Quanto dinheiro você vai precisar em sua aposentadoria? Mais do que pensa

Não adianta sofrer por antecipação, diz a sabedoria popular. Porém, quando se trata de plano de aposentadoria, isso não se aplica.

 

A maioria das pessoas sabe, pelo menos superficialmente, que quanto mais cedo começar a planejar a aposentadoria melhor. Poupar dinheiro agora em vez de mais tarde significa que terá mais no final. O que muitas pessoas não sabem, contudo, é a quantidade de dinheiro que precisarão para viver nos anos de descanso.

 

Para ser exato, elas subestimam a possibilidade de durar mais tempo que seus ativos, segundo os especialistas da Wharton. De fato, Olivia S. Mitchell, professora de seguros e gerenciamento de riscos, dá o seguinte conselho: é bom que as pessoas percebam que quando estiverem aposentadas precisarão do mesmo nível de renda que possuem agora.

 

Mitchell, diretora executiva do Conselho de Pesquisa sobre Previdência, diz que as pessoas tendem a se concentrar na “fase acumulativa” do plano de aposentadoria – aquele tempo no emprego em que estão se esforçando para fazer um pé-de-meia e tomando decisões sobre como esse dinheiro deve ser distribuído entre ações, títulos e investimentos em espécie. Porém não param para pensar em quanto vão precisar depois que pararem de trabalhar.

 

“Muitas pessoas não têm idéia dos gastos que terão no período da aposentadoria”, diz Mitchell. Pela nossa pesquisa no Conselho de Pesquisa sobre Previdência, sabemos que se subestima a necessidade de um seguro de saúde que cubra os gastos com tratamentos prolongados e casas de saúde. Não se tem consciência dos gastos médicos na aposentadoria. E muitos não se detêm no risco representado pela inflação. Não temos muita inflação ultimamente, mas mesmo um índice baixo durante 30 anos de aposentadoria pode corroer as reservas de dinheiro.”

 

Talvez a faceta mais negligenciada do plano de aposentadoria seja o risco da longevidade. “A tendência é não pensar sobre a mortalidade; é uma questão sobre a qual não se gosta de pensar”, acredita Mitchell. “Quando se pensa nisso, na melhor das hipóteses, é sobre a expectativa de vida. Mas pode-se não entender que cerca de metade das pessoas vive mais do que essa expectativa. As mulheres, especialmente, podem viver até os noventa anos ou até mesmo atingir os 100.”

 

Falta de preparação

Inúmeros estudos demonstraram que as pessoas não estão preparadas convenientemente para a aposentadoria. Em pesquisa realizada em maio de 2003 para a MetLife, uma importante companhia de seguros de vida, pessoas entre 56 e 65 anos responderam a uma série de perguntas destinadas a testar seu conhecimento sobre estatísticas relativas a aposentadoria e planejamento de renda. Em média, os entrevistados responderam corretamente a somente cinco das 15 perguntas.

 

Entre outras coisas, a maioria subestimava a expectativa de vida de uma pessoa com 65 anos de idade e não achava que a longevidade era um risco significativo no planejamento da aposentadoria. Ao responderem à pergunta “Qual é o maior risco financeiro para os aposentados?” somente 23% disseram corretamente que era o risco de longevidade. Outra pergunta feita: “Um indivíduo que atinge a idade de 65 tem uma expectativa de vida de 85. Quais são as possibilidades de que viva além dessa idade?” Somente 37% deram a resposta correta, que é de 50%.

 

Outro estudo – conduzido por Watson Wyatt, uma consultoria de recursos humanos, e publicado na edição de 23/24 de agosto do Financial Times de Londres – avaliou como o mercado de ações em baixa durante os últimos três anos afetou os planos de aposentadoria. O estudo, que incluiu 4.500 residentes do Reino Unido com idades entre 50 e 64 anos, descobriu que cerca de um quarto dos entrevistados havia tido perdas de 25% a 50% em suas carteiras de ações, enquanto cerca de um quinto havia perdido entre 11% a 25%. Muitos dos pesquisados disseram que não tiveram outra saída senão adiar a aposentadoria.

 

Resultados de uma pesquisa publicados em 12 de agosto pela Merrill Lynch mostram a mesma coisa. Somente 47% dos americanos entrevistados como parte da pesquisa sobre preparação para a aposentadoria da Merril se declararam “mais ou menos confiantes” ou “muito confiantes” de que até se aposentar terão poupado o suficiente. Esse resultado ficou bem abaixo dos 90% em 1998, um ano em que o mercado em alta ainda estava surgindo. Além disso, um terço disse que não poderá se aposentar com 65 anos e somente 20% se declararam “muito confiantes” em sua capacidade geral de investimento.

