MBA@UNC. "Tenho um aluno que trabalha em uma empresa da Fortune 100. Ele me disse que tem cinco pessoas da sua equipe em quatro continentes, e nunca esteve pessoalmente com nenhuma delas. A ideia de ter de voltar à sala de aula para fazer um MBA pareceu-lhe algo que seu avô teria feito. O mundo hoje tem a cara do Facebook."

Um terceiro fator importante nisso tudo é a economia. A faculdade está fora do alcance de muita gente por causa do seu custo elevado; contudo, mal ou bem, a formação superior é imprescindível para quem deseja seguir uma carreira de sucesso. O custo da faculdade subiu assustadoramente. Em 1981, a taxa média anual e as tarifas cobradas por um curso de quatro anos em uma universidade pública eram de cerca de US$ 2.242 (em dólares constantes atuais), de acordo com o Conselho Universitário. No ano passado, esse valor era de US$ 8.244 ao ano — um aumento de 267%. O custo de um curso universitário em uma instituição particular também aumentou. Em 1981, a taxa anual média adicionada às tarifas para um curso de quatro anos era de US$ 10.144; hoje, esse valor é de US$ 28.500, o que representa um aumento de 180%. O Federal Reserve Bank (Fed) de Nova York diz que cerca de 15% dos americanos têm dívidas pendentes de crédito estudantil. O banco estima que o ônus total seja de aproximadamente US$ 870 bilhões.

Os indivíduos com grau universitário apresentam menor taxa de desemprego do que os que fizeram apenas o ensino médio; além disso, têm renda superior ao segundo grupo ao longo de toda a vida. Mas o fato é que a crise não tem sido fácil para nenhum dos dois grupos. De acordo com o Centro de Estudos do Mercado de Trabalho da Northeastern University, cerca de 54% das pessoas com menos de 25 anos e com grau universitário estavam desempregadas ou trabalhavam em empregos subalternos no ano passado. É o maior percentual registrado pelo menos nos últimos 11 anos. A situação é pior para os que têm diploma de ensino médio apenas. Um estudo publicado em 6 de junho pelo Centro para o Desenvolvimento da Força de Trabalho John J. Heldrich, da Universidade Rutgers, constatou que apenas 16% dos alunos formados nas turmas de 2009, 2010 e 2011 estão empregados em tempo integral. Outros 22% trabalham em empregos de tempo parcial.

Essas estatísticas sombrias deram maior visibilidade à indústria do ensino. As universidades públicas já dão sinais de colapso devido aos cortes draconianos no orçamento estatal. "Numa economia de crescimento lento, a pressão é mais acentuada sobre as escolas — principalmente sobre as escolas de ensino superior — porque as pessoas se formam e não conseguem emprego", diz Werbach, da Wharton.

Muita gente não tem condições de fazer um curso superior, e muitos dos que se formaram mesmo assim não conseguem emprego. Esses dois grupos precisam adquirir novas habilidades e maior preparo. Plataformas de ensino online como o Coursera, edX e Udacity, atendem a uma necessidade econômica, explica Chris Pitts, produtor de Boston especializado em conteúdo de ensino eletrônico para universidades e empresas.

"É extremamente importante inovar no segmento de ensino online", diz Pitts. "A economia de hoje requer alternativas à experiência tradicional de ensino em escolas físicas do mundo real. Temos hoje um público completamente novo de aprendizes — gente que há muito tempo não pisa numa sala de aula, mas que precisa aprender coisas novas para conseguir emprego (ou manter o que tem), e gente que não pode pagar uma universidade, mas que precisa aprender muita coisa."

Uma sala de aula empolgante

Talvez esta seja a hora das plataformas de ensino, mas esse tipo de empreendimento ainda tem inúmeros desafios pela frente. O maior problema, diz Jason Wingard, vice-reitora de ensino executivo da Wharton, consiste em saber "quais seriam as características de um modelo sustentável de negócio nesse segmento. Muitas dessas plataformas são gratuitas. Se você distribui gratuitamente o conteúdo do curso, isso pode arruinar sua marca".

Há dúvidas também em relação à estratégia que as plataformas adotarão para preservar padrões curriculares rigorosos, e de que modo avaliarão seu desempenho. "O ensino online é igual ou melhor do que o ensino tradicional em escolas do mundo real?", indaga Wingard. "Estão sendo aplicados testes adequados para saber se os alunos estão aprendendo como deveriam?"

Outra desvantagem evidente das plataformas de ensino online, se comparadas às escolas tradicionais, é a falta do ambiente próprio de um campus. "A experiência em uma universidade é o máximo em termos de ensino", observa Wingard. "Há muito conteúdo, muita aprendizagem em grupo, muitas experiências sociais. Frequentar um curso universitário ajuda a pessoa a crescer e a aprender como se virar no mundo."

O mercado de ensino online chegará a US$ 107 bilhões em 2015, de acordo com um novo relatório da Global Industry Analysts, de San Jose, na Califórnia, consultoria na área de mercado. Contudo, não se sabe ainda muito bem de que modo essa nova onda de plataformas de ensino online se tornará rentável.

