Pagar ou não pagar: as empresas avaliam o custo da cobertura contra o terrorismo

Quase dois anos depois dos ataques terroristas do 11 de setembro de 2001, o setor empresarial continua a avaliar a ameaça de outra catástrofe e procura avaliar a própria vulnerabilidade.

 

A percepção de risco desse setor está condicionada a muitas variáveis: ataques terroristas periódicos no exterior, temores de represálias pela invasão dos EUA ao Iraque, um trabalho intensivo do governo federal no combate ao terrorismo e uma insegurança subjacente que pode passar a ser, daqui para frente, uma característica permanente do psiquismo nacional.

 

Mas nada disso se converteu em uma corrida por coberturas, segundo os participantes da mesa-redonda “Assessing and Managing Extreme Events,” (“Avaliação e Gerenciamento de Eventos Extremos”) para seguradoras, resseguradoras, professores universitários e formuladores de modelos, no Risk Management and Decision Processes Center da Wharton, em 28 de abril. O evento focalizou os desafios enfrentados pela indústria de seguros, pelo governo e pelos formuladores de modelos ao procurarem administrar o risco de terrorismo e outros eventos extremos como os desastres naturais.

 

A maioria dos corretores de seguros declarou que menos de 10% dos pequenos clientes do setor de imóveis comerciais e menos de 20% das contas de tamanho médio adquiriram coberturas contra terrorismo desde que a legislação federal exigiu que as seguradoras começassem a oferecê-las em novembro passado, segundo uma pesquisa realizada pelo grupo comercial Council of Insurance Agents & Brokers (CIAB), publicada em 24 de março.

 

Mesmo em Nova Iorque, uma das quatro cidades classificadas pela indústria de seguros como “nível 1”, por seu altíssimo risco de sofrer outro ataque terrorista, somente cerca de um em cada oito clientes comerciais está acrescentando cobertura contra terrorismo em suas apólices, de acordo com John DeMartini, vice-presidente sênior da Towers Perrin Reinsurance, uma corretora de Stamford, Connecticut. Cerca de uma em cada três ou quatro empresas de Nova Iorque está fazendo os primeiros pedidos de coberturas contra terrorismo, embora cerca de metade delas tenha decidido cancelá-las “quando viram a conta,” acrescentou DeMartini.

 

Como é muito difícil quantificar o risco de terrorismo, alguns administradores não estão dando a atenção necessária à questão, observou o presidente da conferência, Howard Kunreuther, co-diretor do Risk Management Center, da Wharton. Eles precisam mudar a visão que afirma, “não estou pensando nisso e não vou gastar meu dinheiro em algo que acho que não vai acontecer,” disse.

 

Os prêmios de seguros contra terrorismo no país elevaram em cerca de 10% o custo das apólices de seguro para empresas de pequeno e médio porte, e em 20% ou menos para as grandes contas, segundo a CIAB. Mas os custos são previsivelmente mais elevados nessas cidades – Nova Iorque, São Francisco, Washington D.C. e Chicago – que foram classificadas na categoria de risco “nível 1”.

 

Uma corretora cotada por outro grupo comercial, o Independent Insurance Agents & Brokers of America, relatou um acréscimo de 17% para a cobertura contra terrorismo em edifícios de apartamentos no Bronx, em Nova Iorque. Significativamente, o cliente declinou da cobertura, que custaria US$ 18.000 por ano.

 

Outro corretor, que procurava cobertura contra terrorismo para um edifício em São Francisco, recebeu uma cotação que duplicaria o prêmio existente de US$ 600.000 para seguro contra terremotos, de acordo com uma pesquisa de fevereiro. Mais uma vez declinou-se da cobertura enquanto se aguardavam mais cotações. Um atacadista de seguros em Wisconsin, por outro lado, relatou acréscimos de 4% a 10% sobre as apólices existentes para a inclusão de cobertura contra terrorismo.