 

Em uma declaração previamente escrita, Cynthia Hayes, uma executiva da Merril Lynch, disse: “Sabemos que os americanos tradicionalmente poupam menos do que o necessário para a aposentadoria, mas esses resultados da pesquisa de 2003 servem como um alerta – para os patrocinadores de planos, investidores individuais e provedores de serviços financeiros”.

 

Mitchell ressalta que as pessoas com alta renda nem sempre planejam melhor suas aposentadorias. “A pesquisa demonstrou que os déficits nas poupanças para aposentadoria estão presentes nas mais variadas classes de renda e fortuna”, diz Mitchell. “Em alguns casos, os déficits são maiores em casos de pessoas com altos rendimentos. Apesar de estarem em posição de economizar bastante, as pessoas que têm altos rendimentos também costumam gastar muito. Nem sempre poupam dinheiro.”

 

O fator inércia

Brigitte Madrian, professora do departamento de política pública e negócios da Wharton, diz que muitos trabalhadores não planejam suas aposentadorias convenientemente devido a uma evidente inércia. Madrian realizou uma ampla pesquisa sobre o esquema dos planos de previdência 401(k) em 30 grandes empresas dos EUA durante os últimos anos e como eles afetam as decisões dos empregados em relação à poupança.

 

“A surpresa resultante desta pesquisa é a importância do esquema de planos para incentivar as pessoas a economizar dinheiro” diz Madrian.

 

Uma característica importante dos planos de previdência 401(k) é que eles oferecem uma enormidade de escolhas relativas às quantias com que as pessoas podem contribuir, à forma de distribuição de seus bens e, talvez o mais importante, à participação ou não dos funcionários. Durante muitos anos, supunha-se que ter muitas opções era a melhor coisa a fazer ao esquematizar os planos, porque isso dava liberdade de escolha. Mas muitas empresas descobriram que seus planos 401(k) não ofereciam nada além de taxas de participação universais, apesar do leque de opções.

 

Madrian descobriu que, embora faça sentido oferecer a possibilidade de escolha a quem tenha algum conhecimento sobre investimentos, as opções e a flexibilidade na verdade confundem muitos trabalhadores. Devido a isso, muitos decidem não participar do plano de previdência 401(k) de suas empresas. Madrian estudou uma solução para contornar essa inércia: em vez de pedir aos funcionários para assinarem tais planos, as empresas podem inscrevê-los automaticamente e pedir que se manifestem somente se quiserem desistir. As empresas que tentaram essa abordagem descobriram que as taxas de participação nesses planos subiram acentuadamente.

 

“O plano padrão de previdência 401(k) foi desenvolvido de maneira tal que você não se torna um participante a menos que tome a atitude de se inscrever por meio do site de benefícios da empresa ou telefonando para a linha dedicada a esses benefícios”, explica Madrian. “Quando se tem esse tipo de mecanismo de inscrição, somente dois terços dos funcionários participam do plano. Mas, nos últimos anos, várias empresas têm feito o contrário: simplesmente inscrevem todos automaticamente. Os funcionários não são obrigados a aceitar; podem sair do plano, registrando essa opção no site ou na linha direta de benefícios da empresa. Quando as empresas fazem esse tipo de arranjo, assistem a um aumento de cerca de 90% nos índices de participação de funcionários que são submetidos à inscrição automática.”

 

As empresas que adotaram a inscrição automática não deduzem imediatamente as contribuições dos contracheques dos empregados. Normalmente os empregados têm de 30 a 60 dias para se retirarem do plano, após o que são deduzidas as contribuições.

 

Não se tem informação sobre o número de empresas dos EUA que adotaram a inscrição automática, mas Madrian diz que as empresas que tomaram essa decisão estão satisfeitas com os resultados. Além disso, o Departamento da Receita Federal aprova a idéia, observa ela.

 

Algumas empresas relutam em adotar a inscrição automática. Visto que muitos trabalhadores não querem se preocupar em optar sobre quantias de contribuição ou níveis de distribuição de ativos – pelo menos não imediatamente – as empresas devem fazer isso por eles.

 

“E seria bom se as empresas escolhessem níveis padrão que dessem certo para a maioria dos funcionários, mas a maioria das empresas escolheu padrões bem ruins”, diz Madrian. “Elas deduzem somente 2% a 3% do rendimento do empregado e os colocam em um fundo do mercado financeiro porque têm medo de colocar o dinheiro dos empregados em um fundo mútuo de capital ou fundo mútuo de ações que poderia dar retorno negativo. Bem, esse é o medo das empresas, mas penso que esse medo não tem fundamento. As empresas poderiam optar por colocar o dinheiro dos empregados em uma combinação de fundos de investimento  personalizados [consistindo de ações e títulos], bem como fundos do mercado financeiro, que seriam menos arriscados, até que os empregados finalmente resolvessem tomar suas próprias decisões.”