Em abril, o Coursera anunciou que havia obtido um financiamento de US$ 16 milhões de empresas de capital de risco do Vale do Silício. O Udacity também é financiado pelo capital de risco. O MIT e a Universidade de Harvard contribuíram, no total, com US$ 600 milhões para o lançamento do edX, que é supervisionado por uma empresa sem fins lucrativos. Contudo, os diretores do programa disseram que planejam tornar a iniciativa autossuficiente.

Os analistas da indústria apontam diversas maneiras possíveis pelas quais o Coursera e outros podem gerar receita. As plataformas poderiam, por exemplo, cobrar dos alunos uma tarifa pelos certificados de conclusão ou mesmo por transcrições. Poderiam também ganhar dinheiro oferecendo serviços premium como, por exemplo, uma ferramenta de recrutamento que estabeleceria a ligação do empregador com os alunos que tivessem demonstrado habilidades especiais em uma determinada área. Outra possível fonte de renda: doações de alunos agradecidos.

As escolas envolvidas com essas plataformas não creem que os MOOCs grátis possam prejudicar sua reputação. Pelo contrário, elas esperam que a participação nessas plataformas aumente seu prestígio internacional. Os professores envolvidos são motivados pelo potencial das plataformas a difundir o conhecimento pelo mundo. Em declaração dada ao US News and World Report, Ng, fundador do Coursera, que deu recentemente um curso online para mais de 100.000 alunos matriculados, disse que "normalmente, leciono para salas com 400 alunos. Para atingir um público desse tamanho, seriam necessários 250 anos pelo modelo tradicional de ensino. Atualmente, as principais universidades oferecem um ensino fantástico para uma minúscula fração da população. Sonhamos com um futuro em que essas escolas, em vez de milhares de alunos, tenham milhões".

Não é à toa que as escolas por trás dessas plataformas estejam entre as universidades mais ricas do país. Elas têm meios para enfrentar o risco. "As instituições mais sofisticadas têm liberdade para experimentar sem ter de se preocupar com uma possível implosão", observa Werbach. "É mais fácil mudar quando não existem amarras preestabelecidas."

Um dos aspectos mais promissores desses empreendimentos online é que eles podem nivelar a disputa entre escolas que não dispõem de recursos de primeira linha. As escolas com pouco dinheiro poderiam, por exemplo, pedir aos alunos que fizessem o download do material do Coursera e que assistissem aos programas em casa como tarefa, além de reservar um tempo na sala de aula para a interação face a face e discussão. Salman Khan, fundador da Khan Academy, plataforma de ensino online gratuita, é pioneiro nesse modelo de "sala de aula não tradicional".

"Existe uma possibilidade real de romper com o sistema atual de ensino superior", observa Jeffrey Katzmann, diretor de ensino do Xyleme, empresa de Boulder, no Colorado, que comercializa ferramentas de ensino para as universidades. "O aprendizado mais eficaz decorre de uma combinação que permite aos alunos recorrer à tecnologia e usar recursos online, que permite aos professores usar de maneira mais eficiente o tempo disponível em sala de aula. Os professores podem trabalhar com os alunos no local onde eles se encontram. A experiência de aprendizagem se torna personalizada."

Não é o que pensa Georgette Chapman Phillips, vice-reitora da divisão de graduação da Wharton. "O que a pessoa tem à sua disposição em um lugar como a Universidade da Pensilvânia, e que o Coursera não oferece, são as pessoas à sua volta — os outros alunos. "Afirmar que é possível reproduzir esse ambiente fora do campus é cometer um equívoco fundamental no que se refere ao ensino universitário."

O que torna a Universidade da Pensilvânia diferente, acrescenta, "são os professores, porque eles têm algo a mais a oferecer. Não se trata apenas de dar as aulas introdutórias; trata-se também da aplicação de pesquisas de ponta ao ensino e ao mentoring. É por isso que os alunos disputam a ferro e fogo uma vaga".

Outros, porém, dizem que para os estudantes que não conseguem entrar, ou que não têm condições de ir para uma faculdade, as plataformas de ensino online estão mostrando que são uma alternativa decente. Sempre haverá lugar para uma elite na graduação, porém o acesso ao ensino e ao conhecimento que essas plataformas oferecem são extremamente promissores.

Bilal Shah aposta muito nisso. "O poder desse sistema está em seu alcance global", diz ele. 'Pense naquela criança africana com conexão à Internet e que vê os vídeos do Coursera. Quem sabe ele pegue o que aprendeu e faça alguma coisa importante para sua aldeia. Talvez não seja possível substituir as universidades, mas podemos alcançar milhões de crianças que jamais teriam acesso a uma sala de aula de Stanford."

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Os cursos online gratuitos podem transformar a indústria do ensino superior?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [11 July, 2012]. Web. [06 December, 2019] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/os-cursos-online-gratuitos-podem-transformar-a-industria-do-ensino-superior/>

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Os cursos online gratuitos podem transformar a indústria do ensino superior?. Universia Knowledge@Wharton (2012, July 11). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/os-cursos-online-gratuitos-podem-transformar-a-industria-do-ensino-superior/

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"Os cursos online gratuitos podem transformar a indústria do ensino superior?" Universia Knowledge@Wharton, [July 11, 2012].
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