 

“As contas pequenas e relativamente restritas parecem conseguir encontrar coberturas contra terrorismo a um custo razoável, mas muitas delas estão preferindo não comprá-las por acreditarem não estar sujeitas a esse tipo de risco”, declarou na pesquisa o presidente do CIAB, Ken Crerar. “Por outro lado, algumas das operações de maior risco, sujeitas de fato a exposições, preferem atuar sem cobertura por causa de seu alto custo.”

 

As seguradoras agora são obrigadas pelo Terrorism Risk Insurance Act a oferecer cobertura contra o terrorismo estrangeiro, mas não contra o doméstico. O governo federal concordou em segurar grande parte do risco durante os três anos de duração do decreto, em substituição à indústria de resseguros que se retirou da cobertura depois de sofrer cerca de 75% do total de US$ 40 bilhões de perdas decorrentes dos ataques do 11 de setembro.

 

De modo geral, as seguradoras parecem estar seguindo as diretrizes de preços de coberturas contra o terrorismo publicadas pelo Insurance Services Office de Nova Jersey, uma empresa de consultoria industrial, afirmou o representante Dave Dasgupta. Para as cidades classificadas na categoria nível 1, as diretrizes recomendam um prêmio de 3 centavos de dólar por US$ 100 de cobertura. Para as cidades de Filadélfia, Seattle, Los Angeles, Houston e Boston, classificadas na categoria nível 2, o prêmio é de 1,8 centavo de dólar, e na categoria nível 3, que representa todas as demais áreas, o prêmio é de 0,1 centavo de dólar.

 

“Preço oportunista”

Ventilou-se na conferência da Wharton que, como as seguradoras primárias procuram distribuir seus riscos, as resseguradoras estão buscando compensar as perdas sofridas no ataque do 11 de setembro praticando alguns preços “oportunistas”. Um exemplo de cobertura cotada por DeMartini como representativa do mercado revelou uma seguradora que concordava em pagar um prêmio de US$ 900.000 dólares por US$ 9 milhões de dólares de cobertura contra o terrorismo. Esses 10% de “taxa online” são muito superiores à probabilidade, geralmente aceita, de ocorrência de um ataque terrorista, disse DeMartini. Essa probabilidade costuma ser da ordem de 0,5%, porcentagem sobre a qual uma resseguradora normalmente cobraria uma pequena margem técnica.

 

“As resseguradoras não querem dar a impressão a seus clientes de que estão fugindo do problema” acredita. “Seus investidores provavelmente estão declarando, ‘Na realidade não queremos assumir o risco, mas se o fizermos, é melhor cobrar um preço adequado.’”

 

Para as empresas que procuram comprar seguros primários, o choque causado por esse problema está associado à relutância em acreditar na necessidade da cobertura apesar dos eventos do 11 de setembro, mesmo em áreas classificadas como de alto risco.

 

“A transferência de um risco de baixa freqüência e alto impacto é uma venda difícil”, segundo Jim Ament, apresentador da conferência e vice-presidente de operações da State Farm Insurance Companies. “O fato de a ocorrência do risco ser improvável, apesar de ter um potencial para causar conseqüências devastadoras, provoca uma relutância nos possíveis transferidores de risco em incorrer no custo da transferência do risco.”

 

“O desafio é ajudar os envolvidos a compreender a natureza dos eventos de baixa freqüência e alto impacto e a reconhecer os meios disponíveis para mitigar ou transferir esses riscos”, afirmou Ament.

 

Para clientes, seguradoras, resseguradoras e formuladores de modelos que procuram simular o risco, o desafio fundamental do seguro contra terrorismo é a incerteza. Enquanto os dados históricos sobre desastres naturais, como terremotos e furacões, fornecem um perfil de risco razoavelmente nítido, não existem registros comparáveis sobre a natureza, localização, freqüência e o impacto de ataques terroristas.

 

Uma outra fonte de incerteza é o futuro do Terrorism Risk Insurance Act. Essa resolução expira em 31 de dezembro de 2005 e baseia-se na suposição de que a indústria de seguros terá, por essa época, encontrado meios de oferecer coberturas a seus clientes e de cobrir os próprios riscos a custos razoáveis.