 

Um plano de previdência 401(k) pode exercer um papel importante no acúmulo de ativos, mas somente o acúmulo de ativos não resolve o risco que se corre ao envelhecer – a possibilidade de que o investidor sobreviva às suas reservas para a aposentadoria. Mitchell e Madrian concordam que as pessoas que querem evitar essa possibilidade devem considerar a idéia de obter uma conta de renda programada.

 

Renda programada em um piscar de olhos

Uma conta de renda programada é um contrato vendido por uma companhia de seguros que garante o fluxo regular de pagamentos durante um certo período de tempo à pessoa que adquire a conta. Há vários tipos de conta de renda programada. Contas de renda programada diferida são projetadas para acumular ativos com impostos diferidos a longo prazo e usadas em geral para gerar uma renda fixa na aposentadoria. Contas de renda programada imediata, ao contrário, começam a ser pagas imediatamente e normalmente são adquiridas mediante uma contribuição paga de uma só vez. Há dois tipos de contas de renda programada com impostos diferidos: contas de renda programada fixa, que pagam uma taxa fixa de juros garantida pela empresa emissora durante um determinado período, e contas de renda programada variável, cujo valor flutua dependendo do desempenho das ações, dos títulos ou de outros veículos nos quais o principal da conta é investido.

 

A característica mais importante de uma conta de renda programada variável, sob o ponto de vista do risco de longevidade, é que ela pode ser estruturada de modo a render enquanto durar a vida do adquirente. Além disso, a conta de renda variável pode ser estruturada para pagar pensão a um beneficiário que receberá, pelo menos, o valor da contribuição do adquirente dessa conta no caso de sua morte antes do início do pagamento dos rendimentos.

 

Um risco destas contas de renda variável é que elas podem resultar em gastos anuais mais altos do que outros veículos de previdência, tais como contas individuais de aposentadoria e contas de previdência 401(k)s.

 

As contas de renda programada servem como um componente importante dos planos gerais de poupança para a aposentadoria. Uma pessoa pode decidir comprar uma conta de renda programada e, ao mesmo tempo, investir em ações, títulos e fundos mútuos.

 

Mas Mitchell ressalta que uma conta de renda programada deve ser encarada basicamente como uma forma de seguro, não como um investimento. “A função mais importante desse tipo de conta é a proteção para a velhice, caso os outros ativos terminem. No final das contas, é um contrato de seguro. Muitas pessoas que escrevem sobre contas de renda programada em jornais e revistas não compreendem a característica fundamental desse seguro. Elas o vêem como um investimento, mas esse tipo de conta e um investimento são duas coisas diferentes. Não se adquire uma conta de renda programada para fazer dinheiro. Você compra para garantir uma renda quando tiver 97 anos. Você encara o seguro de saúde como um investimento? Com certeza, não. O seguro de saúde ajuda a proteger contra as contas médicas muito altas. Agora, depois dessas considerações, devo dizer que certas contas de renda programada têm características de investimento e podem render bem. Mas a conta simples, básica, envolve o pagamento de uma quantia de dinheiro e a garantia de que a companhia de seguros pagará uma renda mensal enquanto você viver.”

 

De quanto você vai precisar?

Portanto, de quanto você vai precisar quando se aposentar?

 

A Merril Lynch, por exemplo, recomenda o cálculo de 70% do rendimento anual pré-aposentadoria para suprir suas necessidades na aposentadoria: se sua renda anual for de US$ 100.000 atualmente, deve-se imaginar que precisará de US$ 70.000 depois de se aposentar.

 

Mas Mitchell diz que isso poderá não ser suficiente. “Os planejadores financeiros defendem um índice de 70% a 75% como um padrão de ouro para esses fins. Mas quanto aos projetos de aposentadoria de alguns, a maioria diz que gostaria de gastar a quantia a que estavam habituados antes da aposentadoria. Talvez não precisem pagar o estacionamento no centro da cidade ou gastar tanto com roupas como faziam quando estavam trabalhando, mas talvez decidam viajar ou adotar passatempos caros como o golfe. Minha sugestão, que com certeza irá desanimar muita gente, é que devem projetar 100% de índice de reposição. Se acabar tendo mais dinheiro do que o necessário, ótimo para você. Reservar mais dinheiro enquanto está trabalhando e trabalhar mais alguns anos antes de se aposentar – essa é uma boa forma de seguro.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Quanto dinheiro você vai precisar em sua aposentadoria? Mais do que pensa." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [24 September, 2003]. Web. [22 June, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/quanto-dinheiro-voce-vai-precisar-em-sua-aposentadoria-mais-do-que-pensa/>

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Quanto dinheiro você vai precisar em sua aposentadoria? Mais do que pensa. Universia Knowledge@Wharton (2003, September 24). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/quanto-dinheiro-voce-vai-precisar-em-sua-aposentadoria-mais-do-que-pensa/

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"Quanto dinheiro você vai precisar em sua aposentadoria? Mais do que pensa" Universia Knowledge@Wharton, [September 24, 2003].
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