 

Para DeMartini, há pouca probabilidade de que o decreto seja prorrogado. “A questão é que o Congresso não quer a prorrogação. Eles o viram como um socorro à indústria de seguros e não estão inclinados a prolongá-lo.”

 

No momento, a indústria de seguros está reagindo à natureza aleatória da ameaça terrorista e cobrando pela cobertura desse risco segundo essa realidade. “Uma grande parte da disponibilidade e do preço da cobertura contra terrorismo é função da incapacidade de compreender o risco”, observou DeMartini. “Eles não sabem quando, onde ou como o próximo ataque terrorista ocorrerá, e qual o dano que vai causar.”

 

O desafio dos formuladores de modelos

Mas os formuladores de modelos estão trabalhando arduamente para avaliar o risco. A Applied Insurance Research (AIR), por exemplo, incorporou ao seu modelo mais de 300.000 pontos importantes dos EUA, como sedes corporativas, instalações industriais e de energia, estações e terminais de transportes e edifícios governamentais. O modelo inclui um índice (Group Threat Index) de organizações terroristas conhecidas que inclui alvos, armas e locais de ataques reconhecidos com base no que se conhece sobre os objetivos, a história e as realizações de cada organização, relatou na conferência Jack Seaquist, da AIR.

 

Para elaborar seu modelo, a AIR enfrentou o desafio da falta de informações detalhadas sobre as áreas-alvo, afirmou Seaquist. O registro de dados, por exemplo, deve incluir endereço, tipo de construção, idade e número de andares mas, muitas vezes, a única informação inicialmente disponível é a localização da empresa.

 

Outro modelo produzido pela Eqecat incorpora uma “avaliação da gravidade” que inclui um banco de dados de prováveis locais-alvo, simulação da ocorrência (“footprint”) de um ataque químico, biológico, radiológico ou nuclear e uma avaliação de vulnerabilidade, na qual a intensidade do sinistro é convertida em taxas de prejuízos e danos causados às propriedades. O modelo da Eqecat cobre mais de 250.000 locais e baseia-se em informações governamentais e acadêmicas.

 

Apesar da abundância de dados incorporados aos modelos, há o risco de que os planejadores não estejam focalizando os alvos corretos de outro ataque, disse Jim Johnson, da Eqecat, na conferência da Wharton. Embora se presuma que cidades grandes como Nova Iorque e Washington estejam sujeitas aos maiores riscos, os planejadores devem considerar a possibilidade de um ataque no centro do país, com o que os terroristas procurariam demonstrar que “não existe lugar seguro”, disse Johnson.

 

As hipóteses comuns sobre os meios de ataque também podem estar equivocadas, acrescentou Johnson. “A surpresa serão os ataques multimodais (como os dispositivos químicos ou biológicos) e não só as explosões de bombas. E se houver outro ataque por avião, não é provável que ocorra em um jato de passageiros – é mais provável que seja feito por um avião carregado de explosivos.”

 

A magnitude da questão requer novas abordagens sobre a administração do risco, afirmou Paul Kleindorfer, co-diretor do Risk Center da Wharton. “Percebemos que precisamos ampliar nossos horizontes e reunir representantes das universidades, do governo e da indústria. Foi realmente importante tentar desvendar alguns dos tremendos desafios que enfrentamos.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Pagar ou não pagar: as empresas avaliam o custo da cobertura contra o terrorismo." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [18 June, 2003]. Web. [08 December, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/pagar-ou-nao-pagar-as-empresas-avaliam-o-custo-da-cobertura-contra-o-terrorismo/>

APA

Pagar ou não pagar: as empresas avaliam o custo da cobertura contra o terrorismo. Universia Knowledge@Wharton (2003, June 18). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/pagar-ou-nao-pagar-as-empresas-avaliam-o-custo-da-cobertura-contra-o-terrorismo/

Chicago

"Pagar ou não pagar: as empresas avaliam o custo da cobertura contra o terrorismo" Universia Knowledge@Wharton, [June 18, 2003].
Accessed [December 08, 2021]. [https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/pagar-ou-nao-pagar-as-empresas-avaliam-o-custo-da-cobertura-contra-o-terrorismo/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far